LAS BRUJAS DE ZUGARRAMURDI (2013), Álex de la Iglesia

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O gordinho espanhol Álex de la Iglesia estava devendo um grande filme há um bocado de tempo. Qual foi o último trabalho realmente relevante do homem? Pra mim foi CRIME FERPEITO, de 2004, ou seja, o que aconteceu? Não sei explicar, mas embora LAS BRUJAS DE ZUGARRAMURDI não seja ainda o filme que veio para recolocar a carreira do Iglesia de volta nos trilhos, representa um pouco um retorno à boa forma, mesmo estando longe do nível de um EL DIA DE LA BESTIA ou PERDITA DURANGO.

Um dos principais aspectos da queda de qualidade dos últimos filmes de Iglesia me parece ser uma tendencia do sujeito a se prender num padrão pessoal de produção criativa que tem saído de seu controle. Tudo nos seus filmes tem que ser completamente absurdo, cheio de simbolismos, enfim, exagerado de todas as formas possíveis e à sua maneira, esquecendo que existe um recurso básico que poderia ajudá-lo a se conter nessa profusão de ideias onde tudo é aproveitado e inserido à força na tela. Esse recurso é conhecido como sutileza, uma palavrinha que deve ter caído do dicionário do homem.

foto-las-brujas-de-zugarramurdi-4-511No entanto, embora LAS BRUJAS DE ZUGARRAMURDI também sofra de todo esse mal, de alguma maneira os exageros e simbolismos conseguem funcionar melhor e acaba divertindo sem cansar o público, como era o caso de BALADA TRISTE DE LA TROMPETA. Na trama temos José, um pai dedicado, apesar da profissão não ser das mais exemplares para um homem nessa posição. O sujeito é um ladrão de meia-tigela e logo no início do filme decide assaltar uma loja de penhores em Madrid com seu amigo Antonio, justamente no fim de semana em que precisa cuidar do seu filho. Vale destacar que o sujeito está fantasiado dessas estátuas humanas “prateadas”, caracterizado de Jesus. Jesus Prateado…

As coisas não correm muito bem no serviço, os dois ladrões e o menino acabam sequestrando um táxi forçando o motorista a levá-los até à França. Mas acabam presos num vilarejo repleto de bruxas, que estão prestes a realizar um ritual e precisam de uma criança para um sacrifício… Oops!

foto-hugo-silva-y-mario-casas-en-las-brujas-de-zugarramurdi-3-825Pois é, material dos bons o que temos aqui. O ritmo alucinado e alguns momentos genuinamente atmosféricos também garantem que o espectador não tire os olhos da tela – e a belezinha Carolina Bang, que faz uma das bruxas, contribui bastante pra isso – mas, infelizmente, LAS BRUJAS DE ZUGARRAMURDI nunca parece atingir todo o potencial que se espera nas mãos do Iglesia. É o tipo de filme que se revela na sua falta de pretensão e tenta se garantir assim: bobo, divertido, sem qualquer risco, sem algo que realmente instigue o espectador.

É preciso elogiar, entretanto, o tratamento visual do filme, que trabalha bem a atmosfera e as cores como efeito dramático. A influência de Sam Raimi – em seus primeiros tabalhos – é evidente em vários dos elementos visuais de horror, na maneira como mistura o gênero com comédia e, especialmente, no uso de efeitos especiais num CGI meio tosco, mas que dá um charme estético interessante. Os diálogos são ágeis e engraçados e a galeria de personagens é carismática, com alguns rostos bem conhecidos do cinema espanhol, como Carmen Maura. No entanto, no fim das contas, LAS BRUJAS DE ZUGARRAMURDI não consegue passar disso, de um visual bacana com personagens simpáticos e engraçadinhos. Longe de ser ruim (e muito melhor que as comédias atuais de Hollywood), mas sempre espero mais do Iglesias.

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A ÁRVORE DA MALDIÇÃO (The Guardian, 1990), William Friedkin

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por Leandro Caraça

William Friedkin confessou ter realizado este filme de terror como um favor para o produtor Joe Wizan. A Árvore da Maldição não tem destaque dentro da rica filmografia do cineasta, e na época no lançamento, conseguiu pouca atenção. Às vezes parece que o diretor está parodiando a si mesmo, pois se em O Exorcista ele fez Linda Blair vomitar uma gosma verde, agora Friedkin mostra uma árvore maligna que esguicha litros e litros de sangue ao ser cortada.

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O drama do casal que, sem desconfiar, acaba contratando uma bruxa druida como babá do seu filho, nunca atinge os patamares dos grandes filmes de Friedkin. Os diálogos são rotineiros e o próprio roteiro parece que foi escrito a toque de caixa, o que vai gerar momentos indignos de alguém do calibre do diretor de Operação França. Se por um lado, a bruxa Camilla – interpretada pela inglesa Jenny Seagrove – se apresenta como uma ótima (e sensual) vilã, por outro temos um Miguel Ferrer desperdiçado como um coadjuvante qualquer. E o comediante Brad Hall, que chegou a fazer parte do programa Saturday Night Live na primeira metade dos anos 80, tem mais tempo em cena do que o recomendável.

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Ainda que Friedkin estivesse em sua fase mais complicada e o filme passe longe de ser uma produção de primeira linha, o diretor consegue manter as coisas nos eixos. Nas cenas de suspense e horror é quando ele se solta mais, dando vazão ao exagero que o filme pedia. Bem dirigidas e montadas, as sequências de maior violência tornam A Árvore da Maldição em um filme acima da média. A criatura título, uma árvore que se alimenta das almas de bebês e que também gosta de destroçar corpos de seres adultos, traz o encanto de uma época em que os monstros animatrônicos estavam em alta. Não deixa de ser um razoável exemplar do gênero, valendo mais pelos momentos em que William Friedkin oferece aquilo que o público mais quer ver. Litros e litros de sangue.

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O EXORCISTA (The Exorcist, 1973) William Friedkin

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por Leopoldo Tauffenbach

Tome qualquer lista – qualquer uma mesmo – de melhores filmes feita depois de 1974. Salvo casos restritivos, como uma lista dos melhores dramas de época ou os melhores romances, é bem provável que você encontre O Exorcista, de William Friedkin, desfilando entre as colocações. Eu mesmo, antes de ter idade ou competência para acompanhar listas, cresci sob os brados de adultos sobre a suposta excelência do filme. Como apreciador de filmes de horror eu teria – assim que tivesse idade para tal – que assistir a esse filme com o máximo de urgência.

E foi no início da minha adolescência que minha casa recebeu seu primeiro videocassete. Dos inúmeros filmes que eu alugaria com frequência religiosa nas locadoras do bairro, O Exorcista seria, sem dúvida, um dos primeiros. E assim foi. Preparei-me física e espiritualmente para finalmente conferir o filme que apavorara tantos adultos ao meu redor. Mas antes de comentar a experiência, devo deixar claro que O Exorcista não seria meu primeiro filme de terror. Ao contrário, eu já tinha passado por muitos outros clássicos, como Poltergeist, A Hora do Pesadelo, Sexta-Feira 13, A Morte do Demônio, sem contar as inúmeras produções da Hammer e aqueles genéricos americanos que hoje são considerados cults. E por isso mesmo que O Exorcista pareceu na época uma grande decepção para quem esperava o filme de terror supremo.

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Mesmo decepcionado, nunca desisti do filme, afinal, uma obra tão falada e tão elogiada não poderia ser um fiasco completo como me pareceu então. Seriam necessárias mais algumas revisões para reconhecer que o mundo não estava enganado. Eu era quem estava despreparado para enxergar toda a maestria e excelência do filme de Friedkin. Não convém aqui detalhar cada uma das vezes que assisti ao filme, mas vale dizer que a cada vez o filme ganhava em profundidade e… horror.

Para quem desconhece a trama, tudo começa com um padre realizando uma escavação arqueológica no Iraque. Lá, estranhos eventos parecem cercar o sítio arqueológico e sua própria pessoa. Já nos EUA, uma atriz tem sua vida transtornada pela estranha mudança de comportamento de sua filha, Regan, ao mesmo tempo em que um padre da paróquia local começa a questionar sua fé e a própria existência de Deus. Essas três histórias irão se cruzar diante da possibilidade de Regan ser vítima de uma autêntica possessão demoníaca.

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De um filme intitulado O Exorcista, pode ser frustrante para alguns – como foi para mim – descobrir que a cena do exorcismo está somente no final do filme, em seus últimos 30 minutos. Mas, no final, não é disso que o filme trata. Se fosse não seria reconhecido até hoje como um dos maiores filmes de terror da história. O filme trata de aspectos muito mais sinistros, como a perda da esperança e a possibilidade de que talvez não exista um Deus. Em um dos momentos mais tensos do filme, no intervalo da sessão de exorcismo, o padre Karras indaga o padre Merrin (interpretado com a maestria habitual de Max Von Sydow), como Deus permite que uma criança possa ser possuída pelo demônio trazendo sofrimento a ela mesma e aos que a rodeiam. E não há quem não fique pensando nisso depois de lançada a questão. Pior que a possibilidade de Deus não existir, seria um Deus que simplesmente não se importa mais com os homens, deixando-os à mercê de todo mal. De qualquer maneira não estamos em vantagem alguma.

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Mas o filme não termina de maneira tão trágica. O bem vence o mal, ao menos por enquanto, e nós mortais podemos desfrutar de um pouco de esperança. E para aqueles que esperam um filme à base de sustos e efeitos especiais (o filme possui efeitos especiais excelentes, mas que estão longe de ser a atração principal), fujam de O Exorcista. Este é um filme que fala dos horrores que minam nossas crenças e reduzem nossas esperanças em algo melhor. E não existem monstros de animatronics ou de CG mais terríveis que esses.

Vale lembrar que a versão em circulação em DVD traz cenas adicionais que foram deixadas de fora da versão original. Tendo visto ambas, reconheço que a nova versão pouco acrescenta ao que já existia na versão original. Mas também não chega a atrapalhar, o que já é um ótimo negócio.

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O EXORCISTA (The Exorcist, 1973), William Friedkin

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por Davi de Oliveira Pinheiro

Existe pouco risco em afirmar que O Exorcista é o melhor filme de horror de todos os tempos. É algo confortável, que não cria discussões entre fãs do gênero e aqueles que apenas excursionam pelos raros fenômenos de bilheteria. Permitam-me então ser completamente sem graça e concordar com todo mundo.

Por que tanto amor por um filme baixo como este? No filme de William Friedkin e William Peter Blatty (tão ou mais autor que o diretor, nesse caso), não existe uma elevação do gênero. Pelo contrário, se possui alguma filosofia, um questionamento da existência ou da fé, são discussões arrastadas para a lama, encharcadas pelo que há de menos sutil das sensações humanas. E, talvez por isso, o filme é tão eficaz como entretenimento do susto. Ele tem o requinte de um filme de estúdio americano de primeira grandeza, mas nunca o recorte e suposta sofisticação (ou limpeza) destes. É viscoso, é sujo, é violento, é profano… E é aceitável porque é tão bem feito.

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Não reconhecer que o horror é um gênero baixo é paradoxo. Insistir que podem ser filmes sérios, também vai contra a natureza dessas criações. É pedir para o gênero ser algo que pode tirar sua graça e mesmo “elevá-lo” a outra esfera do cinema. Em O Exorcista temos todos os defeitos que se acusam em muito do horror: sob observação criteriosa, a construção das personagens é fraca, a lógica interna é frágil e a trama pode ser facilmente desfeita em qualquer discussão. No entanto, esta obra-prima, uma das poucas e verdadeiras do gênero (e mesmo de toda a arte cinematográfica) dignas de um museu, se sustenta nas emoções. Nos aproximamos das personagens com facilidade, entendemos seus dramas e vivemos seus medos.

As forças sobrenaturais que definem qualquer filme, que vão além da técnica, também regem o jogo dentro de O Exorcista. A batalha entre o bem e o mal, aparentemente insólita e casual, é um jogo que está armado antes do filme ser concebido. Por que a casa da possuída é próxima a morada do Padre Karras, cuja sentido da fé pode ser definido pela vindoura batalha com o Demônio? Por que o Demônio se anuncia a outro padre que está claramente no crepúsculo da vida e que – de forma sublime – é o Adversário do monstro? Parecem furos de roteiro, uma certa tendência à trama esquemática, mas na verdade são usos das fragilidades do cinema de horror para demonstrar a interferência do divino, de forças incompreensíveis e lidar não só com a fé que está a ser discutida dentro de O Exorcista, mas àquela que o espectador precisa ter para assistir a um filme.

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Não é difícil relacionar o trabalho de Friedkin e Blatty ao que ocorre dentro da obra. Eles não só capturaram quimicamente imagens. Diretor e Produtor/Escritor realizaram um ritual onde as forças do bem e do mal estão em eterno conflito, onde o Padre Damian Karras, uma das melhores personagens de qualquer ficção, está numa eterna repetição onde a perda de sua mãe vai ressoar numa batalha interna contra o Demônio. Serei barato como é o horror: o filme está possuído e, há quarenta anos, os exorcistas somos nós.

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