DISPARO PARA MATAR (The Shooting, 1966), Monte Hellman

por Cesar Alcázar

Nos primeiros anos de sua carreira, Monte Hellman trabalhou diversas vezes com o diretor e produtor Roger Corman, exercendo variadas funções. Foi justamente o “Rei dos filmes B” que ofereceu a Hellman suas primeiras oportunidades como diretor. Em 1964, o então desconhecido Jack Nicholson teve seu caminho cruzado com o de Hellman durante a produção simultânea de Back door to Hell e Flight to fury, filmados nas Filipinas sob o patrocínio de Corman. O entrosamento entre os dois foi instantâneo e juntos prepararam novo projeto. Logo depois, ofereceram este projeto à Corman, que achou o roteiro de Nicholson sobre a questão do aborto muito deprimente e pouco comercial. Entretanto, o genial produtor sugeriu para a dupla a produção de dois Westerns nos moldes das películas realizadas nas Filipinas. Muito interessados, começaram logo a trabalhar: enquanto Nicholson escrevia o que veio a ser Ride in the whirlwind, a roteirista Carole Eastman concebeu o enigmático The Shooting.

A intricada trama começa com o ex-pistoleiro Willet Gashade (Warren Oates) chegando ao acampamento de mineração que possui em conjunto com outros três sócios. Gashade desconfia que estava sendo seguido, e encontra o jovem Coley (Will Hutchins) completamente desesperado. Coley explica à Gashade que, durante a ausência deste, um dos sócios da mina havia sido assassinado por um atirador desconhecido logo após a partida misteriosa de Coin, irmão de Gashade. No dia seguinte, uma mulher (Millie Perkins) chega ao acampamento e oferece mil Dólares à Gashade e Coley para guiá-la através do deserto até uma cidade chamada Kingsley. Durante a árdua viagem, Gashade percebe que a mulher está na verdade procurando por alguém. Em seguida, um pistoleiro psicótico, Billy Spear (Jack Nicholson), se junta ao grupo. Ele fora contratado pela mulher, e estava os seguindo à distância. A tensão entre eles aumenta na medida em que entram cada vez mais no deserto. Qual o motivo da jornada? Qual a real intenção da estranha mulher? Resta a Gashade resolver o mistério para conseguir sobreviver.

Nunca houve outro Western como The Shooting. Em um gênero acostumado a dramas e aventuras, a natureza estranha e quase incompreensível desta obra é de uma originalidade e ousadia impressionante. Para se entender o filme em sua totalidade, é necessário juntar as poucas (e discretas) pistas espalhadas ao longo da história. Sem dúvida, após o término de The Shooting, o espectador ficará um bom tempo montando as peças deste quebra-cabeça cinematográfico. O clima incerto e tenso da trama é sustentado por um excelente elenco com o sempre primoroso Warren Oates à frente dele no papel de Gashade. Millie Perkins interpreta a vilã com um misto de maldade e sensualidade. O jovem Will Hutchins interpreta o amigo apalermado de Gashade, um personagem que logo desperta a empatia do público. Por fim, Jack Nicholson dá uma amostra dos seus futuros papéis psicóticos e desequilibrados como o pistoleiro Billy Spear. Sua atuação parece uma versão exagerada do matador vivido por Jack Palance no clássico Os brutos também amam (Shane, 1953).

Após o término das filmagens, Monte Hellman passou o ano seguinte montando os filmes (este e Ride in the whirlwind) e o posterior exibindo-os em festivais ao redor do mundo. Embora tenha conseguido boas críticas em Cannes e no festival de Montreal, Hellman não conseguiu encontrar um distribuidor interessado em exibir os dois peculiares Westerns no cinema. O diretor levou seu trabalho a Paris, onde encontrou seu público. The Shooting ficou um ano em cartaz. Em 1968, os direitos foram adquiridos pela Walter Reade Organization, que dispensou o lançamento nos cinemas e vendeu estas magníficas obras para a televisão. Pouco visto durante duas décadas, The Shooting conseguiu formar apenas um pequeno grupo de admiradores. A consagração definitiva veio nos anos 1990, com seu lançamento em VHS e depois em DVD no ano 2000. Atualmente, The Shooting é um cult movie aclamado por público e crítica. O Brasil pôde conferir esta obra prima em VHS e DVD com o título Disparo para matar.

CAVALGADA NO VENTO (Ride in the Whirlwind, 1965), Monte Hellman

por Osvaldo Neto

É impossível assistir A Pequena Loja dos Horrores (Roger Corman, 1960) sem notar um jovem chamado Jack Nicholson roubando a cena em sua rápida participação como o paciente masoquista de um dentista. Junto a The Cry Baby Killer (Jus Adiss, 1958), outra produção do Papa dos Filmes B, aquela seria uma das primeiras colaborações de Nicholson com Corman. Três anos depois, ele seria visto em um dos longas de maior sucesso da American International Pictures, O Corvo (Corman, 1963), onde contracena com que Boris Karloff, Vincent Price e Peter Lorre, monstros sagrados do cinema de horror, em um filme leve e bem humorado, vagamente baseado no poema de Edgar Allan Poe.

Nicholson conheceu Monte Hellman nos bastidores de The Wild Ride (Harvey Berman, 1960), mais outra produção feita com o toque de Corman. E foi por conta dos bastidores de O Corvo que Nicholson e Monte Hellman se reencontraram e ficaram animados para trabalharem juntos novamente. Em poucas linhas, Corman terminou as filmagens de O Corvo em tempo recorde e teve a mirabolante idéia de aproveitar a sobra da película juntamente com cenários dele e de O Castelo Assombrado (Corman, 1963) para rodar outro longa com Boris Karloff usando o astro por 4 dias, Terror no Castelo (1964). O resultado final desta aventura, creditada a Corman como diretor, mas também filmada por Monte Hellman, Francis Ford Coppola, Dennis Jakob, Jack Hill e até mesmo o próprio Jack Nicholson ao longo de nove meses, é um apaixonado exemplo de cinema independente de gênero, apesar do roteiro – obviamente – não fazer muito sentido.

Depois de realizar Guerreiros do Pacífico e Flight to Fury simultaneamente nas Filipinas, Nicholson e Hellman produziram dois belíssimos faroestes de baixo orçamento em 35 dias no deserto de Utah, no Arizona: Cavalgada no Vento e Disparo para Matar. Os longas só teriam o seu devido reconhecimento graças ao lançamento de ambos com boas cópias pela VCI Entertainment, no início da popularidade do DVD. Antes, as duas produções apenas eram assistidas em cópias ‘fullscreen’ na TV americana que acabavam com os enquadramentos originais da fotografia de Gregory Sandor.

Cavalgada no Vento tem início com a gangue liderada por Blind Dick (Harry Dean Stanton) assaltando a uma diligência. Uma cena já assistida em milhares de faroestes e que pode causar a errônea impressão de estarmos diante de mais outro filme convencional feito por um Ford de segundo escalão. A coisa muda de figura quando conhecemos Vern (Cameron Mitchell), Wes (Jack Nicholson) e Otis (Tom Filer), três vaqueiros errantes. Eles estão a caminho da cidade de Waco, no Texas e durante o trajeto, deparam-se com um homem enforcado, momento que gera uma imagem que parece resumir o filme inteiro. Como está perto do anoitecer, eles avistam uma cabana e se dirigem ao local para contar com a boa vontade de seus habitantes, matar a fome com um prato de feijão e arranjar um espaço para dormir. Os homens que decidem acolher os vaqueiros são justamente Dick e seus parceiros de crime. A suspeita dos amigos de que o grupo estaria utilizando o local como esconderijo é concretizada no dia seguinte, com o início de um longo tiroteio entre os criminosos e um grupo de justiceiros fortemente armados. Vern, Wes e Otis são tidos como membros da gangue criminosa e um deles é baleado fatalmente pelos vigilantes, que partem para caçar e condenar os dois sobreviventes à morte por um crime que eles não cometeram.

Ainda que em alguns momentos o seu autor se mostre um tanto “verde” com os diálogos (personagens repetem muito o nome de seus parceiros de cena), é no roteiro de Jack Nicholson que reside grande parte da força de Cavalgada no Vento. Trata-se de um faroeste que poderia muito bem ser produto de diretores como Anthony Mann ou Henry King (no caso deste último, O Matador) nos anos 50, além de ser dono de uma subversão que apenas seria encontrada nas co-produções Itália e Espanha que começavam a fazer sucesso mundialmente, os famosos Spaghetti Westerns. Nenhum personagem do longa sofre julgamentos morais por parte dos realizadores, a divisão Bem e Mal que é sempre tão explícita nas produções do gênero praticamente inexiste aqui. Vale mencionar também que a violência dos filmes europeus sempre foi estilizada, com personagens como Django e o Homem Sem Nome eternizando o que seria “cool” no cinema, enquanto que para Hellman não existe nada de bacana nisso. A maneira como o cineasta filma a violência nos dois faroestes de Utah é arrasadora. Podemos até pensar que a crueza das cenas esteja relacionada com as limitações orçamentárias, mas não se deve negar o sucesso de Hellman na condução delas.

Sobre o elenco, Cameron Mitchell brilha como Vern, a figura paterna do trio de vaqueiros. É um deleite para qualquer fã de atores observar Jack Nicholson se descobrindo como ator e contracenando com Mitchell na maior parte de suas cenas. E obviamente, Harry Dean Stanton já demonstrava o seu habitual profissionalismo em compor personagens marginais. Rupert Crosse interpreta um dos parceiros de Blind Dick e Millie Perkins – que também participa de Disparo para Matar – tem um pequeno papel como a filha de uma humilde família de rancheiros que terá importância fundamental na segunda metade do longa.

Enquanto narra a dolorosa transformação de dois homens inocentes em criminosos, Hellman faz de Cavalgada no Vento o primeiro filme onde podemos reconhecer algumas de suas maiores marcas como autor. Durante uma passagem do filme, Wes (Nicholson) reclama que está andando, andando e andando para não terminar em lugar nenhum. Os solitários personagens dos filmes de Hellman parecem sempre estar fadados a este inevitável destino. Solidão que está presente em todos os núcleos de Cavalgada… (os vaqueiros, os bandidos, os justiceiros e a família), o único que faz parte daquele ambiente é a família e, ainda assim, a sua casa está situada no meio do nada. Esse sentimento de completa desolação dos personagens de Hellman só aumentaria nos filmes seguintes de sua carreira como realizador, com o lírico Disparo para Matar sendo um grande passo na direção de Corrida sem Fim (Two-Lane Blacktop).

Dever de casa para o fim de semana: Assista a uma sessão dupla de Cavalgada no Vento e Disparo para Matar. Garanto como você se impressionará com o quanto dois filmes irmãos podem ser tão diferentes do outro.

GUERRILHEIROS DO PACÍFICO (Back Door to Hell, 1964) Monte Hellman

por Ronald Perrone

Segunda produção filmada nas Filipinas, Guerrilheiros do Pacífico é o filme em que Monte Hellman começa a dar sinais de seu cinema existencialista, cujo foco principal é mais nos personagens do que na ação. É uma obra interessante que possui uma trama de guerra como pano de fundo, sobre três soldados americanos que se juntam a um grupo de guerrilheiros nas Filipinas com o objetivo de derrubar o centro de comunicação japonês na região montado durante a Segunda Guerra Mundial.

O trio americano é liderado pelo sensível Tenente Craig, vivido pelo cantor Jimmie Rogers, com tendências pacíficas e que logo no início demonstra fraqueza ao hesitar em apertar o gatilho contra um inimigo. Temos um jovem Jack Nicholson antes do estrelato (mais uma vez na função de roteirista e ator) no papel de um especialista em comunicação, com algumas observações filosóficas, mas sem o mesmo brilho demonstrado em Flight of Fury, realizado simultaneamente com Guerrilheiros do Pacífico. O terceiro é Jersey, vivido por John Hackett, o típico soldado casca grossa que possui grande peso dramático. Outro destaque fica por conta de Paco (Conrad Maga), o desconfiado e desumano líder do exército rebelde.

Apesar de toda atenção às figuras centrais, não faltam por aqui alguns momentos mais excitantes, como o trágico final. Mas a minha sequência preferida é a que ocorre pouco depois do encontro dos soldados com os rebeldes.  Após descobrirem a presença dos americanos, os japoneses capturam  e mantém todas as crianças de uma pequena cidade como refém até que os três soldados sejam assassinados. O que temos logo a seguir é uma impressionante sequência de batalha, com um realismo documental de encher os olhos. Hellman demonstra domínio de câmera e da gramática da ação como um autêntico veterano e não parece nem um pouco alguém em início de carreira que estava realizando dois filmes ao mesmo tempo e com orçamento apertadíssimo.

Ainda assim, Guerrilheiros do Pacífico não possui a força dos próximos trabalhos do diretor e não chega ao nível de outros exemplares do gênero do período, como alguns filmes do Fuller ou Aldrich. Apesar disso, em seus 80 minutos de duração, possui tempo de sobra para Hellman deixar sua assinatura e tornar certas obsessões reconhecíveis, demonstrando um precoce talento na direção. Além de começar a preparar o espectador com seus habituais desfechos pessimistas, abertos, inesperados e bruscos.

FLIGHT TO FURY (1964), Monte Hellman

por Ronald Perrone

Apesar da bela estréia na direção com o terror classe B O Monstro da Caverna Assombrada, sob a batuta do mestre Roger Corman, o resultado do segundo trabalho oficial de Monte Hellman, Flight to Fury, parece mais um produto de alguém com muita vontade de filmar qualquer coisa que viesse pela frente do que realmente um filme com todo seu planejamento de produção. Não que isso importe para quem obteve ensinamentos do lendário diretor e produtor, rei do baixo orçamento, o já citado Roger Corman. Tanto que Hellman aproveitou a disposição, local, equipe e atores para realizar quase simultaneamente Guerrilheiros do Pacífico.

Filmado nas Filipinas, Flight to Fury é uma pequena aventura cheia de boas intenções sobre um grupo de pessoas que se conhece “ocasionalmente” por causa de uns diamantes que se encontram na posse de um deles. Todos querem botar a mão na fortuna. Mas a situação fica dramática quando o avião onde todos seguiam viagem cai em plena selva filipina. Apesar da sorte grande, ou milagre, de sairem com vida, alguns sem nenhum arranhão, de um acidente desse porte, as coisas pioram quando um bando de guerrilheiros assassinos e estupradores resolve saquear e sequestrar o grupo.

O roteiro escrito em três semanas durante a viagem dentro de um navio pelo então jovem Jack Nicholson – a partir de uma idéia de Hellman e do produtor Fred Ross – inicialmente seria uma paródia/homenagem ao filme de John Huston, Beat the Devil. Mas a mistura filme de tesouro+acidente de avião+sobreviventes na selva com bandidos tentando matá-los é algo que acabou gerando uma certa bagunça. O que se vê, na verdade, é uma narrativa desengonçada, sendo que a primeira metade, um thriller com assassinato, a coisa se arrasta com certa dificuldade para manter o interesse do público, apesar do texto de Nicholson ser muito bom, como na sequência do avião em que o próprio ator/roteirista filosofa sobre a morte.

Flight to Fury melhora consideravelmente na segunda metade, após o acidente do avião, quando finalmente toma forma e se assume como uma aventura classe B e temos alguns bons momentos de ação e um desfecho niilista surpreendente. O elenco contribui bastante, mesmo que o grande destaque fique por conta do promissor talento de Nicholson.

O duelo final em meios às rochas a beira do rio é bem interessante e construido com firmeza. Mas a direção de Hellman, de uma maneira geral, ainda não demonstra por aqui sinais da maestria minimalista e reflexiva que teria em breve, já em A Vingança de um Pistoleiro, talvez pela impulsão feroz e urgente de fazer cinema com as tripas. Mas se precisou passar por isso aqui para chegar ao patamar que chegou, então vale uma conferida.