QUANDO O STRIP TEASE COMEÇOU (The Night They Raided Minsky’s, 1968), William Friedkin

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por Luiz Alexandre

Tá aí uma obra curiosa na carreira de Friedkin. Uma comédia musical, inspirada no romance Minsky’s Burlesque, de Rowland Barber, de 1960, que conta de maneira romanceada o surgimento da modalidade de dança erótica que o título em português entrega logo de cara.

Na trama, que se passa na Nova Iorque dos anos 20, uma jovem e inocente garota amish, Rachel Schpitendavel (Britt Ekland), foge de sua comunidade na esperança de se tornar uma dançarina de musicais da Broadway. Tendo apenas seus sonhos como guia, ela vai parar no Teatro Burlesco Minsky, cujo dono, Billy Minsky (Elliot Gould), precisa se desdobrar para lidar com a censura promovida pelo moralista cristão Vance Fowler (Denholm Elliot) que quer acabar com o teatro e seus shows sensuais, além de seu pai Louis (Joseph Wiseman), um judeu ortodoxo que não aprova os negócios do filho.

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Além deles, a trama se centra também em dois astros da casa, os humoristas Raymond Paine (Jason Robards em estado de graça), um crápula carismático e mulherengo, e Chick Williams (Normam Wisdom, esplêndido), um doce e sentimental clown, que na tentativa de salvar o Minsky convencem seu patrão a deixar Rachel apresentar seu único talento artístico, a dança bíblica, publicitando o ato como uma apresentação de Madame Fifi, a dançarina sensual de Paris que se despe ao vivo, na esperança de ridicularizar o hipócrita Fowler ante a polícia e a comunidade. Além disso, o pai da moça, Jacob (Harry Andrews), um austero pastor amish, quer trazer sua menina de volta aos “bons caminhos” de sua cultura. Fora que os atrapalhados Paine e Chick precisam impedir que o mafioso Candy Butcher (Jack Burns), um dos investidores do teatro, ponha suas mãos e algo mais em Rachel, pela qual ambos se apaixonam.

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É preciso dizer que o filme não foi finalizado por William Friedkin. Com um corte inicial considerado pelo executivo da United Artists da época, David Picker, como o pior que ele já viu, a obra foi tirada das mãos do diretor. Depois de produzido o filme foi enviado para o editor Ralph Rosenblum, que vinha de um trabalho intenso no filme The Producers, de Mel Brooks, que, entre outras coisas, refez a introdução do filme, com as belíssimas imagens de arquivo da metrópole americana nos anos vinte fundidas com cenas das apresentações musicais, e, aparentemente, deu o ritmo ágil que vemos na tela.

Hurricane Bill, indivíduo com língua ausente de papas e, como seu apelido entrega, de personalidade pouco afável, não apenas despreza o filme como disse publicamente na época que foi “a maior porcaria que eu já trabalhei”. Não se pode precisar até que ponto Rosenblum é responsável pelo que o filme é, mas é inegável que as apresentações musicais, a edição, o texto e, principalmente, a galeria de personagens e coadjuvantes que povoam a trama são utilizados de maneira primorosa, com exceção apenas de Bert Lahr com o seu adorável Professor Spats, já que o veterano ator infelizmente morreu durante as filmagens.

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O filme não é meramente uma homenagem satírica e inspirada ao teatro burlesco, mas uma reflexão anárquica sobre aquele período histórico somada a uma comédia pastelão hilária. Ao mesmo tempo em que o burlesco foi uma forma de entretenimento pensado para o deleite inconsequente dos adultos da época, ele também tratou, a sua maneira despojada e falsamente desinteressada, dos costumes, do sexo, da liberdade de expressão do corpo e de um inconformismo maroto ante a moral. Em tempos em que basta se filmar em preto e branco, tirar o som e colocar um bigodinho fino no protagonista para se fazer um filme “à moda da época”, assistir Quando Começou o Strip Tease (admito, um “título-spoiler”, mas belo como o de uma boa pornochanchada) serve tanto para nos entreter quanto para nos abrir os olhos quanto ao que pode ser o cinema como tributo a uma modalidade estética do passado.

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PAT GARRET E BILLY THE KID (1973), Sam Peckinpah

por Otávio Pereira

Sam Peckinpah foi um dos melhores diretores americanos de western. Verdadeiro autor, dono de um estilo próprio, procurava retratar o Velho Oeste da forma mais realista possível. Seus filmes possuem características fortes, não só visualmente, mas também pela maneira como conduz seus personagens, colocando-os em conflitos internos gerados pela mudança do ambiente em que vivem.

Pat Garrett e Billy the Kid é um filme triste e de atmosfera quase mística, composto por belas imagens que são complementadas por uma interessante trilha sonora, composta por Bob Dylan. Em minha opinião a trilha dá bastante força ao filme, reforçando os sentimentos expostos. O clássico “Knockin’ On Heaven’s Door” se encaixa como uma luva após uma sequência de matança. Chega a emocionar!

Quem espera que o filme seja um duelo entre Pat Garret e Billy the Kid pode se decepcionar, na verdade o filme é sobre Pat Garret, de como o mesmo está lidando com as mudanças ao seu redor, sua adaptação ao novo mundo, suas escolhas que batem de frente com seu passado. É magnífico ver o trabalho de Peckinpah desenvolvendo o personagem de Garret, de marginal a homem da lei, convocando antigos parceiros de crime para auxiliá-lo e levando-os a morte, com isso enterrando parte de seu passado. E toda a luta de não ter que confrontar seu amigo Billy, criando coragem para isso dando um mergulho a um mundo de álcool, prostitutas e violência.

Pat Garrett e Billy the Kid é repleto de cenas de forte impacto e significado. Como Billy the Kid vendo um de seus parceiros sendo morto por bandidos de forma covarde, forma que talvez o mesmo já tivesse praticado. Mas a cena que mais gostei envolve um antigo bandido que também vira xerife e está construindo um barco para sair daquela região. Pat Garret o chama para auxiliá-lo em uma missão e o mesmo é baleado. Antes de morrer consegue chegar a um córrego para dar seu ultimo suspiro. Esta cena é complementada quando Pat Garret está descansando e vê um homem descendo um rio em uma balsa dando tiros em uma garrafa que é jogada na água, ambos acabam trocando tiros, mas depois trocam apenas olhares.

Além da excelente atuação de James Coburn, Kris Kristofferson não decepciona. O filme é recheado de rostos conhecidos, com destaque para Jason Robards, Jack Elam, Slim Pickens, Harry Dean Stanton, Emilio Fernández, entre outros.

Sem dúvida uma das últimas grandes obras realizadas no gênero western.

A MORTE NÃO MANDA RECADO (The Ballad of Cable Hogue, 1970), Sam Peckinpah

por Ronald Perrone

Muita gente subestima o poder de A Morte Não Manda Recado. Mas é preciso levar em consideração que a grande maioria daqueles que iniciam sua peregrinação ao cinema de Peckinpah costumam assistir primeiro aos viscerais Meu Ódio Será sua Herança, Alfredo Garcia, Sob o Domínio do Medo, etc, e acha que o sujeito vai expressar a brutalidade do ser humano em todos os seus filmes. Quando chega a hora de acompanhar a aventura do personagem Cable Hogue, vivido magnificamente por Jason Robards, depara-se com algo inesperado, um western de sensibilidade espantosa que deixa o espectador completamente sem chão, desacreditado que aquilo havia saído da mesma mente que injetou a violência sanguinolenta no cinema mainstream americano.

A princípio, a trama parece caminhar para o costumeiro do gênero, inclusive o mote principal é a vingança, quando o personagem do título original é abandonado em pleno deserto por dois ex-companheiros e vaga sem água, comida, transporte, armas,  jurando vingança. Mas a jornada de Cable Hogue encerra quando ele encontra uma fonte de água e faz dali o seu lar. É neste ponto também que o filme toma direções completamente opostas às espectativas do público, que aguarda ansiosamente por situações de ação, com aquelas decupagens geniais que só o Peckinpah sabia fazer. No entanto, o filme se transforma num drama cômico com uma dose de romance, até bem bobinho, o qual oferece, ao mesmo tempo, um dos mais belos estudos humanos do cinema americano! Até mesmo o desejo de vingança, que motiva o personagem durante toda a projeção, é solucionada de maneira frustrante para quem ainda esperava o Bloody Sam de Os Implacáveis entrar em ação. Acontece que até mesmo um poeta da violência tem seus dias sentimentais. Calhou de ser na concepção deste aqui. Não é a toa que o próprio diretor considerava A Morte não Manda Recado o seu trabalho favorito.