O AJUDANTE DE SATÃ (Satan’s Little Helper, 2004)

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por Leandro Caraça

Após Controle Remoto (1988), demorou 15 anos para que Jeff Lieberman voltasse a realizar um longa-metragem. Por sorte, novamente do gênero horror. Produção independente, feita direto-pra-video, O Ajudante de Satã não fica a dever aos demais longas do cineasta. Mesmo restrito a alguns poucos trabalhos na televisão nos anos 90, Lieberman parece não ter perdido absolutamente nada daquela garra que demonstrou no passado. Com mais chances na carreira, quem sabe ele poderia ter se transformado em um nome tão popular quanto Stuart Gordon ou Tobe Hooper. Talento nunca lhe faltou e bons filmes atestam isso.

Não seria um exagero colocar O Ajudante de Satã entre os melhores slashers dos últimos 10 anos. Longe de ser uma nova brincadeira ao estilo ou alguma coisa requentada (geralmente disfarçada com o nome de homenagem retrô), o filme de Lieberman é de um frescor que não estamos mais acostumados. A velha história de um serial killer atacando uma pequena cidade durante as festividades do Halloween ganha um incentivo a mais quando um garoto ingênuo, fã de um violento videogame, confunde o assassino com o personagem de seu jogo favorito, que é o próprio Diabo. Assumindo a função de pequeno ajudante de Satã, o menino passa a acompanhar as ações do seu novo amigo, sem conseguir perceber as reais consequências de tudo. Desde que Satã não mate sua família, para ele tudo estará bem. Tudo o que importa é ganhar pontos, seja atropelando mulheres grávidas ou carrinhos de bebê.

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As atitudes do menino podem parecer muita ingenuidade, mas apenas mostram um garoto em seu mundo de fantasia virtual. A figura do assassino, que nunca revela seu rosto, impressiona. Com seu traje negro e a máscara, transita entre o assustador e o cômico, e a direção de Jeff Lieberman nunca deixa essa mistura desandar. Incrível que ele tenha conseguido produzir um filme totalmente despido dos clichês e cacoetes do horror contemporâneo e quando ninguém mais esperava por outro filme seu. Num mercado em que as produções independentes feitas por diretores décadas mais jovens geralmente resultam em porcarias, Liberman deixou a sua marca neste retorno. Resta torcer para que algum dia consiga realizar outra obra como essa.

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JUST BEFORE DAWN (1981)

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por Ronald Perrone

Jeff Lieberman foi contratado para realizar um slasher religioso chamado The Last Ritual, mas só aceitou se se tivesse a possibilidade de fazer alterações no roteiro que, segundo o próprio diretor, não prestava. Lieberman já tinha comprovado seu talento com os dois longas anteriores, Squirm (1976) e Os Assassinos do Raio Azul (1978), era visto naquele período como uma espécie de auteur do gênero, portanto, os produtores não pensaram duas vezes e deixaram o homem fazer as mudanças que bem entendesse desde que não fugisse das fórmulas do slasher movie, tão em voga naquela altura.

Inspirado em Amargo Pesadelo (1972), de John Boorman, Lieberman criou um horror rural de primeira linha e cortou tudo relacionado a religão, não teria mais ritual algum na história, o título original não fazia mais sentido. The Last Ritual acabou virando Just Before Dawn.

Outras referências óbvias que vem em mente quando se pensa na concepção deste aqui é O Massacre da Serra Elétrica (1974), de Tobe Hooper, e Quadrilha de Sádicos (1977), de Wes Craven. Mas o curioso é que Lieberman diz em entrevistas que ainda não havia assistido a essas duas obras na época.

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A trama é a mais básica possível e segue cinco jovens que vão parar numa região montanhosa e de mata fechada, após um deles herdar um terreno no local, para acampar e conhecer o lugar. Dão de cara com os habitantes da região que não são nada muito simpáticos, com exceção de Roy, uma espécie de policial local, interpretado pelo grande George Kennedy, que os alerta sobre os perigos da região. Durante o percurso, encontram Ty, vivido pelo grande Mike Kellin, um bêbado que faz o mesmo alerta de não seguirem viagem.  Mas as coisas ficam seriamente feias quando dois irmãos gêmeos caipiras e assassinos, empunhando machetes, resolvem fatiar quem entra em seus caminhos.

Logo no início de Just Before Dawn, Lieberman assume não estar muito interessado em desenvolver conteúdos e subtextos para reflexão, apesar da óbvia leitura do conflito entre civilizados e mocorongos rurais. Aqui a preocupação é segurar a atenção do espectador com várias situações de tensão atmosférica e choque visual, sem apelar para o gore, apenas trabalhando a construção do suspense, utilizando a geografia local e a trilha sonora que é uma beleza. E não são poucos os momentos em que Lieberman consegue excelentes resultados, deixando o espectador arrepiado, como na cena em que uma das personagens descobre que quem está lhe acariciando debaixo d’água não é seu namorado. A sequência final também é de tirar o fôlego, literalmente. Para fazer um dos personagens eliminar um dos assassinos, Lieberman resolveu pensar numa maneira que nunca ninguém tivesse filmado antes. A solução encontrada é de uma brutalidade subversiva e totalmente inesperada!

Os amantes do horror que desejam ver algo diferente, que fiquem logo avisados. É esse tipo de originalidade que Lieberman prepara para quem vai encarar Just Before Dawn.

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JUST BEFORE DAWN (1981)

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por Alana Phibes

Muito mais que um Slasher

Just Before Dawn, o terceiro filme da carreira de Jeff Lieberman (e considerado seu preferido entre toda sua filmografia) é um filme focado muito mais no suspense e na bela ambientação, do que em mortes frequentes e sangrentas. A principal influência do diretor, segundo ele mesmo, seria o clássico Amargo Pesadelo (Deliverance) de 1972. E realmente tem alguns pontos em comum. Filmado num parque no Oregon, tem como protagonistas o quinteto de jovens Chris Lemmon (filho de Jack Lemmon), Gregg Henry, Deborah Benson, Jamie Rose e Ralph Seymour, que na busca por um lugar para acampar, se deparam com o clássico aviso para não o fazer por aquelas bandas, feito por Ty (Mike Kellin), um bêbado que vagava pela estrada. Mas é claro que eles não lhe dão ouvidos e continuam sua busca. A diferença da maioria dos slashers envolvendo jovens e matagais, em que a moçada só quer saber de trepar e fumar maconha, é que aqui o pessoal quer mesmo é curtir o acampamento, explorar e fotografar o belo lugar.

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O que vem a seguir é uma sequência de suspense crescente com poucas, mas eficientes aparições do “perigo” da floresta, que nada mais é que o próprio ser humano, o que poderia remeter a Quadrilha de Sádicos (The Hills Have Eyes), exceto que a família mostrada não tem nenhuma deformidade. Os poucos diálogos aumentam e prolongam a sensação de “estamos-sendo-vistos-e-seguidos”, e a trilha sonora muito bem pontuada (feita por Brad Fiedel, que seria melhor conhecido por suas futuras trilhas para a franquia O Exterminador do Futuro) deixa no ar uma maior casualidade na história, diferente de alguns filmes do gênero, que abusam dos efeitos sonoros para criar o “momento” em que algo ruim vai acontecer. Nâo é o caso aqui. Nesse filme o diretor realmente te pega de surpresa, sem avisos, apenas pequenos detalhes que são reconhecidos da curta introdução (não quero revelar os fatos para não estragar as surpresas) antes dos créditos inicias, onde o “perigo” é mostrado.

Enfim, apesar de algumas similaridades, realmente não consigo ver esse filme como um slasher comum; o desenvolvimentos dos personagens, mais notadamente o da loira Constance (Deborah Benson) e a interação entre eles é muito boa, as cenas de morte são discretas(sem serem menos aterrorizantes por isso), e muito é deixado a cargo da imaginação do espectador. Bem acima da média das produções da época.

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DOCTOR FRANKEN (1980)

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por Ronald Perrone

Ainda jovem, o nosso homenageado no DIA DA FÚRIA, Jeff Lieberman, já havia realizado duas belas demonstrações de como fazer cinema com pouco recurso e muita imaginação: Squirm (1976) e Os Assassinos do Raio Azul (1978). E é provável que o promissor talento do sujeito tenha chamado a atenção do veterano diretor Marvin J. Chomsky, que se dedicava à televisão naquela altura e acabara de ser premiado com sua série Holocaust. O novo projeto de Chomsky consistia em uma discreta releitura moderna do clássico Frankenstein e conseguiu convencer os produtores a chamarem Jeff Lieberman para co-dirigir o que seria o piloto de uma série. E assim surgiu Doctor Franken.

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Pela imagem acima dá pra notar que Robert Vaugh é quem interpreta o personagem título, aqui na profissão de médico cirurgião. Quando um paciente chega ao hospital praticamente morto e sem os olhos, Dr. Franken o utiliza como cobaia para uma série de experimentos. A princípio, é feito um transplante de olhos, depois, substituição de membros que começam a gangrenar. Aos poucos, temos um indivíduo todo remodelado cirugicamente. O problema é que todos os procedimentos são feitos de maneira ilegal, camuflada pelo doutor, levantando algumas suspeitas e constragimentos no hospital.

Uma ideia que Doctor Franken procura explorar é o conceito de que as memórias podem ser armazenadas em outras partes do corpo humano além da mente. Portanto, o “monstro” criado por Dr. Franken, acaba visualizando as memórias trazidas do homem que possuía os seus novos olhos. Memórias que tem certa importância para a trama e geram vários conflitos à pobre criatura. É possível que talvez seja o monstro de Frankenstein mais angustiado psicologicamente que se tem notícia. E se a ideia base é um tanto original e bem contada, o resultado, por outro lado, acaba não tendo muita graça para quem espera um filme de horror. É tudo muito lento, na base da conversa e são raros os momentos de tensão.

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O destaque fica por conta da boa construção de alguns indivíduos (em especial o próprio doutor do título, em uma excelente interpretação de Vaugh). Uma tentativa de criar logo de cara uma empatia por parte do público com os personagens para a série que viria a seguir. No entanto, muito aquém dos trabalhos anteriores do Lieberman (até porque ele apenas co-dirigiu, não há como comparar), Doctor Franken acabou ficando só no piloto mesmo.

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OS ASSASSINOS DO RAIO AZUL (Blue Sunshine, 1978)

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por Ronald Perrone

Já pensou se aquele inocente ácido que te deixou doidão em uma festa qualquer dez anos atrás tivesse uma bad trip retardatária e causasse efeitos colaterais hoje, sem mais nem menos, subitamente? Pois o diretor e roteirista Jeff Lieberman pensou. Foi assim que surgiu Os Assassinos do Raio Azul, o trabalho mais cultuado do homem e uma interessante reflexão sobre as consequências da geração libertária dos anos 60 em forma de conto psicodélico de horror.

Na história de Os Assassinos do Raio Azul, uma epidemia bizarra começa assolar os pobres moradores de Los Angeles. Pessoas comuns, vivendo suas vidas, começam a sofrer uma repentina perda de cabelo. Apenas o início de uma transformação que termina com o indivíduo agindo como um zumbi careca psicopata, que só segue o instinto de matar e matar. É o que acontece logo no início do filme, quando um grupo de amigos, nos seus trinta e poucos anos, festeja numa casa perto da floresta nos arredores de Los Angeles. Um dos convidados perde totalmente o cabelo, surta ferozmente e inicia a matança. Na fuga, vai parar debaixo de um caminhão.

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 A culpa de toda a tragédia acaba sobrecaindo no único sobrevivente, Jerry Zipkin (interpretado pelo futuro produtor e diretor de thillers eróticos, Zalman King), agora procurado pela polícial. Tentando compreender os fatos e precisando provar sua inocência, Zipkin inicia um trabalho de investigação. Além de descobrir que o bizarro acontecimento não foi um caso isolado, o sujeito encontra ligação entre ex-alunos da universidade de Stanford com uma droga alucinógena comercializada no local há dez anos, conhecida como Blue Sunshine. E não se trata de Viagra.

Conforme o filme avança e as investigações de Zipkin tem resultados, mais ex-alunos daquela época entram num frenesi zumbi psicótico causando o terror. A sequência em que o herói consegue salvar duas crianças de uma careca descontrolada empunhando uma faca é um dos momentos mais tensos do filme, que é todo muito bem conduzido por Lieberman intercalando instantes de thriller policial de investigação com situações de puro horror. Os dez minutos finais na discoteca e logo depois numa loja de conveniências é uma aula de tensão e atmosfera.

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Mas a grande sacada de Os Assassinos do Raio Azul é mesmo a sua premissa de incrível originalidade. Essa história de pessoas que se transformam em zumbis por conta de um delay do efeito de uma droga usada há dez anos é muito fascinante. Mas o que o Lieberman queria exatamente com esse material? Gosto de pensar na ideia de um filme inocente de terror com um baita conceito original. Porque se formos parar para analisar o discurso que o filme propõe corremos o risco de nos deparamos com uma mensagem moralista do tipo “Olha o que as drogas fizeram, foderam com a mente de uma geração”. Não seria a primeira vez. The Ring (1972), curta metragem que Lieberman realizou antes de Squirm (1976) é uma engajada propaganda anti-drogas.

De qualquer forma, Os Assassinos do Raio Azul não deixa de ser um clássico notável do horror setentista de baixo orçamento e que conseguiu com muita criatividade dar um autêntico significado para a expressão bad trip. Uma curiosidade para finalizar. Um jornal da época chegou a fazer matérias sobre uma suposta epidemia esquisita causada pelo consumo de LSD. A fonte: Os Assassinos do Raio Azul. Aparentemente, algum jornalista desavisado caiu na pegadinha dos letreiros finais e acreditou que se tratava de um material baseado numa história verídica.

Só isso já basta para se tornar fã de Os Assassinos do Raio Azul, não?

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SQUIRM (1976)

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por Leopoldo Tauffenbach

A função de todo filme de horror é provocar sensações desagradáveis na plateia. Medo, aflição, angústia, tensão, ansiedade, repulsa, asco… O que explica a regra da presença de seres repugnantes – fossem imaginários ou reais – nas produções. Todo castelo ou mansão assombrada de respeito – fosse nos filmes góticos italianos ou nas produções da Hammer – havia de ter aranhas, cobras ou escorpiões habitando o local. A paranoia da guerra nuclear e a fantasia de locais ainda inexplorados elevaram criaturas minúsculas a dimensões gigantescas.

De lá até os anos 70 muitos invertebrados foram explorados em produções de horror, como as sempre favoritas aranhas, passando por formigas, escorpiões e louva-a-deus, sem esquecer as baratas com flatulência incendiária de Praga Infernal, de 1975. E quando se pensava que tudo havia sido explorado, eis que surge Squirm, primeiro longa-metragem de Jeff Lieberman, que consegue o fantástico feito de criar um filme tenso e eficiente a partir de uma premissa totalmente improvável: uma invasão de minhocas carnívoras.

Mick e Geri, o casal mais carismático e ruivo que já se viu, suspeita que algo está errado por trás dos desaparecimentos da cidade.

Mick e Geri, o casal mais carismático e ruivo que já se viu, suspeita que algo está errado por trás dos desaparecimentos da cidade.

Há de se reconhecer que é uma tarefa complicada convencer o espectador que minhocas podem representar uma ameaça real. Mas Lieberman apela para clássicos e eficientes clichês: após uma tempestade que danifica as linhas de tensão, as minhocas são afetadas por violentíssimas descargas elétricas e surgem em quantidade suficiente para lotar um estádio. De início, os anelídeos malditos atacam sorrateiramente, comendo poucas vítimas que não chegam a receber muita atenção da população. Mas o jovem e esperto casal Mick e Geri percebe que algo estranho está acontecendo na cidade e tentará desvendar o mistério, no melhor estilo Scooby Doo.

O filme demora a chegar ao que realmente interessa e chega a ser desinteressante em alguns momentos, mas quando finalmente os vermes aparecem, Lieberman não faz feio e consegue criar cenas memoráveis e asquerosas, mesclando milhares de minhocas falsas e closes de vermes verdadeiros que possuem presas afiadas. Para compensar a lentidão das criaturas, o roteiro as coloca surgindo de lugares pouco prováveis, dando a entender que elas tiveram todo tempo do mundo para se acumular lá. E funciona. Quando elas surgem, surgem de uma vez e aos montes, sem deixar a menor chance de defesa a suas vítimas.

Os vermes malditos fazem mais uma vítima.

Os vermes malditos fazem mais uma vítima.

Ao final, Squirm é um filme irregular, repleto de clichês, mas dirigido com competência e amparado por uma história minimamente original. Os furos de roteiro e situações absolutamente desnecessárias acabam sendo compensados pelas boas cenas de tensão, os ótimos efeitos especiais e os personagens carismáticos, mesmo que excessivamente cômicos em determinados momentos. Nada mal para um longa de estreia com um tema tão arriscado, e que poderia facilmente ter desmoralizado toda a produção, mas acabou abrindo as portas de seu diretor para que logo em seguida realizasse não só o melhor filme de sua carreira, mas também um dos maiores clássicos do horror contemporâneo: Os Assassinos do Raio Azul (Blue Sunshine).

Os protagonistas de Squirm: minhocas com presas. E elas estão famintas!

Os protagonistas de Squirm: minhocas com presas. E elas estão famintas!

Em tempo, os vermes que aparecem em close são reais. Trata-se de um tipo de verme do gênero Glycera, popularmente chamados de bloodworms e muito usados pelos norte-americanos como isca viva em pesca. Esses vermes são criados em cativeiro, exatamente como é mostrado no filme.

E ainda vale lembrar que James Cameron, em início de carreira, já se utilizou da eletricidade contra vermes no filme Galáxia do Terror (1981), em uma tentativa de fazer com que as criaturas apresentassem mais vivacidade diante das câmeras.

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