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WILD BILL (1995)

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por Marcelo V.

Mais de 70 anos após ser retratado no cinema pela primeira vez, James Butler Hickok, uma das personagens lendárias do Velho Oeste americano, é o centro de WILD BILL, produção de Richard D. Zanuck escrita e dirigida por Walter Hill. Assim como o próprio Wild Bill, tido por alguns de seus contemporâneos como alguém que contava histórias exageradas sobre seus feitos, os realizadores deste projeto preferiram o imaginário à realidade. Em vez de pesquisa histórica, o roteiro é adaptado de duas obras de ficção: a peça “Fathers and Sons” (1978), de Thomas Babe, e o romance “Deadwood” (1986), de Peter Dexter.

Em entrevistas sobre o filme, Zanuck afirmou que estava interessado nos efeitos da celebridade no contexto do Velho Oeste, e Hill, nas consequências do encantamento de Bill por sua própria lenda. Do contraste dessas concepções com o caráter edipiano da peça (na qual o herói é morto por seu filho bastardo, homossexual que cometeu incesto com a mãe) e as descrições do ambiente fornecidas pelo romance (que incluíam os imigrantes chineses), nasce um filme também afetado pelo espírito de sua época, o de Hollywood sob o impacto do sucesso do jovem Quentin Tarantino.

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Assim, antes do terceiro ato provido pela peça, no qual a ação se concentra no saloon em que Bill passa suas últimas horas, o filme vai e volta no tempo, misturando flashbacks e flashforwards com cenas coloridas e em preto e branco _ de forma semelhante à que Oliver Stone empregou cerca de um ano antes em ASSASSINOS POR NATUREZA. O desprezo pelo naturalismo é reforçado pelos cenários, pela iluminação e por inverossimilhanças típicas, como revólveres que disparam muito mais balas que comportam e oponentes que morrem como moscas.

O protagonista (Jeff Bridges, 30 anos após seu pai Lloyd ter interpretado o mesmo personagem num episódio televisivo) é apresentado a princípio de forma mistificadora: como um homem querido por seus amigos; rápido no saque da arma e bom de pontaria (atira com ambas as mãos e acerta alvos olhando para um espelho); disposto a brigar sempre que provocado, mas de forma nobre (não atira em gente desarmada, amarra-se a uma cadeira quando desafiado por um paraplégico e chora quando um inocente perece por sua causa); com gosto pelo ópio, pelo uísque, pelo jogo de cartas e, de forma menos explorada, pelas mulheres; finalmente, como alguém que “abraçou seu destino de herói”.

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Ironicamente, é quando está desempenhando um papel como ator profissional, sob maquiagem pesada num espetáculo teatral de Buffalo Bill (ponta de Keith Carradine, que interpretaria Wild Bill sob a direção de Walter Hill no piloto da série televisiva DEADWOOD, da HBO), que o protagonista se mostra mais desconfortável, em especial pela iluminação, “capaz de cegar alguém”. Logo em seguida, ao receber diagnóstico de glaucoma, causado provavelmente por sexo com prostitutas, Bill diz ao oculista que foi de tanto olhar para o Sol.

Esse embate entre luz e trevas, verdade e mentira, é curiosamente destacado sempre que Bill tem a palavra. Negando mais uma vez o personagem histórico, aqui o protagonista chega a afetar uma irônica humildade, ao corrigir um relato exagerado de um amigo (“não matei 7, foram só 5”) e ao se dizer desinteressado da fama. Perto do final do filme, um coadjuvante descreve fielmente uma cena que vimos no início, mas Bill insiste em dizer que as coisas não aconteceram daquela forma.

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Entre omissões, como uma famosa luta corporal com um urso, que o deixou de cama por meses (ficou para Leonardo DiCaprio, num filme recente), e sua participação na Guerra Civil, durante a qual teria sido espião em território inimigo (talvez inspirando Buster Keaton em A GENERAL), e distrações, como a Calamity Jane de Ellen Barkin, reduzida a uma paixão rejeitada, e seu obcecado inimigo Jack McCall (David Arquette), este filme um tanto caótico é resumido pela narração de Charley (John Hurt), o melhor amigo do protagonista: a vida de Will Bill foi um teatro e o protagonista, um prisioneiro de seu papel.

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Cartaz notificando o funeral do verdadeiro “Wild Bill”

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O CASAL OSTERMAN (The Osterman Weekend, 1983), Sam Peckinpah

por Luiz Alexandre

O ano é 1983. Um agente da CIA (John Hurt, ótimo), mancomunado a um político (Burt Lancaster) convence um jornalista idealista (Rutger Hauer) de que são amigos próximos são, na verdade, traidores da pátria que negociam com os comunistas soviéticos. Um fim de semana em sua casa, evento que realizam há anos desde a época em que estudavam juntos, se tornará um pesadelo movido a intrigas e segredos de estado.

Peckinpah, infelizmente, já não era o mesmo de outrora. Tido como ficha suja em Hollywood, tinha que aproveitar as oportunidades que lhe apareciam para poder realizar a sua velha magia. Com o trabalho que fez, sem crédito, no filme  Jinxed!, de seu mentor Don Siegel, ele foi chamado para dirigir essa adaptação de um romance de Robert Ludlum, autor, entre outros, dos livros que inspiraram a trilogia Bourne. Infelizmente veio a ser também o adeus do diretor, que faleceu após as filmagens.

Infelizmente, O Casal Osterman não é o seu momento mais inspirado. A trama é confusa e não possui o mesmo espírito mágico de seus filmes anteriores. Mesmo Elite de Assassinos , uma obra feita sob encomenda por produtores, você ouve melhor a voz embriagada do diretor. Aqui o ritmo é por vezes arrastado, embora não seja um filme lento, e a trama não possui momentos poéticos como em vários de seus outros filmes, a música, embora competete, não é tão envolvente, é até mais datada do que poderia, e embora tenha uma certa sujeira comum aos filmes da época, é uma obra menos refinada do que seus filmes dos anos 60, 70, sua violência não é tão bela. Fora que o velho medo dos “malditos comunas” envelheceu muito mais do que seus pistoleiros.

Mas, ora bolas, estamos falando de Bloody Sam! A cena inicial, que começa com o sexo entre John Hurt e uma linda atriz que interpreta sua esposa e que culmina com o assassinato da mesma, embora deveras similar a exemplares eróticos da época, é violentamente bonita. As poucas cenas de ação do filme ainda são muito boas e o elenco, embora não tenha sido escolhido por ele, está muito bem. O filme ainda permite pequenas sutilezas do diretor, como um possível romance entre Bernie Osterman (Craig T. Nelson) e Betty (Cassie Yates), esposa de seu amigo Joseph (Chris Sarandon). O erotismo do filme, se é que pode se chamar assim, é quase morto, o clima das relações conjugais de alguns dos personagens é de decadência e torpor. Fora que a crescente tensão entre os personagens é muitíssimo bem trabalhada pelo diretor.

O diretor também, de alguma maneira, reflete sobre a influência da TV na vida das pessoas, sobre como depositamos nossa confiança nas instituições como a mídia e a propaganda do governo, crítica que infelizmente ainda tem muita relevância. Todas as intrigas e infortúnios só foram possível pelo jogo de faz de conta armado pela CIA (um filme americano que critica a CIA durante a Guerra Fria, como pode?) e tudo culmina com um final curiosamente belo e pessimista. Um discurso libertário por parte de Tanner aos seus espectadores, onde incentiva os mesmos a desligarem a TV. Mas nós não podemos tocar na tela e apertar o interruptor. Apenas vemos tudo e esperamos as letras começarem a subir, do jeito que nos foi ensinado.

P.S: O título nacional do filme é certamente um dos piores que nossa industria já criou. O citado Osterman é o único dos amigos que é solteiro, o título em inglês faz uma referência há uma velha tradição entre os amigos de sempre se reunirem na casa do personagem quando eram jovens. Ele saiu da casa dos pais, mas a tradição continuou nas casas dos outros, por isso o “Fim de Semana Osterman” .

P.S 2: A interpretação que fiz sobre a cena final do filme eu roubei de um especialista (cujo nome não sei) que deu um depoimento em um péssimo documentário sobre o diretor que assisti no Festival do Rio. Sei que não tenho obrigação de creditar, mas queria dizer que infelizmente não cheguei a ela sozinho.

P.S 3: A versão que assisti foi a que a Flash Star Home Vídeo lançou no Brasil, com dois DVDs, contendo supostamente a versão do diretor. Indo ao IMDB descobri que existe uma outra versão sim, mas é mais longa do que a que a Flash Star vende. Seria Peckinpah um profeta?

Enigmas de um Crime (The Oxford Murders, 2008), Álex de la Iglesia

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Baseado numa obra do matemático e escritor argentino Guillermo Martinez, Enigmas de um Crime marca a volta de Álex de la Iglesia para uma produção falada em inglês. Temos aqui uma clássica trama de mistério e assassinato onde um estudante americano (Elijah Wood) e um ainda mais brilhante catedrático de Oxford (John Hurt) precisam esquecer a animosidade inicial e usar os seus intelectos para solucionar uma morte, que tudo indica será a primeira de uma série. Como pista, o criminoso deixou um bilhete com um símbolo matemático. Para antecipar os passos do assassino, a improvável dupla precisará decifrar qual será o próximo símbolo da sequencia. É um bom começo para um filme promissor. Pena que que o resultado final se mostre aquém do esperado. Mesmo o mais ferrenho fã de Alex de la Iglesia vai reconhecer que se trata de seu trabalho mais fraco.

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O roteiro escrito por ele e por seu colaborador de sempre, Jorge Guerricaechevarria, trilha o caminho dos contos de Agatha Christie e com a elegância que apenas os bons discípulos de Alfred Hitchcock são capazes. O principal problema aqui é mesmo a história original, que ao seu final não traz o impacto esperado. Iglesia como sempre, constrói quadros de grande apuro visual mas parece se perder na lógica e nos diálogos cerebrais dos protagonistas. O que falta é o exagero narrativo de um Argento ou De Palma, e sem isso, Enigmas de um Crime se torna só um suspense um pouco melhor do que as atuais produções americanas. Não é um filme sem qualidades. John Hurt está ótimo como sempre e Elijah Wood mostra que está deixando a Terra-Média para trás. E o diretor Alex Cox aparece como um matemático cuja sanidade foi consumida por uma equação indecifrável. Uma obra agradável de assistir, mas que fica abaixo da média do cineasta espanhol.

Leandro Caraça