Jugular Blindada (Last Hurrah for Chivalry, 1979), John Woo

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por Heráclito Maia

Dos filmes de kung fu que John Woo fez nos primeiros anos de sua carreira, Jugular Blindada é aclamado como o  melhor deles. E é interessante notar que, em alguns aspectos, antecipa o que Woo faria uma década depois em O Matador (The Killer), uma de suas principais obras-primas.

Pelas primeiras imagens, podemos jurar que se trata apenas de mais um filme rotineiro de vingança. Mas logo começam a surgir novos temas, e conceitos como amizade, honra e cobiça, entre outros, começam a falar mais alto. A ambigüidade moral também se faz presente. Dos três personagens principais, nenhum deles é um exemplo de conduta. Lau Kong faz um tipo enigmático e aparentemente covarde; Wei Pai, um dos Venons do clássico Os Cinco Venenos do Kung Fu, dirigido por Chang Cheh, de tão impetuoso e rebelde torna-se estúpido; e por fim, o terceiro, e mais interessante, interpretado por Damian Lau Chung-Yan, é um espadachim alcoólatra e mercenário.

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O vilão (o grande Lee Hoi-Sang, mestre em Wing Chun na vida real e figura conhecidíssima do cinema popular de Hong Kong), mesmo sendo um monstro impiedoso e um lutador praticamente invencível, acaba sendo o responsável pelas únicas cenas cômicas do filme. Se bem que, na verdade, existem dois vilões, mas o segundo é uma surpresa, graças a uma reviravolta que ocorre na engenhosa trama…

As cenas de luta são abundantes e muito boas, cortesias do coreógrafo Fung Hak-On (que foi assistente da lenda Lau Kar Leung e que também dirigiu posteriormente alguns ótimos thrillers policiais). Ele faz uma participação importante confrontando-se com Wei Pai num combate de espadas de tirar o fôlego. Mas o que mais me chamou a atenção é o tom cada vez mais dramático e sangrento que as lutas vão tomando ao longo da projeção. Heranças do mestre Chang Cheh que o discípulo John Woo captou com perfeição. Outro grande destaque do filme fica por conta de Chin Yuet-Sang, no papel de um bizarro sujeito que luta dormindo!

Tanto pra quem curte cinema porrada, como pra quem tem interesse em se aprofundar no cinema de John Woo, Jugular Blindada é um filme indispensável!

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Chacina Em Pequim (The Young Dragons, 1974), John Woo

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por Takeo Maruyama

Embora seja o mais conhecido, A Lâmina Da Morte não foi o primeiro nem o único filme em que John Woo e Jackie Chan trabalharam juntos. A parceria entre eles data desde a estréia de Woo na direção em Chacina Em Pequim. Só que nesse caso Jackie Chan foi apenas um dos coreógrafos de luta.

Chacina Em Pequim foi originalmente produzido de forma independente em 1973. Parece que ninguém estava interessado em exibir esse filme até que em 1974 a Golden Harvest comprou os direitos de distribuição e o lançou primeiro em Taiwan, e só em 1975 é lançado em Hong Kong.

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A estória é sobre um ladrão “do bem” Kin (o carismático mas pouco lembrado Henry Yu Yung) que resolve roubar um lote de armas contrabandeadas de um rico bandidão local, Lung (Chiang Nan) que pretendia vender essas armas aos japoneses. Kin exige uma fortuna de Lung pra devolver as armas, mas é lógico que a negociação não se desenrola de forma pacífica. Kin então conhece Fan Ming (Lau Kong, que voltaria a trabalhar com Woo em Jugular Blindada), um policial que aparece na cidade para investigar os negócios ilegais de Lung e, como em quase todos os filmes de Woo, desenvolvem uma forte amizade baseada inicialmente na admiração mútua pelas suas habilidades em kung fu. Não sei não, mas percebi nesse filme também um sentimento meio suspeito entre eles, assim como já citei na resenha do Lâmina Da Morte, he, he, he. Na verdade o que causa essa sensação meio gay entre seus protagonistas é o modo de John Woo filmar os sorrisinhos e os olhares que eles trocam. Felizmente Woo aperfeiçoou sua direção nos anos seguintes.

Ao saber da presença de Fan Ming na cidade, Lung arma uma emboscada pra tentar matá-lo. Kin presencia a emboscada e, acreditando que o amigo está morto, vai com seus amigos até a mansão de Lung pra vingá-lo.

Chacina Em Pequim é um típico basher da época, ainda com bastante influência dos filmes mais trágicos de Bruce Lee e de Chang Cheh. E quando digo trágico não estou exagerando, pois praticamente TODOS os amigos do protagonista vão sendo assassinados um a um até o final, onde o herói, depois de uma violenta e desesperada luta contra o melhor capanga do vilão, Yun (Fung Hak-On, que também voltaria a trabalhar com Woo em Jugular Blindada) também morre! Lógico, não sem antes massacrar o vilão. E seguindo a cartilha de Chang Cheh, o herói não pode morrer numa posição humilhante ou inferior ao vilão. Sendo assim, Kin morre ajoelhado, e não deitado.

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Confesso que quando assisti Chacina Em Pequim pela primeira vez eu tinha quase certeza de que não ia gostar do filme por 2 motivos. O primeiro é que eu não tinha ficado nada impressionado com A Lâmina Da Morte, que era um filme posterior e por isso achava que devia ser melhor do que Chacina Em Pequim. E o segundo motivo é porque eu particularmente não sou muito fã do sub-gênero basher, que são filmes geralmente com clima bem pesado e amargo, e com lutas que parecem mais brigas de rua, sem muita sofisticação. Novamente aprendi que não se deve julgar um filme antes de assistir!

As lutas são melhores do que eu imaginava, especialmente na seqüência final. Falando nessa seqüência, é interessante como a batalha final na mansão do vilão lembra , guardando-se as devidas proporções, o final de Alvo Duplo 2, esse sim um clássico de John Woo. As atuações são ligeiramente melhores do que em A Lâmina Da Morte, o que deixa o drama mais convincente.

Embora esteja longe de ser um clássico, Chacina Em Pequim é um filme de porrada bem decente. Agora, não sei afirmar com certeza se gostei do filme por achar que ia odiar ou se realmente é um bom filme. Recomendo cada um assistir pra tirar suas próprias conclusões.

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