Rajada de Fogo (Once a Thief, 1991), John Woo

por Ronald Perrone

Rajada de Fogo tem uma certa importância especial para a carreira de John Woo, não em relação ao filme em si, mas por proporcionar a continuidade de seu trabalho no cinema. Woo havia acabado a parceria com Tsui Hark; montou sua própria produtora cujo primeiro filme, Bala na Cabeça, embora seja uma grande obra, não foi um sucesso comercial; precisava urgentemente de um filme seguro, que não precisasse correr riscos e que tivesse um bom retorno financeiro. Contratou dois atores com quem já havia trabalhado antes e que possuíam grande apelo popular, Chow Yun-Fat  e Leslie Cheung, desenvolveu um enredo simples sobre roubo de obras de artes, incrementou com cenas de ação eletrizantes, acrescentou toques de melodrama adicionados de um humor pastelão. Acabou acertando em cheio. Rajada de Fogo é um dos filmes mais comerciais de John Woo, um interessante híbrido de ação e comédia que garantiu um público amplo nos cinemas. O filme é, realmente, bastante divertido, embora algumas situações de comédia não funcionem tão bem no meio dessa mistura toda. Os atores estão ótimos, em especial a dupla protagonista, com o falecido Leslie Cheung bastante carismático e Chow Yun Fat totalmente à vontade em seu papel, que carrega boas doses dramáticas e cômicas durante o decorrer da estória. E ainda há a bela Cherie Chung se colocando no meio do triangulo amoroso, embora a força narrativa se concentre na amizade dos dois protagonistas.

Rajada de Fogo, no fim das contas, não chega a ir muito longe dentro da filmografia de Woo, mas é um entretenimento agradável que atende as expectativas do publico menos exigente e não deixa de divertir os fãs do diretor. O filme rendeu quatro vezes mais que seu trabalho anterior, Bala na Cabeça, e permitiu que Woo realizasse sua obra prima, Fervura Máxima, e preparasse para o seu exílio nos Estados Unidos.

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Alvo Duplo 2 (A Better Tomorrow 2, 1987), John Woo

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por Bruno C. Martino

Contrariando uma regra implícita de vários filmes de sucesso chineses, Alvo Duplo 2 continua a contar a saga dos três personagens ao invés de só pegar o título e contar uma outra história. Ainda bem! Aqui, Ho (Ti Lung) está cumprindo pena na cadeia e é recrutado pela polícia para investigar um antigo patrão, Leung (Dean Shek) ao mesmo tempo em que seu irmão Kit (Leslie Cheung) se aproxima da filha de Leung para investigar o homem. Só que a única conclusão a que chegam é que Leung largou a vida de pilantragem e decidiu ser um homem e empresário honesto. O problema é que seus sócios não pensam assim, e após um atentado contra sua vida, Leung é acusado de assassinado e resolve fugir para Nova Iorque. Quando seu sócio Ko (Shan Kwan)- o verdadeiro pilantra do esquema – descobre seu paradeiro, manda matar a filha de Leung e envia mercenários para Nova Iorque pra dar cabo do sujeito. Leung acaba se safando de novo só que desiludido com a vida e ao ver seu amigo padre ser assassinado, entra em choque se transformando numa espécie de autista, que passa a ser cuidado por Ken (Chow Yun Fat). Depois de mais um atentado onde escapa, Leung milagrosamente sai do estado vegetativo que estava e pega em armas ao lado de Ken e Ho contra Ko.

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Escrito por John Woo e Tsui Hark, o segundo capítulo da série soa um pouco desleixado em relação ao anterior (repararam nesse meu resumo como o filme é basicamente um bando de capangas tentando pegar Leung em diferentes momentos?). O roteiro não sabe onde focar, se é no personagem de Shek ou no trio de amigos. Curioso é que o carisma de Chow Yun Fat na série foi tão grande que Hark e Woo conseguiram até arrumar um lugar pro ator na seqüência do filme (já que no primeiro seu personagem original havia morrido). Só que arrumaram uma desculpa das mais esdrúxulas, tipo de novela mexicana: Ken é o irmão gêmeo de Mark (o personagem interpretado por Chow Yun Fat no original)! Não que isso faça muita diferença, já que o que importa é ter Yun Fat distribuindo tiros durante o filme. Curiosamente Ken ainda serve como alívio cômico, diferente do amargurado e trágico Mark. Mas assim como o outro é cool até a medula, como quando usa o sobretudo furado de balas do irmão falecido.

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Alvo Duplo II sofreu diversas remontagens e foi alvo de diferenças criativas entre seus roteiristas, talvez daí se expliquem algumas seqüências desnecessárias ou que se estendem demais, o maior foco no personagem de Dean Shek e o trio principal praticamente apagado. Mas mesmo apagado, os outros atores ainda têm tempo de mostrar serviço como Ti Lung, sempre carismático, e Leslie Cheung aqui dividido entre o amor da esposa que teve um filho e o ofício de policial. A cena em que Kit batiza a filha por telefone, já vale para o personagem deixar sua marca na série. E Ken Tsang reprisa seu papel (o de dono da oficina mecânica) com a competência de sempre (deixem eu ser um pouco tiete: eu adoro esse ator!!)

Mas é no quesito ação que todos os problemas de roteiro, montagem e diferenças criativas são esquecidos. A seqüência de ação no hotel, onde Ken deve proteger Lung de mais uma leva de assassinos é emocionante, e a seqüência final na mansão de Ko é uma das mais antológicas que já vi, com direito a três personagens contra um exército de capangas, onde Chow Yun Fat joga granadas a torto e a direito e Ti Lung acaba com malfeitores a golpes de espada! Sem contar que o rol de vilões ainda conta com um fortão empunhando um machado medieval (!!!) e um pistoleiro que sempre anda de óculos escuros. Este rivaliza com o matador caolho de Fervura Máxima como um dos vilões mais legais de um filme de John Woo. As seqüências de ação são tão boas, que o coreógrafo Ching Siu Tung (de Chinese Ghost Story) foi indicado ao Hong Kong Film Awards.

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Dizem que Woo nunca gostou de fazer seqüências de seus filmes e só fez esse porque Dean Shek estava numa situação financeira não muito boa, e como ele foi co-fundador da Cinema City que produziu este e o primeiro Alvo Duplo (e acolheu Woo após sua saída da Golden Harvest), talvez o diretor achou que devesse prestar essa ajuda ao seu produtor e conhecido desde os tempos da Shaw Bros.

A série ainda tem uma parte 3, dessa vez capitaneada por Tsui Hark sendo esta um prelúdio do primeiro filme. E em 1994, o diretor Wong Jing daria um revival na série com Return to a Better Tomorrow (lançado aqui como A Fúria do Crime), uma lástima que além de não ter nenhum personagem dos originais ainda é estrelado por Ekin Cheng, um ator por quem nunca simpatizei. Estou dando 4 “Van Cleefs”, mais pelas cenas de ação do que pelo resto! Valem a pena!

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Alvo Duplo (A Better Tomorrow, 1986), John Woo

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por Ronald Perrone

Alvo Duplo é um dos filmes mais importantes da carreira de John Woo e demonstra que No Coração do Perigo não foi um acidente de percurso em termos de liberdade criativa. Em 1986, Woo se juntou ao produtor Tsui Hark e  os dois realizaram este clássico instantâneo. O filme ganhou a maior atenção internacional do que qualquer outro trabalho do diretor até aquele período, reinventou o cinema de ação de Hong Kong redefinindo o subgênero Heroic Bloodshed e serviu de trampolim para que o ator Chow Yun Fat se tornasse um astro.

O roteiro é inspirado no filme The Story of a Discharged Prisoner, de 1967, dirigido por Patrick Lung Kong, e conta uma história repleta de cargas emotivas sobre dois integrantes do sindicato do crime de Hong Kong: Ho ( Ti Lung, um dos grandes nomes do cinema de kung fu), e Mark (Chow Yun Fat). Ambos trabalham na divisão de falsificação de dinheiro da organização. Ainda há outro personagem importante na trama, Kit (Leslie Cheung), irmão caçula de Ho que acabou de se graduar na polícia e nem imagina o primogênito de seu pai trabalhando no crime organizado.

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Após uma tragédia que afeta profundamente a vida desses três personagens, John Woo mapeia a narrativa com fortes doses de conflitos psicológicos, transformando Alvo Duplo num autêntico melodrama – característica sempre constante na carreira do diretor. Woo procura trabalhar o sentimentalismo ao extremo, utilizando-se sempre dos mesmos mecanismos: amizade, confiança, perdão, redenção, fraternidade, que é onde o diretor encontra base para extrair a força da sua dramaturgia.

A construção de personagens profundos e o elenco contribuem bastante no resultado, especialmente Chow Yun Fat e Ti Lung, que estão notáveis em seus papéis. Fat, inclusive, foi um dos mais beneficiados pela sua participação em Alvo Duplo. Saiu apontado como autêntico homem de ação dos filmes de HK, seus óculos escuros e o sobretudo ao estilo  Alain Delon em O Samurai, de Jean Pierre Melville, viraram moda entre os jovens da época. Só faltou saírem queimando dinheiro para acender o cigarro, como na emblemática cena em que o personagem também o faz.

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Se Chow Yun Fat está impecável e esbanja carisma em cena, é Ti Lung quem, na verdade, carrega o filme nas costas como o protagonista, com seus conflitos pessoais densos e uma atuação digna de maior reconhecimento. E tudo isso engrandece o filme de John Woo, mas o que realmente chama a atenção são as aguardadas sequências de tiroteios. Woo ainda não havia atingido o seu paroxismo para tais cenas, como já aconteceria em The Killer e Fervura Máxima, mas são muito elegantes em Alvo Duplo, com boas coreografias, uso da câmera lenta e a consagração da imagem do homem com duas pistolas nas mãos distribuindo chumbo nos bandidos.

Alvo Duplo é obrigatório para conhecer as raízes da reputação de John Woo como mestre do cinema de ação. Certamente não é o melhor filme do diretor, que ao longo dos anos fez algumas obras primas do gênero Heroic Bloodshed, mas não deixa de ser indispensável e dá pra ter uma noção do que o sujeito é capaz de fazer.

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