O EXORCISTA (The Exorcist, 1973) William Friedkin

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por Leopoldo Tauffenbach

Tome qualquer lista – qualquer uma mesmo – de melhores filmes feita depois de 1974. Salvo casos restritivos, como uma lista dos melhores dramas de época ou os melhores romances, é bem provável que você encontre O Exorcista, de William Friedkin, desfilando entre as colocações. Eu mesmo, antes de ter idade ou competência para acompanhar listas, cresci sob os brados de adultos sobre a suposta excelência do filme. Como apreciador de filmes de horror eu teria – assim que tivesse idade para tal – que assistir a esse filme com o máximo de urgência.

E foi no início da minha adolescência que minha casa recebeu seu primeiro videocassete. Dos inúmeros filmes que eu alugaria com frequência religiosa nas locadoras do bairro, O Exorcista seria, sem dúvida, um dos primeiros. E assim foi. Preparei-me física e espiritualmente para finalmente conferir o filme que apavorara tantos adultos ao meu redor. Mas antes de comentar a experiência, devo deixar claro que O Exorcista não seria meu primeiro filme de terror. Ao contrário, eu já tinha passado por muitos outros clássicos, como Poltergeist, A Hora do Pesadelo, Sexta-Feira 13, A Morte do Demônio, sem contar as inúmeras produções da Hammer e aqueles genéricos americanos que hoje são considerados cults. E por isso mesmo que O Exorcista pareceu na época uma grande decepção para quem esperava o filme de terror supremo.

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Mesmo decepcionado, nunca desisti do filme, afinal, uma obra tão falada e tão elogiada não poderia ser um fiasco completo como me pareceu então. Seriam necessárias mais algumas revisões para reconhecer que o mundo não estava enganado. Eu era quem estava despreparado para enxergar toda a maestria e excelência do filme de Friedkin. Não convém aqui detalhar cada uma das vezes que assisti ao filme, mas vale dizer que a cada vez o filme ganhava em profundidade e… horror.

Para quem desconhece a trama, tudo começa com um padre realizando uma escavação arqueológica no Iraque. Lá, estranhos eventos parecem cercar o sítio arqueológico e sua própria pessoa. Já nos EUA, uma atriz tem sua vida transtornada pela estranha mudança de comportamento de sua filha, Regan, ao mesmo tempo em que um padre da paróquia local começa a questionar sua fé e a própria existência de Deus. Essas três histórias irão se cruzar diante da possibilidade de Regan ser vítima de uma autêntica possessão demoníaca.

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De um filme intitulado O Exorcista, pode ser frustrante para alguns – como foi para mim – descobrir que a cena do exorcismo está somente no final do filme, em seus últimos 30 minutos. Mas, no final, não é disso que o filme trata. Se fosse não seria reconhecido até hoje como um dos maiores filmes de terror da história. O filme trata de aspectos muito mais sinistros, como a perda da esperança e a possibilidade de que talvez não exista um Deus. Em um dos momentos mais tensos do filme, no intervalo da sessão de exorcismo, o padre Karras indaga o padre Merrin (interpretado com a maestria habitual de Max Von Sydow), como Deus permite que uma criança possa ser possuída pelo demônio trazendo sofrimento a ela mesma e aos que a rodeiam. E não há quem não fique pensando nisso depois de lançada a questão. Pior que a possibilidade de Deus não existir, seria um Deus que simplesmente não se importa mais com os homens, deixando-os à mercê de todo mal. De qualquer maneira não estamos em vantagem alguma.

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Mas o filme não termina de maneira tão trágica. O bem vence o mal, ao menos por enquanto, e nós mortais podemos desfrutar de um pouco de esperança. E para aqueles que esperam um filme à base de sustos e efeitos especiais (o filme possui efeitos especiais excelentes, mas que estão longe de ser a atração principal), fujam de O Exorcista. Este é um filme que fala dos horrores que minam nossas crenças e reduzem nossas esperanças em algo melhor. E não existem monstros de animatronics ou de CG mais terríveis que esses.

Vale lembrar que a versão em circulação em DVD traz cenas adicionais que foram deixadas de fora da versão original. Tendo visto ambas, reconheço que a nova versão pouco acrescenta ao que já existia na versão original. Mas também não chega a atrapalhar, o que já é um ótimo negócio.

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O EXORCISTA (The Exorcist, 1973), William Friedkin

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por Davi de Oliveira Pinheiro

Existe pouco risco em afirmar que O Exorcista é o melhor filme de horror de todos os tempos. É algo confortável, que não cria discussões entre fãs do gênero e aqueles que apenas excursionam pelos raros fenômenos de bilheteria. Permitam-me então ser completamente sem graça e concordar com todo mundo.

Por que tanto amor por um filme baixo como este? No filme de William Friedkin e William Peter Blatty (tão ou mais autor que o diretor, nesse caso), não existe uma elevação do gênero. Pelo contrário, se possui alguma filosofia, um questionamento da existência ou da fé, são discussões arrastadas para a lama, encharcadas pelo que há de menos sutil das sensações humanas. E, talvez por isso, o filme é tão eficaz como entretenimento do susto. Ele tem o requinte de um filme de estúdio americano de primeira grandeza, mas nunca o recorte e suposta sofisticação (ou limpeza) destes. É viscoso, é sujo, é violento, é profano… E é aceitável porque é tão bem feito.

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Não reconhecer que o horror é um gênero baixo é paradoxo. Insistir que podem ser filmes sérios, também vai contra a natureza dessas criações. É pedir para o gênero ser algo que pode tirar sua graça e mesmo “elevá-lo” a outra esfera do cinema. Em O Exorcista temos todos os defeitos que se acusam em muito do horror: sob observação criteriosa, a construção das personagens é fraca, a lógica interna é frágil e a trama pode ser facilmente desfeita em qualquer discussão. No entanto, esta obra-prima, uma das poucas e verdadeiras do gênero (e mesmo de toda a arte cinematográfica) dignas de um museu, se sustenta nas emoções. Nos aproximamos das personagens com facilidade, entendemos seus dramas e vivemos seus medos.

As forças sobrenaturais que definem qualquer filme, que vão além da técnica, também regem o jogo dentro de O Exorcista. A batalha entre o bem e o mal, aparentemente insólita e casual, é um jogo que está armado antes do filme ser concebido. Por que a casa da possuída é próxima a morada do Padre Karras, cuja sentido da fé pode ser definido pela vindoura batalha com o Demônio? Por que o Demônio se anuncia a outro padre que está claramente no crepúsculo da vida e que – de forma sublime – é o Adversário do monstro? Parecem furos de roteiro, uma certa tendência à trama esquemática, mas na verdade são usos das fragilidades do cinema de horror para demonstrar a interferência do divino, de forças incompreensíveis e lidar não só com a fé que está a ser discutida dentro de O Exorcista, mas àquela que o espectador precisa ter para assistir a um filme.

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Não é difícil relacionar o trabalho de Friedkin e Blatty ao que ocorre dentro da obra. Eles não só capturaram quimicamente imagens. Diretor e Produtor/Escritor realizaram um ritual onde as forças do bem e do mal estão em eterno conflito, onde o Padre Damian Karras, uma das melhores personagens de qualquer ficção, está numa eterna repetição onde a perda de sua mãe vai ressoar numa batalha interna contra o Demônio. Serei barato como é o horror: o filme está possuído e, há quarenta anos, os exorcistas somos nós.

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Conan, O Bárbaro (Conan the Barbarian, 1982), John Milius

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A história de Conan gerou uma saga dentro e fora das telas. As origens do projeto datam de 1977, quando o produtor Edward R. Pressman, impressionado pela presença de Arnold Schwarzenneger em Pumping Iron, decidiu materializar o guerreiro cimério criado por Robert E. Howard. Depois de muito tempo, após o projeto ser recusado por diretores como Alan Parker e Ridley Scott, acabou vendido a Dino De Laurentis, que indicou John Milius para reescrever o roteiro e dirigi-lo. Somente cinco anos depois de concebido, o projeto Conan tornaria realidade.

Como aço bruto: Conan aprende a arte da guerra como gladiador

Como aço bruto: Conan aprende a arte da guerra como gladiador

Logo nos primeiros minutos, o narrador anuncia que esta seria uma “história de pesar”. O filme começa com Conan ainda criança assistindo toda sua vila ser exterminada por uma horda de guerreiros. Seu misterioso líder toma a espada de seu pai e decapita sua mãe. Conan é então levado a um lugar ermo, onde se encontra a “roda da aflição”, uma espécie de moinho de trabalhos forçados. Em uma belíssima sequência, vemos o garoto transformar-se em homem, único sobrevivente de uma geração de escravos, até que finalmente é vendido para um homem que o transforma em gladiador. Seu êxito diante de seus oponentes lhe confere benefícios dignos dos maiores guerreiros, como treinamento com grandes mestres orientais e acesso à literatura. Já um grande guerreiro, Conan é libertado por seu senhor, e ele então parte em busca do enigma do aço – o segredo roubado do deus Crom em tempos imemoriais – e dos responsáveis pelo massacre de seu povo. Com a ajuda do arqueiro Subotai (Gerry Lopes) e a bela Valeria (Sandahl Bergman), Conan descobre que o assassino de seus pais é o maligno Tulsa Doom, o sacerdote de um culto de fanáticos que mantém a filha de um rei (Max Von Sidow) em seu poder. Agora Conan deve resgatar a filha do rei Osric e vingar a morte de seu povo.

Da esq. para a dir.: Subotai, Conan e Valeria ouvem uma proposta irrecusável na corte do rei Osric

Da esq. para a dir.: Subotai, Conan e Valeria ouvem uma proposta irrecusável na corte do rei Osric

O roteiro inicial escrito por Oliver Stone talvez fosse mais fiel ao universo fantástico de Howard, repleto de monstros, bruxas e criaturas mutantes. Mas Milius resolveu seguir por outro caminho, ambientando a história em uma época primitiva que poderia muito bem ter existido e, portanto, mais verossímil. Ainda que exista um tom fantástico no filme, ele sempre está sob uma perspectiva mais humana que sobrenatural. Os personagens não convivem de forma natural com a magia, mas reagem à ela com assombro e violência.

O maligno Tulsa Doom realizando lavagem cerebral em seus seguidores

O maligno Tulsa Doom realizando lavagem cerebral em seus seguidores

Extremamente violento, a tragetória do guerreiro cimério é análoga ao enigma do aço que ele tanto almeja descobrir. Como nos vários estágios de confecção de uma espada, Conan é forjado pela brutalidade de um mundo primitivo até se tornar um guerreiro imbatível. É a frase de Nietzche apresentada no início do filme: “o que não nos mata, nos torna mais fortes”. Assim, a resposta ao enigma se dá como no processo de individuação Junguiano: pelo autoconhecimento.

Conan mostra a que veio ao invadir o palácio de Doom

Conan mostra a que veio ao invadir o palácio de Doom

A excelência deste filme se deve à perfeita combinação de todos os seus elementos. Milius dirige com maestria, tirando o máximo dos atores e sempre apontando a câmera para o lugar certo, extraindo o essencial de cada cena para devolvê-las ao espectador com a mesma intensidade de uma obra-prima renascentista. Os magníficos cenários de Ron Cobb dialogam com perfeição com as locações espanholas, que emolduradas pela magistral trilha de Basil Poledouris – uma das mais belas e impressionantes já compostas no cinema – acabam por atuar como personagens essenciais à condução da narrativa.

Conan reza a Crom antes de sua última batalha contra os soldados de Tulsa Doom

Conan reza a Crom antes de sua última batalha contra os soldados de Tulsa Doom

Conan é um épico subestimado; um filme grandioso e memorável, mas colocado em segundo plano na história do cinema, sem nunca ter sido reconhecido por seu verdadeiro valor. Talvez isso seja simplesmente pelo fato de ser um filme à frente de seu tempo. Tal como no final do filme, onde temos a promessa de ver um Conan-Rei, fica a expectativa de que algum dia seja reconhecido como um dos maiores épicos já realizados no cinema.

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Leopoldo Tauffenbach