Three Businessmen (1998), Alex Cox

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por Ronald Perrone

Não é mera coincidência que o nome da produtora de Three Businessmen seja o título de um filme de Luis Buñuel (O Anjo Exterminador, no caso). É na esteira deste grande diretor espanhol que Alex Cox realiza este que talvez seja o seu trabalho mais experimental. E isso, vindo de quem realizou obras como Repo Man, Straight to Hell e já adaptou Borges para o cinema, significa muita coisa.

Three Businessmen é um ensaio sobre dois comerciantes de arte, um americano (Miguel Sandoval) e um inglês (o próprio Cox), que se conhecem no restaurante do hotel onde estão hospedados em Liverpool. Até este ponto, a narrativa é constituída por situações estranhas sutilmente inseridas. Os dois personagens se apresentam e conversam enquanto esperam o garçom trazer seus pedidos, mas a demora incomum faz com que eles cheguem a cozinha do hotel e descubram que o local está completamente deserto. O hotel inteiro está vazio.

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Famintos, resolvem sair para comer em outro lugar e é a partir deste ponto que se inicia uma peregrinação na qual Cox dá vazão aos seus experimentos, às suas ideias surrealistas e questões filosóficas, mas sem querer soar incompreensível ou complexo demais.  Não propõe ao espectador nenhuma exigência intelectual, apenas coloca diante de suas câmeras dois grandes personagens dialogando banalidades pós-modernas e filosofia de boteco. Embora soe mais preciso e interessante que muito filme intelectualmente engajado por aí…

Vagando noite adentro, seja em longas caminhadas ou meios de transportes público, as duas figuras se perdem e não percebem que acabaram saindo de Liverpool, aliás, saíram da Inglaterra, e percorreram vários lugares ao redor do mundo, em várias grandes metrópoles espalhadas pelo globo, como Tóquio, Rotterdam, algures na Espanha, China, sem que haja uma percepção consciente desse fato. Os personagens se mantém indiferentes, preocupados apenas em manter suas posições filosóficas e na busca por um bom restaurante, e não se dão conta de que não há limites geográficos no universo de Three Businessmen.

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De todo modo, mesmo percorrendo várias cidades, os personagens nunca conseguem fazer a refeição que tanto desejam. São sempre atrapalhados por impasses e situações estranhas, como se uma força sobrenatural os impedissem, assim como os burgueses de, novamente, Buñuel em O Discreto Charme da Burguesia.

Ainda há a chegada de um terceiro personagem já quase ao final da projeção, quando Cox realiza a sua própria, e belíssima, representação da história bíblica dos três reis magos.

Embora o diretor não seja um extremo erudito, Three Businessmen é inteligente, Cox tem pleno conhecimento de mise en scène trabalhando com apenas dois atores, na maior parte do tempo, e suas relações quase orgânicas com os espaços visitados,  por mais absurdo que seja, além de ser uma obra aberta a várias possibilidades interpretativas. Uma pequena jóia dos anos 90 e curiosamente pouco comentada, até mesmo pelos apreciadores do diretor.

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The Death and the Compass (1992), Alex Cox

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por Leandro Caraça

A BBC inglesa propôs para Alex Cox uma adaptação do romance La Muerte y la Brújula do escritor argentino Jorge Luis Borges. A obra, com fortes doses de romance policial e Kafka na composição, foi de início rodada como um filme de 55 minutos apenas que chegou a ser exibido na televisão inglesa e espanhola. Falta de fundos e problemas legais conspiraram contra a idéia de Alex Cox transformar o material existente num longa metragem. Somente quatro anos mais tarde, graças ao dinheiro ganho com o renegado The Winner, o filme teve os negativos recuperados e com cenas adicionais, chegou à duração de 96 minutos no total. The Death and the Compass é o mais rebuscado trabalho de Cox, com uma fotografia caprichada e cenografia elaborada. Ambientado num futuro governado por forças opressoras e com as ruas repletas de criminosos, a história é narrada por Treviranus (Miguel Sandoval, presença comum nos filmes de Alex Cox), chefe de polícia que se junta ao detetive Erik Lonnrot (Peter Boyle) para capturar Red Scharlach, uma misteriosa figura que pode estar por trás de uma série de assassinatos ligados a um culto cabalístico. O diretor costura bem cenas antigas com novas de maneira imperceptível, e mostra firmeza ao fazer uso da tática de cinema guerrilha em algumas tomadas. É uma pena que seja um trabalho pouco conhecido, assim como quase tudo que Cox fez a partir dos anos 90, quando deixou de interessar a críticos e formadores de opinião.

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