CAMINHO PARA O NADA (Road to Nowhere, 2010), Monte Hellman

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por Marcelo Miranda

“Abaixa a arma!”, grita o policial diante da janela onde o cineasta Mitchell Heaven aponta uma câmera para o lado de fora. No clímax de Caminho para o Nada, a câmera é a grande arma, com seu poder de registrar o momento, de imortalizar o tempo, de permitir a reprodução (artificial, sempre) de determinado acontecimento. Ali estamos na derrocada de Heaven tanto quanto em seu ápice criador, em que vida e arte se misturaram definitivamente e o que lhe resta é usar o equipamento como forma de olhar e ser olhado pelo mundo que se despedaça ao redor.

Caminho para o Nada é a volta de Monte Hellman à direção depois de 20 anos afastado do ofício. Trata-se de seu filme mais autorreferencial (as iniciais dos nomes do realizador e do personagem não são iguais por acaso), aquele no qual ele cria um alter ego que parece refletir seu próprio estar no mundo da arte. Hellman, criador mítico, autêntica lenda do cinema americano inventivo e sem concessão, incorpora em Heaven a moral que lhe move, a impetuosidade que o tornou tão reverenciado quanto amaldiçoado, a verve crítica e política de quem chega aos 80 anos e decide questionar o ofício que exerce e seu próprio papel dentro da engrenagem.

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Mitchell Heaven é o cineasta que abre mão de ter Scarlett Johansson no elenco do filme que prepara em benefício de uma atriz completamente desconhecida (por não ser atriz, afinal) que lhe será, também, uma musa pessoal. Quando a relação amorosa atingir o ápice (embalado por sessões de clássicos do cinema de Preston Sturges, Victor Erice e Ingmar Bergman), o universo de Heaven já estará completamente mesclado entre o que ele filma e o que ele vive. Muito significativo que Monte Hellman tenha escolhido um elenco igualmente “anônimo” para seu filme – basta pensar que a figura mais famosa em cena é a gracinha Dominique Swain, cuja aparição notória nas telas ainda é na versão de Lolita feita pelo picareta Adrian Lyne no já longínquo ano de 1997.

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Sob certo aspecto, Caminho para o Nada se assemelha a Cidade dos Sonhos (2001), de David Lynch. Mas se, neste, a ironia com Hollywood está na chave do pesadelo e do delírio, em Hellman a questão é mais próxima de uma ideia de crônica – ou do relato objetivo (ainda que não linear ou necessariamente realista) proporcionado pelo choque entre diversos personagens circulando num meio marcado pela ambiguidade. Talvez, ao seu modo, Caminho para o Nada se aproxime mais de O Desprezo (1963), de Jean-Luc Godard, na maneira ácida (e áspera) com que trata de seu universo central. Curioso que os três filmes relacionados aqui sejam essencialmente devastadoras histórias de amor, enquadradas pela lente alegórica das ilusões proporcionadas pelo selvagem mundo do cinema.

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Como em toda sua obra pregressa, Hellman faz em Caminho para o Nada o mergulho no íntimo daqueles que retrata, sem por isso nos permitir ver essas figuras por completo. Em narrativas rarefeitas como as de Disparo para Matar (1966) ou Corrida sem Fim (1971), a figura humana sempre ganhou status mítico, de algo intocável e inquebrantável, cósmico e reflexivo. Para transmitir tais sensações, Hellman estica o tempo das cenas e das situações, provocando estranhamento na forma como encadeia o enredo, muitas vezes eliminando a progressão dramática, de forma a fazer os filmes chegarem ao fim sem nos permitir acessar completamente o conteúdo daquilo a que assistimos.

O procedimento está em Caminho para o Nada de maneira especialmente notável, pois surge imperceptivelmente aos nossos olhos. Se inicialmente o filme se constitui de duas narrativas (a do “filme dentro do filme” e daquilo que acontece do lado de fora), logo as certezas desaparecem, quando se misturam não apenas o tempo, mas o espaço e mesmo a instância narradora. Nunca há segurança plena naquilo a que se assiste em Caminho para o Nada. Essa porosidade é um dos elementos mais instigantes a tornar o trabalho de Monte Hellman algo de muito especial.

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É sempre um privilégio ver um cineasta da envergadura de Hellman se ater tão cuidadosa e inventivamente ao que está fazendo – e mais ainda ao colocar em xeque as próprias certezas. Mais forte ainda o fato de que Caminho para o Nada termina por ser a tragédia de um homem cuja grande ambição é estar à margem, assumir uma postura sem respeito a padrões e enxergar a arte como o estímulo a algo bem maior do que a obra em si. Tudo isso num filme de sabor agridoce, em que os caminhos – como o título adianta – vão, de fato, a lugar algum.

Numa das várias críticas escritas sobre o longa na época do lançamento em cinemas, uma destacava que a tradução brasileira do título original do filme criou uma eventual e oportuna ponte poética: a possibilidade de a expressão ser lida como uma declaração em primeira pessoa (“caminho para o nada”). A coerência é que este “lugar algum”, este “nada” para onde o filme nos carrega, é o lugar para o qual Monte Hellman prefere se direcionar e por lá permanecer.

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NOITE DO SILÊNCIO (Silent Night, Deadly Night III: Better Watch Out!, 1989), Monte Hellman

por Ronald Perrone

Na época que assisti ao slasher natalino Natal Sangrento da primeira vez, me interessei em ver a série inteira logo de cara. Conferi quem eram os diretores das sequências e me veio a surpresa: nunca imaginei encontrar o nome de Monte Hellman relacionado a um deles. Sim, estou falando do homenageado d’O Dia da Fúria, um dos grandes mestres do cinema independente americano, que nos brindou com obras do calibre de Two-Lane Blacktop, Galo de Briga e westerns existencialistas, e que surge aqui na direção desta continuação de um slasher qualquer dos anos 80. A única explicação que eu vejo pra isso é o desespero de um artista tentando ganhar um trocado para pagar as contas no fim do mês…

Até porque o fato de ser o Hellman na realização acabou por não significar muita coisa. Silent Night, Deadly Night III não possui qualquer ligação com o cinema do homem, apesar da tentativa. Geralmente, seus filmes são lentos, reflexivos, mas tentar fazer a mesma coisa por aqui só resultou mesmo num terror fraquinho, sem inspiração. Não chega a ser um desastre total, mas é ruim até diante do segundo filme da série, que apesar de infame, diverte facilmente.

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Confesso que esperava mais. Gosto de acreditar que alguém como Hellman poderia entrar no meio de uma série de slasher meia boca e fazer uma pequena obra-prima, botar os demônios pra fora e foder de uma vez a mente do espectador! Digamos que o Ingmar Bergman, por algum motivo, logo após Fanny & Alexander, tivesse decidido fazer um dos episódios de Sexta-Feira 13, ou o Martin Scorsese optasse, no início dos anos 90, tomar o lugar do Albert Pyun em Kickboxer IV… Eu ia achar o máximo! E foi mais ou menos com esse pensamento que eu encarei SNDL III.

A história começa num hospital, onde um médico faz experiências com uma garota cega, que é uma espécie de paranirmal, colocando-a para dormir cheia de fios ligados à cabeça, tentando fazê-la ter algum contanto, através de sonhos, com o assassino do segundo filme, que está em coma no quarto ao lado e desta vez é interpretado pelo Bill Moseley… o mesmo assassino que, pelo que consta nos autos, teve a cabeça decepada!

A ideia que tiveram para trazê-lo de volta, e com vida, é absurda, mas é até interessante e engraçada até certo ponto. O cara teve o cérebro reconstruído e agora tem uma cúpula de vidro no alto da cabeça que deixa seu cérebro à mostra, algo típico de um quadrinho ou desenho animado das Tartarugas Ninjas! Nem tudo é de se jogar fora por aqui…

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A cega e seu irmão, junto com a namorada, vão para a casa da avó passar o natal, numa propriedade afastada da cidade. Só que o assassino acordou do coma e voltou a fazer suas vítimas desenfreadamente. Uma conexão psíquica com a cega, sequelas das experiências, faz com que o sujeito vá atrás da moça, deixando um rastro de corpos pelo caminho até a casa isolada que os protagonistas se encontram.

O problema é que quase todas as mortes de SNDN III são off screen, os diálogos são horrorosos e a estrutura do filme beira o amadorismo, assim como a noção de tempo, especialmente no último ato. Até sei apreciar alguns exemplares ruins assim, especialmente quando dirigidos por certos diretores notórios pela falta de talento, como um Uwe Boll ou Albert Pyun. Só não esperava algo do tipo realizado por um verdadeiro mestre.

Dos poucos momentos que realmente prestam é a Laura Harring, em início de carreira, deliciosa e bem à vontade dentro de uma banheira. Robert Culp, que vive o tenente encarregado no caso, também não decepciona. A protagonista é interpretada pela bela Samantha Scully, que lembra um pouco a Jennifer Connelly. Acho que os realizadores tinham uma tara por essas morenas de sobrancelhas grossas, vide Dario Argento em Phenomena

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No fim das contas, é uma tentativa torta do Monte Hellman no universo slasher, que recomendaria ao menos uma espiada… É possível que num bom dia alguém desfrute mais do que eu dessa chatice. Na época, o filme foi lançado direto no mercado de vídeo. No Brasil recebeu o título de Noite do Silêncio.

IGUANA – A FERA DO MAR (1988), Monte Hellman

por Marcelo V.

“I used to joke that some films contain gratuitous sex and violence and that ‘Iguana’ has no gratuitous sex and violence – it’s about sex and violence.” – Monte Hellman

Adaptação de um romance de Alberto Vasquez-Figueroa, que por sua vez foi inspirado por duas histórias reais (mas há quem veja relação com Queequeg, o arpoeiro de “Moby Dick“, além de “O Fantasma da Ópera” e “A Bela e a Fera“), Iguana é a história de um homem marcado pelo sofrimento. Após apenas 50 segundos de filme, já vemos Oberlus (Everett McGill, uma espécie de novo Jack Palance e especialista em papéis que exigem maquiagem pesada, como o homem das cavernas de “A Guerra do Fogo” e o lobisomem de “Bala de Prata” _ é também o Ed de “Twin Peaks“) sendo torturado pelos companheiros de labuta. Desprezado por ter o rosto desfigurado por feridas que lhe conferem uma aparência de réptil, o marinheiro que a certo ponto diz amar o mar, mas odiar os navios, também é alvo de preconceito por ser praticante de vodu. Mas seus deuses logo o abandonam, permitindo que ele seja novamente torturado após fugir e fazer um ritual que não rende os frutos desejados. Isso o leva a renunciar a deuses e demônios, a arrancar com uma faca a tatuagem religiosa que carregava no braço e a declarar “guerra à humanidade”. A partir de então, ele se dirá senhor de uma ilha em Galápagos e escravizará todos os que aportarem por lá.

Paralelamente a isso, somos apresentados à figura feminina principal, Carmen (Maru Valdivielso, de “Os Amantes do Círculo Polar“). Durante os 40 primeiros minutos, Hellman, também montador do filme, faz esse vaivém entre os dois protagonistas por meio de cenas curtas (às vezes, apenas um plano de poucos segundos) e eficientes, avançando o enredo e antecipando o momento em que eles se encontrarão. Carmen nos é apresentada como uma feminista avant la lettre, sempre exigindo liberdade de seus amantes. Liberdade que ela perderá ao se tornar escrava de Oberlus, dando início a uma relação sadomasoquista. Quando Oberlus se oferece para tirar as correntes que a prendem, ela diz que se acostumou com elas: “São como joias“. Ela também ouve de Oberlus que gosta de ser sua “escrava e de ser enrabada. Se você um dia escapar, não encontrará alguém como eu“, ameaça.

Essa relação captor/capturado, com requintes de síndrome de Estocolmo, é reproduzida também entre Oberlus e seu primeiro prisioneiro, o Sebastián de Michael Madsen. A princípio alvo de abusos (é mutilado pelo seu mestre a cada pequena transgressão) e reconhecendo que o senhor da ilha se tornou louco como “todos os reis”, que devem ser mortos “antes que eles nos matem“, será promovido a ajudante de Oberlus. Ao ser acusado por um colega de ter se tornado um escravo obediente, responde que não vê sentido em ficar na linha de fogo. Os dedos cortados por Oberlus, o que o incapacitaria de empunhar uma pistola, se tornarão desculpa para a fidelidade canina. Tanto ele quanto Carmen, em diferentes pontos da história, terão a vida de Oberlus em suas mãos e agirão de maneira distinta.

O mesmo não acontece com Dominique (Joseph Culp), o escravo letrado e sensível que é levado por Oberlus a cometer um ato contra a sua natureza. A pedido de seu captor, ele o ensina a ler e a escrever, para que o monstro possa “contar ao mundo” o que lhe aconteceu. Apesar de sua crueldade (ele diz a Carmen que é cruel porque quer respeito, e mesmo que não o consiga, o medo que causa nos outros lhe é suficiente), Oberlus se mostra interessado por literatura (diz que gosta de todos os livros, menos da Bíblia). Chega a discutir “Dom Quixote” com Sebastián (pergunta a ele se Dulcineia é uma puta ou uma santa) e, ao invadir seu antigo navio e raptar seu antagonista, Gamboa (Fabio Testi), vê um volume de “Odisseia” e pergunta se é fato ou ficção.

As marcas na face de Oberlus, causa e mais óbvio indício de suas agruras, fazem com que ele se diga capaz de matar a própria mãe. Ao ouvir de Carmen que sua aparência não justifica seus atos violentos, Oberlus simplesmente não tem resposta. A evidente chaga física o persegue até em pesadelos, quando a coloca na face de uma bela garota que aportou na ilha e o encantou como a sereia que quase vitimou Ulisses: um ideal de mulher como a Dulcineia de Quixote, que ele se recusa a capturar e cuja versão mundana e carnal ele encontrará em Carmen. Em Carmen, ele também vê um monstro, como em seu reflexo na água, que busca após ouvir a bela e misteriosa jovem cantar. “Ter me matado não seria assassinato“, ele diz à sua mais íntima vítima, dando uma pista de sua atitude mais radical e redentora, que virá no clímax da história.

O sofrimento que sente na pele e impõe aos outros pela escravidão, pela tortura e pelo estupro é o que move Oberlus quase o tempo todo, mas evitar que um outro sinta a mesma dor se torna finalmente um objetivo sublime, que pode ser interpretado como mais um de seus atos monstruosos ou como uma demonstração definitiva de amor e de misericórdia, coisas que ele nunca conheceu (as correlações disso com certas posições que afrontam algumas religiões cristãs não me parecem uma mera coincidência). “Você não terá de sofrer como eu” são as últimas palavras de ouvimos de Oberlus, neste belo e complexo filme dedicado a Warren Oates.

A VOLTA DO PISTOLEIRO (China 9, Liberty 37, 1978), Monte Hellman

por Cesar Alcázar

Entre a realização de duas obras-primas do western concebidas por Monte Hellman no fim dos anos 1960, The Shooting e Ride the whirlwind, e a produção do western crepuscular China 9, Lyberty 37, mais de uma década se passou. Nesse período, Hellman dirigiu seus títulos mais famosos, que embora sejam hoje objeto de culto, nunca lhe trouxeram o reconhecimento merecido, sobretudo em seu país de origem.

A recepção mais calorosa da obra de Hellman pelo público europeu fez com que o cineasta buscasse projetos no Velho Mundo. Depois de uma fracassada parceria com a Hammer Films (acabou demitido durante a filmagem de Shatter), veio a oportunidade de voltar ao western em uma produção italiana. Esta visita ao então agonizante Spaghetti Western resultou em China 9, Liberty 37.

A trama, de aparente simplicidade, começa com o pistoleiro Clayton Drumm (Testi) esperando pela própria execução em uma cela de cadeia. Para sorte do matador, antes da sentença ser cumprida, ele recebe uma proposta irrecusável de alguns barões ferroviários: a liberdade (e a sua vida) em troca do assassinato do fazendeiro Matthew Sebanek (Oates), que está atrapalhando a construção da estrada de ferro devido à sua recusa de vender a terra onde vive. Até aí, tudo muito corriqueiro. A história se complica com a amizade que surge entre Drumm e Matthew, e piora ainda mais com a atração irresistível da esposa de Matthew, Catherine (Agutter), pelo matador de aluguel.

Como em todos os seus filmes, Monte Hellman dá grande atenção à construção de personagens, proporcionando aos atores um ótimo material. Até Fabio Testi, astro pouco expressivo, tem excelente desempenho em um papel cheio de nuances. Longe dos pistoleiros estóicos costumeiros do SW, seu Clayton Drumm é um homem cheio de dúvidas, perdido entre suas definições de certo e errado, e até mesmo covarde (como na cena em que usa uma prostituta como escudo). Warren Oates interpreta com sua habitual maestria o fazendeiro (e ex-pistoleiro) Matthew, um personagem que poderia muito bem ser vilanesco, mas que acaba por conquistar a simpatia do espectador. Por fim, a bela Jenny Agutter tem uma atuação convincente como a jovem esposa descobrindo sua sexualidade.

China 9, Lyberty 37 nunca atingiu o patamar de cult dos outros westerns de Hellman. Ainda assim, as qualidades e peculiaridades (como a grande quantidade de cenas de sexo e nudez, algo pouco comum no gênero) do filme foram suficientes para evitar sua queda no esquecimento, mantendo o interesse do público sempre renovado. Sem dúvida, um desses atrativos peculiares é a rara aparição do cineasta Sam Peckinpah como ator. O velho Bloody Sam (com a aparência já bastante desgastada pelos excessos) está muito bem no papel de um escritor de dime novels interessado em comprar a história do pistoleiro Drumm.

ME CHAMAM O DESTRUIDOR (Shatter, 1975), Monte Hellman

por Leandro Caraça

Uma das últimas produções para cinema da Hammer Films, acumulou diversos problemas durante suas filmagens e que apenas ajudaram a justificar o fim melancólico que a empresa teria logo mais. Com o declínio do horror à maneira clássica nas bilheterias, a Hammer partiu para novos rumos, tentando chamar a atenção do público dos anos 1970. Um acordo feito com a companhia chinesa Shaw Brothers para a realização de três filmes foi um ato de desespero, visto que essas duas empresas possuiam uma maneira de trabalhar completamente diferente. Se Roy Ward Baker já havia reportado problemas nessa parceria em A Lenda dos Sete Vampiros (1974) – que fora uma tentativa de levar a figura do Conde Drácula para o Oriente – as coisas apenas iriam piorar em Me Chamam o Destruidor. Para assumir o posto de diretor, Monte Hellman pode parecer uma escolha meio inusitada a primeira vista, mas na sua trajetória, a Hammer Films contratou diretores norte-americanos marginalizados ou descontentes com o sistema dos estúdios, como Robert Aldrich em A Dez Segundos do Inferno (1959) e Joseph Losey em Os Malditos (1963).

Stuart Whitman interpreta Shatter, um veterano assassino de aluguel que acaba de liquidar um ditador de um país africano fictício. Viajando a Hong Kong para coletar o pagamento, descobre que não fora contratado pelo governo britânico mas sim pela máfia. Sem receber o dinheiro e perseguido por diferentes grupos que o desejam morto (e os documentos do finado ditador que estão em seu poder), Shatter se alia a Tai Pah (Ti Lung), um barman que por conveniência também é um mestre em artes marciais, e a bela Mai-Mee (Lily Li, ou Li Li Li se preferirem), massagista profissional. O trio decide ir em busca de respostas e também arma um plano para chantagear Leber (Anton Diffring), o banqueiro que serviu de contato para Shatter em seu último trabalho. A trilha sonora de David Lindup (no melhor estilo do Blaxploitation, com uma batida funk acentuada) e as cenas de lutas não deixam dúvidas de que estamos assistindo a um filme de ação dos anos setenta. A presença de Stuart Whitman com sua fisionomia cansada, num papel másculo, também é típica do período. Mais tarde, ele seguiria o mesmo caminho de outros velhos atores americanos e faria policiais italianos. No elenco, também temos Peter Cushing no papel do agente do MI6, Paul Rattwood. Sempre uma presença carismática, esta foi sua última aparição num filme da Hammer.

Após três semanas, Monte Hellman acabou demitido por Michael Carreras, o chefão da Hammer Films por estar muito atrasado em relação ao cronograma de filmagens. De acordo com Hellman, a equipe dos Shaw Bros estava trabalhando 24 horas por dia em três filmes ao mesmo tempo, e justamente em Me Chamam o Destruidor eles aproveitavam para se revezar e dormir um pouco. Whitman por sua vez, ao término de um dia de trabalho sempre rumava em direção a algum bar para tomar umas e outras. Carreras assumiu o comando, como havia feito em Sangue no Sarcófago da Múmia (1971) por decorrência do falecimento do diretor Seth Holt. Terminada a rodagem, Carreras levou seis meses para finalizar a edição e lançar o filme. Shatter fora realizado entre Corrida Sem Fim e Galo de Briga, mas acabou lançado nos EUA somente depois, em 1975, com o título They Call Hill Mr. Shatter. Monte Hellman garante que 80 por cento do que está presente foi rodado por ele, em especial todas as cenas envolvendo atores caucasianos. Todas a peripécias enfrentadas deram ao filme um ritmo um tanto quanto travado às vezes. Temos um filme de ação, rotineiro e passável, mas que em certos momentos parece querer ser algo mais. Em meio a cenas de pancadaria com Ti Lung e mísseis lançados em quartos de hotel, veremos a jornada existencial de Shatter, de maneira não muito diferente do que Hellman costuma apresentar.

GALO DE BRIGA (Cockfighter, 1974), Monte Hellman

por Cesar Alcázar

O genial diretor Monte Hellman e o não menos fantástico ator Warren Oates realizaram quatro filmes juntos. Embora pouco assistidos em seu tempo (The Shooting – 1967 – sequer foi exibido no circuito comercial americano), hoje eles possuem uma legião de admiradores que se encarregaram de imortalizar a obra desta dupla lendária. Hellman foi um dos poucos diretores a enxergar Oates como um herói, oferecendo a ele grandes papéis. Cockfighter, de 1974, é provavelmente o seu trabalho mais conhecido, ao lado de Corrida sem fim (Two-Lane Blacktop – 1971).

Em Cockfighter, Oates interpreta Frank Mansfield, um treinador de galos de briga. Ele é tão explosivo e violento quanto os animais que treina. Mas esta sua impulsividade o faz entrar em uma aposta contra Jack Burke (Stanton). Resultado: seu melhor galo é morto na noite anterior a disputa de “Galo de Briga do Ano”. Burke adverte Mansfield: “Você tem dois grandes problemas: você bebe demais e FALA demais!”. Devido ao seu comportamento obsessivo, Frank faz um voto de silêncio e mergulha em uma nova jornada rumo ao seu objetivo: ser o treinador de galos do ano. Mesmo que isto lhe custe todas as suas posses, sua família e a mulher que o ama (Patricia Pearcy).

Com produção de Roger Corman (que relançou o filme com o título mais “comercial”, Born to kill!) e belo trabalho de edição e trilha sonora, Cockfighter é um filme belíssimo. Warren Oates, mais uma vez, tem atuação inspirada, mesmo que seu personagem só tenha diálogos em duas cenas (sem contar algumas narrações em off)! A expressividade do ator é tão envolvente que fica impossível para o espectador não se identificar com o personagem.

As brigas de galo são apenas o pano de fundo para a jornada de Frank Mansfield, mas Hellman não deixa de explorar (e denunciar) a brutalidade do esporte. Algumas cenas são bastante sangrentas e revoltantes. O diretor inclusive, recusou-se a filmar algumas delas, deixando o serviço sujo para o editor Lewis Teague. Entretanto, o mais impressionante é a parte humana do “espetáculo”. Monte Hellman captura o frenesi homicida dos espectadores das lutas em toda sua selvageria, uma sede de sangue que contrasta com a frieza dos treinadores.

O DVD americano, lançado pela empresa Anchor Bay, contém um ótimo documentário sobre Warren Oates, um dos melhores atores de sua geração que infelizmente é pouco lembrado pela mídia. Cockfighter foi lançado em DVD no Brasil pela Platina Filmes com o título Galo de Briga, em uma edição simples, sem extras.

CORRIDA SEM FIM (Two-Lane Blacktop, 1971), Monte Hellman

por Leopoldo Tauffenbach

Imagine-se vivendo em 1970. O cantor James Taylor lança seu segundo e multipremiado disco, Sweet Baby James, que, em 2003, ficou com o 103º lugar na lista dos 500 maiores álbuns de todos os tempos da revista Rolling Stone. A banda The Beach Boys lança um de seus melhores álbuns, Sunflower, que conta com participação destacada do baterista Dennis Wilson como produtor e compositor, e também foi incluído na lista da Rolling Stone. No cinema, filmes como Bullit (1968), Um Golpe à Italiana (1969) e Sem Destino (1969) tornam-se obras extremamente populares e bem sucedidas, principalmente pela maneira como se utilizam de carros e motos como coadjuvantes. Dito isso, imagine receber a notícia de que 1971 seria o ano de estreia de um filme com carros estrelado por James Taylor e Dennis Wilson nos papeis principais. Adicione o veterano Warren Oates e a gracinha estreante Laurie Bird para compor o elenco de apoio. O mais certeiro seria apostar em uma obra com uma trilha sonora memorável e repleta de cenas de perseguições e ação ininterrupta. Certo?

Dennis Wilson é o mecânico e James Taylor é o motorista.

Errou feio quem concordou com o filme de ação definitivo dos anos 70. A verdade é que Corrida Sem Fim subverteu todos os clichês possíveis do que poderia ser mais um exemplar de car chase movie ao criar uma obra que cai para e reflexão existencial e que abusa do silêncio, colocando os carros para rodar atrás de objetivos que não parecem dignos o suficiente de se alcançarem.

James Taylor é o motorista e Dennnis Wilson o mecânico. Juntos eles andam em um Chevy 55 atrás de rachas para competir. Em uma parada eles conhecem a garota interpretada por Laurie Bird que, por não ter nada melhor a fazer, resolve acompanhá-los. Ao longo do caminho eles vão cruzando com um G.T.O. amarelo, pilotado por Warren Oates. Mais adiante, em um posto de gasolina, os motoristas de ambos os carros se confrontam e resolvem apostar uma corrida até Washington, valendo os documentos de propriedade do carro. Começa então uma corrida pouco comum, onde todos os envolvidos parecem se utilizar dela para atingir objetivos pessoais que habitam secretamente em cada um.

O motorista e o mecânico possuem um relacionamento distante, e os momentos de aproximação obrigatoriamente envolvem o carro ou o próximo racha. A única linguagem que conhecem é a dos carros e corridas. Neste mundo mecanizado por eles, as relações são como peças, com seus encaixes lógicos e perfeitos, mas frios. Não que os personagens sofram de falhas morais. Jovens, eles ainda estão para descobrir a complexidade das relações humanas e da vida. E é justamente a garota, perdida e desiludida, que ensinará as primeiras lições de um alfabeto desconhecido para eles.

A jovem Laurie Bird como a garota que mudará a cabeça do motorista James Taylor.

G.T.O., por outro lado, é um sujeito que implora por relacionamentos, mas demonstra ao longo do filme ser incapaz de sustentar um. Em sua viagem está sempre acompanhado por caronas, que se esforça em pegar não por caridade, mas pela necessidade de ouvintes que deem atenção a suas histórias inventadas e que amenizem as dores de seu complexo de inferioridade. Mas a situação piora para o personagem a partir do momento em que ele se passa a se sentir humilhado pelos jovens que dirigem um carro supostamente menos potente que o dele. Para todos os envolvidos, a corrida até Washington transforma-se em uma bela jornada de aprendizado rumo à superação.

Warren Oates em seu G.T.O., acompanhado de um de seus inúmeros caronas.

A competência de Hellman é duplamente apresentada neste filme: como diretor e montador. Depois de várias revisões, é muito difícil imaginar se outros profissionais conseguiriam se aproximar do mesmo grau de sensibilidade obtido por Hellman a partir do roteiro dos estreantes Floyd Mutrux, Rudy Wurlitzer e Will Corry. Tanto a direção como a montagem são precisas, mas extremamente orgânicas e fluidas. Humanas, como o próprio filme pede. Segundos a mais ou a menos em cada uma das cenas poderia ter alterado substancialmente o filme, ainda que haja quem discorde. Créditos também devem ser dados ao departamento de som, responsáveis por criar os sons que muitas vezes complementam ou substituem os raros diálogos do filme. Mas há de se admitir que Corrida Sem Fim talvez não seja um filme para qualquer um. O espectador médio talvez encontre ali um filme sobre carros e uma corrida sem vencedores. O filme de Hellman requer muita sensibilidade para se constatar, ao final, que não se trata de um filme de carros e que todos os personagens – inclusive o próprio espectador – são, ao mesmo tempo, constantes vencedores e perdedores nessa corrida.

A estrada, sem linha de chegada.

PS.: o título original do filme, Two-Lane Blacktop, refere-se à estrada asfaltada (blacktop) de pista dupla (two lane).

DISPARO PARA MATAR (The Shooting, 1966), Monte Hellman

por Cesar Alcázar

Nos primeiros anos de sua carreira, Monte Hellman trabalhou diversas vezes com o diretor e produtor Roger Corman, exercendo variadas funções. Foi justamente o “Rei dos filmes B” que ofereceu a Hellman suas primeiras oportunidades como diretor. Em 1964, o então desconhecido Jack Nicholson teve seu caminho cruzado com o de Hellman durante a produção simultânea de Back door to Hell e Flight to fury, filmados nas Filipinas sob o patrocínio de Corman. O entrosamento entre os dois foi instantâneo e juntos prepararam novo projeto. Logo depois, ofereceram este projeto à Corman, que achou o roteiro de Nicholson sobre a questão do aborto muito deprimente e pouco comercial. Entretanto, o genial produtor sugeriu para a dupla a produção de dois Westerns nos moldes das películas realizadas nas Filipinas. Muito interessados, começaram logo a trabalhar: enquanto Nicholson escrevia o que veio a ser Ride in the whirlwind, a roteirista Carole Eastman concebeu o enigmático The Shooting.

A intricada trama começa com o ex-pistoleiro Willet Gashade (Warren Oates) chegando ao acampamento de mineração que possui em conjunto com outros três sócios. Gashade desconfia que estava sendo seguido, e encontra o jovem Coley (Will Hutchins) completamente desesperado. Coley explica à Gashade que, durante a ausência deste, um dos sócios da mina havia sido assassinado por um atirador desconhecido logo após a partida misteriosa de Coin, irmão de Gashade. No dia seguinte, uma mulher (Millie Perkins) chega ao acampamento e oferece mil Dólares à Gashade e Coley para guiá-la através do deserto até uma cidade chamada Kingsley. Durante a árdua viagem, Gashade percebe que a mulher está na verdade procurando por alguém. Em seguida, um pistoleiro psicótico, Billy Spear (Jack Nicholson), se junta ao grupo. Ele fora contratado pela mulher, e estava os seguindo à distância. A tensão entre eles aumenta na medida em que entram cada vez mais no deserto. Qual o motivo da jornada? Qual a real intenção da estranha mulher? Resta a Gashade resolver o mistério para conseguir sobreviver.

Nunca houve outro Western como The Shooting. Em um gênero acostumado a dramas e aventuras, a natureza estranha e quase incompreensível desta obra é de uma originalidade e ousadia impressionante. Para se entender o filme em sua totalidade, é necessário juntar as poucas (e discretas) pistas espalhadas ao longo da história. Sem dúvida, após o término de The Shooting, o espectador ficará um bom tempo montando as peças deste quebra-cabeça cinematográfico. O clima incerto e tenso da trama é sustentado por um excelente elenco com o sempre primoroso Warren Oates à frente dele no papel de Gashade. Millie Perkins interpreta a vilã com um misto de maldade e sensualidade. O jovem Will Hutchins interpreta o amigo apalermado de Gashade, um personagem que logo desperta a empatia do público. Por fim, Jack Nicholson dá uma amostra dos seus futuros papéis psicóticos e desequilibrados como o pistoleiro Billy Spear. Sua atuação parece uma versão exagerada do matador vivido por Jack Palance no clássico Os brutos também amam (Shane, 1953).

Após o término das filmagens, Monte Hellman passou o ano seguinte montando os filmes (este e Ride in the whirlwind) e o posterior exibindo-os em festivais ao redor do mundo. Embora tenha conseguido boas críticas em Cannes e no festival de Montreal, Hellman não conseguiu encontrar um distribuidor interessado em exibir os dois peculiares Westerns no cinema. O diretor levou seu trabalho a Paris, onde encontrou seu público. The Shooting ficou um ano em cartaz. Em 1968, os direitos foram adquiridos pela Walter Reade Organization, que dispensou o lançamento nos cinemas e vendeu estas magníficas obras para a televisão. Pouco visto durante duas décadas, The Shooting conseguiu formar apenas um pequeno grupo de admiradores. A consagração definitiva veio nos anos 1990, com seu lançamento em VHS e depois em DVD no ano 2000. Atualmente, The Shooting é um cult movie aclamado por público e crítica. O Brasil pôde conferir esta obra prima em VHS e DVD com o título Disparo para matar.

CAVALGADA NO VENTO (Ride in the Whirlwind, 1965), Monte Hellman

por Osvaldo Neto

É impossível assistir A Pequena Loja dos Horrores (Roger Corman, 1960) sem notar um jovem chamado Jack Nicholson roubando a cena em sua rápida participação como o paciente masoquista de um dentista. Junto a The Cry Baby Killer (Jus Adiss, 1958), outra produção do Papa dos Filmes B, aquela seria uma das primeiras colaborações de Nicholson com Corman. Três anos depois, ele seria visto em um dos longas de maior sucesso da American International Pictures, O Corvo (Corman, 1963), onde contracena com que Boris Karloff, Vincent Price e Peter Lorre, monstros sagrados do cinema de horror, em um filme leve e bem humorado, vagamente baseado no poema de Edgar Allan Poe.

Nicholson conheceu Monte Hellman nos bastidores de The Wild Ride (Harvey Berman, 1960), mais outra produção feita com o toque de Corman. E foi por conta dos bastidores de O Corvo que Nicholson e Monte Hellman se reencontraram e ficaram animados para trabalharem juntos novamente. Em poucas linhas, Corman terminou as filmagens de O Corvo em tempo recorde e teve a mirabolante idéia de aproveitar a sobra da película juntamente com cenários dele e de O Castelo Assombrado (Corman, 1963) para rodar outro longa com Boris Karloff usando o astro por 4 dias, Terror no Castelo (1964). O resultado final desta aventura, creditada a Corman como diretor, mas também filmada por Monte Hellman, Francis Ford Coppola, Dennis Jakob, Jack Hill e até mesmo o próprio Jack Nicholson ao longo de nove meses, é um apaixonado exemplo de cinema independente de gênero, apesar do roteiro – obviamente – não fazer muito sentido.

Depois de realizar Guerreiros do Pacífico e Flight to Fury simultaneamente nas Filipinas, Nicholson e Hellman produziram dois belíssimos faroestes de baixo orçamento em 35 dias no deserto de Utah, no Arizona: Cavalgada no Vento e Disparo para Matar. Os longas só teriam o seu devido reconhecimento graças ao lançamento de ambos com boas cópias pela VCI Entertainment, no início da popularidade do DVD. Antes, as duas produções apenas eram assistidas em cópias ‘fullscreen’ na TV americana que acabavam com os enquadramentos originais da fotografia de Gregory Sandor.

Cavalgada no Vento tem início com a gangue liderada por Blind Dick (Harry Dean Stanton) assaltando a uma diligência. Uma cena já assistida em milhares de faroestes e que pode causar a errônea impressão de estarmos diante de mais outro filme convencional feito por um Ford de segundo escalão. A coisa muda de figura quando conhecemos Vern (Cameron Mitchell), Wes (Jack Nicholson) e Otis (Tom Filer), três vaqueiros errantes. Eles estão a caminho da cidade de Waco, no Texas e durante o trajeto, deparam-se com um homem enforcado, momento que gera uma imagem que parece resumir o filme inteiro. Como está perto do anoitecer, eles avistam uma cabana e se dirigem ao local para contar com a boa vontade de seus habitantes, matar a fome com um prato de feijão e arranjar um espaço para dormir. Os homens que decidem acolher os vaqueiros são justamente Dick e seus parceiros de crime. A suspeita dos amigos de que o grupo estaria utilizando o local como esconderijo é concretizada no dia seguinte, com o início de um longo tiroteio entre os criminosos e um grupo de justiceiros fortemente armados. Vern, Wes e Otis são tidos como membros da gangue criminosa e um deles é baleado fatalmente pelos vigilantes, que partem para caçar e condenar os dois sobreviventes à morte por um crime que eles não cometeram.

Ainda que em alguns momentos o seu autor se mostre um tanto “verde” com os diálogos (personagens repetem muito o nome de seus parceiros de cena), é no roteiro de Jack Nicholson que reside grande parte da força de Cavalgada no Vento. Trata-se de um faroeste que poderia muito bem ser produto de diretores como Anthony Mann ou Henry King (no caso deste último, O Matador) nos anos 50, além de ser dono de uma subversão que apenas seria encontrada nas co-produções Itália e Espanha que começavam a fazer sucesso mundialmente, os famosos Spaghetti Westerns. Nenhum personagem do longa sofre julgamentos morais por parte dos realizadores, a divisão Bem e Mal que é sempre tão explícita nas produções do gênero praticamente inexiste aqui. Vale mencionar também que a violência dos filmes europeus sempre foi estilizada, com personagens como Django e o Homem Sem Nome eternizando o que seria “cool” no cinema, enquanto que para Hellman não existe nada de bacana nisso. A maneira como o cineasta filma a violência nos dois faroestes de Utah é arrasadora. Podemos até pensar que a crueza das cenas esteja relacionada com as limitações orçamentárias, mas não se deve negar o sucesso de Hellman na condução delas.

Sobre o elenco, Cameron Mitchell brilha como Vern, a figura paterna do trio de vaqueiros. É um deleite para qualquer fã de atores observar Jack Nicholson se descobrindo como ator e contracenando com Mitchell na maior parte de suas cenas. E obviamente, Harry Dean Stanton já demonstrava o seu habitual profissionalismo em compor personagens marginais. Rupert Crosse interpreta um dos parceiros de Blind Dick e Millie Perkins – que também participa de Disparo para Matar – tem um pequeno papel como a filha de uma humilde família de rancheiros que terá importância fundamental na segunda metade do longa.

Enquanto narra a dolorosa transformação de dois homens inocentes em criminosos, Hellman faz de Cavalgada no Vento o primeiro filme onde podemos reconhecer algumas de suas maiores marcas como autor. Durante uma passagem do filme, Wes (Nicholson) reclama que está andando, andando e andando para não terminar em lugar nenhum. Os solitários personagens dos filmes de Hellman parecem sempre estar fadados a este inevitável destino. Solidão que está presente em todos os núcleos de Cavalgada… (os vaqueiros, os bandidos, os justiceiros e a família), o único que faz parte daquele ambiente é a família e, ainda assim, a sua casa está situada no meio do nada. Esse sentimento de completa desolação dos personagens de Hellman só aumentaria nos filmes seguintes de sua carreira como realizador, com o lírico Disparo para Matar sendo um grande passo na direção de Corrida sem Fim (Two-Lane Blacktop).

Dever de casa para o fim de semana: Assista a uma sessão dupla de Cavalgada no Vento e Disparo para Matar. Garanto como você se impressionará com o quanto dois filmes irmãos podem ser tão diferentes do outro.