BLUE CHIPS (1994), William Friedkin

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por Daniel Vargas

Embora a sétima arte tenha andado de mãos dadas com o esporte desde sempre, não resta dúvidas que o sucesso (e Oscar) inesperado de Rocky em 1976 tenha sido uma espécie de divisor de águas para filmes esportivos cuja sua ascendência do final dos anos 70 até os 80-90 foi inegável. De Vale Tudo (Slap Shot, 1977), Big Wednesday (1978), Breaking Away (1979), Touro Indomável (1980) e O Campeão (The Champ, 1979), até o segundo Oscar em menos de 10 anos para um filme cuja a temática central era esporte – para Carruagens de Fogo em 81 – tivemos dos mais variados exemplos de filmes desportivos notáveis: A Chance (All the Right Moves, 1983), Karate Kid (1984), Um Homem Fora de Série (1984), Momentos Decisivos (Hoosiers, 1986), Fora da Jogada (Eight Men Out, 1988), Sorte no Amor (Bull Durham, 1988), Homens Brancos Não Sabem Enterrar (1992), Cobb (1994). Esses 3 últimos de um dos nomes mais prolíficos do gênero que obviamente entende sobre o mundo dos esportes por dentro, Ron Shelton, o roteirista de Blue Chips, que, a primeira vista, foi um dos filmes mais atípicos do Friedkin.

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Depois de 2 anos consecutivos vitoriosos, o treinador de basquete universitário Pete Bell (Nick Nolte) se vê em uma sinuca de bico depois de um ano desastroso, onde uma derrota a mais na campanha pode custar seu cargo, mostrando a volubilidade dessa carreira. Ele vai então atrás de novos talentos espalhados pelo vasto EUA, lhes prometendo uma bolsa de estudos integral na universidade em que treina, em Los Angeles. Em troca de defender a mesma no basquete, é claro. É impagável a maneira como o personagem do Nolte vai dizendo ser seguidor de uma religião diferente da outra conforme vai conhecendo as crenças e costumes das famílias de cada atleta almejado que conhece. Mas isso é até onde o treinador Pete vai em termos de malandragem e “privilégios”. Da maneira legal. Incorruptível, o treinador faz questão de salientar porquê não abre mão de jogar limpo: “Primeiro porque eu posso ser pego e perder meu emprego. Segundo porque talvez eu NÃO possa ser pego“, diz, enfático.

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Mas quando ele percebe o quão afundado em corrupção e propinas a sua profissão está, quando até um dos seus promissores atletas parecem estar mais a par disso que ele mesmo, “exigindo” uma quantia exorbitante pelo seu valor de maneira ilegal na cara dura, como se estivesse pedindo dinheiro para a merenda, ele percebe que talvez ele terá que pular sua tão adorada ética para que possa satisfazer seus empregados, usando dinheiro dos “amigos do programa” do associado do time, o inescrupuloso “Happy” (J.T. Walsh) por quem Pete mantem um desprezo notório, a fim de conseguir manter seus novos jogadores, obter melhores resultados e se manter empregado. E aí que o roteiro de Shelton se destaca tanto ao sair da mesmice dos filmes sobre esporte onde o interesse maior foca em quem vai terminar ganhando a competição. Aqui o embate ético é o mais importante. Aliado a diálogos realistas de esquemas táticos e cenas documentais, que às vezes nos fazem pensar que estamos vendo de fato bastidores de jogos (a presença de jogadores reais de basquete como Shaquille O’Neal como um dos novos talentos de Pete e cenas memoráveis de jogos de basquete ajudam demais a sensação de um filme que parece ter propriedade no que fala).

E quando finalmente os podres desse combinado fraudulento começam a sair pelo ventilador, nós vemos a mão do Friedkin que transforma um filme sobre esportes em um thriller psicológico sobre morais e ética. Pete vai descobrindo pouco a pouco o quão seu rabo já estava preso a esses esquemas ilícitos sem ele ao menos saber, o levando a questionar até mesmos suas conquistas passadas e os nomes dos seus jogadores em quem ele mais confiava. Apesar de separados, sua ex-mulher Jenny Bell (Mary McDonnell) parece ser sua aliada mais do que nunca, chegando a ser tutora de vários de seus atletas. Totalmente avessa as maracutaias da profissão, ela se decepciona depois que percebe que Pete se deixou levar em nome da vitória. Agora ele desacreditado pelas pessoas que ama e por si mesmo, precisa chegar a uma conclusão final onde o jogo principal será a reconquista de seu caráter. Onde ele em seu discurso final apoteótico parece mesmo decidido a resgatar. Mesmo que custe sua carreira profissional para sempre.

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Vale destacar sozinha a performance do Nolte, que é coisa de louco. Entregue ao papel de uma maneira assombrosa, ele parece ser seguidor da linha dura Muricy Ramalho da filosofia “aqui é trabalho, meu filho” em volume máximo. Muito se fala de Al Pacino em Any Given Sunday (1999) quando pegam referências de treinadores linha dura no cinema, que esbravejam, xingam, chutam e dão discursos espetaculares e motivadores, mas o trabalho de Nolte nesse quesito me parece superior. E um pouco mais sutil, apesar de igualmente feroz. Seu andar sempre curvado, endurecido, com os largos braços caídos, a confrontação direta com os árbitros, há milésimos de chegar as vias de fato. Em uma cena, ele pega a bola de basquete de um auxiliar e chuta para arquibancada, talvez até mesmo para que impeça de fazer o mesmo com um ser humano. Em outra cena, depois da derrota do seu time, ele entra no vestiário já bufando, jogando a roupa dos jogadores do vestiário no chão enquanto re-afirma o quão desgostoso ele está com eles. Sai do vestiário, apenas para voltar segundos depois e continuar o sermão, finalizando ao tacar um galão de água na parede, deixando todos no vestiário pasmos ao sair pela segunda vez, apenas para voltar uma terceira para uma discussão aparentemente mais “calma e intimista”, onde ele pega uma cadeira e desabafa sentado frente a seus jogadores o quanto o basquete o estava desgastando. A que ao final do terceiro discurso, a mesma cadeira acaba virando alvo da sua fúria também. Uma cena perto de parecer excessiva, mas que é fundamental para entendermos a paixão obsessiva do personagem central por seu trabalho. Um trabalho primoroso de Nolte que para mim equivale a uma das suas 5 melhores atuações. O que em termos do que Nolte já fez, não é pouco.

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Uma Vida de Rei (Farewell to the King, 1989), John Milius

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Segunda Guerra Mundial. Dois oficiais Aliados adentram no coração das trevas de uma floresta do Borneo em busca do sargento Learoyd (Nick Nolte), desertor que agora vive no local como uma espécie de rei de uma comunidade tribal. Mas isso tudo não é meio Conradiano demais? Não é coincidência que o diretor John Milius também seja um dos responsáveis pelo roteiro de Apocalypse Now, de Francis F. Coppola, baseado no livro de Joseph Conrad, mesmo que este Uma Vida de Rei também seja uma adaptação de outro romance, L’Adieu au Roi, de Pierre Schoendoerffer. O filme é narrado a partir do ponto de vista do Capitão Fairbourne (Nigel Havers), um dos oficiais que eu citei no início, que se encontra com sua Majestade da selva e o convence a unir forças para lutar contra as tropas japonesas. É um filme que consegue manter um certo interesse durante toda a narrativa, embora apresente alguma irregularidade lá pelas tantas, mas a direção de Milius é excelente, sempre aproveitando ao máximo o cenário natural para construir belas imagens, auxiliado pelos tons da fotografia de Dean Semler, boa dose de cenas de ação e, claro, desenvolver as questões que já fazem parte de seu repertório, como política e guerra. Outro grande destaque é a performance de Nick Nolte, que surge em cena absolutamente impagável com uma cabeleira loura entre os nativos. Sua caracterização é uma espécie de Coronel Kurtz bonzinho e é impressionante como o filme cresce com a sua presença, embora nunca alcance as proporções de um Conan ou Dillinger

3,5Ronald Perrone