The Death and the Compass (1992), Alex Cox

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por Leandro Caraça

A BBC inglesa propôs para Alex Cox uma adaptação do romance La Muerte y la Brújula do escritor argentino Jorge Luis Borges. A obra, com fortes doses de romance policial e Kafka na composição, foi de início rodada como um filme de 55 minutos apenas que chegou a ser exibido na televisão inglesa e espanhola. Falta de fundos e problemas legais conspiraram contra a idéia de Alex Cox transformar o material existente num longa metragem. Somente quatro anos mais tarde, graças ao dinheiro ganho com o renegado The Winner, o filme teve os negativos recuperados e com cenas adicionais, chegou à duração de 96 minutos no total. The Death and the Compass é o mais rebuscado trabalho de Cox, com uma fotografia caprichada e cenografia elaborada. Ambientado num futuro governado por forças opressoras e com as ruas repletas de criminosos, a história é narrada por Treviranus (Miguel Sandoval, presença comum nos filmes de Alex Cox), chefe de polícia que se junta ao detetive Erik Lonnrot (Peter Boyle) para capturar Red Scharlach, uma misteriosa figura que pode estar por trás de uma série de assassinatos ligados a um culto cabalístico. O diretor costura bem cenas antigas com novas de maneira imperceptível, e mostra firmeza ao fazer uso da tática de cinema guerrilha em algumas tomadas. É uma pena que seja um trabalho pouco conhecido, assim como quase tudo que Cox fez a partir dos anos 90, quando deixou de interessar a críticos e formadores de opinião.

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Walker (1987), Alex Cox

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Sinopse: Em meados do século XIX, William Walker, americano bastante popular por ter tentado anexar o México aos Estados Unidos, alia-se a uma das facções da guerra civil que assolava a Nicarágua. Aos poucos, as intenções e objetivos de Walker vão ficando mais claros, quando ele mesmo promove um golpe de estado e se declara presidente.

Comentários: A partir dos anos 60, não foram poucos os filmes que tentaram apresentar um outro olhar sobre a conquista do oeste americano. O Pequeno Grande Homem e Um Homem Chamado Cavalo tentavam dar voz aos índios e até mesmo John Ford iria relativizar a bravura indômita do cowboy em Cheyenne Autumn. A mitologia do western era questionada dentro do próprio país, enquanto era revisada e reescrita na Itália.

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Mas foi preciso esperar mais tempo para que a imagem do cowboy fosse aplicada explicitamente à política intervencionista americana. Alex Cox, diretor de Walker, sabia que o cowboy americano não se limitou a matar índios dentro de seu próprio território. Para além do oeste, queria conquistar outras lugares, principalmente ao sul.

Cox, diretor inglês que foi estudar cinema nos Estados Unidos, tornou-se cult nos anos 80 após cruzar ladrões de carro e alienígenas em Repo Man (1984), colocar Sid Vicious e Nancy Spungen como protagonistas de uma bela e estranha história de amor em Sid e Nancy (1986) e fazer a mistura de faroeste e policial mais estranha, pop e fuleira de todos os tempos, com Elvis Costello, Dennis Hopper, Jim Jarmuch e até Courtney Love no mesmo cul-de-sac em A Caminho do Inferno (1987). Mas ele viria mesmo acertar o alvo, em vários sentidos, com Walker.

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Estávamos no auge da era Reagan nos Estados Unidos e Thatcher na Inglaterra. Eram os anos seguintes à new wave, uma época normalmente acusada de alienada. Ao mesmo tempo, havia a revolução Sandinista na Nicarágua, louvada e apoiada por artistas vindos do punk como The Pogues e The Clash (que deu a um álbum triplo o nome do movimento). Mesmo nos Estados Unidos, Cox era ligado intimamente a essa cena – A Caminho do Inferno foi feito com as “sobras” de um projeto em prol dos Sandinistas que acabou não saindo. Estando na Nicarágua para acompanhar as eleições de 1984, Cox foi inquerido por um sandinista: se ele era um cineasta tão interessado no país, por que não fazer um filme sobre ele? Cox respondeu que cinema custava caro, mas nem ele, nem seus amigos sandinistas acharam satisfatória a resposta.

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Anos depois, graças à entrada em cena do produtor peruano Lorenzo O’Brien, Cox achou o formato ideal para um filme sobre a Nicarágua na história de William Walker, um médico e advogado de Nashville que fez fama como mercenário. A invasão da Nicarágua por Walker é um paralelo evidente com o envolvimento americano com os “contras” nos anos 80.

Produto da sua época, o cinema de Cox não é sutil, embora extremamente inteligente e com um humor bem particular. Walker começa sério, mas, à medida que o caráter demente do personagem vai se tornando mais claro, o filme também vai mostrando sua narrativa anti-naturalista, que inclui distanciamentos brechtianos (há um plano genial no filme, com um nicaraguense enterrado até o pescoço na areia, uma garrafa de coca-cola ao lado, e, ao fundo, Walker e um jornalista conversando sobre as questionáveis mudanças de posição do nosso “herói”), planos-sequências absurdos, humor negro nos momentos mais inesperados e até mesmo uma série de anacronismos que vão ficando cada vez mais fortes – a presença de televisores, de coca-cola e até de um helicóptero retira o espectador do naturalismo, à força. Punk is not dead!!!

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Ed Harris encarna Walker de forma absoluta, passando toda a demência do personagem, principalmente no final do filme, quando o clima psicodélico low-fi explicita de forma genial a maluquice americana. Se Apocalipse Now é The End de The Doors, Walker é I’m So Bored With USA do The Clash. Não por acaso, Joe Strummer, que já tinha participado de A Caminho do Inferno e Sid e Nancy, foi chamado para compor a trilha sonora do filme, fazendo um trabalho primoroso de mistura de timbres latinos e batidas rock. Com certeza, um dos melhores trabalhos do saudoso militante.

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Alex Cox não deixa de ser um equivalente cinematográfico do The Clash (com toda a imprecisão que esse tipo de comparação carrega). Político e irreverente, direto, mas nada paternalista. Em um determinado momento de Walker, um nicaragüense agradece aos céus pela presença dos americanos na sua terra. Cox sabia como poucos bater forte contra o imperialismo americano e, ao mesmo tempo, expor o facínio daquela cultura. Chegou a ser quase tão popular quanto um Jarmush, para cair no esquecimento nos anos 90, embora tenha trabalhado ativamente. Walker foi malhado pela crítica americana e desprezado pela própria distribuidora, Universal, que fez questão de lançá-lo em pouquíssimos cinemas quase sem divulgação. Em tempos de Iraque ocupado, pode dizer mais sobre o jeito cowboy de ser do que muito documentário-denúncia que existe por aí.

Milton do Prado
Participação especial