A VOLTA DO PISTOLEIRO (China 9, Liberty 37, 1978), Monte Hellman

por Cesar Alcázar

Entre a realização de duas obras-primas do western concebidas por Monte Hellman no fim dos anos 1960, The Shooting e Ride the whirlwind, e a produção do western crepuscular China 9, Lyberty 37, mais de uma década se passou. Nesse período, Hellman dirigiu seus títulos mais famosos, que embora sejam hoje objeto de culto, nunca lhe trouxeram o reconhecimento merecido, sobretudo em seu país de origem.

A recepção mais calorosa da obra de Hellman pelo público europeu fez com que o cineasta buscasse projetos no Velho Mundo. Depois de uma fracassada parceria com a Hammer Films (acabou demitido durante a filmagem de Shatter), veio a oportunidade de voltar ao western em uma produção italiana. Esta visita ao então agonizante Spaghetti Western resultou em China 9, Liberty 37.

A trama, de aparente simplicidade, começa com o pistoleiro Clayton Drumm (Testi) esperando pela própria execução em uma cela de cadeia. Para sorte do matador, antes da sentença ser cumprida, ele recebe uma proposta irrecusável de alguns barões ferroviários: a liberdade (e a sua vida) em troca do assassinato do fazendeiro Matthew Sebanek (Oates), que está atrapalhando a construção da estrada de ferro devido à sua recusa de vender a terra onde vive. Até aí, tudo muito corriqueiro. A história se complica com a amizade que surge entre Drumm e Matthew, e piora ainda mais com a atração irresistível da esposa de Matthew, Catherine (Agutter), pelo matador de aluguel.

Como em todos os seus filmes, Monte Hellman dá grande atenção à construção de personagens, proporcionando aos atores um ótimo material. Até Fabio Testi, astro pouco expressivo, tem excelente desempenho em um papel cheio de nuances. Longe dos pistoleiros estóicos costumeiros do SW, seu Clayton Drumm é um homem cheio de dúvidas, perdido entre suas definições de certo e errado, e até mesmo covarde (como na cena em que usa uma prostituta como escudo). Warren Oates interpreta com sua habitual maestria o fazendeiro (e ex-pistoleiro) Matthew, um personagem que poderia muito bem ser vilanesco, mas que acaba por conquistar a simpatia do espectador. Por fim, a bela Jenny Agutter tem uma atuação convincente como a jovem esposa descobrindo sua sexualidade.

China 9, Lyberty 37 nunca atingiu o patamar de cult dos outros westerns de Hellman. Ainda assim, as qualidades e peculiaridades (como a grande quantidade de cenas de sexo e nudez, algo pouco comum no gênero) do filme foram suficientes para evitar sua queda no esquecimento, mantendo o interesse do público sempre renovado. Sem dúvida, um desses atrativos peculiares é a rara aparição do cineasta Sam Peckinpah como ator. O velho Bloody Sam (com a aparência já bastante desgastada pelos excessos) está muito bem no papel de um escritor de dime novels interessado em comprar a história do pistoleiro Drumm.

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O CASAL OSTERMAN (The Osterman Weekend, 1983), Sam Peckinpah

por Luiz Alexandre

O ano é 1983. Um agente da CIA (John Hurt, ótimo), mancomunado a um político (Burt Lancaster) convence um jornalista idealista (Rutger Hauer) de que são amigos próximos são, na verdade, traidores da pátria que negociam com os comunistas soviéticos. Um fim de semana em sua casa, evento que realizam há anos desde a época em que estudavam juntos, se tornará um pesadelo movido a intrigas e segredos de estado.

Peckinpah, infelizmente, já não era o mesmo de outrora. Tido como ficha suja em Hollywood, tinha que aproveitar as oportunidades que lhe apareciam para poder realizar a sua velha magia. Com o trabalho que fez, sem crédito, no filme  Jinxed!, de seu mentor Don Siegel, ele foi chamado para dirigir essa adaptação de um romance de Robert Ludlum, autor, entre outros, dos livros que inspiraram a trilogia Bourne. Infelizmente veio a ser também o adeus do diretor, que faleceu após as filmagens.

Infelizmente, O Casal Osterman não é o seu momento mais inspirado. A trama é confusa e não possui o mesmo espírito mágico de seus filmes anteriores. Mesmo Elite de Assassinos , uma obra feita sob encomenda por produtores, você ouve melhor a voz embriagada do diretor. Aqui o ritmo é por vezes arrastado, embora não seja um filme lento, e a trama não possui momentos poéticos como em vários de seus outros filmes, a música, embora competete, não é tão envolvente, é até mais datada do que poderia, e embora tenha uma certa sujeira comum aos filmes da época, é uma obra menos refinada do que seus filmes dos anos 60, 70, sua violência não é tão bela. Fora que o velho medo dos “malditos comunas” envelheceu muito mais do que seus pistoleiros.

Mas, ora bolas, estamos falando de Bloody Sam! A cena inicial, que começa com o sexo entre John Hurt e uma linda atriz que interpreta sua esposa e que culmina com o assassinato da mesma, embora deveras similar a exemplares eróticos da época, é violentamente bonita. As poucas cenas de ação do filme ainda são muito boas e o elenco, embora não tenha sido escolhido por ele, está muito bem. O filme ainda permite pequenas sutilezas do diretor, como um possível romance entre Bernie Osterman (Craig T. Nelson) e Betty (Cassie Yates), esposa de seu amigo Joseph (Chris Sarandon). O erotismo do filme, se é que pode se chamar assim, é quase morto, o clima das relações conjugais de alguns dos personagens é de decadência e torpor. Fora que a crescente tensão entre os personagens é muitíssimo bem trabalhada pelo diretor.

O diretor também, de alguma maneira, reflete sobre a influência da TV na vida das pessoas, sobre como depositamos nossa confiança nas instituições como a mídia e a propaganda do governo, crítica que infelizmente ainda tem muita relevância. Todas as intrigas e infortúnios só foram possível pelo jogo de faz de conta armado pela CIA (um filme americano que critica a CIA durante a Guerra Fria, como pode?) e tudo culmina com um final curiosamente belo e pessimista. Um discurso libertário por parte de Tanner aos seus espectadores, onde incentiva os mesmos a desligarem a TV. Mas nós não podemos tocar na tela e apertar o interruptor. Apenas vemos tudo e esperamos as letras começarem a subir, do jeito que nos foi ensinado.

P.S: O título nacional do filme é certamente um dos piores que nossa industria já criou. O citado Osterman é o único dos amigos que é solteiro, o título em inglês faz uma referência há uma velha tradição entre os amigos de sempre se reunirem na casa do personagem quando eram jovens. Ele saiu da casa dos pais, mas a tradição continuou nas casas dos outros, por isso o “Fim de Semana Osterman” .

P.S 2: A interpretação que fiz sobre a cena final do filme eu roubei de um especialista (cujo nome não sei) que deu um depoimento em um péssimo documentário sobre o diretor que assisti no Festival do Rio. Sei que não tenho obrigação de creditar, mas queria dizer que infelizmente não cheguei a ela sozinho.

P.S 3: A versão que assisti foi a que a Flash Star Home Vídeo lançou no Brasil, com dois DVDs, contendo supostamente a versão do diretor. Indo ao IMDB descobri que existe uma outra versão sim, mas é mais longa do que a que a Flash Star vende. Seria Peckinpah um profeta?

COMBOIO (Convoy, 1978),de Sam Peckinpah

por Ronald Perrone

Não é novidade alguma para os fãs do diretor Sam Peckinpah que sua visão de mundo seja cínica e amarga. Comboio, um de seus filmes mais subestimados, é daqueles que melhor apresenta essa visão crítica, especialmente ao que concerne ao povo americano.

Ao mesmo tempo em que o diretor exalta o espírito rebelde de sua nação – cuja trama centra num comboio de caminhoneiros revoltados, liderados por Rubber Duck (Kris Kristofferson), infernizando a vida da polícia, principalmente a do xerife carrancudo vivido por Ernest Borgnine – Peckinpah faz um retrato pessimista de seu país, jogando pedra até mesmo nos heróis, personagens alucinados que agem de forma tão irracionais quanto uma torcida de futebol em fúria, além da polícia que é corrupta, as mulheres submissas e os políticos tão oportunistas que fariam um deputado em Brasília ser o homem mais honesto do mundo.

É óbvio que toda essa revolta de Peckinpah é fruto de sua própria relação com o sistema e quando surge a oportunidade de expressar essa visão de mundo com uma câmera, ele o faz como um exímio artista que é.

Final da década de 1970, Peckinpah tinha de ralar muito para conseguir dirigir alguma coisa já há algum tempo. Após Comboio, apenas substituiu Don Siegel em Jinxed, quando este teve um infarto e depois realizou o derradeiro O Casal Osterman. A carreira do cineasta estava chegando ao fim, assim como a sua própria vida, consumido pelas drogas e Álcool. Ainda que reciclando idéias de outros filmes, como Corrida Contra o Destino, de Richard C. Sarafian e Louca Escapada, do Steven Spielberg, Comboio foi um dos seus últimos suspiros artísticos e a cena do balé dos caminhões no deserto empoeirado é uma prova incontestável disso.

CRUZ DE FERRO (Cross of Iron, 1977), Sam Peckinpah

por Davi de Oliveira Pinheiro

Uma obra-prima defeituosa ou um filme de guerra como deve ser, cheio de cicatrizes de batalha?

Após o grande momento comercial de Os Implacáveis, Sam Peckinpah encontrava-se à beira da glória, querido pela crítica e pelo público e realizador de pelo menos uma obra-prima reconhecida como tal, Meu Ódio Será Sua Herança. Apesar dos problemas pessoais e do alcoolismo sempre presente, se encontrava no cinema e o seu modo de falar agradava boa parte do público. O distanciamento que se consolidaria pelo resto de sua carreira veio com dois de seus grandes (porém mais incomuns) filmes Pat Garret & Billy The Kid e Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia.

Fracassos comerciais, incompreensão da crítica e o sucesso apenas razoável do subseqüente Assassinos de Elite, tornaram Peckinpah “veneno de bilheteria”, o que, combinado com seu comportamento por traz das câmeras e seus relacionamentos turbulentos com produtores e estúdios cinematográficos, inviabilizaram a conquista de financiamento. Filmes experimentais, aliados a uma personalidade difícil, renderam comentários como os de Charles Bronson, que ao deixar a produção de uma parceria possivelmente icônica, disse “eu não trabalho com bêbados”.

Rejeitando a possibilidade de dirigir Superman e o remake de King Kong, resolveu criar um filme perfeito a suas sensibilidades, Cruz de Ferro. Talvez das suas grandes obras a que mais revela a personalidade de Peckinpah, um homem que lutava pelo prazer da briga, enquanto outros lutavam pela glória. Cruz de Ferro foi produzido por Wolf C. Hartwig – produtor pornô que através de seu trabalho com um cineasta do porte de Peckinpah tentava conquistar legitimidade -, com orçamento limitado, que se mostrou irreal a escala da produção.

Com um terreno pequeno, apenas três tanques e cortes constantes no roteiro, Peckinpah levou seu estilo de ação e montagem a um limite que até então não fora possível, devido à qualidade do material bruto de edição que dispunha anteriormente. Limitado pela produção, o estilo Peckinpah ganha uma visceralidade ainda mais clara. Os cortes no tempo são como cortes na carne, as personagens se tornam ainda mais vivas. As ambigüidades morais e a análise do caráter, sempre presentes na obra extremamente humana de Peckinpah, chegam a novos níveis, sendo que o que importa não são apenas as oposições filosóficas entre os personagens, mas a unificação que se encontra através destas oposições. Covardes ou heróis, as personagens de Cruz de Ferro não são tão opostas como aparentemente são em nível clássico.

Não existe uma definição de certo ou errado, mas sim uma análise formativa. Enquanto o Capitão Stransky de Maximilian Schell é uma personagem estática, aristocrática, na sua personalidade e obsessão pela glória sem realizações, assim como na sua relação de interpretação com a câmera, o Sargento Steiner de James Coburn dança como se cada movimento fosse livre de uma auto-imagem, como se tudo fosse orgânico e necessário e sua luta fosse apenas porque ele é um grande soldado e não consegue se livrar da sina; ele não tem gosto pela glória, que é conseqüência de sua competência.

Um filme mesmo que fruto de centenas de personalidades num set, não passa de um reflexo daquele que direciona o caminho da equipe que o realiza. Por mais que o diretor tente evitar, torná-lo mais “palatável”, o que vemos é o ser humano com todas as cicatrizes e remendos. No caso, Cruz de Ferro é o espelho fragmentado de Sam Peckinpah, um homem que não desejava a glória, mas cujo relacionamento com seu ofício o levava a dar grandes vôos, mesmo que às vezes com uma certa rispidez estilística que é incompreendida.

ASSASSINOS DE ELITE (The Killer Elite, 1975), Sam Peckinpah

por Luiz Alexandre

Bloody” Sam Peckinpah é daqueles diretores que colheram uma série de adjetivos em sua carreira. Sua alcunha mais famosa, e possivelmente mais lisonjeira, foi “Poeta da Violência”. Entretanto, também foi tachado de bebum e irresponsável, o que não fez nada bem para sua conturbada relação com os estúdios. Nos anos setenta Peckinpah não parecia ser mais o concorrente ao Oscar de melhor roteiro por Meu Ódio Será Sua Herança, encontrando dificuldades em engatilhar seus projetos ou mesmo participar de novas produções. Assim como os velhos cowboys de seu quase premiado filme, já não parecia, naquele momento, haver um lugar para Sam.

Porém, aquele não era seu fim. Mike Medavoy, na época o grande cabeça da United Artists, estava com um roteiro para ser filmado e acreditava que Peckinpah seria a pessoa mais indicada para assumir a direção do filme, desde que o próprio Medavoy supervisionasse toda a filmagem da película, é claro. Com pouco dinheiro e com sérias chances de nunca mais dirigir, o Poeta se ajoelhou e pediu a benção ao “padrinho”, já que não tinha mesmo muita escolha. Rendeu-se, contudo não se entregou por completo.

tumblr_n50pbnHFS11trfa8po2_1280O filme conta a história de um mercenário, Mike Locken (James Caan), que junto de seu melhor amigo George Hansen (Robert Duvall), presta serviços de assassinato e proteção para a organização privada Com-Teg (uma óbvia referência a CIA), que, um dia se vê traído e a beira da morte por Hansen. Seus dias de matador estariam terminados, caso não estivesse munido de muita determinação e vontade de se vingar. Graças a muita fisioterapia e ao Karate, ele se recupera.

Embora ligeiramente manco, Locken se torna um expert em artes marciais e fica bastante habilidoso com sua bengala. Habilidades essas que se mostrarão bastante bem vindas em sua nova missão: proteger um líder político chinês, Yuen Chung (Mako), que está sendo perseguido por ninjas e por sua nêmesis, George Hansen. Munido de sua bengala, sua fúria e com os velhos amigos Mac (um maravilhoso Burt Young), um ex-mercenário aposentado, e Jerome Miller (Bo Hopkins), um assassino com mira super-humana e, bom, alguns miolos a menos Locken vai mostrar aos seus inimigos “com quantos paus se faz uma canoa”. Eu sei, essa é muito velha.

Aparentemente a inspiração para o filme, sujeito versado em artes marciais enfrentando ninjas chineses, numa provável falta de interesse em ser verossímil a cultura oriental, parece ter vindo do cinema de kung fu. O próprio Peckinpah teria dito em entrevistas que se preparou para o filme assistindo Operação Dragão, de Bruce Lee. E o que se vê é um filme mais “parado” do que um filme de ação contemporâneo, dedicando a maior parte de sua duração em mostrar a luta de Locken contra si mesmo, do que com tiros e pé na cara.

Mas se o roteiro não é o mais caprichado ou mesmo o mais poético como os do próprio Sam, não se pode dizer que o filme deixa a peteca cair. As sutilezas da relação entre Locken e Hansen, dois irmãos em armas que se vêem um contra o outro graças ao sistema corrupto que rege seu ofício, enriquecem o que seria um filme banal nas mãos de algum diretor menos inspirado. A cena da citada traição, em que Duvall acerta a tiros o cotovelo e o joelho de James Caan em vez de seu peito ou sua cabeça parece dizer que o personagem do primeiro está mais interessado em livrar seu “irmão” do mundo sanguinário que eles vivem do que de, efetivamente, acabar com ele. Hansen precisava se ver livre de Locken, mas por preza-lo tanto resolveu “presenteá-lo” incapacitando-o. Só que nem ele nem ninguém contavam com a determinação do assassino. É um mundo sórdido, mas é o mundo que Locken escolheu viver.

tumblr_n50pbnHFS11trfa8po7_1280Fico pensando se o drama de Locken, um Ás do homicídio, não seria, de alguma maneira, o drama do próprio Peckinpah; enquanto Locken é um homem que se vê obrigado a vender seus talentos a indivíduos que parecem ser ainda mais mercenários que ele próprio, Peckinpah sofria com uma Hollywood que sempre preferiu o dinheiro a qualidade do trabalho de seus artistas. Aliás, se importa sim com a qualidade, desde que qualidade seja sinônimo de sucesso de bilheteria.

Uma simples ida ao perfil de Mike Medavoy no IMDB nos mostra que ele, produtor desse e de vários outros clássicos de Hollywood, como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa de Woody Allen e de sucessos mais recentes, como Zodíaco de David Fincher, tem noção que a função da industria é saber se “a pessoa merece o seu salário”. Medavoy é como Weyborne, personagem de Gig Young, que faz o papel do grande diretor da Com Teg, figurão que tem noção de tudo o que está a sua volta, que compreende e contribui para o “bom funcionamento” das engrenagens do sistema, que buscar manter a “ordem” do mundo, doa a quem doer. Peckinpah é o “ronin” manco que não mata por orgulho ou por ideologia, mas por ser basicamente aquilo que faz melhor, o serviço que se presta a fazer sem pestanejar. Se eventualmente ele fizer algum bem, ótimo, se não, resta apenas seguir em frente, ele não pretende salvar o mundo de si mesmo.

Culminando com uma cena de ação digna de seu nome, onde vemos os ultrapassados e esquisitos orientais serem massacrados pelas pistolas dos ocidentais, Peckinpah parece zombar da “nova onda” que vinha do Leste. Os ninjas podem ser habilidosos, mas não têm peito de ferro. Ver James Caan, que na vida real é faixa-preta de Karate, enfrentando os ninjas de bengala e observar Burt Young, que poucos anos depois viria a ficar marcado como o ranzinza Paulie dos filmes do Rocky, dando um coro nos “perigosíssimos” adversários é uma das melhores coisas que o cinema de ação americano já nos ofereceu, pela própria ironia da situação. Assassinos de Elite pode não ser o maior filme de sua década, até porque ele teria de concorrer com outras obras mais celebradas na própria filmografia de Peckinpah, mas é um filme de ação mais sofisticado do que muitos poderiam esperar. É daqueles bons filmes que merecem ser vistos e revistos.

TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA (Bring Me the Head of Alfredo Garcia, 1974), Sam Peckinpah

por Leopoldo Tauffenbach

Se fosse possível definir Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia em apenas uma palavra, talvez a mais apropriada fosse “imundo”. Poucas vezes na história do cinema se chegou tão perto de criar um filme tão sujo quanto esta obra-prima do mestre Peckinpah.

Tudo começa com um abastado proprietário de terras mexicano descobrindo a gravidez da filha. Em um cenário absurdamente opressor, ele tortura a filha diante de várias testemunhas até que ela entrega o nome do pai da criança: o notório galanteador Alfredo Garcia. Indignado, o senhor feudal pede a cabeça do pai do pequeno bastardo, com a promessa de uma recompensa milionária a quem fizer o serviço. Alguns dos capangas que estão atrás de Garcia acabam parando em um boteco ordinário onde trabalha o músico Bennie, interpretado com a competência habitual por Warren Oates. Tendo ouvido falar de Alfredo Garcia e diante da possibilidade de faturar alguns trocados, Bennie começa sua própria investigação sobre o paradeiro de Garcia com a ajuda de sua companheira Elita. Elita informa Bennie que Garcia já está morto, e eles decidem ir até seu túmulo para arrancar-lhe a cabeça e entregá-la aos bandidos. Considerando que este é um filme de Sam Peckinpah, realizado após Meu Ódio Será Sua Herança, Sob o Domínio do Medo e Os Implacáveis, podemos prever que a jornada de Bennie não será nada como um passeio no parque. Ao contrário, Peckinpah promove ao protagonista e ao espectador uma verdadeira descida ao inferno.

Diante da família, clero e elite local, pai tortura a filha até ela entregar quem a engravidou: o famigerado Alfredo Garcia.

Bennie é um indivíduo que não vê muito futuro pela frente. Ele não agüenta mais tocar em um bar por gorjetas nem viver em um quartinho imundo com Elita. Como qualquer outro mortal em sua condição, a ambição é sua força motriz, deixando-o atento a qualquer oportunidade que surja para promover todo o tipo de conforto material que lhe falta. No início do filme fica evidente que, embora ele e Elita estejam juntos, o casal já conheceu dias mais apaixonados. Aqueles mais familiarizados com a obra do diretor seguramente enxergarão semelhanças com o casal McQueen/McGraw em Os Implacáveis.

Bennie e Elita fazem planos para o futuro depois de enxergarem uma oportunidade de uma vida melhor às custas da morte de Garcia. Como o casal de Os Implacáveis, o amor sofre com as interferências dos egos.

Quando finalmente conseguem a cabeça de Garcia e seus problemas parecem resolvidos, o casal sofre um atentado. Bennie sobrevive, mas a cabeça de Garcia desaparece e Elita acaba morta. E é aí que o filme realmente começa.

Bennie passa a rever sua vida e questionar suas aspirações e seus desejos, e chega à dura conclusão que a única coisa que realmente importava era a companhia de Elita. Sem ela, Bennie se agarra à única motivação justa para continuar vivendo: recuperar a cabeça de Garcia e vingar a morte da amada. A cabeça de Garcia se mostra como uma metáfora da obsessão cega, válida para todos os personagens do filme, e isso é evidenciado quando o personagem de Oates pergunta qual seria o verdadeiro motivo para tanto desejarem-na. Se antes Bennie era movido pela ambição, esta agora se tornara obsessão, e ele se coloca em pé de igualdade a todos os outros personagens. A única diferença é que Peckinpah parece colocar as motivações de Bennie em um patamar mais elevado. Independentemente da obsessão, por trás de tudo está o amor de Bennie por Elita.

Bennie transforma-se naquilo que ele mais despreza após encarar a morte de sua amada e questionar sua própria vida e seus valores.

Depois de um espetáculo macabro de mortes violentíssimas, coisa que Peckinpah sabe fazer de melhor, Bennie finalmente recupera a cabeça e volta para casa. Após uma longa conversa com a cabeça inerte de Garcia, ele segue para a fazenda do coronel mexicano. Lá, com a ajuda da filha do coronel ele o assassina e logo em seguida é morto. Com Bennie vingado e redimido, a morte se apresenta como única possibilidade para quem desceu até as profundezas do inferno e conseguiu matar o diabo. Diante de tantas mortes vãs, a de Bennie é a única que parece fazer sentido. Depois de uma jornada pelo que há de mais imundo na condição humana, tanto física como moralmente, o espectador mais atento concluirá que este filme trata na verdade de um conto de amor e redenção como oposição às forças menos nobres da natureza humana. Realizado à maneira de Sam Peckinpah, claro.

A violenta, mas redentora morte de Bennie é também a morte da carreira de Peckinpah

A partir de agora, diante do reduzido espaço para publicar este texto, qualquer coisa que seja dita soará incompleta ou redundante. Por sua complexidade, Alfredo Garcia merece muito mais do que estas poucas linhas para criticá-lo e analisá-lo. Ainda que Meu Ódio Será Sua Herança seja considerado por muitos como o melhor trabalho da carreira de Peckinpah, sou obrigado a defender Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia como obra máxima do diretor. Todos os temas trabalhados anteriormente parecem ter alcançado sua maturidade com este filme. Não somente, Peckinpah consegue equilibrar ação, romance, conflitos morais e existenciais de tal forma que faz parecer que o filme é até mais curto do que é na verdade. Curiosamente é após este filme que Peckinpah passa a dirigir obras menores, nunca mais igualadas à força de seus predecessores. Mais uma vez a vida imita a arte, e como Benny, Peckinpah parece ter vivido para realizar este trabalho, a verdadeira obra de sua vida, para então gloriosamente esperar pelo fim.

PAT GARRET E BILLY THE KID (1973), Sam Peckinpah

por Otávio Pereira

Sam Peckinpah foi um dos melhores diretores americanos de western. Verdadeiro autor, dono de um estilo próprio, procurava retratar o Velho Oeste da forma mais realista possível. Seus filmes possuem características fortes, não só visualmente, mas também pela maneira como conduz seus personagens, colocando-os em conflitos internos gerados pela mudança do ambiente em que vivem.

Pat Garrett e Billy the Kid é um filme triste e de atmosfera quase mística, composto por belas imagens que são complementadas por uma interessante trilha sonora, composta por Bob Dylan. Em minha opinião a trilha dá bastante força ao filme, reforçando os sentimentos expostos. O clássico “Knockin’ On Heaven’s Door” se encaixa como uma luva após uma sequência de matança. Chega a emocionar!

Quem espera que o filme seja um duelo entre Pat Garret e Billy the Kid pode se decepcionar, na verdade o filme é sobre Pat Garret, de como o mesmo está lidando com as mudanças ao seu redor, sua adaptação ao novo mundo, suas escolhas que batem de frente com seu passado. É magnífico ver o trabalho de Peckinpah desenvolvendo o personagem de Garret, de marginal a homem da lei, convocando antigos parceiros de crime para auxiliá-lo e levando-os a morte, com isso enterrando parte de seu passado. E toda a luta de não ter que confrontar seu amigo Billy, criando coragem para isso dando um mergulho a um mundo de álcool, prostitutas e violência.

Pat Garrett e Billy the Kid é repleto de cenas de forte impacto e significado. Como Billy the Kid vendo um de seus parceiros sendo morto por bandidos de forma covarde, forma que talvez o mesmo já tivesse praticado. Mas a cena que mais gostei envolve um antigo bandido que também vira xerife e está construindo um barco para sair daquela região. Pat Garret o chama para auxiliá-lo em uma missão e o mesmo é baleado. Antes de morrer consegue chegar a um córrego para dar seu ultimo suspiro. Esta cena é complementada quando Pat Garret está descansando e vê um homem descendo um rio em uma balsa dando tiros em uma garrafa que é jogada na água, ambos acabam trocando tiros, mas depois trocam apenas olhares.

Além da excelente atuação de James Coburn, Kris Kristofferson não decepciona. O filme é recheado de rostos conhecidos, com destaque para Jason Robards, Jack Elam, Slim Pickens, Harry Dean Stanton, Emilio Fernández, entre outros.

Sem dúvida uma das últimas grandes obras realizadas no gênero western.

OS IMPLACÁVEIS (The Getaway, 1972), Sam Peckinpah

por Caio de Freitas

Depois de ousar e perturbar as platéias com Sob o Domínio do Medo, de 1971, Sam Peckinpah fez seus dois próximos filmes de modo mais comedido. Os Implacáveis, de 1972, é um bom e simples exemplo de filme de “assalto-e-fuga” bem feito, sem grandes invenções, calcado no “feijão-com-arroz” do gênero. Claro que há os toques de Bloody Sam na obra, como violência estilizada e tiroteios em câmera lenta, o que dá aquele algo mais ao filme.

Na trama, “Doc” McCoy [o nosso eterno Steve McQueen] é um ladrão de bancos que estava preso por quatro anos e meio até que se cansa e decide sair da cadeia. Pra isso, ele entra em contato com sua mulher, Carol [a belezinha Ali MacGraw], para que ela lhe arranje um meio de sair da prisão. Então, McCoy ganha sua liberdade para trabalhar para Beynon [Ben Johnson], e assaltar o cofre de um banco. A partir daí começa um jogo de trapaças e perseguições, onde ninguém confia em ninguém, que segue até El Paso, local onde acontece o clímax do filme.

Os Implacáveis não tem grande ousadia em seu roteiro, que mostra de maneira bem linear este jogo de trapaças. O filme segue em um ritmo agradável, crescente a partir do assalto do banco. Depois que as coisas começam a dar errado, Peckinpah mostra o casal McCoy tendo que lidar com as diversas situações que surgem após o malfadado roubo. Não há grande complexidade dos personagens, como em outros filmes do diretor, mas a evolução da trama é muito competente.

Há alguns pontos do filme a se destacar, como a participação de Al Lettieri [o Solozzo de O Poderoso Chefão] como Rudy, assaltante que tenta dar o golpe em Doc e acaba perseguindo-o durante o filme. Nesta perseguição, ele faz refém um casal, donos de uma clínica veterinária. A trajetória do casal beira o tragicômico: obrigados a levar Rudy até o México, a esposa flerta com o bandido, e o marido tem que observar a situação toda calado. Além disso, Steve McQueen é muito eficiente no papel de Doc McCoy, mostrando aquela postura que o espectador espera de um ladrão de bancos fodão.

No geral, Os Implacáveis é um filme eficiente. Não revoluciona o gênero (e nem pretende), mas traz elementos que funcionam bem neste estilo de filme, como várias perseguições de carro, acidentes, tiros e fugas. Há os toques de Peckinpah, esteticamente falando, como as cenas em câmera lenta e sequências com cortes rápidos, afim de criar um clímax. Se pensarmos em Peckinpah, é óbvio que o filme não é das melhores obras; mas se pensarmos em filmes de “assalto-e-fuga”, Os Implacáveis é uma boa diversão.

DEZ SEGUNDOS DE PERIGO (Junior Bonner, 1972), Sam Peckinpah

por Leandro Caraça

Sam Peckinpah reclamava da perseguição que recebia por parte dos censores e moralistas quando realizava filmes violentos. Mas quando apresentava obras as quais não havia tiros e gente morrendo, o público geralmente virava a cara. Foi o que aconteceu com Dez Segundos de Perigo, lançado nos cinemas com grande pompa em 1972, em vez de uma distribuição menor e mais seletiva como queriam Sam Peckinpah e o astro Steve McQueen. É compreensível o espanto que o filme possa ter causado no público, ainda aturdido pelo espetáculo visceral que foi Sob o Domínio do Medo. Talvez por causa disso, o diretor tenha resolvido trilhar outro caminho. E se o resultado por um lado foi frustrante para muitos, por outro mostrou (a quem conseguisse perceber) que ninguém retratava a morte do velho oeste americano como Sam Peckinpah.

Dez Segundos de Perigo apresenta J.R. ‘Junior’ Bonner (McQueen), um veterano astro do rodeio que já teve dias melhores. Após um tempo afastado, está agora retornando para sua cidade natal, a fim de participar de uma nova competição e conseguir uma revanche com o touro que o derrubou uma semana antes. Assim que chega, descobre que a velha casa de seu pai, Ace Bonner (Robert Preston), está sendo demolida – Peckinpah intercala a destruição da propriedade pelos tratores com retratos da memória de Junior Bonner. Mais tarde descobrirá que seu irmão Curley (Joe Don Baker) comprou todas as terras da família e pretende construir um loteamento com casas móveis. A pragmática mãe (Ida Lupina) está conformada com a situação, mas Ace Bonner planeja viajar para a Austrália e começar prospecção de ouro. Após fracassar como minerador de prata e torrar o dinheiro ganho com a venda das terras (com mulheres e bebida), ele só precisa de um pequeno investimento. É nessa situação que Junior Bonner vai encontrar a família, e através de um último rodeio em parceria com seu pai, tentará resgatar o que restou dos bons tempos.

Peckinpah traça um tocante paralelo entre o fim dos cowboys como Junior Bonner e a ruptura de um núcleo familiar. O filme não comete o erro de apontar vilões. Mesmo Curley é visto como alguém que não quer repetir os erros do pai e não vê um futuro para o irmão. “Estou trabalhando para conseguir meu primeiro milhão e você ainda está trabalhando nos seus oito segundos”, diz ele em certo momento para Junior Bonner, se referindo aos oito segundos mínimos que um cowboy precisa aguentar em cima da montaria. Para o personagem de McQueen só existe o rodeio, e como se fosse uma espécie de samurai americano, e ele continuará puro a este ideal até o fim. Chega até mesmo a pedir que Buck Roan (Ben Johnson), fornecedor dos animais da competição, o coloque para enfrentar o mesmo touro que o derrubou, ainda que para isso, tenha que abrir mão de metade do prêmio. Mesmo com o fracasso do filme nas bilheterias, Steve McQueen chamou Peckinpah para trabalhar com ele novamente. Não foi à toa, pois o astro tem em Dez Segundos de Perigo, aquela que deve ser a melhor performance de sua carreira.

SOB O DOMÍNIO DO MEDO (Straw Dogs, 1971), Sam Peckinpah

por Caio de Freitas

Sam Peckinpah trilhou um longo caminho até realizar aquela que seria considerada sua obra-prima: Meu Ódio Será Tua Herança, de 1969. Peckinpah mostrava ali as características mais marcantes de seu cinema: cenas com violência altamente estilizada, câmera lenta em tiroteios e cenas clímax e histórias que mostravam escolhas e atos eticamente discutíveis – e seus personagens sempre devem lidar com as consequências por tais escolhas. E dois anos depois Peckinpah consolida seu nome com um perturbador suspense, estrelado por Dustin Hoffman: Sob o Domínio do Medo, de 1971.

Bloody Sam” – alcunha pela qual Peckinpah ficou famoso – conta a história de um jovem casal que se muda para um pequeno vilarejo inglês em busca de paz e sossego. David e Amy Sumner [os excelentes Dustin Hoffman e Susan George] se mudam para a pequena Wakely, na costa da Inglaterra, para que David possa escrever um livro. Ele é um matemático norte-americano que faz pesquisas sobre navegação celestial, e o lugar parece perfeito para que seu trabalho renda mais. Porém as coisas mudam de panorama, e um grupo de maus elementos começa a perturbar o casal. Os marginais estão trabalhando na reforma da casa dos Sumner, então acabam tendo maior poder e facilidade para ameaçá-los.

Não se engane pela premissa relativamente simples: Peckinpah conta uma história complexa e sufocante, colocando personagens pacifistas em um vilarejo violento. Trabalhando com as consequências da escolha do casal de se mudar para este vilarejo, Peckinpah enfoca na transformação destes personagens, que em determinado ponto da trama percebem que lutam por suas vidas. Há muitos personagens icônicos nesta empreitada de Bloody Sam: o matemático pacifista David Sumner, que precisa se afirmar como homem e busca o respeito dos maus elementos de Wakely; Henry Niles [David Warner], um pedófilo em recuperação, sempre alvo de olhares atravessados dos moradores; a mulher de David, Amy Sumner, que não sabe se cede às suas origens de Wakely ou se aceita seu marido como ele realmente é.

Além disso, Amy se encontra em uma grave crise conjugal com David, que não hesita em questionar sua maturidade. Por isso, se cria outro perigoso cenário: Amy flerta com os marginais, sem nem imaginar as conseqüências deste perigoso jogo de sedução.

Peckinpah sempre foi conhecido por sua intensidade, e em Sob o Domínio do Medo as situações nas quais o casal se envolve são um bom espelho disso. Ao se utilizar de suas marcas técnicas, como cenas construídas ao redor de um clímax para muitos personagens, violência estilizada e em sequências em câmera lenta, Peckinpah cria sequências marcantes, como o estupro, o encontro na igreja e o confronto na casa dos Sumner. Mesmo que o ritmo do filme demore a engrenar, a escolha de Peckinpah para construir a narrativa se mostra adequada: com um começo um pouco mais lento, com situações e tensões mais implícitas, Bloody Sam consegue deixar a parte final do filme altamente sufocante.

Assim, Bloody Sam se aprofunda nos lados mais sombrios da psiquê humana, e mostra a que ponto chegamos quando somos exigidos além de nossos limites. O casal Sumner precisa deixar sua faceta pacifista de lado para sobreviver a esta passagem por Wakely, e durante este processo a platéia se perturba, e questiona a existência humana. Os personagens passam por provações e experiências traumáticas horríveis, que Peckinpah arquiteta de maneira brilhante.

Não vou ser hipócrita: Sob o Domínio do Medo é um filme denso, perturbador e pesado. Peckinpah realiza uma película tensa, daquelas que te deixam pra baixo o resto do dia, pensando e refletindo sobre o filme. Se você estiver disposto, o filme é muito competente, mostrando o lado horrendo do ser humano. A intenção de Peckinpah é chocar, polemizar e principalmente questionar. Tal qual Lars Von Trier em Dogville, Sam consegue trazer este questionamento na forma de uma obra-prima do cinema.