O EXÉRCITO DO EXTERMÍNIO (The Crazies), George A. Romero

por Luiz Alexandre

Em uma pequena cidade do interior dos EUA um casal de crianças testemunham seu pai destruindo sua casa e encontram o corpo de sua mãe com a garganta cortada. O exército aparece com tudo nessa mesma cidade para conter uma doença que começa a afetar cidadãos da cidade devido a testes mau sucedidos de uma arma biológica que poluíram as águas da região. Pessoas entram em um insano estado de fúria e histeria e o exército é chamado para contê-las. Ninguém sabe se o mundo está por um triz, mas todos sabem que nada será como antes naquela região.

O Exército do Extermínio é possivelmente um ensaio sobre a paranóia americana pós-vietnã, sobre a Guerra Fria. É também uma obra que reflete o comportamento do homem quando este se encontra envolto ao caos completo. A maneira como o exército e os políticos, completamente despreparados para o problema que precisam resolver, problema esse causado única e exclusivamente pela eterna necessidade de serem os donos do mundo, mostram que quando a coisa realmente aperta eles não salvam ninguém. O cidadão comum, segundo Romero, não passa de um boi de piranha para o progresso. Mesmo os seus soldados não terão sua volta para a casa garantida. Jesus não tem dentes no país dos banguelas, já dizia o disco dos Titãs.

O mais interessante é que enquanto existe uma pessoa realmente tentando reverter o processo a favor dos moradores da cidade, existe toda uma estrutura que vai contra sua luta vã pela salvação. A ciência não progride porque precisa se sobrepor a toda uma irracionalidade que é maior do que ela. O homem comum, mesmo que dedicado, mesmo que lutando com todas as armas que possui, nada pode contra o sistema. Sua única vingança é saber que as contradições do mesmo são demais até pra ela mesma. Resta apenas aos donos de tudo decidirem que cabeça cortar de sua própria quimera. O problema é que a cabeça que cortam é a mesma acima de nossos pescoços. Como canta a canção ao fim da obra, que os céus nos ajudem. Lindo.

O PAGAMENTO (Paycheck, 2003), John Woo

por Leandro Caraça

Uma década inteira em Hollywood fez estragos em John Woo. O Pagamento só não representa o ponto mais baixo de toda sua carreira por causa das suas experiências na televisão americana (Missão Secreta, The Robinsons: Lost in Space). Baseado num curto conto de Philip K. Dick, o filme mostra Ben Aflleck como um especialista em engenharia reversa, que acaba contratado para um serviço de três anos. Após isso, ele terá a memória deste período apagada. Terminado o serviço, ele vai coletar a grana, mas para seu infortúnio ao invés do dinheiro recebe apenas alguns objetos… que foram deixados por ele mesmo. Enquanto tenta resolver o enigma, precisará escapar das pessoas que estão tentando matá-lo por alguma razão. A partir de uma premissa bastante interessante, Woo comanda o filme no piloto automático. Resulta numa obra desprovida de emoção, com cenas de ação genéricas e o aspecto de ficção científica totalmente mal aproveitado.

Se a opção de Ben Aflleck como protagonista é um erro completo, o resto do elenco não é de se jogar fora (Aaron Eckhart, Paul Giamatti, Uma Thurman, recém-saída de Kill Bill). Mas nem mesmo eles são capazes de injetar alguma vida, e no final, O Pagamento se tornou uma das três bombas que Aflleck estrelou em 2003. As outras foram Demolidor – O Homem Sem Medo e Contrato de Risco – sendo que neste mesmo ano tomou um pé na bunda da sua então noiva Jennifer Lopez. Chega a ser constrangedor ver um cineasta como John Woo reduzido a um reles diretor de aluguel como acontece aqui, enquanto diretores como Walter Hill (em O Último Matador) e Alain Corneau (em Os Profissionais do Crime) conseguiram a proeza de montar espetáculos baseados no cineasta chinês, mas sem perder as suas identidades.

O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final (Terminator 2: Judgment Day, 1991), James Cameron

por Leopoldo Tauffenbach

Este é um filme que eu perdi a conta de quantas vezes assisti, tanto no cinema quanto em vídeo e posteriormente em DVD. Sem dúvida, O Exterminador do Futuro 2 foi um daqueles filmes que fizeram parte do meu repertório adolescente e tornou-se referência. E acredito que, como eu, muita gente aguardou ansiosamente a estréia da continuação do clássico de 84 que prometia uma revolução em termos de ação e efeitos especiais.

A comparação com o primeiro Exterminador chega a ser injusta em diversos aspectos. Arnold Schwarzenegger, por exemplo, embolsou sozinho 15 milhões de dólares, mais que o dobro do orçamento do filme anterior. O orçamento histórico de mais de 100 milhões de dólares permitiu a Cameron incluir uma equipe técnica de peso. Para cuidar dos efeitos especiais, entra em cena a Industrial Light and Magic de George Lucas, e a maquiagem ficou novamente sob a responsabilidade do imbatível veterano Stan Winston. Diferente de seu antecessor, O Exterminador do Futuro 2 teve uma campanha de marketing muito mais agressiva, que incluía a o hit You Could Be Mine, da banda Guns ‘n’ Roses, o que o colocou entre os filmes mais aguardados da década (o clip da música trazia várias cenas da produção, mas no filme mesmo ela aparece de fundo ilustrando um passeio de moto de John Connor).

O exterminadores se encontram pela primeira vez e não perdem tempo em tentar exterminar um ao outro.

A história se passa 10 anos após o primeiro filme. Mais uma vez Schwarzenegger surge como um exterminador, mas reprogramado no futuro para proteger John Connor de outro exterminador, o modelo T-1000. Sarah Connor segue internada em um hospital psiquiátrico e não pode ajudar o filho, enquanto Skynet, o computador que iniciará a guerra aos humanos, está prestes a ser construído com os pedaços do exterminador destruído no filme anterior! Uma vez reunidos, Sarah, John e o exterminador não só devem fugir dos ataques implacáveis do T-1000 como devem tentar destruir Skynet, a fonte de todo o mal, salvando a humanidade de seu futuro sinistro.

Uma das cenas mais surpreendentes com o exterminador T-1000, onde ele entra em um helicóptero por um vão para depois reconstituir-se à sua forma anterior.

Cameron conseguiu a proeza de superar as expectativas com um roteiro inovador, que mesmo trazendo de volta a mesma dinâmica da história anterior, amplia a mitologia do filme e aprofunda os personagens. Mas a alma do filme é mesmo o exterminador T1000, interpretado pelo ator das orelhas biônicas, Robert Patrick. Constituído de “ligas de metal miméticas” ou algo semelhante a metal líquido, ele tem a habilidade de moldar seu corpo à sua vontade, adquirindo a aparência de outras pessoas, objetos e transformando seus membros em armas pontiagudas. Essa habilidade também o torna virtualmente invencível, uma vez que lhe garante a capacidade de regenerar possíveis ferimentos. Cada vez que T-1000 surge na tela é uma explosão de adrenalina. Cada uma das cenas protagonizadas por ele faz o espectador roer o toco da unha de tanta tensão. Cameron realmente conseguiu apresentar ao público um vilão nunca antes visto, algo para encher os olhos e provocar emoções, e a verdade é que ninguém estava preparado para um espetáculo tão grandioso. Ainda que Patrick não tenha o mesmo carisma de Schwarzenegger, seu personagem supera em sofisticação, frieza e maldade o velho T-800 de 1984. Realmente, a revolução prometida em ação e efeitos especiais efetivou-se.

Nosso futuro em boas mãos: A mãe terrorista, o filho delinquente e o robô que deve salvar os dois.

Mas existe um fato curioso nesta história toda. Enquanto revia os dois primeiros filmes da saga para escrever estas pobres linhas, tive a impressão de que O Exterminador do Futuro 2 ficou datado, ao contrário do primeiro, mesmo com aquele visual oitentista fadado ao ridículo (principalmente no quesito penteados). Parte disso deve-se à inserção de humor no roteiro, algo completamente ausente no primeiro filme, e à atuação de Robert Furlong. Seu trabalho funcionou para a época, mas vendo hoje, John Connor parece mais um garoto bobo do que o delinquente órfão destinado a liderar uma revolução como previa a história. Já Linda Hamilton funciona muito bem no seu papel, apesar de alguns excessos. E Schwarzenegger melhorou muito em termos de atuação desde 1984 – agora ele realmente sabe atuar –, e seu exterminador tornou-se um dos heróis de ação mais empolgantes de todos os tempos.

James Cameron mostra neste filme que sabe o que quer. Para esta cena resolveu explodir um edifício de verdade ao invés de um cenário.

Mesmo sem o clima claustrofóbico do primeiro filme, o retorno de Cameron e Schwarzenegger ao universo de O Exterminador do Futuro é histórico, e os problemas explicitados aqui não impedem que o filme seja revisto inúmeras vezes sem deixar um sorriso de satisfação no rosto do espectador.

O Segredo do Abismo (The Abyss, 1989), James Cameron

por Ronald Perrone

O quarto filme de James Cameron foi esta grandiosa ficção científica de orçamento estrondoso sobre um grupo de garimpeiros de petróleo subaquáticos contratados para procurar um submarino nuclear perdido. Acaba tendo um contato com seres extraterrestres engajados ecologicamente. No elenco um time de primeira com Ed Harris, Mary Elizabeth Mastrantonio, Michael Biehn colaborando com o diretor pela terceira vez, Todd Graff, John Bedford Lloyd, e vários outros.

Naquela altura, James Cameron já buscava maneiras de transcender os limites tecnológicos do cinema. As filmagens de O Segredo do Abismo, por exemplo, foram extremamente difíceis, grande parte debaixo d’água, com som direto, etc. Mas nada interferia no processo criativo do diretor em conduzir seu projeto e o resultado, tecnicamente, reforça o talento do sujeito em relação ao seu olhar visionário para com a tecnologia de efeitos especiais, computação gráfica, algo realmente impressionante para a época, um verdadeiro avanço.

Mas Cameron vai muito além de um exercício técnico, extraindo de cada situação a essência de diversos gêneros e subgêneros inseridos à narrativa (terror aquático, fantasia mística, aventura, ação, romance). O problema é que essa mistura toda não agradou o público da época. Talvez por uma falta de coerência, acabou indo mal nas bilheterias, injustamente, mesmo com várias sequências de suspense e ação bem eficazes. Alguns anos mais tarde, Cameron resolveu lançar sua “versão do diretor” com 27 minutos a mais que o original. O que já era bom ficou ainda melhor.

Aliens – O Resgate (Aliens, 1986), James Cameron

por Ronald Perrone

James Cameron é fã de carteirinha de Alien – O Oitavo Passageiro (1979), de Ridley Scott, e precisou colocar em prova sua capacidade e talento, que não eram claros naquele período, para ter seu nome escrito na cadeira de diretor desta continuação. Ainda estamos em 1980, passado apenas um ano do lançamento do original, os produtores já começam a viabilizar a idéia de uma sequência. O problema maior é encontrar um script que justificasse mais um filme.

Os produtores David Giler e Walter Hill chegaram ao pobre Cameron através do roteiro de O Exterminador do Futuro (que ainda não havia sido realizado) e resolveram marcar um encontro para trocar idéias. Lá pelas tantas, depois de algumas doses de whisky, comentaram o desejo de realizar a continuação de Alien e Cameron se interessou subitamente. Após vários roteiros recusados, James Cameron, que mal havia dirigido Piranhas 2 e trabalhou apenas na parte técnica de algumas produções de ficção, conseguiu colocar na mesa dos executivos uma estória que finalmente chamou-lhes a atenção. O roteiro ainda não estava pronto (e muita coisa foi mudada junto com outras pessoas), mas já era meio caminho andado; a base desse script eram idéias que o diretor estava desenvolvendo para um filme chamado Mother.

No entanto, era um risco colocar nas mãos de James Cameron a direção de um filme que exigia muito investimento, muita estrutura, muita coisa que aquele sujeitinho ainda não havia trabalhado. Ninguém podia assegurar se ele era realmente capaz de administrar todo o aparato que seria colocado em suas mãos. A prova de fogo foi o filme que Cameron estava realizando, ainda em fase de pré-produção. Se conseguisse ser bem sucedido, teria o emprego na continuação de Alien. Mas todos nós sabemos que O Exterminador do Futuro foi um sucesso, então…

Aliens recebeu este título (e não Alien 2) porque em 1980, um italiano chamado Ciro Ippolito produziu, escreveu e dirigiu uma “sequência picareta” de Alien chamado Alien 2, com a trama se passando na terra. Mas Aliens é um nome que se encaixa perfeitamente ao filme de Cameron, pois uma das principais diferenças do original é que desta vez Ripley (Sigourney Weaver) terá de enfrentar um exército de aliens ao invés de um único como no primeiro filme.

Sendo assim, o diretor de Avatar tomou um caminho diferente ao de Ridley Scott. O primeiro filme da série era um exercício de claustrofobia, atmosférico ao extremo e trabalha muito bem o suspense. Sem dúvidas é um dos filmes contemporâneos mais eficazes nesse sentido. Já o filme de James Cameron segue uma proposta que impõe um ritmo mais frenético à narrativa, com bastante ação, tiroteios, explosões, correrias, muita carnificina, etc (Cameron estava trabalhando também no roteiro de Rambo 2 antes de começar este aqui, talvez estivesse muito focado nesses elementos…). O mais impressionante disso é que o respeito de Cameron pelo original é fundamental para balancear o tom entre os dois filmes. Aliens possui atmosfera suficiente para permanecer ao lado de Alien e possui ação de tirar o fôlego suficiente para garantir a proposta de Cameron.

A trama de Aliens se passa 57 anos após os acontecimentos do primeiro filme. Ripley desperta do seu sono criogênico depois de ter sua nave encontrada pela companhia pela qual trabalhava; toma conhecimento de que toda sua família morreu; mal se recupera e já é persuadida para retornar ao planeta alienígena numa missão para averiguar a situação dos colonos que habitam o planeta, já que a comunicação com eles fora interrompida. Ela se faz de difícil, etc, mas acaba aceitando e desta vez terá ajuda de um grupo de fuzileiros navais carregando um grande poder de fogo.

O que se segue a partir daí é suspense intenso da melhor qualidade com altas doses de ação em cenários de ficção científica e atmosfera dark muito bem elaborados, inspirados nas artes de H. R. Giger e intensificados pela ótima trilha sonora de James Horner; a contagem de corpos é altíssima, muitos fuzileiros matando aliens, sendo mortos também pra dar uma balanceada, embora o número de aliens seja bem maior, até chegar a um ponto em que Sigourney Weaver questiona James Cameron sobre o filme estar muito violento, ter muitas armas, e essas baboseiras, mas a resposta do diretor já demonstrava um sujeito que não se deixa levar por frescuras de ator: “então vamos fazer uma cena que um Alien lhe ataca e você tenta bater um papinho com ele”, algo nesse sentido…

Além de Weaver, que recebeu uma indicação ao Oscar pela sua atuação, o restante do elenco merece uma atenção à parte. Temos Michael Biehn voltando a trabalhar com o diretor, Lance Henriksen fazendo um andróide para o desespero de Ripley (quem não se lembra de Ian Holm no primeiro filme?), Bill Paxton como alívio cômico involuntário, Paul Reiser, William Hope, Jenette Goldstein e outras feras que compõem um excelente time. E é curioso como grande parte deles são subestimados atualmente.

A versão que revi e recomendo fortemente é a estendida, na qual James Cameron realiza um estudo humano muito interessante com a personagem de Sigourney Weaver e ajuda bastante na compreensão de seus atos, no instinto materno com o qual ela acolhe e protege a garotinha, única sobrevivente dos colonos, enxergando a oportunidade de ter uma família novamente. O confronto final entre Ripley e a alien rainha toma proporções épicas visto dessa forma. A protagonista tentando proteger sua “filha” e a criatura também com um instinto de proteção pelos seus ovos.

Get away from her, you bitch!

Sobre a rainha e seu aspecto visual impressionante, vale destacar os incríveis efeitos especiais da equipe comandada pelo genial Stan Winston. É um troço realmente assustador! Não só ela, mas todos os aliens aparentam bem mais flexibilidade, agilidade e realismo em relação ao alien solitário do primeiro filme, embora o conceito de Giger ainda permaneça intacto. É a prova de que o talento manual de um verdadeiro gênio dos efeitos especiais sempre vai superar o resultado de um CGI.

Aliens é um filme inovador nos quesitos técnicos, afirmativa que pode ser reaproveitada em qualquer texto sobre os filmes dirigido pelo Cameron. Todas as suas obras seguintes revolucionaram o cinemão americano comercial de alguma maneira, seja nos efeitos especiais, no uso do som ou até mesmo na forma como trabalha suas narrativas, transformando seus trabalhos em experiências únicas para o público. Este aqui não foge à regra. É um espetáculo em todos os sentidos.

O Exterminador do Futuro (The Terminator, 1984), James Cameron

por Leopoldo Tauffenbach

A História do cinema prova que nem sempre a análise dos fatos gera um resultado previsível. Se assim fosse, o único resultado possível da combinação de baixo orçamento, ficção científica, diretor inexperiente e ator inexpressivo seria o fracasso total. Apesar de possuir todos esses requisitos, O Exterminador do Futuro conseguiu o seu lugar nos anais do cinema de ficção.

A clássica cena do "I'll be back": a não-interpretação é a alma do negócio.

A idéia é tão simples que chega a ser irritante. Em um futuro dominado por máquinas, os humanos formam uma resistência para acabar de vez com a tirania metálica. Sentindo a derrota se aproximar, as máquinas mandam um robô exterminador ao passado para assassinar a mãe do futuro líder da resistência, John Connor, e assim alterar as vantagens futuras. Mas a resistência descobre o plano das máquinas e envia um soldado ao passado para proteger a mãe de Connor antes que o exterminador a alcance.

Até então James Cameron era um diretor sem muita experiência. Antes de Exterminador, dirigira somente dois filmes. Mas um fator determinante para o seu sucesso é a sua sagacidade. Cameron é uma daquelas pessoas extremamente inteligentes e criativas, a quem meia palavra basta. Sua participação nos filmes Galáxia do Terror e Mercenários das Galáxias ensinou tudo o que ele queria saber sobre o cinema de ficção científica e o milagre da multiplicação orçamentária – afinal, estamos falando de duas produções de Roger Corman –, enquanto Xenogenesis e Piranhas II o ensaiaram para a difícil arte da direção.

Michael Biehn e Linda Hamilton como Reese, o homem protetor do futuro, e Sarah Connor, a mãe daquele que salvará o futuro. Adivinhe quem é o pai?

Já Arnold Schwarzenegger não era o que poderíamos bem chamar de “ator” até aquele momento. Suas incursões anteriores eram imitações do próprio personagem “Mister Universo”. E quando Arnold inventava de interpretar, o resultado não era lá essas coisas, como em Cactus Jack, o Vilão. A sabedoria de Cameron, e consequentemente o êxito de Schwarzenegger, residiu em explorar aquilo que ele não era: um ator. Seu trabalho era não interpretar, ser uma criatura dura movida por seu impressionante físico. Era disso que se tratava um exterminador. Aliás, John Millius já tinha entendido isso quando fez Conan, o Bárbaro, e Richard Fleischer resolveu ignorar o mesmo fato com Conan, o Destruidor, tentando dar ao musculoso austríaco mais responsabilidade cênica do que ele poderia aguentar. Como resultado, temos uma obra de arte em Conan, o Bárbaro e um filmeco esquecível em Conan, o Destruidor.

O exterminador mostra sua verdadeira face e a excelencia das equipes de maquiagem e efeitos especiais. Enquanto isso a platéia vai ao delírio.

Não à toa, é possível enxergar alguns traços estilísticos da escola de Corman em Exterminador. Mas James Cameron foi além, e imprimiu um ar sujo e fatalista ao filme. A direção de arte de George Costello – que não fez nada muito notável antes e depois de Exterminador – e a neurótica trilha sonora de Brad Fiedel foram essenciais na construção do clima do filme. E nem vamos falar dos efeitos especiais e de maquiagem do filme, esta deixada a cargo do mestre Stan Winston. O que temos em O Exterminador do Futuro é cinema de ficção da mais alta qualidade, e o mais importante aqui é a história magistralmente contada por Cameron. Prova disso é que passados 25 anos desde seu lançamento, continua impávido em sua posição, enquanto outros filmes são lançados com alarde para logo depois serem condenados a camadas de poeira em uma prateleira baixa nas locadoras.

Xenogenesis (1978), James Cameron

por Leandro Caraça

O sucesso de Star Wars fez o jovem James Cameron abandonar o seu emprego de caminhoneiro para tentar a sorte no cinema. Realizado em 1978, o curta Xenogenesis é um preview do que Cameron faria ao longo das próximas décadas. Com doze minutos de duração, somos apresentados a história através de uma série de pinturas. Numa delas, o protagonista Raj aparece com um braço mecânico igual a Arnold Schwarzenneger em O Exterminador do Futuro. Ele e sua companheira Laurie estão explorando o universo à procura de um planeta que possa abrigar um novo ciclo de vida humana. Eles encontram uma nave abandonada onde um robô muito parecido com uma das máquinas da Skynet irá perseguir Raj (interpretado por William Asher Jr., amigo de Cameron e co-roteirista dos dois Terminator). A cena a seguir, com Laurie a bordo de um robô de forma aracnídea e lutando contra o outro autômato, ressusrgiu anos mais tarde em Aliens – O Resgate e O Segredo do Abismo. Por falta de fundos, James Cameron foi obrigado a deixar a trama sem uma conclusão. Mas foi suficiente para chamar a atenção de Roger Corman. Depois, Cameron trabalhou em algumas produções do gênero: Mercenários da Galáxia (efeitos especiais e direção de arte), Andróide (consultor de design), Fuga de Nova Iorque (fotografia de efeitos) e Galáxia do Terror (diretor de produção e assistente de direção). Roger Corman lhe ofereceu a chance comandar Piranha 2 – Assassinas Voadoras. Não demorou muito para que o produtor Ovidio G. Assonitis, insatisfeito com o progresso das filmagens, demitisse Cameron. Assonitis assumiu o projeto e comandou o corte final. Do material filmado por Cameron sobrou muito pouco. Durante o pouco tempo em que esteve com a equipe, caiu vítima de uma forte febre. Foi nessa noite em que ele teve um estranho pesadelo, onde era perseguido por um esqueleto metálico coberto de chamas.

AÇÃO MUTANTE (Acción Mutante, 1993), Álex de la Iglesia

Acción mutante - Capa 2

Bizarro, hilariante e inesperado! Estamos no ano de 2012, onde um grupo terrorista chamado “Ação Mutante” barbariza a sociedade. Este grupo é formado por seres deformados, deficientes e mutantes. Eles lutam contra o domínio dos ricos e bonitos. Seus atos vão desde seqüestros a assassinatos em massa. Após seu líder ser solto depois de cumprir pena, é escolhida a nova vítima, filha de um magnata das indústrias alimentícias, a mesma é raptada no dia de seu casamento e levada ao planeta Astúrias, onde deverá ser trocada pelo resgate.

Acción mutante 2

Com este enredo Álex de la Iglesias dirige seu primeiro longa-metragem, que é uma mistura de ficção, ação, horror e comédia. Tudo esta na dose certa, mas posso dizer que não é um filme para todos, pois a carga de crítica social e o humor negro são apresentados de forma nada leve e nem delicada, tudo é jogado na tela com muita violência e exageros.

O filme pode ser dividido em três partes, a primeira com os ataques do grupo terrorista até chegar ao seqüestro. A segunda se passa no interior da nave a caminho do planeta Astúrias. E a terceira e final já no planeta a espera do resgate. Todas elas possuem suas particularidades e o ritmo do filme nunca cai, sempre trabalhando muito bem a parte cômica com acontecimentos bizarros e inesperados. Existe uma situação que me lembrou as histórias do Garth Ennis, não irei comentar para não estragar aos felizardos que tiverem interesse em assistir esta maravilhosa película.

Ação Mutante não pode ser visto como um filme de ficção, e sim como uma comédia de humor negro recheada de criticas sociais e de ritmo acelerado. Uma das coisas que deixa o filme ainda mais divertido são os efeitos especiais crus e toscos, nos remetendo à mesma atmosfera de Bad Taste e Body Melt.

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Otávio Pereira