A Comunidade (La Comunidad, 2000), Álex de la Iglesia

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Um bom cozinheiro deve saber dosar os ingredientes de uma receita para que ela não desande. Poucos seriam capazes de servir uma iguaria fina como A Comunidade que mistura porções de Hitchcock e Polanski, sempre temperando com generosas doses de humor negro. Sem endurecer ou perder a ternura, Álex de la Iglesia conseguiu o seu maior sucesso de público e de crítica na Espanha, além de sagrar-se o grande vencedor do Prêmio Goya de 2000. Em meio a tantos acertos, o maior deles é sem dúvida, a presença da veterana Carmen Maura como a imobiliária gaiata que acaba colocando as mãos na fortuna de um morador recluso de um velho prédio. A parte chata é que todos os moradores do lugar estão loucos para pegar o que acreditam também pertencer a eles, custe o que custar. Por um acaso eu disse todos ? Porque no meio de tanta gente gananciosa surgirá um cavaleiro jedi para auxiliar Carmen Maura. Será que Álex de la Iglesia criou esse personagem como vingança da provável decepção com A Ameaça Fantasma de George Lucas ? Sempre tive essa impressão. Brincadeiras à parte, A Comunidade é outra bola dentro do espanhol.

4Leandro Caraça

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Crime Ferpeito (Crimen Ferpecto, 2004), Álex de la Iglesia

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Além das características mais óbvias que foram apontadas no decorrer do mês, nas resenhas dos outros compañeros de blog, o cinema de Álex de la Iglesia parece ter, também, grande parte do seu pé de apoio nas referências aos filmes que definiram a sua formação cinéfila. Todos os seus trabalhos se desenvolvem a partir de homenagens, reverências e brincadeiras com os gêneros, estilos e fitas que devem ter feito a cabeça deste espanhol maluco no frescor da juventude, método semelhante ao de Tarantino. Portanto, é cinema dos mais sinceros e apaixonados, realizado por um cinéfilo com muita bagagem e talento suficiente para formar um estilo próprio.

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Crime Ferpeito é um bom exemplo disso. Ambientado no mundo dos negócios, dentro de uma loja de departamentos, somos apresentados a Rafael (Guillermo Toledo), um magnífico vendedor do setor feminino que utiliza todo seu poder de sedução para persuadir as clientes e transar com as funcionárias depois do expediente. Sua maior ambição é tornar-se gerente geral, mas por conta de alguns problemas, quem acaba promovido é o seu grande rival do setor masculino, Don Antonio Fraguas (Luis Varela).

Deprimido e desesperado, Rafael, acidentalmente, comete um assassinato dentro da loja e precisa esconder o corpo, não levantar suspeitas, manter a calma, etc, tudo para que seu crime, mesmo involuntário, seja perfeito. Mas acaba “ferpeito”. O único detalhe é que uma funcionária, Lourdes (Mónica Cervera), testemunhou toda a desgraça. Lourdes é aquela típica funcionária inimiga da beleza que ninguém nota e que deve existir em todos os locais de trabalho. Conselho de amigo: muito cuidado com esse tipo de gente! Quando ocorrem problemas como este, elas oferecem ajuda, mas depois transformam sua vida num verdadeiro inferno! Rafael que o diga…

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É a partir de toda esta situação que o nosso estimado diretor, Álex de la Iglesia, aproveita para prestar seus tributos cinematográficos: de Hitchcock, em Disque M para Matar (que na Espanha possui o título de El Crimen Perfecto), ao seu conterrâneo Luis Buñuel, em Ensaio de um Crime. Sem perder o estilo peculiar – com seu humor negro afiado, personagens marcantes, ácida crítica à sociedade – Iglesia apresenta um filme sóbrio nas extravagâncias visuais, tentando ao máximo construir um universo palpável, apesar das situações exacerbadas que divertem do início ao fim.

4

Ronald Perrone