Searchers 2.0 (2007), Alex Cox

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por Leandro Caraça

Filmado com uma câmera digital Sony e quase nenhum dinheiro, Searchers 2.0 é um road movie bem humorado e sentimental que presta homenagem ao gênero cinematográfico favorito do diretor. Ed Fletcher e Mel Torres são dois ex-atores mirins que, por acaso, se reencontram após várias décadas. Quando crianças foram aterrorizados e torturados no set de Buffalo Bill vs. Doc Holliday pelo roteirista Fritz Frobisher (Sy Richardson), cujo objetivo era conseguir atuações realistas dos pequenos atores. Agora Ed e Mel (Ed Pansullo e Del Zamora, também habituais colaboradores de Alex Cox) pretendem viajar até Monument Valley onde vai acontecer a exibição daquele fatídico filme com presença confirmada de Frobisher. Tendo a vingança em mente, a dupla começa uma jornada ao lado da filha de Torres (a estreante Jaclyn Jonet), que se junta a eles meio que a contragosto. Ao longo de todo o caminho, esses velhos e melancólicos fãs de western discutirão seus filmes e atores favoritos, o estado da indústria de cinema e a política americana. Chegando ao seu destino, não sem algumas surpresas, o confronto dos dois com Fritz Frobisher se dará ao estilo Sergio Leone. Com produção de Roger Corman – que faz uma aparição quase imperceptível – e muita disposição de todos os envolvidos, Searchers 2.0 é quase uma produção caseira, com ótimas atuações e diálogos certeiros que mostra um diretor veterano com muito ainda para dizer.

3 cleef

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À Caminho do Inferno (Straight to Hell, 1987), Alex Cox

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por Leandro Caraça

Alex Cox não foi o criador do faroeste pastiche, mas merece crédito pelo primeiro punk western que se tem notícia. Em seus primeiros anos de carreira, o cineasta britânico era uma espécie de Robert Rodriguez com cérebro, ou seja, não só tem noção do que fala, como sempre teve algo para dizer. À Caminho do Inferno nasceu de uma ideia do produtor Eric Fellner que organizou um show de rock em prol dos revolucionários sandinistas. Com artistas do calibre dos Pogues, de Joe Strummer e de Elvis Costello, Fellner queria organizar uma turnê mundial angariando fundos para os guerrilheiros nicaraguenses, o que acabou não acontecendo. Ao invés disso, os músicos foram convencidos a participar de um faroeste filmado nos desertos de Almería, mais precisamente nos sets de Valdez, o Mestiço, produção estrelada por Charles Bronson e assinada por John Sturges na década de 70.

O roteiro de Alex Cox (escrito com o ator Dick Rude) não passa de uma grande anarquia alegórica, regada a rock n’roll e tiros, funcionando como um preparativo para o mais polido e audacioso Walker, realizado no mesmo ano. O clima de festa geral pode ser detectado só pelas figuras que aparecem no filme : além dos músicos já citados, marcam presença também Dennis Hopper, Grace Jones, Jim Jarmurch, Courtney Love (antes dela dar o golpe em Kurt Cobain) e vários atores habituais de Cox. Fato interessante é que o bandido interpretado por Sy Richardson possuí uma enorme semelhança física e visual com Samuel L. Jackson em Pulp Fiction do Tarantino. À Caminho do Inferno é aquele tipo do filme onde a paródia acaba sobrecarregando todo o resto, e por isso não está entre as melhores obras de Alex Cox. Em seu favor podemos dizer que possuí atitude e energia genuínas, que infelizmente se perderam no tempo, em algum ponto dos anos 80, e que poucos cineastas daquela época, como Alex Cox, ainda hoje são capazes de transmitir.

3 cleef e meio