O AJUDANTE DE SATÃ (Satan’s Little Helper, 2004)

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por Leandro Caraça

Após Controle Remoto (1988), demorou 15 anos para que Jeff Lieberman voltasse a realizar um longa-metragem. Por sorte, novamente do gênero horror. Produção independente, feita direto-pra-video, O Ajudante de Satã não fica a dever aos demais longas do cineasta. Mesmo restrito a alguns poucos trabalhos na televisão nos anos 90, Lieberman parece não ter perdido absolutamente nada daquela garra que demonstrou no passado. Com mais chances na carreira, quem sabe ele poderia ter se transformado em um nome tão popular quanto Stuart Gordon ou Tobe Hooper. Talento nunca lhe faltou e bons filmes atestam isso.

Não seria um exagero colocar O Ajudante de Satã entre os melhores slashers dos últimos 10 anos. Longe de ser uma nova brincadeira ao estilo ou alguma coisa requentada (geralmente disfarçada com o nome de homenagem retrô), o filme de Lieberman é de um frescor que não estamos mais acostumados. A velha história de um serial killer atacando uma pequena cidade durante as festividades do Halloween ganha um incentivo a mais quando um garoto ingênuo, fã de um violento videogame, confunde o assassino com o personagem de seu jogo favorito, que é o próprio Diabo. Assumindo a função de pequeno ajudante de Satã, o menino passa a acompanhar as ações do seu novo amigo, sem conseguir perceber as reais consequências de tudo. Desde que Satã não mate sua família, para ele tudo estará bem. Tudo o que importa é ganhar pontos, seja atropelando mulheres grávidas ou carrinhos de bebê.

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As atitudes do menino podem parecer muita ingenuidade, mas apenas mostram um garoto em seu mundo de fantasia virtual. A figura do assassino, que nunca revela seu rosto, impressiona. Com seu traje negro e a máscara, transita entre o assustador e o cômico, e a direção de Jeff Lieberman nunca deixa essa mistura desandar. Incrível que ele tenha conseguido produzir um filme totalmente despido dos clichês e cacoetes do horror contemporâneo e quando ninguém mais esperava por outro filme seu. Num mercado em que as produções independentes feitas por diretores décadas mais jovens geralmente resultam em porcarias, Liberman deixou a sua marca neste retorno. Resta torcer para que algum dia consiga realizar outra obra como essa.

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JUST BEFORE DAWN (1981)

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por Alana Phibes

Muito mais que um Slasher

Just Before Dawn, o terceiro filme da carreira de Jeff Lieberman (e considerado seu preferido entre toda sua filmografia) é um filme focado muito mais no suspense e na bela ambientação, do que em mortes frequentes e sangrentas. A principal influência do diretor, segundo ele mesmo, seria o clássico Amargo Pesadelo (Deliverance) de 1972. E realmente tem alguns pontos em comum. Filmado num parque no Oregon, tem como protagonistas o quinteto de jovens Chris Lemmon (filho de Jack Lemmon), Gregg Henry, Deborah Benson, Jamie Rose e Ralph Seymour, que na busca por um lugar para acampar, se deparam com o clássico aviso para não o fazer por aquelas bandas, feito por Ty (Mike Kellin), um bêbado que vagava pela estrada. Mas é claro que eles não lhe dão ouvidos e continuam sua busca. A diferença da maioria dos slashers envolvendo jovens e matagais, em que a moçada só quer saber de trepar e fumar maconha, é que aqui o pessoal quer mesmo é curtir o acampamento, explorar e fotografar o belo lugar.

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O que vem a seguir é uma sequência de suspense crescente com poucas, mas eficientes aparições do “perigo” da floresta, que nada mais é que o próprio ser humano, o que poderia remeter a Quadrilha de Sádicos (The Hills Have Eyes), exceto que a família mostrada não tem nenhuma deformidade. Os poucos diálogos aumentam e prolongam a sensação de “estamos-sendo-vistos-e-seguidos”, e a trilha sonora muito bem pontuada (feita por Brad Fiedel, que seria melhor conhecido por suas futuras trilhas para a franquia O Exterminador do Futuro) deixa no ar uma maior casualidade na história, diferente de alguns filmes do gênero, que abusam dos efeitos sonoros para criar o “momento” em que algo ruim vai acontecer. Nâo é o caso aqui. Nesse filme o diretor realmente te pega de surpresa, sem avisos, apenas pequenos detalhes que são reconhecidos da curta introdução (não quero revelar os fatos para não estragar as surpresas) antes dos créditos inicias, onde o “perigo” é mostrado.

Enfim, apesar de algumas similaridades, realmente não consigo ver esse filme como um slasher comum; o desenvolvimentos dos personagens, mais notadamente o da loira Constance (Deborah Benson) e a interação entre eles é muito boa, as cenas de morte são discretas(sem serem menos aterrorizantes por isso), e muito é deixado a cargo da imaginação do espectador. Bem acima da média das produções da época.

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OS ASSASSINOS DO RAIO AZUL (Blue Sunshine, 1978)

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por Ronald Perrone

Já pensou se aquele inocente ácido que te deixou doidão em uma festa qualquer dez anos atrás tivesse uma bad trip retardatária e causasse efeitos colaterais hoje, sem mais nem menos, subitamente? Pois o diretor e roteirista Jeff Lieberman pensou. Foi assim que surgiu Os Assassinos do Raio Azul, o trabalho mais cultuado do homem e uma interessante reflexão sobre as consequências da geração libertária dos anos 60 em forma de conto psicodélico de horror.

Na história de Os Assassinos do Raio Azul, uma epidemia bizarra começa assolar os pobres moradores de Los Angeles. Pessoas comuns, vivendo suas vidas, começam a sofrer uma repentina perda de cabelo. Apenas o início de uma transformação que termina com o indivíduo agindo como um zumbi careca psicopata, que só segue o instinto de matar e matar. É o que acontece logo no início do filme, quando um grupo de amigos, nos seus trinta e poucos anos, festeja numa casa perto da floresta nos arredores de Los Angeles. Um dos convidados perde totalmente o cabelo, surta ferozmente e inicia a matança. Na fuga, vai parar debaixo de um caminhão.

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 A culpa de toda a tragédia acaba sobrecaindo no único sobrevivente, Jerry Zipkin (interpretado pelo futuro produtor e diretor de thillers eróticos, Zalman King), agora procurado pela polícial. Tentando compreender os fatos e precisando provar sua inocência, Zipkin inicia um trabalho de investigação. Além de descobrir que o bizarro acontecimento não foi um caso isolado, o sujeito encontra ligação entre ex-alunos da universidade de Stanford com uma droga alucinógena comercializada no local há dez anos, conhecida como Blue Sunshine. E não se trata de Viagra.

Conforme o filme avança e as investigações de Zipkin tem resultados, mais ex-alunos daquela época entram num frenesi zumbi psicótico causando o terror. A sequência em que o herói consegue salvar duas crianças de uma careca descontrolada empunhando uma faca é um dos momentos mais tensos do filme, que é todo muito bem conduzido por Lieberman intercalando instantes de thriller policial de investigação com situações de puro horror. Os dez minutos finais na discoteca e logo depois numa loja de conveniências é uma aula de tensão e atmosfera.

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Mas a grande sacada de Os Assassinos do Raio Azul é mesmo a sua premissa de incrível originalidade. Essa história de pessoas que se transformam em zumbis por conta de um delay do efeito de uma droga usada há dez anos é muito fascinante. Mas o que o Lieberman queria exatamente com esse material? Gosto de pensar na ideia de um filme inocente de terror com um baita conceito original. Porque se formos parar para analisar o discurso que o filme propõe corremos o risco de nos deparamos com uma mensagem moralista do tipo “Olha o que as drogas fizeram, foderam com a mente de uma geração”. Não seria a primeira vez. The Ring (1972), curta metragem que Lieberman realizou antes de Squirm (1976) é uma engajada propaganda anti-drogas.

De qualquer forma, Os Assassinos do Raio Azul não deixa de ser um clássico notável do horror setentista de baixo orçamento e que conseguiu com muita criatividade dar um autêntico significado para a expressão bad trip. Uma curiosidade para finalizar. Um jornal da época chegou a fazer matérias sobre uma suposta epidemia esquisita causada pelo consumo de LSD. A fonte: Os Assassinos do Raio Azul. Aparentemente, algum jornalista desavisado caiu na pegadinha dos letreiros finais e acreditou que se tratava de um material baseado numa história verídica.

Só isso já basta para se tornar fã de Os Assassinos do Raio Azul, não?

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SQUIRM (1976)

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por Leopoldo Tauffenbach

A função de todo filme de horror é provocar sensações desagradáveis na plateia. Medo, aflição, angústia, tensão, ansiedade, repulsa, asco… O que explica a regra da presença de seres repugnantes – fossem imaginários ou reais – nas produções. Todo castelo ou mansão assombrada de respeito – fosse nos filmes góticos italianos ou nas produções da Hammer – havia de ter aranhas, cobras ou escorpiões habitando o local. A paranoia da guerra nuclear e a fantasia de locais ainda inexplorados elevaram criaturas minúsculas a dimensões gigantescas.

De lá até os anos 70 muitos invertebrados foram explorados em produções de horror, como as sempre favoritas aranhas, passando por formigas, escorpiões e louva-a-deus, sem esquecer as baratas com flatulência incendiária de Praga Infernal, de 1975. E quando se pensava que tudo havia sido explorado, eis que surge Squirm, primeiro longa-metragem de Jeff Lieberman, que consegue o fantástico feito de criar um filme tenso e eficiente a partir de uma premissa totalmente improvável: uma invasão de minhocas carnívoras.

Mick e Geri, o casal mais carismático e ruivo que já se viu, suspeita que algo está errado por trás dos desaparecimentos da cidade.

Mick e Geri, o casal mais carismático e ruivo que já se viu, suspeita que algo está errado por trás dos desaparecimentos da cidade.

Há de se reconhecer que é uma tarefa complicada convencer o espectador que minhocas podem representar uma ameaça real. Mas Lieberman apela para clássicos e eficientes clichês: após uma tempestade que danifica as linhas de tensão, as minhocas são afetadas por violentíssimas descargas elétricas e surgem em quantidade suficiente para lotar um estádio. De início, os anelídeos malditos atacam sorrateiramente, comendo poucas vítimas que não chegam a receber muita atenção da população. Mas o jovem e esperto casal Mick e Geri percebe que algo estranho está acontecendo na cidade e tentará desvendar o mistério, no melhor estilo Scooby Doo.

O filme demora a chegar ao que realmente interessa e chega a ser desinteressante em alguns momentos, mas quando finalmente os vermes aparecem, Lieberman não faz feio e consegue criar cenas memoráveis e asquerosas, mesclando milhares de minhocas falsas e closes de vermes verdadeiros que possuem presas afiadas. Para compensar a lentidão das criaturas, o roteiro as coloca surgindo de lugares pouco prováveis, dando a entender que elas tiveram todo tempo do mundo para se acumular lá. E funciona. Quando elas surgem, surgem de uma vez e aos montes, sem deixar a menor chance de defesa a suas vítimas.

Os vermes malditos fazem mais uma vítima.

Os vermes malditos fazem mais uma vítima.

Ao final, Squirm é um filme irregular, repleto de clichês, mas dirigido com competência e amparado por uma história minimamente original. Os furos de roteiro e situações absolutamente desnecessárias acabam sendo compensados pelas boas cenas de tensão, os ótimos efeitos especiais e os personagens carismáticos, mesmo que excessivamente cômicos em determinados momentos. Nada mal para um longa de estreia com um tema tão arriscado, e que poderia facilmente ter desmoralizado toda a produção, mas acabou abrindo as portas de seu diretor para que logo em seguida realizasse não só o melhor filme de sua carreira, mas também um dos maiores clássicos do horror contemporâneo: Os Assassinos do Raio Azul (Blue Sunshine).

Os protagonistas de Squirm: minhocas com presas. E elas estão famintas!

Os protagonistas de Squirm: minhocas com presas. E elas estão famintas!

Em tempo, os vermes que aparecem em close são reais. Trata-se de um tipo de verme do gênero Glycera, popularmente chamados de bloodworms e muito usados pelos norte-americanos como isca viva em pesca. Esses vermes são criados em cativeiro, exatamente como é mostrado no filme.

E ainda vale lembrar que James Cameron, em início de carreira, já se utilizou da eletricidade contra vermes no filme Galáxia do Terror (1981), em uma tentativa de fazer com que as criaturas apresentassem mais vivacidade diante das câmeras.

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NOITE DO SILÊNCIO (Silent Night, Deadly Night III: Better Watch Out!, 1989), Monte Hellman

por Ronald Perrone

Na época que assisti ao slasher natalino Natal Sangrento da primeira vez, me interessei em ver a série inteira logo de cara. Conferi quem eram os diretores das sequências e me veio a surpresa: nunca imaginei encontrar o nome de Monte Hellman relacionado a um deles. Sim, estou falando do homenageado d’O Dia da Fúria, um dos grandes mestres do cinema independente americano, que nos brindou com obras do calibre de Two-Lane Blacktop, Galo de Briga e westerns existencialistas, e que surge aqui na direção desta continuação de um slasher qualquer dos anos 80. A única explicação que eu vejo pra isso é o desespero de um artista tentando ganhar um trocado para pagar as contas no fim do mês…

Até porque o fato de ser o Hellman na realização acabou por não significar muita coisa. Silent Night, Deadly Night III não possui qualquer ligação com o cinema do homem, apesar da tentativa. Geralmente, seus filmes são lentos, reflexivos, mas tentar fazer a mesma coisa por aqui só resultou mesmo num terror fraquinho, sem inspiração. Não chega a ser um desastre total, mas é ruim até diante do segundo filme da série, que apesar de infame, diverte facilmente.

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Confesso que esperava mais. Gosto de acreditar que alguém como Hellman poderia entrar no meio de uma série de slasher meia boca e fazer uma pequena obra-prima, botar os demônios pra fora e foder de uma vez a mente do espectador! Digamos que o Ingmar Bergman, por algum motivo, logo após Fanny & Alexander, tivesse decidido fazer um dos episódios de Sexta-Feira 13, ou o Martin Scorsese optasse, no início dos anos 90, tomar o lugar do Albert Pyun em Kickboxer IV… Eu ia achar o máximo! E foi mais ou menos com esse pensamento que eu encarei SNDL III.

A história começa num hospital, onde um médico faz experiências com uma garota cega, que é uma espécie de paranirmal, colocando-a para dormir cheia de fios ligados à cabeça, tentando fazê-la ter algum contanto, através de sonhos, com o assassino do segundo filme, que está em coma no quarto ao lado e desta vez é interpretado pelo Bill Moseley… o mesmo assassino que, pelo que consta nos autos, teve a cabeça decepada!

A ideia que tiveram para trazê-lo de volta, e com vida, é absurda, mas é até interessante e engraçada até certo ponto. O cara teve o cérebro reconstruído e agora tem uma cúpula de vidro no alto da cabeça que deixa seu cérebro à mostra, algo típico de um quadrinho ou desenho animado das Tartarugas Ninjas! Nem tudo é de se jogar fora por aqui…

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A cega e seu irmão, junto com a namorada, vão para a casa da avó passar o natal, numa propriedade afastada da cidade. Só que o assassino acordou do coma e voltou a fazer suas vítimas desenfreadamente. Uma conexão psíquica com a cega, sequelas das experiências, faz com que o sujeito vá atrás da moça, deixando um rastro de corpos pelo caminho até a casa isolada que os protagonistas se encontram.

O problema é que quase todas as mortes de SNDN III são off screen, os diálogos são horrorosos e a estrutura do filme beira o amadorismo, assim como a noção de tempo, especialmente no último ato. Até sei apreciar alguns exemplares ruins assim, especialmente quando dirigidos por certos diretores notórios pela falta de talento, como um Uwe Boll ou Albert Pyun. Só não esperava algo do tipo realizado por um verdadeiro mestre.

Dos poucos momentos que realmente prestam é a Laura Harring, em início de carreira, deliciosa e bem à vontade dentro de uma banheira. Robert Culp, que vive o tenente encarregado no caso, também não decepciona. A protagonista é interpretada pela bela Samantha Scully, que lembra um pouco a Jennifer Connelly. Acho que os realizadores tinham uma tara por essas morenas de sobrancelhas grossas, vide Dario Argento em Phenomena

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No fim das contas, é uma tentativa torta do Monte Hellman no universo slasher, que recomendaria ao menos uma espiada… É possível que num bom dia alguém desfrute mais do que eu dessa chatice. Na época, o filme foi lançado direto no mercado de vídeo. No Brasil recebeu o título de Noite do Silêncio.

A BESTA DA CAVERNA ASSOMBRADA (Beast from Haunted Cave, 1959), Monte Hellman

por Cesar Alcázar

Em meio à sua “fábrica de filmes B” durante as décadas de 1950, 1960 e 1970, Roger Corman descobriu e lançou no mercado um grupo de jovens talentos que viriam a participar de grandes momentos da história do Cinema. Um destes talentos foi Monte Hellman, que apesar de não gozar da popularidade comercial de outros discípulos de Corman como Francis Ford Coppola e Jonathan Demme, foi criador de uma belíssima filmografia, que tem entre seus títulos obras primas como Corrida sem fim (Two-lane blacktop – 1971) e Cockfighter (1974). Sua estréia na direção se deu em 1959 com A Besta da Caverna Assombrada. Hellman usa toda sua criatividade para transformar um pequeno filme de Horror em uma das mais originais produções do período.

O roteiro de Charles B. Griffith conta a história de um grupo de assaltantes, liderados pelo violento Ward (Frank Wolff), que planeja roubar um carregamento de barras de ouro depositado no pequeno banco da cidade turística de Deadwood, Dakota do Sul. Eles usam uma explosão em uma caverna como distração para o assalto e, logo depois, obrigam o instrutor de esqui Gil Jackson (Michael Forest) a guiá-los através da floresta coberta de neve até o estado vizinho. A explosão na caverna acaba libertando uma criatura monstruosa que sai à caça dos criminosos, isolados por uma nevasca.

Hellman e Griffith renovam a fórmula dos filmes de monstro, pois a trama se desenvolve a princípio como um típico thriller policial, mostrando a preparação do assalto, a tensão entre os bandidos e a fuga do local do crime, para apenas introduzir os elementos de Horror mais tarde, na etapa final da história. Algo como o que Quentin Tarantino e Robert Rodriguez realizaram em tempos mais recentes no filme Um Drink no Inferno (From Dusk till Dawn – 1996), que também proporciona ao espectador a mudança drástica do gênero Policial para o Horror.

Destaque absoluto no elenco, Frank Wolff atua como o sádico líder do bando, já demonstrando imenso talento para a vilania em um de seus primeiros trabalhos. Mais tarde, ele viria a exercitar bastante essa característica em diversos Spaghetti Westerns como Deus perdoa, eu não! (Dio perdona, io no! – 1967), onde interpreta um vilão antológico. Outro ator do elenco que se aventurou pelo Western italiano (mas sem o mesmo brilho) foi Michael Forest, sempre atuando como heróis insossos, como é o caso de seu Gil Jackson. Talvez ele seja mais lembrado como coadjuvante de Rachel Welch e Burt Reynolds em 100 Rifles (1968).

A besta da caverna assombrada apresentou ao mundo o talento de Monte Hellman e mantém-se como um destaque entre os filmes do mesmo período por sua criatividade e situações originais. Está disponível em DVD no Brasil dividindo o disco com o também recomendado O cérebro que não queria morrer (The brain that wouldn’t die – 1962).

ILHA DOS MORTOS (Survival of the Dead, 2009), George A. Romero

por Caio de Freitas Paes

Tem muita gente que acha que Romero perdeu a mão pra filmar. Diary of the Dead, um de seus últimos filmes, não é dos melhores, mas mesmo assim, um homem como Romero requer todo respeito que merece. E Survival of the Dead, de 2009, serve pra calar a boca de muita gente. Com uma direção segura, Romero conta mais uma ótima história de um mundo pós-apocalíptico repleto de zumbis.

Desta vez, todos os dramas se centram em uma ilha afastada do continente, local polarizado por duas famílias que se odeiam: os Muldoon e os O’Flynn. Logo no início do filme, o patriarca Patrick O’Flynn (Kenneth Walsh) é banido da ilha por ter o “culhão” necessário para matar os infectados. Seamus Muldoon (Richard Fitzpatrick) acredita que um dia surgirá uma cura, e preza que os infectados sejam mantidos presos – apenas aqueles que sejam conhecidos, pois os forasteiros merecem uma bala na testa. Nessa complexa relação ainda se insere a filha de O’Flynn, Jane (Kathleen Munroe), contrária aos assassinatos do pai e ao comportamento de Muldoon, e o grupo de sobreviventes militares liderados pelo sargento “Nicotine” Crockett (Alan Van Sprang).

Como sempre, Romero trabalha muito bem com os dramas e conflitos entre os personagens humanos de seus filmes de zumbi. Neste, se pode perceber como o temperamento e a intolerância humana ultrapassam quaisquer barreiras em qualquer situação: dois velhos rabugentos não se importam em colocar vidas de familiares em risco pelas suas teimosias.

Tal qual um Napoleão que retorna de seu exílio em Elba, O’Flynn chega novamente à ilha para resolver de uma vez por toda as rusgas com o velho Muldoon. Simultaneamente, Romero recorre a uma técnica que já utilizara várias vezes: a do zumbi que ainda tem um resquício de consciência humana. A personagem Janet, já infectada, caminha livremente cavalgando seu cavalo, sem devorá-lo, sem sucumbir ao primitivismo do restante dos zumbis. Ao fim, Romero reforça sua visão negativista e, com seu talento, nos deixa embasbacados. Afinal, há certas coisas que perpassam a barreira da vida e da morte.

DIÁRIO DOS MORTOS (Diary of the Dead, 2007), George A. Romero

por Caio de Freitas Paes

É triste admitir, mas os tempos passam, e nem sempre nossa obra mantém sua qualidade e constância. Tendo isso em vista, Diário dos Mortos, de 2007, não está nem aos pés das grandes obras do mestre zumbi George A. Romero. A trama mostra um apocalipse zumbi visto pelo prisma de nossa sociedade altamente tecnológica e globalizada, mostrando um grupo munido de câmeras, notebooks, celulares e afins buscando a sobrevivência. No entanto, Romero tenta mostrar os acontecimentos de forma documental, como se víssemos apenas o que os jovens estudantes de cinema tivessem captado através de suas lentes. Há alguns elementos comuns à grande obra de Romero, como o questionamento sobre valores éticos em meio ao caos provocado pela praga zumbi; esta indagação é personificada no pretenso cineasta Jason [Joshua Close], que escolhe renunciar seus vínculos com a humanidade em prol de seu filme (a obra se chama “Death of Death”), pois acredita que no final não haverá nada que valha sua sobrevivência – nem mesmo sua namorada, Debra [Michelle Morgan].

No fim das contas Romero erra a mão, pois o formato mockumentary é bem chato, e seus personagens não possuem força e carisma suficiente para atrair o espectador, que acaba não se importando com as discussões propostas pelo renomado diretor – vide o personagem amish, completamente mal trabalhado. Por mais que haja a crítica à sociedade que se importa mais com um vídeo sobre zumbis do que com seus amigos mais próximos – como pode ser bem observado no momento em que o curta de Jason obtém 72 mil visitas em poucos minutos -, Romero se perde durante o longa. A atuação do elenco prejudica bastante a obra, repleta de efeitos especiais desnecessários – explicados somente pelo status quo de Romero, que resolveu gastar dinheiro da produção em efeitos computadorizados ao invés de um trabalho de maquiagem mais eficiente. Diário dos Mortos vale apenas para os fãs mais ardorosos de Romero, daqueles que amam qualquer coisa que um artista lance, independentemente de sua qualidade.

TERRA DOS MORTOS (Land of the Dead, 2005), George A. Romero

por Caio de Freitas Paes

Tem muita gente que acha que Romero está velho demais, já disse tudo que tinha que dizer. Em 2005, nosso bom velhinho realizou Terra dos Mortos, no qual, mais uma vez, o apocalipse zumbi é o pano de fundo pra se discutir um pouco a respeito sobre o comportamento humano. Desta vez, há uma grande cidade, na qual vivem boa parte dos sobreviventes da praga zumbi. Ali, claro, há empresários e homens poderosos, que se aproveitam destas condições para continuar propagando a ganância humana – alimentando a plebe com violência, vícios, sexo, etc.

O que realmente se destaca no filme é a trajetória do grande zumbi (creditado pelo IMDB como “Big Daddy”), uma espécie de “messias” dos mortos-vivos. Dantes apenas corpos movidos pela fome de seres humanos, Big Daddy se destaca por sua inteligência, e naturalmente se torna o líder dos zumbis. É ele quem comanda a grande invasão à cidade.

De resto, Romero cria, mais uma vez, um bom filme – com boas doses de ação, sangue e tripas. As trajetórias dos protagonistas humanos, como Simon Baker, Asia Argento, John Leguizamo e Dennis Hopper, são bem construídas. Suas relações e motivos que os levam à sobrevivência são bem conduzidos por Romero, com certeza. Agora, bem, você pode ver o filme e se questionar: mas o Romero já não havia feito isso? Já não nos contou esta história? Eu não tenho dúvidas: antes Romero continuar trabalhando suas fábulas pós-apocalípticas de modo satisfatório, do jeito que só ele sabe fazer, do que a maioria dos outros filmes de zumbi que vemos sendo lançados aos montes por aí.

A MÁSCARA DO TERROR, aka Vingança sem Rosto (Bruiser, 2000), George A. Romero

por Leandro Caraça

George Romero apresentou Bruiser – Vingança Sem Rosto após um hiato de seis anos sem dirigir um único longa-metragem. Nesse espaço de tempo acumulou vários projetos abortados ou que foram parar nas mãos de cineastas menos qualificados. Alguns fãs se perguntavam da possibilidade de Romero se aposentar enquanto que os mais radicais queriam apenas que o diretor fizesse um último filme de zumbis.

Financiado em parte por produtoras do Canadá e França e realizado ao custo total de apenas cinco milhões de dólares, Bruiser teve uma recepção fria e acabou sendo lançado direto em vídeo nos EUA. Depois de certo tempo sem um filme novo de Romero os impacientes fãs estavam ávidos por altas doses de violência, humor negro e crítica social por parte do veterano cineasta. Acontece que o filme trazia tudo isso, mas agora de uma maneira um pouco mais sutil e relaxada. Típico de uma pessoa prestes a entrar em sua sexta década de vida.

Com muita ironia, Romero conta a história do executivo de uma revista fashion (Jason Flemyng) que certo dia acorda sem o seu rosto. Ou melhor dizendo, com uma máscara branca e sem face no lugar da cara. A razão disso pode ter vindo do fato dele constantemente ser traído e passado para trás por aqueles em quem confia. No decorrer do filme ele não só buscará vingança como também a consolidação de sua própria identidade, uma vez que esta parece ter sido totalmente consumida. Os atores do filme estão muito bem. Jason Flemyng esbanja simpatia como o patético protagonista e Peter Stormare está deliciosamente exagerado como o dono da revista, que aliás se chama Bruiser. O elenco de apoio ainda conta com o sempre carismático Tom Atkins, que antes já havia trabalhado com Romero em Creepshow – Show de Horrores e Dois Olhos Satânicos. Isso sem falar da participação mais do que especial da banda punk Misfits, presentes em carne, osso e decibéis na parte final.

Desde os tempos de Creepshow que George Romero não dirigia um filme tão descompromissado assim, apesar do sempre presente tom de crítica. Pena que seja a obra menos coesa do cineasta e no epílogo acabe perdendo um pouco da sua força. Realmente às vezes se parece mais com um episódio alongado de alguma antologia de terror e poderia ter um melhor rendimento se fosse realizado nesse formato. Isso não justifica as pedras atiradas pelos fãs mais xiitas. Bruiser serviu para mostrar que Romero ainda estava atuando por aí não comum um zumbi em decomposição, mas sim como o autor que ele sempre foi. Mesmo ganhando dinheiro elaborando roteiros de filmes que nunca chegaram sequer a acontecer e tendo ficado tanto tempo longe do público, ele provou que nunca havia perdido a sua identidade.

Por causa disso, Bruiser é um dos filmes mais pessoais de George Romero. E um dos seus favoritos.