PARCEIROS DA NOITE (Cruising, 1980), William Friedkin

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por Daniel Vargas

É difícil falar de Parceiros da Noite sem fazer primeiro um parâmetro entre as carreiras de Pacino e Friedkin na época. Friedkin tinha ido do céu ao inferno com sua carreira nos anos 70 com uma velocidade monstruosa: depois de ter enlouquecido com suas obras-primas Operação França e Exorcista, caiu direto no fosso junto com o fiasco de público que foi o seu remake de Salário do Medo, Sorcerer, mostrando que Hollywood já era um lugar cruel e impiedoso até mesmo com seus maiores talentos e meninos de ouro da geração “Easy Riders-Raging Bulls“. Já Pacino ainda era o rei do pedaço com uma carreira semi-perfeita nos anos 70, que, excluindo Bobby Deerfeld, era sucesso estrondoso se não de público, de crítica, e em sua grande maioria, os dois. O homem – que junto com nomes como Robert De Niro, Jack Nicholson, Dustin Hoffman e Gene Hackman – fazia clássicos instantâneos e com menos de 40 anos de idade já parecia ter seu lugar assegurado na galeria dos grandes mitos do cinema.

Um sujeito que não precisava provar mais nada há ninguém, certo? Bem, exceto que aparentemente ele achou que sim. Há quem tenha acusado Al de ter fraquejado depois de ter conhecido seu primeiro e tardio fracasso com o filme do Pollack, que acabou fazendo-o recusar duas propostas de projetos ousados – sendo a primeira do clássico definitivo sobre a guerra do Vietnã do Coppola, Apocalypse Now, e o outro, um épico sobre a mesma guerra no papel do veterano real de combate Ron Kovic no projeto Nascido em 4 de Julho – para aceitar o seguro papel do advogado porta-de-cadeia no ótimo, mas talvez demasiadamente acadêmico, …Justiça Para Todos, de Norman Jewison, que acabou lhe rendendo uma (segura) indicação ao Oscar.

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Com Friedkin na merda, como se nunca tivesse existido e desacreditado, e Pacino querendo se provar com algum projeto ousado, os dois uniram forças e entraram de cabeça em um estranho projeto, que normalmente viraria material para um filme B de William Lustig ou mesmo De Palma, que tinha se interessado em dirigir antes do Friedkin colocar suas mãos nele: o submundo homo-erótico.

É estranho, mas Parceiros da Noite parece ser tudo que seus admiradores e detratores dizem ser. Uma visão do mundo homossexual homofóbica? Um thriller que compara levar no traseiro com uma sentença de morte? Uma metáfora em que todos que se deixam envolver por esse mundo, acabam “contaminados” para sempre por ele? (AIDS?) Em primeira mão, parece que Friedkin pegou o projeto para pagar contas, pois filmes exploitation na época eram populares e chamavam o público. Mas, conhecendo o Friedkin e seu temperamento, nada disso faz sentido. Não só por sua temática arriscada, mas como por seu acabamento.

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A verdade é que poucas vezes Friedkin foi tão ousado quanto nesse filme. Sua obsessão pelo lado obscuro do ser humano, o cheiro do asfalto das ruas imundas das grandes metrópoles, a violência seca e generalizada não são novidade em sua carreira. Nem mesmo o mundo gay, já relatado em Os Rapazes da Banda. O filme é inspirado em uma série de assassinatos homossexuais que aconteceram de fato em Nova York entre 1962 a 1979, e antes mesmo da sua estréia já gerava polêmica e censura dentro e fora das comunidades gays. Friedkin nunca quis parecer arrumar tanta confusão como quando decidiu fazer esse filme. Poucos exemplares mainstream foram tão longe quanto esse, seja em temática, seja em visual. É como se Friedkin estivesse dizendo: “Foda-se, Hollywood. Vocês não me querem porque sou melhor que vocês”. É o sujeito à beira do penhasco, fazendo piruetas.

A históra é o que? Al Pacino faz um policialzinho meia tigela chamado Steve Burns que recebe do seu superior (Paul Sorvino) a arriscada tarefa de se infiltrar no submundo gay à procura de um assassino em série que anda caçando amantes em inferninhos homossexuais – apenas para esquartejá-los depois e jogar seus restos no Hudson River. E suas vítimas parecem ser quase sempre o biotipo do próprio Burns. A promessa de uma promoção e de uma vida melhor o levam a aceitar a tarefa, que a princípio ele parece levar com a tranquilidade de qualquer outro serviço que ele já fez. Isso faz o público temer pela ingenuidade do personagem que parece não ter idéia da enrascada em que está se metendo (ou talvez faça?)

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Steve tem uma namorada (uma bem jovem Karen Allen, lembrando a Alice Braga), que parece, hora sim, hora não, viver com ele no mesmo apartamento. Durante sua missão secreta, porém, ele parece deixá-la totalmente no escuro e tenta vê-la o mínimo possível. Para sua própria segurança, ele diz. Enquanto isso, convive mais, em seu novo apartamento alugado em Greenwich Village, com o seu vizinho gay (Don Scardino) desenvolvendo um relacionamento de amizade ao mesmo tempo que vai descobrindo informações que poderão ajudar a desvendar o caso apenas jogando papo furado com seu novo amigo.

Mas são as cenas que Pacino precisa encarar os clubes-gays-hardcore os pontos altos do filme. As cenas eróticas nesses lugares são tão sensuais quanto os personagens do John Waters. Seria mesmo uma visão do inferno pertubada de um heterossexual ou realmente existem lugares assim? É o que o filme parece se questionar o tempo todo, ao chocar o público mostrando o todo poderoso Michael Corleone passando entre homens de colantes pretos com apetrechos sadomasoquistas, bundas peludas de fora e boquetes sendo praticados em bastões e cassetetes.

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A sensação é que Pacino nunca esteve tão em perigo, nem mesmo sentado na mesa do restaurante junto com Sollozzo e Mccluskey em O Poderoso Chefão, ou dentro do banco rodeado de policiais em Um Dia de Cão, ou enfrentando sozinho centenas de homens armados do Sosa em Scarface, ou sendo vítima de conspiração por todos seus colegas de distrito junto, em Serpico. Nada parece mais ameaçador quando um sujeito que, ao enxergá-lo parado no clube se aproxima e pergunta “se ele gosta de esportes aqúaticos”, e se enfurece quando ouve uma resposta negativa, o alertando a não usar “um tal lenço” pra fora do bolso se o negócio dele é apenas “olhar”. Aliás, a cena que Pacino pergunta o significado dos lenços para o balconista Powers Boothe é impagável. Mas parece mesmo que nada parece ser mais horripilante que ver um homem esfregando a mão no peito do Pacino ou o mesmo amarrado na cama, prestes a ser esfaqueado (ou enrabado, o filme parece não se decidir, o que parece ser pior)

Nada em Parceiros da Noite é comum ou entediante. Entre a edição dinâmica do Bud Smith, ou na trilha atmosférica do Jack Nitzsche, tem sempre alguma coisa acontecendo e se alterando. Seja o rumo do caso, a personalidade do Pacino (que vai ficando cada vez mais e mais ambígua) e até mesmo a identidade do assassino, cuja sensação é de que está sendo interpretado por atores diferentes a cada cena! É como se o Friedkin quisesse confundir ou nos dizer que QUEM é o assassino é o que menos importa. O que importa é como pode existir aqueles mundos paralelos tão grotescos e imorais?

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No entanto, o filme também parece mostrar que aqueles homens estão lá porque querem. Eles gostam do que fazem e para a maioria nem é um assunto delicado da vida deles. O personagem principal parece também não ser nem um pouco homofóbico, tanto por aceitar o caso, quanto por sua relação com seu amigo homossexual que parecem desenvolver um relacionamento amigável e até íntimo. O personagem não parece julgar, em qualquer momento do filme a natureza do caso em que está ou dos personagens que ele precisa cruzar, apenas se preocupa com sua segurança com o possível encontro com o assassino. Por isso mesmo é difícil saber se existe uma razão definitiva sobre quem o acusa de ser homofóbico ou não. Até que ponto é homofobia ou pura realidade documentada?

O que fica de fato é a ousadia, não só do Pacino, um astro já consagrado, se envolver em um projeto tão polêmico, que nas costas de alguém menos talentoso, iria destruir sua carreira, como do Friedkin – que realiza aqui, na minha opinião, sem dúvida nenhuma um dos seus melhores trabalhos (lado a lado a títulos como Operação França e Viver e Morrer em L.A) injustamente taxado de “maldito” e lamentavelmente fracassando novamente nas bilheterias. Mas, no fundo, era o único destino que ele poderia ter de fato.

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Afinal de contas, é um perfeito caso de filme que estuda “a procura da identidade” e ele mesmo não parece ter uma. Se vende como um thriller policial? Mas é só isso mesmo? Certamente não é um “quem matou?”. É um neo-noir psicológico? É um drama existencialista? O que Friedkin quer dizer com a última cena do Pacino se olhando para o espelho e por fim, olhando para a câmera-público? Será que nós sabemos quem somos de verdade para julgarmos os outros? Será que sabemos de fato o que somos capazes de fazer ou não? Quais são nossos limites morais? A homofobia está nos olhos dos outros? São perguntas que fazem o público se questionar e talvez até mesmo se irritar porque não obtém uma resposta fácil. Mas resposta fácil é tudo que Parceiros da Noite nunca prometeu em nenhum momento.

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PS: Interessante ver o sempre marcante Joe Spinell no começo do filme como o patrulheiro asqueroso, homossexual enrustido, que reclama para seu parceiro (Mike Starr) da sua mulher tê-lo deixado e levado sua filha junto para a Flórida. Na vida real, era exatamente o que tinha acontecido com ele semanas antes das filmagens. Seu personagem que extorque travestis em troca de favores sexuais parece um rascunho do seu talvez mais célebre personagem em O Maníaco, do já citado William Lustig. Outra coisa interessante em Parceiros é sua trilha sonora, que ficou bem caracterizada no filme. Músicas como “Lump” do Mutiny, “It’s So Easy” do Willy DeVille, “Shakedown” do Rough Trade são marca registrada do filme.

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SOB O DOMÍNIO DO MEDO (Straw Dogs, 1971), Sam Peckinpah

por Caio de Freitas

Sam Peckinpah trilhou um longo caminho até realizar aquela que seria considerada sua obra-prima: Meu Ódio Será Tua Herança, de 1969. Peckinpah mostrava ali as características mais marcantes de seu cinema: cenas com violência altamente estilizada, câmera lenta em tiroteios e cenas clímax e histórias que mostravam escolhas e atos eticamente discutíveis – e seus personagens sempre devem lidar com as consequências por tais escolhas. E dois anos depois Peckinpah consolida seu nome com um perturbador suspense, estrelado por Dustin Hoffman: Sob o Domínio do Medo, de 1971.

Bloody Sam” – alcunha pela qual Peckinpah ficou famoso – conta a história de um jovem casal que se muda para um pequeno vilarejo inglês em busca de paz e sossego. David e Amy Sumner [os excelentes Dustin Hoffman e Susan George] se mudam para a pequena Wakely, na costa da Inglaterra, para que David possa escrever um livro. Ele é um matemático norte-americano que faz pesquisas sobre navegação celestial, e o lugar parece perfeito para que seu trabalho renda mais. Porém as coisas mudam de panorama, e um grupo de maus elementos começa a perturbar o casal. Os marginais estão trabalhando na reforma da casa dos Sumner, então acabam tendo maior poder e facilidade para ameaçá-los.

Não se engane pela premissa relativamente simples: Peckinpah conta uma história complexa e sufocante, colocando personagens pacifistas em um vilarejo violento. Trabalhando com as consequências da escolha do casal de se mudar para este vilarejo, Peckinpah enfoca na transformação destes personagens, que em determinado ponto da trama percebem que lutam por suas vidas. Há muitos personagens icônicos nesta empreitada de Bloody Sam: o matemático pacifista David Sumner, que precisa se afirmar como homem e busca o respeito dos maus elementos de Wakely; Henry Niles [David Warner], um pedófilo em recuperação, sempre alvo de olhares atravessados dos moradores; a mulher de David, Amy Sumner, que não sabe se cede às suas origens de Wakely ou se aceita seu marido como ele realmente é.

Além disso, Amy se encontra em uma grave crise conjugal com David, que não hesita em questionar sua maturidade. Por isso, se cria outro perigoso cenário: Amy flerta com os marginais, sem nem imaginar as conseqüências deste perigoso jogo de sedução.

Peckinpah sempre foi conhecido por sua intensidade, e em Sob o Domínio do Medo as situações nas quais o casal se envolve são um bom espelho disso. Ao se utilizar de suas marcas técnicas, como cenas construídas ao redor de um clímax para muitos personagens, violência estilizada e em sequências em câmera lenta, Peckinpah cria sequências marcantes, como o estupro, o encontro na igreja e o confronto na casa dos Sumner. Mesmo que o ritmo do filme demore a engrenar, a escolha de Peckinpah para construir a narrativa se mostra adequada: com um começo um pouco mais lento, com situações e tensões mais implícitas, Bloody Sam consegue deixar a parte final do filme altamente sufocante.

Assim, Bloody Sam se aprofunda nos lados mais sombrios da psiquê humana, e mostra a que ponto chegamos quando somos exigidos além de nossos limites. O casal Sumner precisa deixar sua faceta pacifista de lado para sobreviver a esta passagem por Wakely, e durante este processo a platéia se perturba, e questiona a existência humana. Os personagens passam por provações e experiências traumáticas horríveis, que Peckinpah arquiteta de maneira brilhante.

Não vou ser hipócrita: Sob o Domínio do Medo é um filme denso, perturbador e pesado. Peckinpah realiza uma película tensa, daquelas que te deixam pra baixo o resto do dia, pensando e refletindo sobre o filme. Se você estiver disposto, o filme é muito competente, mostrando o lado horrendo do ser humano. A intenção de Peckinpah é chocar, polemizar e principalmente questionar. Tal qual Lars Von Trier em Dogville, Sam consegue trazer este questionamento na forma de uma obra-prima do cinema.

Enigmas de um Crime (The Oxford Murders, 2008), Álex de la Iglesia

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Baseado numa obra do matemático e escritor argentino Guillermo Martinez, Enigmas de um Crime marca a volta de Álex de la Iglesia para uma produção falada em inglês. Temos aqui uma clássica trama de mistério e assassinato onde um estudante americano (Elijah Wood) e um ainda mais brilhante catedrático de Oxford (John Hurt) precisam esquecer a animosidade inicial e usar os seus intelectos para solucionar uma morte, que tudo indica será a primeira de uma série. Como pista, o criminoso deixou um bilhete com um símbolo matemático. Para antecipar os passos do assassino, a improvável dupla precisará decifrar qual será o próximo símbolo da sequencia. É um bom começo para um filme promissor. Pena que que o resultado final se mostre aquém do esperado. Mesmo o mais ferrenho fã de Alex de la Iglesia vai reconhecer que se trata de seu trabalho mais fraco.

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O roteiro escrito por ele e por seu colaborador de sempre, Jorge Guerricaechevarria, trilha o caminho dos contos de Agatha Christie e com a elegância que apenas os bons discípulos de Alfred Hitchcock são capazes. O principal problema aqui é mesmo a história original, que ao seu final não traz o impacto esperado. Iglesia como sempre, constrói quadros de grande apuro visual mas parece se perder na lógica e nos diálogos cerebrais dos protagonistas. O que falta é o exagero narrativo de um Argento ou De Palma, e sem isso, Enigmas de um Crime se torna só um suspense um pouco melhor do que as atuais produções americanas. Não é um filme sem qualidades. John Hurt está ótimo como sempre e Elijah Wood mostra que está deixando a Terra-Média para trás. E o diretor Alex Cox aparece como um matemático cuja sanidade foi consumida por uma equação indecifrável. Uma obra agradável de assistir, mas que fica abaixo da média do cineasta espanhol.

Leandro Caraça