ME CHAMAM O DESTRUIDOR (Shatter, 1975), Monte Hellman

por Leandro Caraça

Uma das últimas produções para cinema da Hammer Films, acumulou diversos problemas durante suas filmagens e que apenas ajudaram a justificar o fim melancólico que a empresa teria logo mais. Com o declínio do horror à maneira clássica nas bilheterias, a Hammer partiu para novos rumos, tentando chamar a atenção do público dos anos 1970. Um acordo feito com a companhia chinesa Shaw Brothers para a realização de três filmes foi um ato de desespero, visto que essas duas empresas possuiam uma maneira de trabalhar completamente diferente. Se Roy Ward Baker já havia reportado problemas nessa parceria em A Lenda dos Sete Vampiros (1974) – que fora uma tentativa de levar a figura do Conde Drácula para o Oriente – as coisas apenas iriam piorar em Me Chamam o Destruidor. Para assumir o posto de diretor, Monte Hellman pode parecer uma escolha meio inusitada a primeira vista, mas na sua trajetória, a Hammer Films contratou diretores norte-americanos marginalizados ou descontentes com o sistema dos estúdios, como Robert Aldrich em A Dez Segundos do Inferno (1959) e Joseph Losey em Os Malditos (1963).

Stuart Whitman interpreta Shatter, um veterano assassino de aluguel que acaba de liquidar um ditador de um país africano fictício. Viajando a Hong Kong para coletar o pagamento, descobre que não fora contratado pelo governo britânico mas sim pela máfia. Sem receber o dinheiro e perseguido por diferentes grupos que o desejam morto (e os documentos do finado ditador que estão em seu poder), Shatter se alia a Tai Pah (Ti Lung), um barman que por conveniência também é um mestre em artes marciais, e a bela Mai-Mee (Lily Li, ou Li Li Li se preferirem), massagista profissional. O trio decide ir em busca de respostas e também arma um plano para chantagear Leber (Anton Diffring), o banqueiro que serviu de contato para Shatter em seu último trabalho. A trilha sonora de David Lindup (no melhor estilo do Blaxploitation, com uma batida funk acentuada) e as cenas de lutas não deixam dúvidas de que estamos assistindo a um filme de ação dos anos setenta. A presença de Stuart Whitman com sua fisionomia cansada, num papel másculo, também é típica do período. Mais tarde, ele seguiria o mesmo caminho de outros velhos atores americanos e faria policiais italianos. No elenco, também temos Peter Cushing no papel do agente do MI6, Paul Rattwood. Sempre uma presença carismática, esta foi sua última aparição num filme da Hammer.

Após três semanas, Monte Hellman acabou demitido por Michael Carreras, o chefão da Hammer Films por estar muito atrasado em relação ao cronograma de filmagens. De acordo com Hellman, a equipe dos Shaw Bros estava trabalhando 24 horas por dia em três filmes ao mesmo tempo, e justamente em Me Chamam o Destruidor eles aproveitavam para se revezar e dormir um pouco. Whitman por sua vez, ao término de um dia de trabalho sempre rumava em direção a algum bar para tomar umas e outras. Carreras assumiu o comando, como havia feito em Sangue no Sarcófago da Múmia (1971) por decorrência do falecimento do diretor Seth Holt. Terminada a rodagem, Carreras levou seis meses para finalizar a edição e lançar o filme. Shatter fora realizado entre Corrida Sem Fim e Galo de Briga, mas acabou lançado nos EUA somente depois, em 1975, com o título They Call Hill Mr. Shatter. Monte Hellman garante que 80 por cento do que está presente foi rodado por ele, em especial todas as cenas envolvendo atores caucasianos. Todas a peripécias enfrentadas deram ao filme um ritmo um tanto quanto travado às vezes. Temos um filme de ação, rotineiro e passável, mas que em certos momentos parece querer ser algo mais. Em meio a cenas de pancadaria com Ti Lung e mísseis lançados em quartos de hotel, veremos a jornada existencial de Shatter, de maneira não muito diferente do que Hellman costuma apresentar.

Just Heroes (1989), John Woo

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por Ronald Perrone

Ainda que possua algumas esporádicas sequências eletrizantes de ação, Just Heroes é um gangster movie tratado de maneira muito mais séria que o habitual de John Woo naquele período. Não sei dizer se é este o motivo pelo qual o filme foi abandonado pela crítica, provavelmente não, mas pouco se fala sobre este trabalho do diretor (e a maior parte, textos negativos), infelizmente, porque temos aqui uma ótima oportunidade de observar Woo trabalhando seu lado dramático sem enfatizar tanto a ação.

A trama possui alguns pontos similares ao de Eleição, de Johnnie To, com John Woo voltando a sua atenção para o drama de uma “família” de mafiosos da tríade quando o chefe da organização é assassinado em um atentado e se iniciam as discussões sobre quem deve assumir o cargo. Daí surgem os temas frequentes que Woo adora trabalhar, como amizade e confiança. No elenco, alguns velhos conhecidos da Shaw Bros. marcam presença: Chen Kuan-Tai, Danny Lee e Chiang Da-Wei são os protagonistas de um triangulo mafioso muito bem trabalhado pelo roteiro escrito à quatro mãos por Hau Chi-Keung e Ni Kuang. Outros nomes presentes são o de Stephen Chow, ainda em início de carreira e Ti Lung em uma pequena participação.

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Obviamente, vingar-se dos responsáveis pela emboscada que acabou matando o patriarca torna-se um objetivo em determinado momento, principalmente se envolve traição, e é quando Woo retorna ao seu espírito normal e deixa seu lado “mestre de ação” falar mais alto. A sequência final é de tirar o fôlego e não faz feio perante aos melhores tiroteios que Woo filmou em outros filmes mais aclamados. É nesta cena que o diretor faz uma auto referência com bastante humor ao colocar um personagem no meio da ação imitando o Mark de Chow Yun-Fat em A Better Tomorrow, escondendo pistolas dentro de vasos de plantas no meio do tiroteio.

Com produção de Tsui Hark, Just Heroes acaba apagado devido às obras primas que John Woo realizou ao longo da carreira, mas já demonstra um diretor totalmente maduro, ciente de seus atos.

3 cleef e meio

Alvo Duplo 2 (A Better Tomorrow 2, 1987), John Woo

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por Bruno C. Martino

Contrariando uma regra implícita de vários filmes de sucesso chineses, Alvo Duplo 2 continua a contar a saga dos três personagens ao invés de só pegar o título e contar uma outra história. Ainda bem! Aqui, Ho (Ti Lung) está cumprindo pena na cadeia e é recrutado pela polícia para investigar um antigo patrão, Leung (Dean Shek) ao mesmo tempo em que seu irmão Kit (Leslie Cheung) se aproxima da filha de Leung para investigar o homem. Só que a única conclusão a que chegam é que Leung largou a vida de pilantragem e decidiu ser um homem e empresário honesto. O problema é que seus sócios não pensam assim, e após um atentado contra sua vida, Leung é acusado de assassinado e resolve fugir para Nova Iorque. Quando seu sócio Ko (Shan Kwan)- o verdadeiro pilantra do esquema – descobre seu paradeiro, manda matar a filha de Leung e envia mercenários para Nova Iorque pra dar cabo do sujeito. Leung acaba se safando de novo só que desiludido com a vida e ao ver seu amigo padre ser assassinado, entra em choque se transformando numa espécie de autista, que passa a ser cuidado por Ken (Chow Yun Fat). Depois de mais um atentado onde escapa, Leung milagrosamente sai do estado vegetativo que estava e pega em armas ao lado de Ken e Ho contra Ko.

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Escrito por John Woo e Tsui Hark, o segundo capítulo da série soa um pouco desleixado em relação ao anterior (repararam nesse meu resumo como o filme é basicamente um bando de capangas tentando pegar Leung em diferentes momentos?). O roteiro não sabe onde focar, se é no personagem de Shek ou no trio de amigos. Curioso é que o carisma de Chow Yun Fat na série foi tão grande que Hark e Woo conseguiram até arrumar um lugar pro ator na seqüência do filme (já que no primeiro seu personagem original havia morrido). Só que arrumaram uma desculpa das mais esdrúxulas, tipo de novela mexicana: Ken é o irmão gêmeo de Mark (o personagem interpretado por Chow Yun Fat no original)! Não que isso faça muita diferença, já que o que importa é ter Yun Fat distribuindo tiros durante o filme. Curiosamente Ken ainda serve como alívio cômico, diferente do amargurado e trágico Mark. Mas assim como o outro é cool até a medula, como quando usa o sobretudo furado de balas do irmão falecido.

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Alvo Duplo II sofreu diversas remontagens e foi alvo de diferenças criativas entre seus roteiristas, talvez daí se expliquem algumas seqüências desnecessárias ou que se estendem demais, o maior foco no personagem de Dean Shek e o trio principal praticamente apagado. Mas mesmo apagado, os outros atores ainda têm tempo de mostrar serviço como Ti Lung, sempre carismático, e Leslie Cheung aqui dividido entre o amor da esposa que teve um filho e o ofício de policial. A cena em que Kit batiza a filha por telefone, já vale para o personagem deixar sua marca na série. E Ken Tsang reprisa seu papel (o de dono da oficina mecânica) com a competência de sempre (deixem eu ser um pouco tiete: eu adoro esse ator!!)

Mas é no quesito ação que todos os problemas de roteiro, montagem e diferenças criativas são esquecidos. A seqüência de ação no hotel, onde Ken deve proteger Lung de mais uma leva de assassinos é emocionante, e a seqüência final na mansão de Ko é uma das mais antológicas que já vi, com direito a três personagens contra um exército de capangas, onde Chow Yun Fat joga granadas a torto e a direito e Ti Lung acaba com malfeitores a golpes de espada! Sem contar que o rol de vilões ainda conta com um fortão empunhando um machado medieval (!!!) e um pistoleiro que sempre anda de óculos escuros. Este rivaliza com o matador caolho de Fervura Máxima como um dos vilões mais legais de um filme de John Woo. As seqüências de ação são tão boas, que o coreógrafo Ching Siu Tung (de Chinese Ghost Story) foi indicado ao Hong Kong Film Awards.

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Dizem que Woo nunca gostou de fazer seqüências de seus filmes e só fez esse porque Dean Shek estava numa situação financeira não muito boa, e como ele foi co-fundador da Cinema City que produziu este e o primeiro Alvo Duplo (e acolheu Woo após sua saída da Golden Harvest), talvez o diretor achou que devesse prestar essa ajuda ao seu produtor e conhecido desde os tempos da Shaw Bros.

A série ainda tem uma parte 3, dessa vez capitaneada por Tsui Hark sendo esta um prelúdio do primeiro filme. E em 1994, o diretor Wong Jing daria um revival na série com Return to a Better Tomorrow (lançado aqui como A Fúria do Crime), uma lástima que além de não ter nenhum personagem dos originais ainda é estrelado por Ekin Cheng, um ator por quem nunca simpatizei. Estou dando 4 “Van Cleefs”, mais pelas cenas de ação do que pelo resto! Valem a pena!

4 cleef

Alvo Duplo (A Better Tomorrow, 1986), John Woo

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por Ronald Perrone

Alvo Duplo é um dos filmes mais importantes da carreira de John Woo e demonstra que No Coração do Perigo não foi um acidente de percurso em termos de liberdade criativa. Em 1986, Woo se juntou ao produtor Tsui Hark e  os dois realizaram este clássico instantâneo. O filme ganhou a maior atenção internacional do que qualquer outro trabalho do diretor até aquele período, reinventou o cinema de ação de Hong Kong redefinindo o subgênero Heroic Bloodshed e serviu de trampolim para que o ator Chow Yun Fat se tornasse um astro.

O roteiro é inspirado no filme The Story of a Discharged Prisoner, de 1967, dirigido por Patrick Lung Kong, e conta uma história repleta de cargas emotivas sobre dois integrantes do sindicato do crime de Hong Kong: Ho ( Ti Lung, um dos grandes nomes do cinema de kung fu), e Mark (Chow Yun Fat). Ambos trabalham na divisão de falsificação de dinheiro da organização. Ainda há outro personagem importante na trama, Kit (Leslie Cheung), irmão caçula de Ho que acabou de se graduar na polícia e nem imagina o primogênito de seu pai trabalhando no crime organizado.

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Após uma tragédia que afeta profundamente a vida desses três personagens, John Woo mapeia a narrativa com fortes doses de conflitos psicológicos, transformando Alvo Duplo num autêntico melodrama – característica sempre constante na carreira do diretor. Woo procura trabalhar o sentimentalismo ao extremo, utilizando-se sempre dos mesmos mecanismos: amizade, confiança, perdão, redenção, fraternidade, que é onde o diretor encontra base para extrair a força da sua dramaturgia.

A construção de personagens profundos e o elenco contribuem bastante no resultado, especialmente Chow Yun Fat e Ti Lung, que estão notáveis em seus papéis. Fat, inclusive, foi um dos mais beneficiados pela sua participação em Alvo Duplo. Saiu apontado como autêntico homem de ação dos filmes de HK, seus óculos escuros e o sobretudo ao estilo  Alain Delon em O Samurai, de Jean Pierre Melville, viraram moda entre os jovens da época. Só faltou saírem queimando dinheiro para acender o cigarro, como na emblemática cena em que o personagem também o faz.

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Se Chow Yun Fat está impecável e esbanja carisma em cena, é Ti Lung quem, na verdade, carrega o filme nas costas como o protagonista, com seus conflitos pessoais densos e uma atuação digna de maior reconhecimento. E tudo isso engrandece o filme de John Woo, mas o que realmente chama a atenção são as aguardadas sequências de tiroteios. Woo ainda não havia atingido o seu paroxismo para tais cenas, como já aconteceria em The Killer e Fervura Máxima, mas são muito elegantes em Alvo Duplo, com boas coreografias, uso da câmera lenta e a consagração da imagem do homem com duas pistolas nas mãos distribuindo chumbo nos bandidos.

Alvo Duplo é obrigatório para conhecer as raízes da reputação de John Woo como mestre do cinema de ação. Certamente não é o melhor filme do diretor, que ao longo dos anos fez algumas obras primas do gênero Heroic Bloodshed, mas não deixa de ser indispensável e dá pra ter uma noção do que o sujeito é capaz de fazer.

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