INSTINTO FATAL (Monkey Shines, 1988), George A. Romero

por Ronald Perrone

Distanciando um pouco dos zumbis repugnantes que comem carne humana, logo após realizar seu terceiro filme da série dos Mortos Vivos, George Romero resolveu utilizar em Instinto Fatal uma dócil macaquinha como “vilã”, que de ameaçador mesmo não tem, aparentemente, nada. O filme se sustenta numa base cuja premissa realmente não é nada fácil de engolir. Fácil é entender porque se trata de um dos filmes menos lembrados do diretor, mas o fato é que o resultado não deixa de ser um sólido horror e quem comprar os absurdos do filme, vai encontrar uma obra regida por um mestre que sabe exatamente o que faz.

O protagonista é Allan Mann (Jason Beghe), um estudante de direito que foi atropelado por um caminhão, acabou paralisado do pescoço pra baixo, confinado numa cadeira de rodas, abandonado pela bela namorada e vigiado por uma enfermeira insuportável. E você aí reclamando da vida…

A alegria de Allan chega na forma de Ella, uma macaquinha treinada para ajudar pessoas tetraplégicas. O que ele não sabe é que sua nova amiga peluda é cobaia de uma experiência secreta que visa elevar a inteligência dos animais. E até que funciona bem. Bem até demais, chegando a criar uma ligação telepática entre o dono com o pobre animal, que acaba se tornando uma peça alegórica que representa o mal em sua forma mais pura e instintiva. Não demora muito para que a fúria de Allan em determinadas situações seja canalizada para Ella e se transforme em misteriosos assassinatos cometidos… por quem? Pela inofensiva macaquinha? Será mesmo?

Quem precisa de grandes efeitos especiais de maquiagem (embora o responsável por aqui seja o Tom Savini) ou litros de sangue espalhados pelos cenários quando em Instinto Fatal tudo é sugerido com a precisão angustiante de uma boa atmosfera? Temos um sinistro clima de suspense, uma macaca realmente muito bem treinada – que, no fim das contas, consegue causar um certo arrepio no espectador – e, não menos importante, a primeira cena de sexo entre uma mulher e um tetraplégico que já vi na vida! Romero surpreendendo até em seus filmes menores… Chegou a ser lançado em VHS no Brasil com o título Comando Assassino.

Anúncios

DIA DOS MORTOS (Day of the Dead, 1985), George A. Romero

por Davi de Oliveira Pinheiro

Dia dos Mortos está dois passos à esquerda da porta da locadora. A caixa da fita VHS chama sempre a atenção quando entro. Tenho menos de dez anos; alugar filmes é ritual diário entre eu e meu pai. Dia dos Mortos é território aparentemente proibido, já que nunca se discute e sempre que me aproximo sou levado a crer que não devemos assistir. Vi Creepshow, Cavaleiros de Aço, Martin e Instinto Fatal. Por que o medo de assistir a Dia dos Mortos?

O filme se torna mito e na adolescência me desaponta. Considero o pior filme da trilogia. Revisito anos depois, sob a influência de Isidoro B. Guggiana, futuro produtor, e se torna meu Romero favorito, ao lado do melhor vampiro da História do cinema, Martin. No entanto, mantém-se o questionamento: o que fascina na infância, repugna na adolescência e agora desafia a compreensão?

Já advoguei em favor das mensagens políticas nos filmes de Romero, porém considero os filmes de mortos-vivos do mestre do gênero pueris na expressão de eventos sociais. Todos caem numa superficialidade adolescente. Comunicam idéias acerca dos fatos, mas não transcendem uma discussão política entre indivíduos bem intencionados, sem conhecimento de causa.

É a perfeição técnica dos efeitos que me atraí ao filme? Sim. Gosto muito da maquiagem e, com certeza, é um dos grandes motivos que retornam os fãs aos momentos de carnificina. A qualidade, até hoje insuperável, inspira artistas a criarem suas próprias versões das criaturas concebidas por Tom Savini.

A resposta ao meu fascínio se encontra numa singela noção de ritmo e atuações competentes. Romero, diretor que se entrega ao desleixo na dramaturgia e beira o amador em muitos de seus filmes, constrói tensão e desenvolve, com a clareza dos bons contadores de história, relacionamentos vívidos, mesmo que caricaturais.

Minha vida atual, profissional e artística deve muito ao reencontro instigado por Isidoro. Porto dos Mortos surge, em 2004, sob a égide da paixão por este Dia dos Mortos. O desejo de seguir os passos do mestre – e evitar copiá-lo – inicia uma experiência pessoal que, até hoje, sete anos após a fagulha inicial, faz parte do meu dia-a-dia.

CREEPSHOW (1982), George A. Romero

por Osvaldo Neto

Um pai (Tom Atkins) recrimina o filho por ele viver lendo uma revista de quadrinhos com histórias de terror. Ele a toma das mãos do garoto e a joga no lixo. Enquanto o pai e a mãe dele estão na sala, a criança sorri com a aparição de uma sombria figura esquelética na janela do seu quarto. Assim começa Creepshow, que se inspira nos quadrinhos da EC Comics. O filme é dirigido por George A. Romero e roteirizado pelo escritor Stephen King, que também atua nele.

Com nada menos que 6 histórias (se contarmos o prólogo e o epílogo), este inesquecível programa de 2 horas de duração marcou demais a geração de cinéfilos dos anos 80 e a minha também pelas suas reprises no extinto Cine Trash. O elenco tem atores como os veteranos Hal Holbrook, Fritz Weaver, Leslie Nielsen, E. G. Marshall e Adrienne Barbeau. Ed Harris e Ted Danson podem ser vistos aqui mais jovens do que de costume. O mestre Tom Savini cuida dos excelentes efeitos especiais.

Acredito que este filme deve fazer parte da memória afetiva de muitas pessoas. É impossível ele não ser mencionado em qualquer papo cinéfilo de mesa de bar onde todo mundo inventa de lembrar de alguns filmes de terror que marcaram a nossa infância e adolescência. Não demora minutos para vir aqueles “Pô, tu se lembra daquele onde um matuto toca num meteoro e se ferra bonitinho?” ou “Sabe aquele do monstro que vive numa caixa e que depois sai dela pra comer gente?“. Aí logo depois vem alguém dizendo: “Porra, vocês tão falando de um filme só… do CREEPSHOW!“.

Segue abaixo uma rápida sinopse das histórias com pequenos comentários:

1 – DIA DOS PAIS: Uma família se vê às voltas com as memórias do seu odiado patriarca.

Acho essa a mais fraca, apesar de divertir mesmo assim. Quem aparece aqui é o jovem Ed Harris, já um pouco calvo.

2 – A MORTE SOLITÁRIA DE JORDY VERRILL: Um autêntico caipira (Stephen King, perfeito) tem uma surpresa ao ver que um meteoro caiu na frente da sua casa. Ele inventa de tocar nele e realmente acaba se ferrando bonitinho.

Atraente pela sua comicidade, pela atuação de King e pelo inevitável trágico desfecho, esta história é uma das mais lembradas. A maquiagem de Savini é um de seus pontos altos.

3 – INDO COM A MARÉ: Amantes tornam-se vítimas de sádica vingança do marido traído.

Previsível, mas de imagens marcantes. Duelo de atuações entre Leslie Nielsen (inesperadamente odioso) e Ted Danson não desaponta.

4 – A CAIXA: Um professor universitário está cheio do seu casamento patético. O amigo de trabalho dele encontra uma criatura sanguinária dentro de caixa escondida no campus da universidade.

A história principal do filme e minha favorita. Com cerca de 30 minutos de duração, ela certamente é responsável por grande parte da fama de Creepshow. Atuações irrepreensíveis de Hal Holbrook, Adrienne Barbeau e Fritz Weaver dão credibilidade ao material. Ela é muito lembrada pelos fãs também por causa do design do monstro e diálogos memoráveis.

5 – VINGANÇA BARATA: Homem poderoso que tem medo de baratas sofre com o repentino aparecimento destes insetos no seu apartamento.

Passada em um futuro indefinido, o conto é um show particular do veterano E. G. Marshall. A segunda melhor história do filme se passa basicamente só com esse ator em um único cenário com pequenas participações de outros atores. De todas, essa tem mais a cara do diretor por criticar a questão da desigualdade social e olhar o futuro da humanidade de maneira negativa.

Romero estava inspirado quando colocou as mãos neste projeto. Em todas as histórias, ele faz questão que o seu expectador tenha a sensação de estar lendo o filme ao invés de apenas o assistindo. Vários elementos como aquelas pequenas observações acima dos quadrinhos são inseridos com regularidade. Ao início e final de cada história, a “revista” começa a ser folheada para chegar onde deve ser “lida”. E uma imagem desenhada dos quadrinhos com balões ou não passa a se transformar aos poucos em sua recriação com os atores do filme e vice-versa. Iniciativas sutis como essa fazem extrema falta nas recentes adaptações de quadrinhos para o cinema. Elas primam tanto pelo exagero e estupidez que até parece que o espectador não tem a menor capacidade de saber que aquilo é uma produção do estilo. Haja paciência….

Sendo assim, Creepshow é muito mais do que um simples filme dos anos 80 com pequenas, ingênuas e nostálgicas histórias de terror. É uma experiência cinematográfica inovadora que não tem medo de usar a beleza de sua despretensão para conquistar o espectador, seja ele fã de terror ou de cinema mesmo.

CAVALEIROS DE AÇO (Knightriders, 1981), George A. Romero

por Davi de Oliveira Pinheiro

É impossível não me identificar com o Billy (Ed Harris), protagonista de Cavaleiros de Aço. Ele é um homem que usa códigos de honra como maior critério de vida, no lugar da conquista social ou financeira. Billy não apenas tem o desejo de ser rei, tem o desejo de estar fora do século XX e do ainda mais desvirtuado século XXI. Billy é um homem fora do tempo.

O que me chama atenção, principalmente, é como um homem fora do tempo é deslocado, incômodo, um problema social. Por mais que tente ressuscitar e relembrar o que há de grandioso em si e nos outros, ele está em processo de defasagem e é necessário o esquecimento do mesmo, para que o mundo não tenha que parar e fazer julgamentos sobre seu processo de mediocrização.

David Cronenberg, em entrevista, no livro “Cronenberg on Cronenberg”, fala da impossibilidade de realizar um filme de época “realista”, pois nossos conceitos de vida são tão diferentes através dos séculos. É impossível realizar um filme genuinamente em outro tempo histórico sem alienar o público. As pessoas desejam o conforto do agora, a possibilidade de pertencer ao grupo, de não se aquietarem na solidão. Billy, talvez, seja o mais próximo que o cinema já viu da personalidade de outra época.

Billy é outro mundo, que não só desapareceu, mas talvez seja apenas um ideal. George A. Romero foi básico e encontrou o homem que precisava que fosse a personagem. Então, jogou Billy em meio a pessoas que querem a idéia de viver no passado, a superfície, sem precisar arcar com a conseqüência, com o mergulho que é necessário para fazer a fantasia histórica ser uma verdade. O homem fora do tempo, de Romero, é o mais profundo exemplo de sua visão quase infantil, pura, do ser humano, do que a humanidade é capaz numa escala mesmo ínfima. É o filme mais positivo sobre a raça humana que Romero fez e o seu mais próximo de uma consciência natural do homem.

O DESPERTAR DOS MORTOS (Dawn of the Dead, 1978), George A. Romero

por Leopoldo Tauffenbach

Passados dez anos após a realização de A Noite dos Mortos-Vivos o diretor George Romero já acumulava uma experiência cinematográfica bastante significativa, marcada pela extrema competência ao lidar com o gênero do terror. Mas seu novo projeto não poderia se comparar aos anteriores e exigiria outro nível de complexidade técnica e criativa, além retomar o tema dos zumbis que tinha consagrado Romero. O Despertar dos Mortos daria sequência a A Noite dos Mortos-Vivos com uma proposta muito mais ambiciosa. Era simplesmente uma questão de saber se Romero seria bem sucedido nesta nova empreitada ou se iria se afogar no próprio poço que cavou.

Ainda que O Despertar dos Mortos parta da mesma premissa de A Noite dos Mortos-Vivos – onde mortos são reanimados por razões misteriosas e passam a atacar os vivos – as diferenças entre os dois filmes já começam no orçamento. Dos módicos cem mil dólares usados na produção do primeiro filme passamos a um valor cinco vezes maior para a produção do segundo. Romero também conta com a ajuda do cineasta italiano Dario Argento na produção, que fica responsável por ajudar na captação orçamentária e pela montagem e posterior distribuição para o mercado internacional.

Romero e sua esposa Christine Forrest aparecem como funcionários de uma emissora de TV em pânico.

A história começa em uma estação de TV em pânico, realizando uma transmissão de emergência sobre a invasão dos mortos-vivos que assola o planeta. O casal Stephen e Fran, funcionários da emissora, planejam fugir usando um helicóptero. Ao mesmo tempo dois soldados da SWAT entram em confronto com inúmeros zumbis em um conjunto habitacional. O destino – e o roteiro – acabam então por juntar os quatro que partem de helicóptero em busca de algum refúgio seguro. Como no primeiro filme, os personagens só dispõem de vagas informações a respeito de possíveis lugares onde possam manter-se a salvo dos cadáveres ambulantes. Entre o incerto e o duvidoso, mais uma vez o destino – e o roteiro – coloca os personagens em um shopping infestado de zumbis. Diante da possibilidade de se isolarem em uma fortaleza consumista abastecida com todos os confortos que o capitalismo pode oferecer, eles lentamente vão conquistando o local. Entre pelejas e conquistas estratégicas, os quatro sobreviventes vão construindo um pequeno paraíso em meio ao inferno na Terra.

Zumbis vão às compras: não seriam os mortos-vivos a base da sociedade capitalista?

Como em todos os filmes do diretor, os monstros são personagens secundários. Romero prioriza as relações em condições extremas, sempre dando margem para que os personagens possam aflorar o que há de mais nobre e monstruoso na natureza humana. Seja nesta vida ou na anterior (ou posterior, dependendo do ponto de vista). Não é à toa que o shopping surge infestado de cadáveres. Justifica-se que todos tenham ido para lá por carregarem lembranças de suas vidas pré-zumbi. Sarcasticamente Romero sugere uma reflexão sobre a vida esvaziada de sentido diante de uma filosofia consumista. Mesmo vivos, aquelas pessoas que invadem os shopping centers do mundo já não estariam meio mortas? Operam automaticamente, diante de comandos primitivos de “compre aqui”, “mais barato” e “não perca nossas promoções” sem questionar nada. Provavelmente Karl Marx choraria de emoção e pavor se estivesse vivo para assistir a este filme, além de redigir um ensaio infinitamente melhor do que este vos escreve.

Fran (Gaylen Ross) fica indecisa entre tantas opções de consumo. Na utopia criada pelos personagens a sobrevivência deve vir acompanhada de todos os confortos da vida moderna.

E não vamos nos esquecer dos vivos. Estes, por sua vez, tomam cada parte do shopping como crianças em uma loja de doces. Deixam-se maravilhar por tudo aquilo que podem tomar sem pagar. Se em um primeiro momento a sobrevivência é prioritária, assim que a situação parece controlada eles podem dar-se ao luxo de montar seu pequeno refúgio com tudo o que há de bom e de melhor em termos de mobiliário, design e culinária. Abastecidos pela sensação de segurança e fartura material, os personagens sentem-se confortáveis para planejarem e agirem com mais confiança e precisão. Mas logo fica claro que a ilusão de segurança nos moldes pequeno-burgueses não resolve a situação em longo prazo. Fran revela-se grávida e o mesmo o shopping mostra-se insuficiente para comportar essa situação. E é nesse momento que o shopping é invadido por uma gangue de saqueadores, fazendo ruir o castelo das ilusões e obrigando os personagens a se depararem com a cruel realidade que nunca deixou de existir. Mais uma vez é impossível não divagar a respeito das dinâmicas nas grandes metrópoles, desta vez pensando no papel fundamental do muro que poupa a visão das classes mais abastadas da dita “feiúra” daquelas criaturas menos favorecidas. Intencionalmente ou não, Romero obriga o espectador minimamente mais esclarecido a se deparar como fato de que todos nós já lidamos com mortos-vivos em nossas vidas. Trata-se apenas de saber quem afinal de contas são os zumbis: os outros ou nós mesmos.

Os vivos e os mortos: perigosos saqueadores invadem o shopping e lembram aos personagens que a realidade ainda pode ser dura.

Vale lembrar que O Despertar dos Mortos foi refilmado em 2004 pelo “visionário” Zack Snyder, em sua estréia como diretor. Longe de se comparar ao original, sem sutilezas e com foco evidentemente maior nas cenas de ação e gore, Snyder conseguiu realizar a façanha de gerar um filme divertido e que mesmo distante da maestria do original não chega a ofendê-lo. Mas que fique claro que mesmo assim a obra de Snyder está abaixo da refilmagem de A Noite dos Mortos-Vivos realizada em 1990 pelo competente Tom Savini.