Corre Homem Corre (Corri Uomo Corri, 1968), Sergio Sollima

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O terceiro e último western de Sollima não é tão bom quanto os outros dois, mas ainda assim é de alto nível. O jornalista e crítico de cinema Marco Giusti tem uma frase que resume a obra com perfeição: “O filme funciona mais nos seus pequenos momentos que no quadro geral” (Dizionario del Western All’Italiana, Ed. Oscar Mondadori). Sem a produção do poderoso Alberto Grimaldi, parece que nem tudo saiu como o Sollima queria. O cubano Tomas Milian retoma o célebre personagem Cuchillo Sanchez de O Dia da Desforra em mais uma performance memorável. Embora os westerns antecessores de Sollima também possuam forte conotação política, é em Corre Homem Corre que ele se aproxima totalmente dos Zapata Westerns (ou Tortilla Western, como dizem os italianos), com uma corrida em busca de um tesouro que, de uma forma ou de outra, está destinado a Revolução Mexicana (como visto em outros exemplares desse sub-gênero). Donald O’Brien interpreta um dos sujeitos interessados na fortuna, única e exclusivamente por interesses pessoais, mas acaba se transformando em prol da Revolução. Igualmente interessante os personagens da também cubana Chelo Alonso, que vive uma mulher apaixonada por Cuchillo; Linda Veras, supostamente uma fanática religiosa do “Exército da Salvação”; José Torres, como um idealista e poeta que transmite um pouco de consciência política a Cuchillo; e John Ireland, estranhamente convincente no papel do líder revolucionário Santillana. A música de Ennio Morricone e Bruno Nicolai contribui bastante o clima de “proletariado terceiro-mundista vs tiranos opressores”, com destaque para a bela canção “Espanto en el corazon” cantada por Tomas Milian numa das versões (em outras quem canta é Peter Boom). Um filme menor entre os westerns de Sollima, porém grande se comparado a centenas de exemplares do gênero dirigidos por nomes de menor expressão.

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por Heráclito Maia & Otávio Pereira

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Quando os Brutos se Defrontam (Faccia a Faccia, 1967), Sergio Sollima

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A esta altura, é notório que um dos gêneros pelo qual Sergio Sollima ficou conhecido foi o faroeste italiano, formando a tríade dos “Sergio’s” junto com o Corbucci (Django, O Grande Silêncio, etc) e o Leone (que dispensa apresentações). Embora tenha dirigido apenas três exemplares, o talento de Sollima não fica atrás da capacidade de seus companheiros e por isso é fácil colocá-lo nesta posição. Seus westerns são de um nível tão elevado que, mesmo se tivesse realizado somente estes três filmes em toda a sua carreira, seu lugar entre os grandes mestres do cinema italiano estaria garantido.

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Quando os Brutos se Defrontam é, sem dúvida alguma, um de seus momentos mais inspirados. Possui trilha de Ennio Morricone e uma fotografia bastante sofisticada que ocupa todo o scope com riqueza de detalhes. O filme trata das transformações de personalidades utilizando os elementos mais simples da dualidade humana como o bem e o mal, o certo e o errado, etc. O fato é que existe o professor Brad Fletcher, interpretado pelo grande Gian Maria Volontè (o vilão de Por um Punhado de Dólares e Por uns Dólares a Mais), sujeito de um ótimo caráter que sofre de uma doença e procura paz em uma cidadezinha no período da guerra civil. Do outro lado temos o oposto, Solomon ‘Beauregard’ Bennet, encarnado pelo cubano Tomas Milian, um dos maiores astros do cinema italiano. Bennet é um perigoso Fora da Lei que seqüestra o professor em determinada situação.

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A brutalidade intrínseca na alma de Bennet gera uma certa admiração pelo bondoso professor. Gradativamente, Sergio Sollima vai trabalhando as mudanças, fruto da relação entre os dois, que já não é mais a de seqüestrador-refém. Uma certa seqüência chave, onde Fletcher salva a vida de Bennet e comete seu primeiro assassinato, dá início a uma série de reflexões, principalmente por parte do pistoleiro, que questiona a utilização da violência em seu modo de vida, enquanto o professor passa a ser afetado pela frieza e o gosto de sangue. É um tanto filosófico para o público acostumado apenas em ver o confronto entre o bem e o mal sem refletir sobre a natureza desses elementos, mas não deixa de ser um fator que enobrece este magnífico western spaghetti de Sergio Sollima.

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O Dia da Desforra (La Resa dei Conti, 1967), Sergio Sollima

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A primeira vez que eu vi um filme do Sergio Sollima foi no saudoso tempo das VHS. Era Quando os Brutos se Defrontam (67) numa cópia em VHS dublada e com fullscreen assassino da Reserva Especial. Mesmo assistindo essa cópia péssima, fiquei impressionado com a gradual mudança de comportamento sofrida pelo personagem do excelente Gian Maria Volonté. Deve continuar sendo um filmaço, um dia eu o verei de novo.

Na busca por filmes do diretor, acabei conferindo O Dia Da Desforra. A trama principal do filme tem início quando Jonathan Corbett (Lee Van Cleef, num de seus melhores papéis) topa de imediato perseguir um exímio atirador de facas mexicano Cuchillo Sanchez (Tomas Milian, maravilhoso), quando passa a saber numa típica festa da alta sociedade local patrocinada por Brockston (Walter Barnes) que o sujeito é acusado de violentar e matar uma menina de 12 anos. Cuchillo não se demonstra nada difícil de ser encontrado, só que ele sempre arranja uma maneira de fugir por causa da sua invejável esperteza, enquanto o pistoleiro continua tentando botar as mãos nele.

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Corbett é um dos papéis que justificam por completo a predileção de Van Cleef em continuar trabalhando na Itália ao invés dos Estados Unidos, nesse grande e prolífico tempo do cinema italiano que foi a explosão dos Spaghetti Westerns. Mas cá entre nós, o filme pertence a Tomas Milian. Difícil imaginar outro ator daquela época compondo melhor esse ótimo e ambíguo personagem. O sujeito é tão carismático e palhaço que o espectador fica indeciso se torce para ele ser pego ou não, mesmo sendo acusado de um crime tão hediondo.

Além de ser um programaço para qualquer fã, que irá reconhecer faces familiares dos velhos tempos do bangue-bangue italiano (Gerard Herter, Fernando Sancho, Nello Pazzafini, Benito Stefanelli e Lorenzo Robledo), O Dia Da Desforra também possui uma grande e válida crítica aos valores sociais daquela época que é feita sem prejudicar o entretenimento. Os vários momentos antológicos como a rápida estadia de Cuchillo na fazenda de uma viúva cobiçada pelos seus capangas, a “picada” da cobra e os duelos finais conseguem ficar ainda mais memoráveis por terem a marcante trilha do genial Ennio Morricone, que faz uso de Pour Elise, composta por Beethoven, num deles. Não se deve deixar de assistí-lo em widescreen, porque a condução de Sergio Sollima é bem auxiliada pela fotografia de Carlo Carlini, com belíssimos ângulos e enquadramentos. O Dia Da Desforra é um clássico que merece ser mais conhecido e tenho certeza de que ele apenas irá melhorar com uma revisão por causa da riqueza dos seus detalhes. Só não leva nota 10, porque poderia acabar uns minutinhos mais tarde, hehe.

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PS: O título nacional do filme inspirou Heráclito Maia a nomear o seu antigo blog, o Blog da Desforra. Agradecimentos especiais a ele e Otávio Pereira, que me deram uma forcinha para conseguir o filme.

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por Osvaldo Neto (texto publicado originalmente em seu blog,

adaptado para O Dia da Fúria)