Red Cliff 2 (2009), John Woo

Por Otávio Pereira

Red Cliff Pt. 2 possui o mesmo padrão de qualidade visual do primeiro. Aqui o foco principal é a guerra em si, deixando o lado político para segundo plano. Woo mostra não apenas as batalhas, mas também o comportamento dos guerreiros, num olhar atento aos personagens antes e após cada combate. Possui ainda muitos jogos de estratégia e inteligência de guerra, porém fiquei decepcionado com o desfecho por alguns motivos, são eles:

1 – Em vários momentos o filme deixou de ser sério, incluindo situações cômicas que não funcionam.

2 – Novamente foi utilizado o clichê de inserir um personagem feminino como se fosse masculino. Esse personagem é um espião que passa dias infiltrado na tropa inimiga sem ninguém notar a diferença, acho isso um absurdo.

3 – As cenas de batalha se tornam repetitivas e similares as do primeiro filme, não apresentando novidades.

4 – Até então, o filme não trazia nenhum momento fora do normal como personagens voando no estilo O Tigre e o Dragão ou Herói, mas em um momento particular do final a batalha se torna exagerada, destoando do clima restante.

Como podem ver não são grandes e nem tantos motivos, mas a expectativa criada pela primeira parte não foi correspondida e Red Cliff Pt. 2 deixou a desejar. Continua sendo um bom filme, e pra quem viu a primeira parte torna-se mais do que obrigatório para que se conheça a conclusão da história.

A Batalha dos 3 Reinos ( Red Cliff, 2008), John Woo

Por Otávio Pereira

Depois do insucesso de seus últimos filmes em Hollywood, John Woo retorna a China, mais precisamente à China feudal de suas primeiras obras, de forma grandiosa e poética, retratando os eventos históricos acontecidos no período dos Três Reis. Temos um excelente elenco composto por Tony Leung, Takeshi Kaneshiro, Fengyi Zhang, Shido Nakamura e muitos outros.

Todos os elementos trabalhados em outras obras de John Woo estão presentes, desde a amizade e respeito, coragem e heroísmo, covardia e traição e seus famosos pombos brancos, que aqui possuem um papel importante na história (e não meramente ilustrativos ou simbólicos como de costume).

Red Cliff possui uma beleza fora do comum, sua narrativa cadenciada, as belas paisagens, os figurinos e a direção de arte são de tirar o chapéu. Tudo acompanhado por uma ótima trilha sonora e excelentes atuações. As cenas de batalhas formam um espetáculo à parte, tudo muito bem editado e grandioso, deixando vários épicos para trás. O uso da tecnologia de CGI foi utilizado de forma eficaz e não exagerada, não permitindo artificialismo nas batalhas.

A história possui inúmeros personagens, mas os mesmos são apresentados de forma gradativa de acordo com sua importância; todos possuem características fortes, mas não estereotipadas.

Para alguns o filme pode se tornar cansativo, por mesclar cenas de batalhas com as de intriga política, mas para mim tudo está bem equilibrado, e sua narrativa e exposição dos fatos estão em perfeita sincronia. O único motivo, em minha opinião, de Red Cliff não levar nota máxima é o de não ter um final, acabando abruptamente deixando-nos a ver navios esperando a continuação, que pelas expectativas criadas pela obra deveria ser igual ou superior. Se Woo estendesse o filme e chegasse ao final sem precisar de uma segunda parte seria uma obra-prima.

Fervura Máxima (Hard Boiled, 1992), John Woo

por Luiz Alexandre

John Woo já tinha se reinventado em Hong Kong e seus filmes já haviam virado referência e contribuíram para a criação do gênero conhecido como “Heroic Bloodshed” (algo como “Sangria Heróica”), envolvendo um homem ou mais empunhando pistolas e enfrentando os inimigos mais desonrados da China. O tipo de cinema que o Chang Che fazia na década de 70, seus honrados espadachins que iam até o limite pelo que acreditavam, muitas vezes perdendo suas vidas, ganhou uma nova abordagem: eles passaram a usar pistolas, roupas elegantes, eram homens das ruas, solitários, anacrônicos, capazes de derrubar cem homens armadas até os dentes com muita desenvoltura, caso isso fosse necessário.

Depois de tantos trabalhos envolvendo membros da tríade, Woo começava a ser criticado por, veja só, glorificar essas organizações. Foi então que decidiu fazer um filme novo com uma pequena mudança: em vez do pistoleiro ser um homem ligado a uma organização criminosa, dessa vez o protagonista seria um policial. Contando novamente com o astro que ajudou a criar, Chow Yun Fat, dessa vez o homem de ação é o Inspetor “Tequila” Yuen, um sujeito durão e corajoso que quando não está trocando tiros e caçando criminosos toca saxofone em um bar de Jazz. Ele investiga as ações de um chefe criminoso chamado Johnny Wong (interpretado pelo xará Anthony Wong) que está contrabandeando armas. Em sua busca por justiça conhecerá o enigmático Tony, feito pelo também xará Tony Leung Chiu Wai, que já havia trabalhado com Woo em Bala na Cabeça. Tony na verdade é um policial infiltrado na gangue de Wong, cujo único contato na polícia é o Superintendente Pang (Philip Chan, que na vida real também é um oficial de polícia), que também é chefe de Tequila. Depois de uns estranhamentos iniciais, envolvendo até mesmo a namorada de Tequila, os dois decicem unir suas forças contra o cruel Wong, investindo todo o seu poder de fogo e, porque não, “cavalice” contra os tríades.

Não vou enrolar muito, o filme é simplesmente fantástico. As cenas de ação, com “lutas de pistola” tão bem coreografadas quanto um filme dos Venoms, que se fazem representados pelo magnífico personagem de Philip Kwok, o pistoleiro de um olho só, Mad Dog, que trabalha para Wong e uma curta participação de Lo Meng.

Aliás, Kwok, um velho conhecido dos fãs de Kung Fu Old School, exala carisma e virilidade com seu personagem. Assim como Tequila e Tony, Mad Dog é um homem com habilidades muito acima da de um homem comum, que apesar de trabalhar com um dos indivíduos mais perversos de Hong Kong, não suja suas mãos com sangue inocente. È o velho “bandido com senso moral” que mesmo velhos cineastas como Howard Hawks gostavam de trabalhar, e aqui Woo não fez feio.

Mas o destaque vai pra parceria entre o esquentado Tequila e o sofrido Tony, O primeiro ganha nossa simpatia pelo seu jeito “fuck you” todo especial de ser, pela maneira desajeitada com que tenta voltar com sua namorada, os ciúmes que sente com as flores que recebe (na verdade um artifício de Tony para mandar pistas para a polícia nos cartões que acompanham as flores), sem contar sua incrível habilidade de encarar milhões de inimigos sozinho. Além do nome fantástico, o personagem deve ter sido feito do mesmo material que indivíduos como Paul Kersey, John Matrix e Dirty Harry Calahan, ou seja, um sujeito durão até o osso como os bons da velha escola.

Já Tony, também um exímio guerreiro, sofre com o fato de ser obrigado a se passar por um bandido, tendo que trair a confiança daqueles que ama, como o Sr. Hoi (o falecido Hoi Shan Kwan) que sempre o acolheu como um filho. A cena em que ele mata o velho tríade para conquistar a confiança de Wong. Aliás, se Chow Yun Fat rouba o show com sua marra e malandragem, Leung, que provavelmente está para o drama como Jackie Chan está para as artes marciais, consegue ser cool, durão e sensível, criando uma persona ainda mais rica que Chow.

As grandiosas cenas de ação estão presentes por toda a película, com três destaques: a cena de abertura, no restaurante, com Tequila e seus colegas trocando chumbo pesado contra os tríades, a cena de invasão de um galpão pela gangue de Johnny Mo, acompanhada pelo enfrentamento de Tequila e a antológica e longuíssima batalha no hospital que serve de fachada para os bandidos, em especial o duelo de armas entre Mad Dog contra os dois policiais e uma cena de vários minutos, sem cortes, mostrando Tequila e Tony derrubando vários criminosos a bala. Inacreditável que algumas das belas cenas de violência estilizada deste filme, como a cena de Tequila descendo as escadas se apoiando no corrimão, tenham sido elaboradas de improviso. John Woo nem precisava de tanto após a feitura de Bala na Cabeça e The Killer, mas outra vez mais ele mostrou que sua fama não era apenas hype. Do início ao fim, o que vemos aqui não são apenas chineses violentos trocando “gentilezas”, mas homens de honra indo em direção ao inferno para enfrentar o mau. Contando apenas com um ao outro e nada mais. Howard Hawks, Sam Peckinpah e Chang Che devem estar orgulhosos!

Bala na Cabeça (Bullet in the Head, 1990), John Woo

por Ronald Perrone

Bala na Cabeça deveria ter sido a terceira parte da trilogia de A Better Tomorrow, uma prequel mostrando o passado dos personagens dos dois primeiros filmes. Mas brigas de diferenças de opiniões com o produtor Tsui Hark fizeram com que a parceria chegasse ao fim. Só que o enredo escrito pelo próprio Woo (juntamente com mais dois roteiristas) era boa demais para ser simplesmente descartada.

O filme talvez seja o mais comovente drama de ação orquestrado pelo mestre John Woo. Nas palavras do próprio, é seu trabalho mais pessoal, um retrato de proporções épicas sobre a guerra do Vietnã visto sob um olhar peculiar bem diferente do que é mostrado nos filmes hollywoodianos. A narrativa pode ser dividida em duas partes. A primeira, com elementos autobiográficos onde o diretor relembra sua adolescência na Hong Kong dos anos 60; é sobre três amigos inseparáveis (Jacky Cheung, Tony Leung e Waise Lee) em meio às manifestações sociais do período, retratando a miséria e criminalidade. Quando um deles comete um assassinato numa briga de gangues, os três decidem fugir para Saigon em plena guerra do Vietnã.

A segunda metade é uma verdadeira descida ao inferno, com os três amigos sofrendo todas as iniquidades possíveis em sequências que lembram O Franco Atirador, de Michael Cimino, em caráter de tensão. Segundo John Woo, para filmar determinadas cenas ele se inspirou na dor que sentiu quando assistiu na TV as imagens do massacre da Praça Tiananmen, em Pequim. Embora seja repleto das frequentes e espetaculares sequências de ação, tiroteios intermináveis, que pontuam a carreira do diretor, o filme nunca descamba para uma simples diversão.

Bala na Cabeça é sério, violento, pessimista e os seus protagonistas não são os heróis românticos habituais dos filmes de Woo. Com belas atuações e direção, é uma das obras primas da fase oriental deste gênio do cinema de ação.