A VOLTA DO PISTOLEIRO (China 9, Liberty 37, 1978), Monte Hellman

por Cesar Alcázar

Entre a realização de duas obras-primas do western concebidas por Monte Hellman no fim dos anos 1960, The Shooting e Ride the whirlwind, e a produção do western crepuscular China 9, Lyberty 37, mais de uma década se passou. Nesse período, Hellman dirigiu seus títulos mais famosos, que embora sejam hoje objeto de culto, nunca lhe trouxeram o reconhecimento merecido, sobretudo em seu país de origem.

A recepção mais calorosa da obra de Hellman pelo público europeu fez com que o cineasta buscasse projetos no Velho Mundo. Depois de uma fracassada parceria com a Hammer Films (acabou demitido durante a filmagem de Shatter), veio a oportunidade de voltar ao western em uma produção italiana. Esta visita ao então agonizante Spaghetti Western resultou em China 9, Liberty 37.

A trama, de aparente simplicidade, começa com o pistoleiro Clayton Drumm (Testi) esperando pela própria execução em uma cela de cadeia. Para sorte do matador, antes da sentença ser cumprida, ele recebe uma proposta irrecusável de alguns barões ferroviários: a liberdade (e a sua vida) em troca do assassinato do fazendeiro Matthew Sebanek (Oates), que está atrapalhando a construção da estrada de ferro devido à sua recusa de vender a terra onde vive. Até aí, tudo muito corriqueiro. A história se complica com a amizade que surge entre Drumm e Matthew, e piora ainda mais com a atração irresistível da esposa de Matthew, Catherine (Agutter), pelo matador de aluguel.

Como em todos os seus filmes, Monte Hellman dá grande atenção à construção de personagens, proporcionando aos atores um ótimo material. Até Fabio Testi, astro pouco expressivo, tem excelente desempenho em um papel cheio de nuances. Longe dos pistoleiros estóicos costumeiros do SW, seu Clayton Drumm é um homem cheio de dúvidas, perdido entre suas definições de certo e errado, e até mesmo covarde (como na cena em que usa uma prostituta como escudo). Warren Oates interpreta com sua habitual maestria o fazendeiro (e ex-pistoleiro) Matthew, um personagem que poderia muito bem ser vilanesco, mas que acaba por conquistar a simpatia do espectador. Por fim, a bela Jenny Agutter tem uma atuação convincente como a jovem esposa descobrindo sua sexualidade.

China 9, Lyberty 37 nunca atingiu o patamar de cult dos outros westerns de Hellman. Ainda assim, as qualidades e peculiaridades (como a grande quantidade de cenas de sexo e nudez, algo pouco comum no gênero) do filme foram suficientes para evitar sua queda no esquecimento, mantendo o interesse do público sempre renovado. Sem dúvida, um desses atrativos peculiares é a rara aparição do cineasta Sam Peckinpah como ator. O velho Bloody Sam (com a aparência já bastante desgastada pelos excessos) está muito bem no papel de um escritor de dime novels interessado em comprar a história do pistoleiro Drumm.

GALO DE BRIGA (Cockfighter, 1974), Monte Hellman

por Cesar Alcázar

O genial diretor Monte Hellman e o não menos fantástico ator Warren Oates realizaram quatro filmes juntos. Embora pouco assistidos em seu tempo (The Shooting – 1967 – sequer foi exibido no circuito comercial americano), hoje eles possuem uma legião de admiradores que se encarregaram de imortalizar a obra desta dupla lendária. Hellman foi um dos poucos diretores a enxergar Oates como um herói, oferecendo a ele grandes papéis. Cockfighter, de 1974, é provavelmente o seu trabalho mais conhecido, ao lado de Corrida sem fim (Two-Lane Blacktop – 1971).

Em Cockfighter, Oates interpreta Frank Mansfield, um treinador de galos de briga. Ele é tão explosivo e violento quanto os animais que treina. Mas esta sua impulsividade o faz entrar em uma aposta contra Jack Burke (Stanton). Resultado: seu melhor galo é morto na noite anterior a disputa de “Galo de Briga do Ano”. Burke adverte Mansfield: “Você tem dois grandes problemas: você bebe demais e FALA demais!”. Devido ao seu comportamento obsessivo, Frank faz um voto de silêncio e mergulha em uma nova jornada rumo ao seu objetivo: ser o treinador de galos do ano. Mesmo que isto lhe custe todas as suas posses, sua família e a mulher que o ama (Patricia Pearcy).

Com produção de Roger Corman (que relançou o filme com o título mais “comercial”, Born to kill!) e belo trabalho de edição e trilha sonora, Cockfighter é um filme belíssimo. Warren Oates, mais uma vez, tem atuação inspirada, mesmo que seu personagem só tenha diálogos em duas cenas (sem contar algumas narrações em off)! A expressividade do ator é tão envolvente que fica impossível para o espectador não se identificar com o personagem.

As brigas de galo são apenas o pano de fundo para a jornada de Frank Mansfield, mas Hellman não deixa de explorar (e denunciar) a brutalidade do esporte. Algumas cenas são bastante sangrentas e revoltantes. O diretor inclusive, recusou-se a filmar algumas delas, deixando o serviço sujo para o editor Lewis Teague. Entretanto, o mais impressionante é a parte humana do “espetáculo”. Monte Hellman captura o frenesi homicida dos espectadores das lutas em toda sua selvageria, uma sede de sangue que contrasta com a frieza dos treinadores.

O DVD americano, lançado pela empresa Anchor Bay, contém um ótimo documentário sobre Warren Oates, um dos melhores atores de sua geração que infelizmente é pouco lembrado pela mídia. Cockfighter foi lançado em DVD no Brasil pela Platina Filmes com o título Galo de Briga, em uma edição simples, sem extras.

CORRIDA SEM FIM (Two-Lane Blacktop, 1971), Monte Hellman

por Leopoldo Tauffenbach

Imagine-se vivendo em 1970. O cantor James Taylor lança seu segundo e multipremiado disco, Sweet Baby James, que, em 2003, ficou com o 103º lugar na lista dos 500 maiores álbuns de todos os tempos da revista Rolling Stone. A banda The Beach Boys lança um de seus melhores álbuns, Sunflower, que conta com participação destacada do baterista Dennis Wilson como produtor e compositor, e também foi incluído na lista da Rolling Stone. No cinema, filmes como Bullit (1968), Um Golpe à Italiana (1969) e Sem Destino (1969) tornam-se obras extremamente populares e bem sucedidas, principalmente pela maneira como se utilizam de carros e motos como coadjuvantes. Dito isso, imagine receber a notícia de que 1971 seria o ano de estreia de um filme com carros estrelado por James Taylor e Dennis Wilson nos papeis principais. Adicione o veterano Warren Oates e a gracinha estreante Laurie Bird para compor o elenco de apoio. O mais certeiro seria apostar em uma obra com uma trilha sonora memorável e repleta de cenas de perseguições e ação ininterrupta. Certo?

Dennis Wilson é o mecânico e James Taylor é o motorista.

Errou feio quem concordou com o filme de ação definitivo dos anos 70. A verdade é que Corrida Sem Fim subverteu todos os clichês possíveis do que poderia ser mais um exemplar de car chase movie ao criar uma obra que cai para e reflexão existencial e que abusa do silêncio, colocando os carros para rodar atrás de objetivos que não parecem dignos o suficiente de se alcançarem.

James Taylor é o motorista e Dennnis Wilson o mecânico. Juntos eles andam em um Chevy 55 atrás de rachas para competir. Em uma parada eles conhecem a garota interpretada por Laurie Bird que, por não ter nada melhor a fazer, resolve acompanhá-los. Ao longo do caminho eles vão cruzando com um G.T.O. amarelo, pilotado por Warren Oates. Mais adiante, em um posto de gasolina, os motoristas de ambos os carros se confrontam e resolvem apostar uma corrida até Washington, valendo os documentos de propriedade do carro. Começa então uma corrida pouco comum, onde todos os envolvidos parecem se utilizar dela para atingir objetivos pessoais que habitam secretamente em cada um.

O motorista e o mecânico possuem um relacionamento distante, e os momentos de aproximação obrigatoriamente envolvem o carro ou o próximo racha. A única linguagem que conhecem é a dos carros e corridas. Neste mundo mecanizado por eles, as relações são como peças, com seus encaixes lógicos e perfeitos, mas frios. Não que os personagens sofram de falhas morais. Jovens, eles ainda estão para descobrir a complexidade das relações humanas e da vida. E é justamente a garota, perdida e desiludida, que ensinará as primeiras lições de um alfabeto desconhecido para eles.

A jovem Laurie Bird como a garota que mudará a cabeça do motorista James Taylor.

G.T.O., por outro lado, é um sujeito que implora por relacionamentos, mas demonstra ao longo do filme ser incapaz de sustentar um. Em sua viagem está sempre acompanhado por caronas, que se esforça em pegar não por caridade, mas pela necessidade de ouvintes que deem atenção a suas histórias inventadas e que amenizem as dores de seu complexo de inferioridade. Mas a situação piora para o personagem a partir do momento em que ele se passa a se sentir humilhado pelos jovens que dirigem um carro supostamente menos potente que o dele. Para todos os envolvidos, a corrida até Washington transforma-se em uma bela jornada de aprendizado rumo à superação.

Warren Oates em seu G.T.O., acompanhado de um de seus inúmeros caronas.

A competência de Hellman é duplamente apresentada neste filme: como diretor e montador. Depois de várias revisões, é muito difícil imaginar se outros profissionais conseguiriam se aproximar do mesmo grau de sensibilidade obtido por Hellman a partir do roteiro dos estreantes Floyd Mutrux, Rudy Wurlitzer e Will Corry. Tanto a direção como a montagem são precisas, mas extremamente orgânicas e fluidas. Humanas, como o próprio filme pede. Segundos a mais ou a menos em cada uma das cenas poderia ter alterado substancialmente o filme, ainda que haja quem discorde. Créditos também devem ser dados ao departamento de som, responsáveis por criar os sons que muitas vezes complementam ou substituem os raros diálogos do filme. Mas há de se admitir que Corrida Sem Fim talvez não seja um filme para qualquer um. O espectador médio talvez encontre ali um filme sobre carros e uma corrida sem vencedores. O filme de Hellman requer muita sensibilidade para se constatar, ao final, que não se trata de um filme de carros e que todos os personagens – inclusive o próprio espectador – são, ao mesmo tempo, constantes vencedores e perdedores nessa corrida.

A estrada, sem linha de chegada.

PS.: o título original do filme, Two-Lane Blacktop, refere-se à estrada asfaltada (blacktop) de pista dupla (two lane).

DISPARO PARA MATAR (The Shooting, 1966), Monte Hellman

por Cesar Alcázar

Nos primeiros anos de sua carreira, Monte Hellman trabalhou diversas vezes com o diretor e produtor Roger Corman, exercendo variadas funções. Foi justamente o “Rei dos filmes B” que ofereceu a Hellman suas primeiras oportunidades como diretor. Em 1964, o então desconhecido Jack Nicholson teve seu caminho cruzado com o de Hellman durante a produção simultânea de Back door to Hell e Flight to fury, filmados nas Filipinas sob o patrocínio de Corman. O entrosamento entre os dois foi instantâneo e juntos prepararam novo projeto. Logo depois, ofereceram este projeto à Corman, que achou o roteiro de Nicholson sobre a questão do aborto muito deprimente e pouco comercial. Entretanto, o genial produtor sugeriu para a dupla a produção de dois Westerns nos moldes das películas realizadas nas Filipinas. Muito interessados, começaram logo a trabalhar: enquanto Nicholson escrevia o que veio a ser Ride in the whirlwind, a roteirista Carole Eastman concebeu o enigmático The Shooting.

A intricada trama começa com o ex-pistoleiro Willet Gashade (Warren Oates) chegando ao acampamento de mineração que possui em conjunto com outros três sócios. Gashade desconfia que estava sendo seguido, e encontra o jovem Coley (Will Hutchins) completamente desesperado. Coley explica à Gashade que, durante a ausência deste, um dos sócios da mina havia sido assassinado por um atirador desconhecido logo após a partida misteriosa de Coin, irmão de Gashade. No dia seguinte, uma mulher (Millie Perkins) chega ao acampamento e oferece mil Dólares à Gashade e Coley para guiá-la através do deserto até uma cidade chamada Kingsley. Durante a árdua viagem, Gashade percebe que a mulher está na verdade procurando por alguém. Em seguida, um pistoleiro psicótico, Billy Spear (Jack Nicholson), se junta ao grupo. Ele fora contratado pela mulher, e estava os seguindo à distância. A tensão entre eles aumenta na medida em que entram cada vez mais no deserto. Qual o motivo da jornada? Qual a real intenção da estranha mulher? Resta a Gashade resolver o mistério para conseguir sobreviver.

Nunca houve outro Western como The Shooting. Em um gênero acostumado a dramas e aventuras, a natureza estranha e quase incompreensível desta obra é de uma originalidade e ousadia impressionante. Para se entender o filme em sua totalidade, é necessário juntar as poucas (e discretas) pistas espalhadas ao longo da história. Sem dúvida, após o término de The Shooting, o espectador ficará um bom tempo montando as peças deste quebra-cabeça cinematográfico. O clima incerto e tenso da trama é sustentado por um excelente elenco com o sempre primoroso Warren Oates à frente dele no papel de Gashade. Millie Perkins interpreta a vilã com um misto de maldade e sensualidade. O jovem Will Hutchins interpreta o amigo apalermado de Gashade, um personagem que logo desperta a empatia do público. Por fim, Jack Nicholson dá uma amostra dos seus futuros papéis psicóticos e desequilibrados como o pistoleiro Billy Spear. Sua atuação parece uma versão exagerada do matador vivido por Jack Palance no clássico Os brutos também amam (Shane, 1953).

Após o término das filmagens, Monte Hellman passou o ano seguinte montando os filmes (este e Ride in the whirlwind) e o posterior exibindo-os em festivais ao redor do mundo. Embora tenha conseguido boas críticas em Cannes e no festival de Montreal, Hellman não conseguiu encontrar um distribuidor interessado em exibir os dois peculiares Westerns no cinema. O diretor levou seu trabalho a Paris, onde encontrou seu público. The Shooting ficou um ano em cartaz. Em 1968, os direitos foram adquiridos pela Walter Reade Organization, que dispensou o lançamento nos cinemas e vendeu estas magníficas obras para a televisão. Pouco visto durante duas décadas, The Shooting conseguiu formar apenas um pequeno grupo de admiradores. A consagração definitiva veio nos anos 1990, com seu lançamento em VHS e depois em DVD no ano 2000. Atualmente, The Shooting é um cult movie aclamado por público e crítica. O Brasil pôde conferir esta obra prima em VHS e DVD com o título Disparo para matar.

TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA (Bring Me the Head of Alfredo Garcia, 1974), Sam Peckinpah

por Leopoldo Tauffenbach

Se fosse possível definir Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia em apenas uma palavra, talvez a mais apropriada fosse “imundo”. Poucas vezes na história do cinema se chegou tão perto de criar um filme tão sujo quanto esta obra-prima do mestre Peckinpah.

Tudo começa com um abastado proprietário de terras mexicano descobrindo a gravidez da filha. Em um cenário absurdamente opressor, ele tortura a filha diante de várias testemunhas até que ela entrega o nome do pai da criança: o notório galanteador Alfredo Garcia. Indignado, o senhor feudal pede a cabeça do pai do pequeno bastardo, com a promessa de uma recompensa milionária a quem fizer o serviço. Alguns dos capangas que estão atrás de Garcia acabam parando em um boteco ordinário onde trabalha o músico Bennie, interpretado com a competência habitual por Warren Oates. Tendo ouvido falar de Alfredo Garcia e diante da possibilidade de faturar alguns trocados, Bennie começa sua própria investigação sobre o paradeiro de Garcia com a ajuda de sua companheira Elita. Elita informa Bennie que Garcia já está morto, e eles decidem ir até seu túmulo para arrancar-lhe a cabeça e entregá-la aos bandidos. Considerando que este é um filme de Sam Peckinpah, realizado após Meu Ódio Será Sua Herança, Sob o Domínio do Medo e Os Implacáveis, podemos prever que a jornada de Bennie não será nada como um passeio no parque. Ao contrário, Peckinpah promove ao protagonista e ao espectador uma verdadeira descida ao inferno.

Diante da família, clero e elite local, pai tortura a filha até ela entregar quem a engravidou: o famigerado Alfredo Garcia.

Bennie é um indivíduo que não vê muito futuro pela frente. Ele não agüenta mais tocar em um bar por gorjetas nem viver em um quartinho imundo com Elita. Como qualquer outro mortal em sua condição, a ambição é sua força motriz, deixando-o atento a qualquer oportunidade que surja para promover todo o tipo de conforto material que lhe falta. No início do filme fica evidente que, embora ele e Elita estejam juntos, o casal já conheceu dias mais apaixonados. Aqueles mais familiarizados com a obra do diretor seguramente enxergarão semelhanças com o casal McQueen/McGraw em Os Implacáveis.

Bennie e Elita fazem planos para o futuro depois de enxergarem uma oportunidade de uma vida melhor às custas da morte de Garcia. Como o casal de Os Implacáveis, o amor sofre com as interferências dos egos.

Quando finalmente conseguem a cabeça de Garcia e seus problemas parecem resolvidos, o casal sofre um atentado. Bennie sobrevive, mas a cabeça de Garcia desaparece e Elita acaba morta. E é aí que o filme realmente começa.

Bennie passa a rever sua vida e questionar suas aspirações e seus desejos, e chega à dura conclusão que a única coisa que realmente importava era a companhia de Elita. Sem ela, Bennie se agarra à única motivação justa para continuar vivendo: recuperar a cabeça de Garcia e vingar a morte da amada. A cabeça de Garcia se mostra como uma metáfora da obsessão cega, válida para todos os personagens do filme, e isso é evidenciado quando o personagem de Oates pergunta qual seria o verdadeiro motivo para tanto desejarem-na. Se antes Bennie era movido pela ambição, esta agora se tornara obsessão, e ele se coloca em pé de igualdade a todos os outros personagens. A única diferença é que Peckinpah parece colocar as motivações de Bennie em um patamar mais elevado. Independentemente da obsessão, por trás de tudo está o amor de Bennie por Elita.

Bennie transforma-se naquilo que ele mais despreza após encarar a morte de sua amada e questionar sua própria vida e seus valores.

Depois de um espetáculo macabro de mortes violentíssimas, coisa que Peckinpah sabe fazer de melhor, Bennie finalmente recupera a cabeça e volta para casa. Após uma longa conversa com a cabeça inerte de Garcia, ele segue para a fazenda do coronel mexicano. Lá, com a ajuda da filha do coronel ele o assassina e logo em seguida é morto. Com Bennie vingado e redimido, a morte se apresenta como única possibilidade para quem desceu até as profundezas do inferno e conseguiu matar o diabo. Diante de tantas mortes vãs, a de Bennie é a única que parece fazer sentido. Depois de uma jornada pelo que há de mais imundo na condição humana, tanto física como moralmente, o espectador mais atento concluirá que este filme trata na verdade de um conto de amor e redenção como oposição às forças menos nobres da natureza humana. Realizado à maneira de Sam Peckinpah, claro.

A violenta, mas redentora morte de Bennie é também a morte da carreira de Peckinpah

A partir de agora, diante do reduzido espaço para publicar este texto, qualquer coisa que seja dita soará incompleta ou redundante. Por sua complexidade, Alfredo Garcia merece muito mais do que estas poucas linhas para criticá-lo e analisá-lo. Ainda que Meu Ódio Será Sua Herança seja considerado por muitos como o melhor trabalho da carreira de Peckinpah, sou obrigado a defender Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia como obra máxima do diretor. Todos os temas trabalhados anteriormente parecem ter alcançado sua maturidade com este filme. Não somente, Peckinpah consegue equilibrar ação, romance, conflitos morais e existenciais de tal forma que faz parecer que o filme é até mais curto do que é na verdade. Curiosamente é após este filme que Peckinpah passa a dirigir obras menores, nunca mais igualadas à força de seus predecessores. Mais uma vez a vida imita a arte, e como Benny, Peckinpah parece ter vivido para realizar este trabalho, a verdadeira obra de sua vida, para então gloriosamente esperar pelo fim.

MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (Wild Bunch, 1969), Sam Peckinpah

por Otávio Pereira

É difícil falar de uma obra-prima unânime sem ser repetitivo, mas Meu Ódio Será sua Herança mudou a história do cinema após seu lançamento em 1969 e mesmo depois de quarenta anos o filme continua forte e único. Esta foi a quarta vez que o assisti, e a cada revisão novos pontos são ressaltados e outros ampliados. A cópia vista foi a comemorativa de 35 anos, totalmente restaurada, trazendo a versão do diretor, com imagem e som de alta qualidade, além de um segundo disco recheado de bônus. O interessante desta versão são as cenas nunca antes vistas, que trazem um lado mais cômico e também um flashback que ajuda a explicar mais sobre o personagem do Robert Ryan e sua motivação. Mesmo achando que algumas dessas cenas cômicas não se encaixam bem, o filme continua um colosso.

Meu Ódio Será sua Herança reinventa o cinema de faroeste americano, possuindo algumas características trabalhadas por John Ford, mescladas com tendências do faroeste italiano. Mas o que prevalece são os ideais e temas discutidos em toda obra de Sam Peckinpah. Temos lealdade, coragem, honra, amizade e principalmente o problema em se adaptar às mudanças de um novo mundo (tema que atingiria sua plenitude em Pat Garret & Billy the Kid). Um dos grandes trunfos do filme é retratar o Velho Oeste da forma mais realista possível, deixando de lado os mitos até então utilizados, os bons costumes e a moralidade. Bloody Sam narra de forma crua e direta o dia a dia de um bando de foras da lei que vê na violência o único modo de vida.

Como toda obra-prima tudo está equilibrado em perfeita harmonia, desde a fotografia, produção, trilha sonora, e especialmente a montagem e atuações. Sam Peckinpah consegue filmar e montar as sequências de ação com maestria, criando um estilo único na decupagem de suas cenas, mesclando uma violência gráfica nunca antes vista com forte carga dramática. Tudo isto é complementado por magníficas atuações de William Holden, Ernest Borgnine, Robert Ryan, Edmond O’Brian, Warren Oates, Ben Johnson, Jamie Sanchez e o também cineasta Emilio Fernandez.

O filme possui muitas cenas fortes que falam por si, mas nesta última revisão uma seqüência que me marcou foi o prelúdio do massacre final. Temos Ernest Borgnine sentado, encostado em um muro cortando um pedaço de madeira com uma faca. Sua face é de desprezo, pois de onde está consegue ouvir os soldados mexicanos se divertindo com o amigo Angel, enquanto Warren Oates e Ben Johnson discutem com uma prostituta. William Holden entra no quarto e diz, “vamos”, depois de um pequeno silêncio temos a resposta “porque não?”. Em seguida o grupo pega suas armas e faz a caminhada final em busca de seu amigo. Depois temos mais uma seqüência excelente com Mapache entregando Angel ao grupo, e os segundos que antecedem a maior cena de ação já filmada, um verdadeiro épico e um final espetacular de uma obra singular no mundo do cinema.

JURAMENTO DE VINGANÇA (Major Dundee, 1965), Sam Peckinpah

por Ronald Perrone

Em meados dos anos 60, o western americano passava por um momento de transgressão. O modelo clássico “pedia arrego” enquanto os exemplares do gênero made in Europe viravam moda e influenciavam as produções do gênero que ainda eram feitas. Monte Hellman, por exemplo, foi um dos primeiros a começar a brincadeira, mas foi Sam Peckinpah quem fincou a cruz e praticamente enterrou o modelo clássico de fazer faroeste com o seu revolucionário Meu Ódio Será sua Herança (1969).

Mas antes disso, Peckinpah dirigiu Juramento de Vingança, que pode muito bem ser considerado um rascunho de Meu Ódio… em caráter de estilo e visual, embora ainda seja narrado nos moldes clássico. É um faroeste épico, sobre o major Amos Dundee (desempenho impecável de Heston), inspirado no famoso general Custer, que resolve declarar uma guerra pessoal e insana pra cima de um chefe indígena que havia sequestrado crianças, após realizar um massacre. Agindo de forma independente, Dundee forma um exército marginal composto por bêbados, negros, soldados prisioneiros, etc, e parte numa longa jornada com o pelotão, o que não deixa de ser uma missão suicida e sem sentido. No entanto, para Dundee vai servir como uma jornada de descobertas, especialmente  ao encarar de frente uma série de conflitos políticos e pessoais, o que inclui as contas do passado em aberto com um velho conhecido, vivido por Richard Harris.

E Peckinpah conduz tudo isso de forma magnífica, trabalhando as riquezas dos detalhes, revelando belos cenários, personagens complexos e contando com excelentes atuações (Warren Oates, James Coburn, Mario Ardof, Ben Johnson, etc).

Infelizmente, já naquela época, o perfil problemático de Bloody Sam começava a dar sinal. Peckinpah teve problemas com o produtor, corte final, diretor de fotografia, vários atores, etc. Dizem as lendas que Heston ameaçou fisicamente o diretor com um sabre, de tão desagradável que o diretor estava nas filmagens. Problemas à parte, o que se vê na tela é uma obra eficiente, Peckinpah trabalhando vários temas, personagens e soluções visuais que seriam definitivos em seu cinema pessoal. Juramento de Vingança pode não ser o trabalho mais marcante, violento e poético da carreira do diretor, mas não deixa de ser fundamental para este período do cinema americano.

PISTOLEIROS DO ENTARDECER (Ride the High Country, 1962), Sam Peckinpah

por Davi de Oliveira Pinheiro

Como uma estrutura tão incomum de trama tornou-se tão grande sucesso de público? Primeira grande vitória de uma filmografia experimental e pouco ligada ao momento do cinema, os filmes de Sam Peckinpah, Pistoleiros do Entardecer foi realizado numa época em que recém o cinema europeu encontrava a linguagem moderna. O cinema do diretor americano parece ser o primeiro a absorver as características de uma gramática renovada, construída sobre o clássico, mas com uma nova maneira de articular a imagem, o som e a montagem de ambos.

Mesmo que use o ritmo do faroeste americano tradicional, é uma trama de reminiscências e sem o luxo da ação. Trata de dois pistoleiros veteranos que se reencontram para um serviço um tanto quanto ortodoxo, ao invés da tradicional (“a última grande jogada”) e parece que o argumento permite ao realizador e seus atores se deliciarem com os resultados da maturação mental e a decadência física que a idade traz. É um filme sobre a memória, onde o caminho que os pistoleiros seguem é apenas o desenho de um espaço físico ao qual vão retornar, enquanto à frente encontra-se apenas a possibilidade de lembrar o passado e julgar o caráter de um novo pistoleiro, que ao contrário deles, dois homens do velho oeste, inclui em sua personalidade a dureza do oeste selvagem e a modernidade do século XX.

O novo pistoleiro é a personagem que traz o equilíbrio ao filme; é a única que possui um arco narrativo tradicional. O arco dos dois teóricos protagonistas é praticamente estático, inativo; é um diálogo de ações passadas. São personagens cuja moral e inteligência é estabelecida pela história pregressa, enquanto o jovem pistoleiro está em formação e seu caráter questionável é moldado pelo convívio com os veteranos e se demonstra um tanto quanto presente ao final do filme.

Peckinpah cria uma trama popular a partir de elementos pouquíssimos comuns e cria a emoção a partir de uma noção de amizade nunca explicitada de forma clara, sempre através da reminiscência. A amizade profunda e moldada em décadas é o ponto chave da trama. É o que estabelece suas adversidades e as recompensas emocionais.

É talvez, ao lado de Ajuste Final, dos Irmãos Coen, um dos grandes filmes sobre caráter e a construção do mesmo como uma conseqüência de ações, não apenas uma idéia etérea que cada um define por si. Existe o certo, errado e o terreno cinzento entre ambos, e fazer o certo é fácil, porém custoso. Muitas pessoas esquecem disso por algum tempo, às vezes por uma vida, mas sempre existe tempo para se redimir.


Dillinger – Inimigo Público nº 1 (Dillinger, 1973)

Dillinger

John Dillinger (1903-1934) é considerado por muitos como o último fora-da-lei romântico. Um verdadeiro Jesse James de metralhadora em punho, ele atravessou os EUA durante a Grande Depressão para se tornar um típico herói/bandido do folclore popular. Como ocorreu com muitos outros bandidos sociais lendários, o cinema abordou diversas vezes a trajetória criminosa de Dillinger. Realizado pela American International Pictures sob a produção de Samuel Z. Arkoff em 1973, Dillinger – Inimigo Público nº 1 ofereceu ao público uma excepcional descrição da vida do infame personagem com um inspiradíssimo Warren Oates à frente do elenco. Este filme também marcou a estréia do celebrado John Milius na direção.

Milius, além de dirigir, foi responsável pelo roteiro que narra os últimos anos da vida de John Dillinger (Warren Oates) e seu bando. Perseguido implacavelmente pelo agente do FBI Melvin Purvis (Ben Johnson), ele percorre o sudoeste dos EUA realizando seus ousados assaltos. Ainda sobra tempo para o bandido engatar um romance com a jovem Billy Frechette (Michelle Phillips) e tentar equilibrar os ânimos do seu grupo, que contava com outros criminosos conhecidos como Homer Van Meter (Harry Dean Stanton), Pretty Boy Floyd (Steve Kanaly) e Baby Face Nelson (Richard Dreyfuss).

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O cinema americano vivia a era dos “anti-heróis”, e obras como Bonnie & Clyde e Meu Ódio Será sua Herança faziam grande sucesso. Portanto não é de se estranhar que John Dillinger tenha sido retratado de forma muito mais positiva neste filme de Milius. Se anteriormente até assassinatos que ele não cometera foram inseridos em filme, aqui Warren Oates cria um personagem altamente cativante, com ares de Robin Hood, que conquista a platéia imediatamente. Enquanto isso, os homens da lei são liderados por um sisudo Ben Johnson.

Para uma produção B da American International Pictures, o elenco reunido nesta produção foi simplesmente soberbo. Oates e Johnson repetem a parceria de Meu Ódio Será sua Herança. Harry Dean Stanton está engraçadíssimo como o bandido meio doido do grupo. Michelle Phillips, do grupo The Mamas and the Papas, atua muito melhor do que se poderia esperar dela. Richard Dreyfuss, antes de Tubarão, interpreta um gângster nervosinho. Completando o elenco, Cloris Leachman, oscarizada junto com Ben Johnson pelo filme A Última Sessão de Cinema, tem pequeno papel como a infame “Dama de Vermelho”.

O verdadeiro Dillinger e o encarnado por Oates.

O verdadeiro Dillinger e o encarnado por Oates.

Dillinger – Inimigo Público nº. 1 é uma obra movimentada e repleta de ótimas seqüências que atestam o talento de John Milius para a ação. O humor bem inserido é uma atração a mais. Um dos poucos defeitos desta película é o fato de Oates e Johnson serem muito mais velhos do que os personagens representados, porém suas performances compensam esta pequena falha. Em breve os inimigos Dillinger e Purvis retornarão às telas na pele de Johnny Depp e Christian Bale no novo filme de Michael Mann. Dillinger – Inimigo Público nº. 1 está disponível em VHS e DVD no Brasil.

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Cesar Almeida