A VOLTA DO PISTOLEIRO (China 9, Liberty 37, 1978), Monte Hellman

por Cesar Alcázar

Entre a realização de duas obras-primas do western concebidas por Monte Hellman no fim dos anos 1960, The Shooting e Ride the whirlwind, e a produção do western crepuscular China 9, Lyberty 37, mais de uma década se passou. Nesse período, Hellman dirigiu seus títulos mais famosos, que embora sejam hoje objeto de culto, nunca lhe trouxeram o reconhecimento merecido, sobretudo em seu país de origem.

A recepção mais calorosa da obra de Hellman pelo público europeu fez com que o cineasta buscasse projetos no Velho Mundo. Depois de uma fracassada parceria com a Hammer Films (acabou demitido durante a filmagem de Shatter), veio a oportunidade de voltar ao western em uma produção italiana. Esta visita ao então agonizante Spaghetti Western resultou em China 9, Liberty 37.

A trama, de aparente simplicidade, começa com o pistoleiro Clayton Drumm (Testi) esperando pela própria execução em uma cela de cadeia. Para sorte do matador, antes da sentença ser cumprida, ele recebe uma proposta irrecusável de alguns barões ferroviários: a liberdade (e a sua vida) em troca do assassinato do fazendeiro Matthew Sebanek (Oates), que está atrapalhando a construção da estrada de ferro devido à sua recusa de vender a terra onde vive. Até aí, tudo muito corriqueiro. A história se complica com a amizade que surge entre Drumm e Matthew, e piora ainda mais com a atração irresistível da esposa de Matthew, Catherine (Agutter), pelo matador de aluguel.

Como em todos os seus filmes, Monte Hellman dá grande atenção à construção de personagens, proporcionando aos atores um ótimo material. Até Fabio Testi, astro pouco expressivo, tem excelente desempenho em um papel cheio de nuances. Longe dos pistoleiros estóicos costumeiros do SW, seu Clayton Drumm é um homem cheio de dúvidas, perdido entre suas definições de certo e errado, e até mesmo covarde (como na cena em que usa uma prostituta como escudo). Warren Oates interpreta com sua habitual maestria o fazendeiro (e ex-pistoleiro) Matthew, um personagem que poderia muito bem ser vilanesco, mas que acaba por conquistar a simpatia do espectador. Por fim, a bela Jenny Agutter tem uma atuação convincente como a jovem esposa descobrindo sua sexualidade.

China 9, Lyberty 37 nunca atingiu o patamar de cult dos outros westerns de Hellman. Ainda assim, as qualidades e peculiaridades (como a grande quantidade de cenas de sexo e nudez, algo pouco comum no gênero) do filme foram suficientes para evitar sua queda no esquecimento, mantendo o interesse do público sempre renovado. Sem dúvida, um desses atrativos peculiares é a rara aparição do cineasta Sam Peckinpah como ator. O velho Bloody Sam (com a aparência já bastante desgastada pelos excessos) está muito bem no papel de um escritor de dime novels interessado em comprar a história do pistoleiro Drumm.

DISPARO PARA MATAR (The Shooting, 1966), Monte Hellman

por Cesar Alcázar

Nos primeiros anos de sua carreira, Monte Hellman trabalhou diversas vezes com o diretor e produtor Roger Corman, exercendo variadas funções. Foi justamente o “Rei dos filmes B” que ofereceu a Hellman suas primeiras oportunidades como diretor. Em 1964, o então desconhecido Jack Nicholson teve seu caminho cruzado com o de Hellman durante a produção simultânea de Back door to Hell e Flight to fury, filmados nas Filipinas sob o patrocínio de Corman. O entrosamento entre os dois foi instantâneo e juntos prepararam novo projeto. Logo depois, ofereceram este projeto à Corman, que achou o roteiro de Nicholson sobre a questão do aborto muito deprimente e pouco comercial. Entretanto, o genial produtor sugeriu para a dupla a produção de dois Westerns nos moldes das películas realizadas nas Filipinas. Muito interessados, começaram logo a trabalhar: enquanto Nicholson escrevia o que veio a ser Ride in the whirlwind, a roteirista Carole Eastman concebeu o enigmático The Shooting.

A intricada trama começa com o ex-pistoleiro Willet Gashade (Warren Oates) chegando ao acampamento de mineração que possui em conjunto com outros três sócios. Gashade desconfia que estava sendo seguido, e encontra o jovem Coley (Will Hutchins) completamente desesperado. Coley explica à Gashade que, durante a ausência deste, um dos sócios da mina havia sido assassinado por um atirador desconhecido logo após a partida misteriosa de Coin, irmão de Gashade. No dia seguinte, uma mulher (Millie Perkins) chega ao acampamento e oferece mil Dólares à Gashade e Coley para guiá-la através do deserto até uma cidade chamada Kingsley. Durante a árdua viagem, Gashade percebe que a mulher está na verdade procurando por alguém. Em seguida, um pistoleiro psicótico, Billy Spear (Jack Nicholson), se junta ao grupo. Ele fora contratado pela mulher, e estava os seguindo à distância. A tensão entre eles aumenta na medida em que entram cada vez mais no deserto. Qual o motivo da jornada? Qual a real intenção da estranha mulher? Resta a Gashade resolver o mistério para conseguir sobreviver.

Nunca houve outro Western como The Shooting. Em um gênero acostumado a dramas e aventuras, a natureza estranha e quase incompreensível desta obra é de uma originalidade e ousadia impressionante. Para se entender o filme em sua totalidade, é necessário juntar as poucas (e discretas) pistas espalhadas ao longo da história. Sem dúvida, após o término de The Shooting, o espectador ficará um bom tempo montando as peças deste quebra-cabeça cinematográfico. O clima incerto e tenso da trama é sustentado por um excelente elenco com o sempre primoroso Warren Oates à frente dele no papel de Gashade. Millie Perkins interpreta a vilã com um misto de maldade e sensualidade. O jovem Will Hutchins interpreta o amigo apalermado de Gashade, um personagem que logo desperta a empatia do público. Por fim, Jack Nicholson dá uma amostra dos seus futuros papéis psicóticos e desequilibrados como o pistoleiro Billy Spear. Sua atuação parece uma versão exagerada do matador vivido por Jack Palance no clássico Os brutos também amam (Shane, 1953).

Após o término das filmagens, Monte Hellman passou o ano seguinte montando os filmes (este e Ride in the whirlwind) e o posterior exibindo-os em festivais ao redor do mundo. Embora tenha conseguido boas críticas em Cannes e no festival de Montreal, Hellman não conseguiu encontrar um distribuidor interessado em exibir os dois peculiares Westerns no cinema. O diretor levou seu trabalho a Paris, onde encontrou seu público. The Shooting ficou um ano em cartaz. Em 1968, os direitos foram adquiridos pela Walter Reade Organization, que dispensou o lançamento nos cinemas e vendeu estas magníficas obras para a televisão. Pouco visto durante duas décadas, The Shooting conseguiu formar apenas um pequeno grupo de admiradores. A consagração definitiva veio nos anos 1990, com seu lançamento em VHS e depois em DVD no ano 2000. Atualmente, The Shooting é um cult movie aclamado por público e crítica. O Brasil pôde conferir esta obra prima em VHS e DVD com o título Disparo para matar.

CAVALGADA NO VENTO (Ride in the Whirlwind, 1965), Monte Hellman

por Osvaldo Neto

É impossível assistir A Pequena Loja dos Horrores (Roger Corman, 1960) sem notar um jovem chamado Jack Nicholson roubando a cena em sua rápida participação como o paciente masoquista de um dentista. Junto a The Cry Baby Killer (Jus Adiss, 1958), outra produção do Papa dos Filmes B, aquela seria uma das primeiras colaborações de Nicholson com Corman. Três anos depois, ele seria visto em um dos longas de maior sucesso da American International Pictures, O Corvo (Corman, 1963), onde contracena com que Boris Karloff, Vincent Price e Peter Lorre, monstros sagrados do cinema de horror, em um filme leve e bem humorado, vagamente baseado no poema de Edgar Allan Poe.

Nicholson conheceu Monte Hellman nos bastidores de The Wild Ride (Harvey Berman, 1960), mais outra produção feita com o toque de Corman. E foi por conta dos bastidores de O Corvo que Nicholson e Monte Hellman se reencontraram e ficaram animados para trabalharem juntos novamente. Em poucas linhas, Corman terminou as filmagens de O Corvo em tempo recorde e teve a mirabolante idéia de aproveitar a sobra da película juntamente com cenários dele e de O Castelo Assombrado (Corman, 1963) para rodar outro longa com Boris Karloff usando o astro por 4 dias, Terror no Castelo (1964). O resultado final desta aventura, creditada a Corman como diretor, mas também filmada por Monte Hellman, Francis Ford Coppola, Dennis Jakob, Jack Hill e até mesmo o próprio Jack Nicholson ao longo de nove meses, é um apaixonado exemplo de cinema independente de gênero, apesar do roteiro – obviamente – não fazer muito sentido.

Depois de realizar Guerreiros do Pacífico e Flight to Fury simultaneamente nas Filipinas, Nicholson e Hellman produziram dois belíssimos faroestes de baixo orçamento em 35 dias no deserto de Utah, no Arizona: Cavalgada no Vento e Disparo para Matar. Os longas só teriam o seu devido reconhecimento graças ao lançamento de ambos com boas cópias pela VCI Entertainment, no início da popularidade do DVD. Antes, as duas produções apenas eram assistidas em cópias ‘fullscreen’ na TV americana que acabavam com os enquadramentos originais da fotografia de Gregory Sandor.

Cavalgada no Vento tem início com a gangue liderada por Blind Dick (Harry Dean Stanton) assaltando a uma diligência. Uma cena já assistida em milhares de faroestes e que pode causar a errônea impressão de estarmos diante de mais outro filme convencional feito por um Ford de segundo escalão. A coisa muda de figura quando conhecemos Vern (Cameron Mitchell), Wes (Jack Nicholson) e Otis (Tom Filer), três vaqueiros errantes. Eles estão a caminho da cidade de Waco, no Texas e durante o trajeto, deparam-se com um homem enforcado, momento que gera uma imagem que parece resumir o filme inteiro. Como está perto do anoitecer, eles avistam uma cabana e se dirigem ao local para contar com a boa vontade de seus habitantes, matar a fome com um prato de feijão e arranjar um espaço para dormir. Os homens que decidem acolher os vaqueiros são justamente Dick e seus parceiros de crime. A suspeita dos amigos de que o grupo estaria utilizando o local como esconderijo é concretizada no dia seguinte, com o início de um longo tiroteio entre os criminosos e um grupo de justiceiros fortemente armados. Vern, Wes e Otis são tidos como membros da gangue criminosa e um deles é baleado fatalmente pelos vigilantes, que partem para caçar e condenar os dois sobreviventes à morte por um crime que eles não cometeram.

Ainda que em alguns momentos o seu autor se mostre um tanto “verde” com os diálogos (personagens repetem muito o nome de seus parceiros de cena), é no roteiro de Jack Nicholson que reside grande parte da força de Cavalgada no Vento. Trata-se de um faroeste que poderia muito bem ser produto de diretores como Anthony Mann ou Henry King (no caso deste último, O Matador) nos anos 50, além de ser dono de uma subversão que apenas seria encontrada nas co-produções Itália e Espanha que começavam a fazer sucesso mundialmente, os famosos Spaghetti Westerns. Nenhum personagem do longa sofre julgamentos morais por parte dos realizadores, a divisão Bem e Mal que é sempre tão explícita nas produções do gênero praticamente inexiste aqui. Vale mencionar também que a violência dos filmes europeus sempre foi estilizada, com personagens como Django e o Homem Sem Nome eternizando o que seria “cool” no cinema, enquanto que para Hellman não existe nada de bacana nisso. A maneira como o cineasta filma a violência nos dois faroestes de Utah é arrasadora. Podemos até pensar que a crueza das cenas esteja relacionada com as limitações orçamentárias, mas não se deve negar o sucesso de Hellman na condução delas.

Sobre o elenco, Cameron Mitchell brilha como Vern, a figura paterna do trio de vaqueiros. É um deleite para qualquer fã de atores observar Jack Nicholson se descobrindo como ator e contracenando com Mitchell na maior parte de suas cenas. E obviamente, Harry Dean Stanton já demonstrava o seu habitual profissionalismo em compor personagens marginais. Rupert Crosse interpreta um dos parceiros de Blind Dick e Millie Perkins – que também participa de Disparo para Matar – tem um pequeno papel como a filha de uma humilde família de rancheiros que terá importância fundamental na segunda metade do longa.

Enquanto narra a dolorosa transformação de dois homens inocentes em criminosos, Hellman faz de Cavalgada no Vento o primeiro filme onde podemos reconhecer algumas de suas maiores marcas como autor. Durante uma passagem do filme, Wes (Nicholson) reclama que está andando, andando e andando para não terminar em lugar nenhum. Os solitários personagens dos filmes de Hellman parecem sempre estar fadados a este inevitável destino. Solidão que está presente em todos os núcleos de Cavalgada… (os vaqueiros, os bandidos, os justiceiros e a família), o único que faz parte daquele ambiente é a família e, ainda assim, a sua casa está situada no meio do nada. Esse sentimento de completa desolação dos personagens de Hellman só aumentaria nos filmes seguintes de sua carreira como realizador, com o lírico Disparo para Matar sendo um grande passo na direção de Corrida sem Fim (Two-Lane Blacktop).

Dever de casa para o fim de semana: Assista a uma sessão dupla de Cavalgada no Vento e Disparo para Matar. Garanto como você se impressionará com o quanto dois filmes irmãos podem ser tão diferentes do outro.

PAT GARRET E BILLY THE KID (1973), Sam Peckinpah

por Otávio Pereira

Sam Peckinpah foi um dos melhores diretores americanos de western. Verdadeiro autor, dono de um estilo próprio, procurava retratar o Velho Oeste da forma mais realista possível. Seus filmes possuem características fortes, não só visualmente, mas também pela maneira como conduz seus personagens, colocando-os em conflitos internos gerados pela mudança do ambiente em que vivem.

Pat Garrett e Billy the Kid é um filme triste e de atmosfera quase mística, composto por belas imagens que são complementadas por uma interessante trilha sonora, composta por Bob Dylan. Em minha opinião a trilha dá bastante força ao filme, reforçando os sentimentos expostos. O clássico “Knockin’ On Heaven’s Door” se encaixa como uma luva após uma sequência de matança. Chega a emocionar!

Quem espera que o filme seja um duelo entre Pat Garret e Billy the Kid pode se decepcionar, na verdade o filme é sobre Pat Garret, de como o mesmo está lidando com as mudanças ao seu redor, sua adaptação ao novo mundo, suas escolhas que batem de frente com seu passado. É magnífico ver o trabalho de Peckinpah desenvolvendo o personagem de Garret, de marginal a homem da lei, convocando antigos parceiros de crime para auxiliá-lo e levando-os a morte, com isso enterrando parte de seu passado. E toda a luta de não ter que confrontar seu amigo Billy, criando coragem para isso dando um mergulho a um mundo de álcool, prostitutas e violência.

Pat Garrett e Billy the Kid é repleto de cenas de forte impacto e significado. Como Billy the Kid vendo um de seus parceiros sendo morto por bandidos de forma covarde, forma que talvez o mesmo já tivesse praticado. Mas a cena que mais gostei envolve um antigo bandido que também vira xerife e está construindo um barco para sair daquela região. Pat Garret o chama para auxiliá-lo em uma missão e o mesmo é baleado. Antes de morrer consegue chegar a um córrego para dar seu ultimo suspiro. Esta cena é complementada quando Pat Garret está descansando e vê um homem descendo um rio em uma balsa dando tiros em uma garrafa que é jogada na água, ambos acabam trocando tiros, mas depois trocam apenas olhares.

Além da excelente atuação de James Coburn, Kris Kristofferson não decepciona. O filme é recheado de rostos conhecidos, com destaque para Jason Robards, Jack Elam, Slim Pickens, Harry Dean Stanton, Emilio Fernández, entre outros.

Sem dúvida uma das últimas grandes obras realizadas no gênero western.

A MORTE NÃO MANDA RECADO (The Ballad of Cable Hogue, 1970), Sam Peckinpah

por Ronald Perrone

Muita gente subestima o poder de A Morte Não Manda Recado. Mas é preciso levar em consideração que a grande maioria daqueles que iniciam sua peregrinação ao cinema de Peckinpah costumam assistir primeiro aos viscerais Meu Ódio Será sua Herança, Alfredo Garcia, Sob o Domínio do Medo, etc, e acha que o sujeito vai expressar a brutalidade do ser humano em todos os seus filmes. Quando chega a hora de acompanhar a aventura do personagem Cable Hogue, vivido magnificamente por Jason Robards, depara-se com algo inesperado, um western de sensibilidade espantosa que deixa o espectador completamente sem chão, desacreditado que aquilo havia saído da mesma mente que injetou a violência sanguinolenta no cinema mainstream americano.

A princípio, a trama parece caminhar para o costumeiro do gênero, inclusive o mote principal é a vingança, quando o personagem do título original é abandonado em pleno deserto por dois ex-companheiros e vaga sem água, comida, transporte, armas,  jurando vingança. Mas a jornada de Cable Hogue encerra quando ele encontra uma fonte de água e faz dali o seu lar. É neste ponto também que o filme toma direções completamente opostas às espectativas do público, que aguarda ansiosamente por situações de ação, com aquelas decupagens geniais que só o Peckinpah sabia fazer. No entanto, o filme se transforma num drama cômico com uma dose de romance, até bem bobinho, o qual oferece, ao mesmo tempo, um dos mais belos estudos humanos do cinema americano! Até mesmo o desejo de vingança, que motiva o personagem durante toda a projeção, é solucionada de maneira frustrante para quem ainda esperava o Bloody Sam de Os Implacáveis entrar em ação. Acontece que até mesmo um poeta da violência tem seus dias sentimentais. Calhou de ser na concepção deste aqui. Não é a toa que o próprio diretor considerava A Morte não Manda Recado o seu trabalho favorito.

MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (Wild Bunch, 1969), Sam Peckinpah

por Otávio Pereira

É difícil falar de uma obra-prima unânime sem ser repetitivo, mas Meu Ódio Será sua Herança mudou a história do cinema após seu lançamento em 1969 e mesmo depois de quarenta anos o filme continua forte e único. Esta foi a quarta vez que o assisti, e a cada revisão novos pontos são ressaltados e outros ampliados. A cópia vista foi a comemorativa de 35 anos, totalmente restaurada, trazendo a versão do diretor, com imagem e som de alta qualidade, além de um segundo disco recheado de bônus. O interessante desta versão são as cenas nunca antes vistas, que trazem um lado mais cômico e também um flashback que ajuda a explicar mais sobre o personagem do Robert Ryan e sua motivação. Mesmo achando que algumas dessas cenas cômicas não se encaixam bem, o filme continua um colosso.

Meu Ódio Será sua Herança reinventa o cinema de faroeste americano, possuindo algumas características trabalhadas por John Ford, mescladas com tendências do faroeste italiano. Mas o que prevalece são os ideais e temas discutidos em toda obra de Sam Peckinpah. Temos lealdade, coragem, honra, amizade e principalmente o problema em se adaptar às mudanças de um novo mundo (tema que atingiria sua plenitude em Pat Garret & Billy the Kid). Um dos grandes trunfos do filme é retratar o Velho Oeste da forma mais realista possível, deixando de lado os mitos até então utilizados, os bons costumes e a moralidade. Bloody Sam narra de forma crua e direta o dia a dia de um bando de foras da lei que vê na violência o único modo de vida.

Como toda obra-prima tudo está equilibrado em perfeita harmonia, desde a fotografia, produção, trilha sonora, e especialmente a montagem e atuações. Sam Peckinpah consegue filmar e montar as sequências de ação com maestria, criando um estilo único na decupagem de suas cenas, mesclando uma violência gráfica nunca antes vista com forte carga dramática. Tudo isto é complementado por magníficas atuações de William Holden, Ernest Borgnine, Robert Ryan, Edmond O’Brian, Warren Oates, Ben Johnson, Jamie Sanchez e o também cineasta Emilio Fernandez.

O filme possui muitas cenas fortes que falam por si, mas nesta última revisão uma seqüência que me marcou foi o prelúdio do massacre final. Temos Ernest Borgnine sentado, encostado em um muro cortando um pedaço de madeira com uma faca. Sua face é de desprezo, pois de onde está consegue ouvir os soldados mexicanos se divertindo com o amigo Angel, enquanto Warren Oates e Ben Johnson discutem com uma prostituta. William Holden entra no quarto e diz, “vamos”, depois de um pequeno silêncio temos a resposta “porque não?”. Em seguida o grupo pega suas armas e faz a caminhada final em busca de seu amigo. Depois temos mais uma seqüência excelente com Mapache entregando Angel ao grupo, e os segundos que antecedem a maior cena de ação já filmada, um verdadeiro épico e um final espetacular de uma obra singular no mundo do cinema.

JURAMENTO DE VINGANÇA (Major Dundee, 1965), Sam Peckinpah

por Ronald Perrone

Em meados dos anos 60, o western americano passava por um momento de transgressão. O modelo clássico “pedia arrego” enquanto os exemplares do gênero made in Europe viravam moda e influenciavam as produções do gênero que ainda eram feitas. Monte Hellman, por exemplo, foi um dos primeiros a começar a brincadeira, mas foi Sam Peckinpah quem fincou a cruz e praticamente enterrou o modelo clássico de fazer faroeste com o seu revolucionário Meu Ódio Será sua Herança (1969).

Mas antes disso, Peckinpah dirigiu Juramento de Vingança, que pode muito bem ser considerado um rascunho de Meu Ódio… em caráter de estilo e visual, embora ainda seja narrado nos moldes clássico. É um faroeste épico, sobre o major Amos Dundee (desempenho impecável de Heston), inspirado no famoso general Custer, que resolve declarar uma guerra pessoal e insana pra cima de um chefe indígena que havia sequestrado crianças, após realizar um massacre. Agindo de forma independente, Dundee forma um exército marginal composto por bêbados, negros, soldados prisioneiros, etc, e parte numa longa jornada com o pelotão, o que não deixa de ser uma missão suicida e sem sentido. No entanto, para Dundee vai servir como uma jornada de descobertas, especialmente  ao encarar de frente uma série de conflitos políticos e pessoais, o que inclui as contas do passado em aberto com um velho conhecido, vivido por Richard Harris.

E Peckinpah conduz tudo isso de forma magnífica, trabalhando as riquezas dos detalhes, revelando belos cenários, personagens complexos e contando com excelentes atuações (Warren Oates, James Coburn, Mario Ardof, Ben Johnson, etc).

Infelizmente, já naquela época, o perfil problemático de Bloody Sam começava a dar sinal. Peckinpah teve problemas com o produtor, corte final, diretor de fotografia, vários atores, etc. Dizem as lendas que Heston ameaçou fisicamente o diretor com um sabre, de tão desagradável que o diretor estava nas filmagens. Problemas à parte, o que se vê na tela é uma obra eficiente, Peckinpah trabalhando vários temas, personagens e soluções visuais que seriam definitivos em seu cinema pessoal. Juramento de Vingança pode não ser o trabalho mais marcante, violento e poético da carreira do diretor, mas não deixa de ser fundamental para este período do cinema americano.

PISTOLEIROS DO ENTARDECER (Ride the High Country, 1962), Sam Peckinpah

por Davi de Oliveira Pinheiro

Como uma estrutura tão incomum de trama tornou-se tão grande sucesso de público? Primeira grande vitória de uma filmografia experimental e pouco ligada ao momento do cinema, os filmes de Sam Peckinpah, Pistoleiros do Entardecer foi realizado numa época em que recém o cinema europeu encontrava a linguagem moderna. O cinema do diretor americano parece ser o primeiro a absorver as características de uma gramática renovada, construída sobre o clássico, mas com uma nova maneira de articular a imagem, o som e a montagem de ambos.

Mesmo que use o ritmo do faroeste americano tradicional, é uma trama de reminiscências e sem o luxo da ação. Trata de dois pistoleiros veteranos que se reencontram para um serviço um tanto quanto ortodoxo, ao invés da tradicional (“a última grande jogada”) e parece que o argumento permite ao realizador e seus atores se deliciarem com os resultados da maturação mental e a decadência física que a idade traz. É um filme sobre a memória, onde o caminho que os pistoleiros seguem é apenas o desenho de um espaço físico ao qual vão retornar, enquanto à frente encontra-se apenas a possibilidade de lembrar o passado e julgar o caráter de um novo pistoleiro, que ao contrário deles, dois homens do velho oeste, inclui em sua personalidade a dureza do oeste selvagem e a modernidade do século XX.

O novo pistoleiro é a personagem que traz o equilíbrio ao filme; é a única que possui um arco narrativo tradicional. O arco dos dois teóricos protagonistas é praticamente estático, inativo; é um diálogo de ações passadas. São personagens cuja moral e inteligência é estabelecida pela história pregressa, enquanto o jovem pistoleiro está em formação e seu caráter questionável é moldado pelo convívio com os veteranos e se demonstra um tanto quanto presente ao final do filme.

Peckinpah cria uma trama popular a partir de elementos pouquíssimos comuns e cria a emoção a partir de uma noção de amizade nunca explicitada de forma clara, sempre através da reminiscência. A amizade profunda e moldada em décadas é o ponto chave da trama. É o que estabelece suas adversidades e as recompensas emocionais.

É talvez, ao lado de Ajuste Final, dos Irmãos Coen, um dos grandes filmes sobre caráter e a construção do mesmo como uma conseqüência de ações, não apenas uma idéia etérea que cada um define por si. Existe o certo, errado e o terreno cinzento entre ambos, e fazer o certo é fácil, porém custoso. Muitas pessoas esquecem disso por algum tempo, às vezes por uma vida, mas sempre existe tempo para se redimir.


PARCEIROS DA MORTE (The Deadly Companions, 1961), Sam Peckinpah

Por Eduardo Aguilar, em participação especial

Parceiros da Morte (The Deadly Companions) é considerado a estréia oficial de Peckinpah na tela grande, pois até então ele havia dirigido apenas algumas séries televisivas. O filme foi produzido pelo irmão de Maureen O’Hara com o intuito de recuperar a carreira da irmã.

Dizem que Sam e Maureen não se entenderam muito durante as filmagens. Do meu lado, este filme me interessa justamente por permitir outro olhar sobre a famigerada misoginia peckinpanhiana. É a história de uma dançarina de salão que em meio a um tiroteio entre homens da lei e ladrões de banco, vê seu filho, um garoto, ser baleado por ‘fogo amigo’, morrendo em seguida. Desolada, esta mãe sobrevive à dor, alimentando o desejo de enterrar o filho no mesmo túmulo do marido e, atravessará o inóspito território apache até a cidade destino com a ajuda de Brian Keith, homem da lei, justamente responsável pela bala perdida que atingiu o menino.

O filme é essa travessia de dois seres opostos, um homem no exercício da lei, ao lado das regras e uma mulher que entende o certo e o errado através do direito de enterrar seu filho no local em que almeja, o mundo em que ela vive não é tão preso a julgamentos. No entanto, é bom que se diga, Brian Keith sofre a culpa pela morte do garoto em conflito com a estranheza de conduzir esta mãe, uma “vulgar” dançarina de salão ao seu destino, um dilema entre ter que respeitar o que “não merece respeito”. O filme nada mais é do que a trajetória desses dois personagens errrantes, seus momentos de amargura e a possibilidade do entendimento como forma de redenção em uma jornada na qual se fará necessário a união para superar as dificuldades da travessia.

Não sei dizer se o imaginário que criei sobre o filme corresponde, de fato, ao que ele é, mas percebo, antes de tudo, que por mais que Peckinpah enxergasse a mulher como um ser ardilosamente dissimulado, havia ainda a intenção em compreender seus motivos, por exemplo, ao reconhecer a abdicação/dedicação materna, perceptível mais uma vez no filme Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia. Esta disposição em expor a complexidade feminina, também aparece em filmes como Os Implacáveis e o clássico misógino Sob o Domínio do Medo, não fosse assim, como explicar a lágrima de Susan George em meio a cena do afamado estupro consentido?

Estas são minhas impressões sobre esse belo filme de estréia, talvez, se o revisse, o olhar fosse outro, mas prefiro permanecer com o encantamento da memória, que me diz que muito além de misógino, Peckinpah era um poeta não só da violência, mas capaz de entender as contradições humanas.

À Caminho do Inferno (Straight to Hell, 1987), Alex Cox

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por Leandro Caraça

Alex Cox não foi o criador do faroeste pastiche, mas merece crédito pelo primeiro punk western que se tem notícia. Em seus primeiros anos de carreira, o cineasta britânico era uma espécie de Robert Rodriguez com cérebro, ou seja, não só tem noção do que fala, como sempre teve algo para dizer. À Caminho do Inferno nasceu de uma ideia do produtor Eric Fellner que organizou um show de rock em prol dos revolucionários sandinistas. Com artistas do calibre dos Pogues, de Joe Strummer e de Elvis Costello, Fellner queria organizar uma turnê mundial angariando fundos para os guerrilheiros nicaraguenses, o que acabou não acontecendo. Ao invés disso, os músicos foram convencidos a participar de um faroeste filmado nos desertos de Almería, mais precisamente nos sets de Valdez, o Mestiço, produção estrelada por Charles Bronson e assinada por John Sturges na década de 70.

O roteiro de Alex Cox (escrito com o ator Dick Rude) não passa de uma grande anarquia alegórica, regada a rock n’roll e tiros, funcionando como um preparativo para o mais polido e audacioso Walker, realizado no mesmo ano. O clima de festa geral pode ser detectado só pelas figuras que aparecem no filme : além dos músicos já citados, marcam presença também Dennis Hopper, Grace Jones, Jim Jarmurch, Courtney Love (antes dela dar o golpe em Kurt Cobain) e vários atores habituais de Cox. Fato interessante é que o bandido interpretado por Sy Richardson possuí uma enorme semelhança física e visual com Samuel L. Jackson em Pulp Fiction do Tarantino. À Caminho do Inferno é aquele tipo do filme onde a paródia acaba sobrecarregando todo o resto, e por isso não está entre as melhores obras de Alex Cox. Em seu favor podemos dizer que possuí atitude e energia genuínas, que infelizmente se perderam no tempo, em algum ponto dos anos 80, e que poucos cineastas daquela época, como Alex Cox, ainda hoje são capazes de transmitir.

3 cleef e meio