VIVER E MORRER EM LOS ANGELES (To Live and Die in L.A., 1985), William Friedkin

1985-to-live-and-die-in-L.A.-poster1por Ronald Perrone

“Buddy, you’re in the wrong place at the wrong time.”

Richard Chance (William Petersen) possui algumas habituais características do policial controverso cinematográfico: é daqueles que seguem suas próprias regras, destemidos e não tremem na hora encarar a bandidagem. Aparentemente, é o homem da lei perfeito para os amantes do gênero policial. No entanto, as semelhanças com um “Dirty” Harry Callahan ou Shaft param por aqui. Analisando as atitudes do sujeito ao longo de Viver e Morrer em Los Angeles, percebe-se com alguma sutileza que, no fim das contas, ele não passa de um agente incompetente, impulsivo, arrogante, agindo pelo instinto de vingança, que termina, perdoem meu francês, totalmente fodido!

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Não é a primeira vez que William Friedkin se arrisca dessa maneira. Chance não é o único personagem “Friedkiano” que tem suas limitações e imperfeições colocadas em evidência. Basta lembrar do Popeye Doyle de Gene Hackman e a cagada que faz no desfecho de Operação França. Ou a mudança de comportamento de Al Pacino ao se infiltrar no submundo homossexual em Cruising. Enfim, também não é a toa que estamos falando de um dos diretores mais ousados do cinema americano, um autêntico provocador. Talento o sujeito sempre teve de sobra, mas subverter deve ser uma de suas principais diversões nessa brincadeira de fazer cinema. E parece não dar a mínima para o que o grande público pensa.

Isso fica claro na maneira como arranja soluções questionáveis para os seus filmes: os vários finais abertos, pessimistas e reflexivos; sem contar as preferências por temas polêmicos e personagens ambíguos que nem sempre são bem vistos aos olhos do espectador comum. Deste modo, Viver e Morrer em Los Angeles segue a máxima shakespeariana na qual “concisão é a alma do espírito”, ou, em outras palavras, o filme é um dos grandes definidores do cinema de Friedkin.

“Guess what? Uncle Sam don’t give a shit about your expenses. You want bread, fuck a baker.”

Viver e Morrer em Los Angeles começa com o tal agente, Richard Chance, prestando serviço de segurança ao Presidente dos Estados Unidos em uma conferência em Los Angeles. Durante a ocasião, um homem-bomba islâmico tenta “encontrar” suas setenta e duas virgens lhe esperando no paraíso, levando o presidente americano junto. Não consegue, graças a Chance e seu parceiro. Os dois se sentam no terraço e pensam sobre o que acabou de acontecer. Então dizem algo como, “Vamos beber!” e logo inicia uma elegante montagem, com a música estilosa de Wang Chung , mostrando várias imagens que representam a Los Angeles do filme.

E o que é um clássico dos anos oitenta sem uma trilha sonora oitentista bem datada?!Chung fornece não somente a trilha sonora e a música tema, mas todos os sintetizadores dos efeitos sonoros que compõem o clima do filme. É claro que o fato das músicas serem tão datadas pode proporcionar um obstáculo para o espectador que se incomoda com esse tipo de detalhe. Como sou um amante da música pop brega e datada dos anos 80, acho que não poderiam ter escolhido um som melhor.

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Inspirado em Gerry Petievich, ex-agente secreto que transformou suas experiências em ficção, Chance, a princípio, é mostrado como o policial durão que se espera, pulando de bungee jump, comendo uma loura gostosa. Quando seu parceiro é morto a tiros, prestes a se aposentar, sua truculência de fachada parece ficar mais intensa. Não demora muito para começar a perder a cabeça, infringir leis e fazer o que for preciso para se vingar. No lugar comum dos filmes do gênero, o policial que age dessa maneira é sempre visto como um sujeito cool, o policial casca grossa que queremos ser quando crescer. No caso de Chance, Friedkin lhe foi muito cruel…

A cada passo adiante para resolver o caso, ficamos convencidos de que o protagonista é um idiota cujo distintivo lhe dá direito de se achar acima da lei, de quebrar todos os protocolos, de ser um prepotente chantagista com todo mundo pelas ruas de Los Angeles, apesar das boas intenções… Tenho a impressão de que o próprio Chance nem tenha consciência da espécie de indivíduo que ele se torna. E é exatamente esse tipo de ambiguidade que gera o tour de force que torna o personagem tão singular, tão especial, tão badass! E Petersen imprime tudo isso com uma naturalidade absurda!

Mas o que seria de Chance sem um vilão a sua altura? É aí que entra em cena um jovem Willem Dafoe, encarnando o artista que usa de seu talento para falsificar dinheiro. Além de ser um assassino sangue frio – responsável pela morte do parceiro do protagonista. Não me surpreende a carreira de Dafoe ter decolado após Viver e Morrer em Los Angeles, porque seu desempenho aqui é algo magnífico. Aquele olhar expressivo de psicopata nunca esteve tão assustador.

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No elenco ainda temos John Pakow, que faz o parceiro novo e certinho de Chance, mas que aos poucos começa a se transformar no protagonista; Dean Stockwell, que na época era o nome mais famoso da lista; John Turturro, Robert Downing Sr. e uma pontinha de Steve James.

“- Why are you chasing me?
– I don’t know, why you running?
– Cause you’re chasing me.”

Viver e Morrer em Los Angeles não é exatamente focado na ação. A sua essência segue a estrutura de um thriller policial e, obviamente, não poderiam faltar algumas sequências mais movimentadas e tensas, como tiroteios e perseguições. Mas Friedkin as intensifica com uma boa dose de violência e realismo. As mortes ganham um peso muito grande dessa maneira – como é o caso do assassinato do parceiro de Chance.

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Mas a grande sequência de ação do filme, a cereja do bolo de Viver e Morrer em Los Angeles, como acontece em Operação França, é, sem dúvida alguma, a longa perseguição de carros em alta velocidade no meio do tráfego, das áreas industriais, linhas de trem, e até na contramão de uma freeway! Um verdadeiro espetáculo! Friedkin se especializou nesse tipo de cena, nesse bailado automobilístico exagerado e belo. Chega a ser poético. E aqui a montagem possui uma baita energia acentuada pela carga dramática que a cena carrega. É a maior aula de cinema do professor Bill Friedkin aos aspirantes a cineastas de hoje que não fazem ideia do que seja uma montagem.

Em sua autobiografia, Friedkin diz que “a perseguição é a forma mais pura de cinema, algo impossível de ser feito em qualquer outro meio, seja na literatura, num palco ou numa pintura em tela. Uma perseguição tem que parecer espontânea e fora de controle, mas precisa ser meticulosamente coreografada“. Difícil não concordar.

“I’m getting too old for this shit.”

Ao escrever sobre Viver e Morrer em Los Angeles, entrei numa enrascada. A princípio, achei que seria um prazer tratar de um dos meus filmes favoritos de todos os tempos. Por outro lado, este mesmo motivo me deixa sempre descorfortável. Escrever sobre algo que tanto admiro é um trabalho árduo. Mas acho que saiu algo… E atualmente o número de admiradores de Viver e Morrer em Los Angeles vem aumentando cada vez mais. Mas ainda são poucas as vezes que Friedkin é lembrado por este trabalho. Sempre citam O Exorcista e Operação França. Mas é este aqui que me estimula, que me faz sentir necessidade revê-lo. É a minha droga. Não consigo passar muito tempo sem revisitar o universo criado por Friedkin, a Los Angeles desordenada, violenta e ensolarada, os personagens cínicos e complexos… mesmo tendo consciência dos destinos trágicos e chocantes que o roteiro cuidadosamente prepara. E a edição nacional do DVD, cheio de extras (com direito ao final alternativo ridículo), quebra um bom galho.

5-cleef

Um Vôo para o Inferno, aka O Vôo do Intruso (Flight of the Intruder, 1991), John Milius

Flight of the Intruder

John Milius entrou na década de noventa com uma aventura sobre pilotos da Marinha americana do Vietnam. A moda sobre filmes a respeito do conflito, que começara com Platoon, já havia perdido sua força inicial. Isso não impediu Milius de mais uma vez retratar esse capítulo da história tão caro a ele. O Vôo do Intruso pode ser definido como um filme de guerra estilo antigo. Como é de praxe de Milius, ele não ataca a guerra em si, mas os loucos mecanismos presentes na guerra. Brad Johnson (Além da Eternidade) é o piloto de bombardeiro forçado a arriscar sua vida atacando alvos de nenhuma importância estratégica. Tudo porque negociações de paz estão em andamento em Paris. Por isso a marinha está proibida de atacar bases inimigas reais. Entra em cena Willem Dafoe, um oficial pouco disposto a seguir ordens e que se mostra perfeito para missão perigosas e suicidas. Um bom exemplo de filmes para machos, pois a única mulher da história (Rosana Arquette) cumpre sua função romântica e logo mais sai de cena. O elenco de cuecas incluí também Danny Glover, Tom Sizemore (aqui com uns dez quilos a menos mas com a costumeira cara de louco), Ving Rhames e David Schwimmer num de seus primeiros papéis. Fazendo um arroz-com-feijão bem temperado, John Milius segura a peteca, principalmente nas cenas de batalha aérea que nunca viram um video-game gratuito. A menção triste é que esse foi o último filme que o diretor fez para cinema, pelo menos até o momento.

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Leandro Caraça