DIA DOS MORTOS (Day of the Dead, 1985), George A. Romero

por Davi de Oliveira Pinheiro

Dia dos Mortos está dois passos à esquerda da porta da locadora. A caixa da fita VHS chama sempre a atenção quando entro. Tenho menos de dez anos; alugar filmes é ritual diário entre eu e meu pai. Dia dos Mortos é território aparentemente proibido, já que nunca se discute e sempre que me aproximo sou levado a crer que não devemos assistir. Vi Creepshow, Cavaleiros de Aço, Martin e Instinto Fatal. Por que o medo de assistir a Dia dos Mortos?

O filme se torna mito e na adolescência me desaponta. Considero o pior filme da trilogia. Revisito anos depois, sob a influência de Isidoro B. Guggiana, futuro produtor, e se torna meu Romero favorito, ao lado do melhor vampiro da História do cinema, Martin. No entanto, mantém-se o questionamento: o que fascina na infância, repugna na adolescência e agora desafia a compreensão?

Já advoguei em favor das mensagens políticas nos filmes de Romero, porém considero os filmes de mortos-vivos do mestre do gênero pueris na expressão de eventos sociais. Todos caem numa superficialidade adolescente. Comunicam idéias acerca dos fatos, mas não transcendem uma discussão política entre indivíduos bem intencionados, sem conhecimento de causa.

É a perfeição técnica dos efeitos que me atraí ao filme? Sim. Gosto muito da maquiagem e, com certeza, é um dos grandes motivos que retornam os fãs aos momentos de carnificina. A qualidade, até hoje insuperável, inspira artistas a criarem suas próprias versões das criaturas concebidas por Tom Savini.

A resposta ao meu fascínio se encontra numa singela noção de ritmo e atuações competentes. Romero, diretor que se entrega ao desleixo na dramaturgia e beira o amador em muitos de seus filmes, constrói tensão e desenvolve, com a clareza dos bons contadores de história, relacionamentos vívidos, mesmo que caricaturais.

Minha vida atual, profissional e artística deve muito ao reencontro instigado por Isidoro. Porto dos Mortos surge, em 2004, sob a égide da paixão por este Dia dos Mortos. O desejo de seguir os passos do mestre – e evitar copiá-lo – inicia uma experiência pessoal que, até hoje, sete anos após a fagulha inicial, faz parte do meu dia-a-dia.

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CREEPSHOW (1982), George A. Romero

por Osvaldo Neto

Um pai (Tom Atkins) recrimina o filho por ele viver lendo uma revista de quadrinhos com histórias de terror. Ele a toma das mãos do garoto e a joga no lixo. Enquanto o pai e a mãe dele estão na sala, a criança sorri com a aparição de uma sombria figura esquelética na janela do seu quarto. Assim começa Creepshow, que se inspira nos quadrinhos da EC Comics. O filme é dirigido por George A. Romero e roteirizado pelo escritor Stephen King, que também atua nele.

Com nada menos que 6 histórias (se contarmos o prólogo e o epílogo), este inesquecível programa de 2 horas de duração marcou demais a geração de cinéfilos dos anos 80 e a minha também pelas suas reprises no extinto Cine Trash. O elenco tem atores como os veteranos Hal Holbrook, Fritz Weaver, Leslie Nielsen, E. G. Marshall e Adrienne Barbeau. Ed Harris e Ted Danson podem ser vistos aqui mais jovens do que de costume. O mestre Tom Savini cuida dos excelentes efeitos especiais.

Acredito que este filme deve fazer parte da memória afetiva de muitas pessoas. É impossível ele não ser mencionado em qualquer papo cinéfilo de mesa de bar onde todo mundo inventa de lembrar de alguns filmes de terror que marcaram a nossa infância e adolescência. Não demora minutos para vir aqueles “Pô, tu se lembra daquele onde um matuto toca num meteoro e se ferra bonitinho?” ou “Sabe aquele do monstro que vive numa caixa e que depois sai dela pra comer gente?“. Aí logo depois vem alguém dizendo: “Porra, vocês tão falando de um filme só… do CREEPSHOW!“.

Segue abaixo uma rápida sinopse das histórias com pequenos comentários:

1 – DIA DOS PAIS: Uma família se vê às voltas com as memórias do seu odiado patriarca.

Acho essa a mais fraca, apesar de divertir mesmo assim. Quem aparece aqui é o jovem Ed Harris, já um pouco calvo.

2 – A MORTE SOLITÁRIA DE JORDY VERRILL: Um autêntico caipira (Stephen King, perfeito) tem uma surpresa ao ver que um meteoro caiu na frente da sua casa. Ele inventa de tocar nele e realmente acaba se ferrando bonitinho.

Atraente pela sua comicidade, pela atuação de King e pelo inevitável trágico desfecho, esta história é uma das mais lembradas. A maquiagem de Savini é um de seus pontos altos.

3 – INDO COM A MARÉ: Amantes tornam-se vítimas de sádica vingança do marido traído.

Previsível, mas de imagens marcantes. Duelo de atuações entre Leslie Nielsen (inesperadamente odioso) e Ted Danson não desaponta.

4 – A CAIXA: Um professor universitário está cheio do seu casamento patético. O amigo de trabalho dele encontra uma criatura sanguinária dentro de caixa escondida no campus da universidade.

A história principal do filme e minha favorita. Com cerca de 30 minutos de duração, ela certamente é responsável por grande parte da fama de Creepshow. Atuações irrepreensíveis de Hal Holbrook, Adrienne Barbeau e Fritz Weaver dão credibilidade ao material. Ela é muito lembrada pelos fãs também por causa do design do monstro e diálogos memoráveis.

5 – VINGANÇA BARATA: Homem poderoso que tem medo de baratas sofre com o repentino aparecimento destes insetos no seu apartamento.

Passada em um futuro indefinido, o conto é um show particular do veterano E. G. Marshall. A segunda melhor história do filme se passa basicamente só com esse ator em um único cenário com pequenas participações de outros atores. De todas, essa tem mais a cara do diretor por criticar a questão da desigualdade social e olhar o futuro da humanidade de maneira negativa.

Romero estava inspirado quando colocou as mãos neste projeto. Em todas as histórias, ele faz questão que o seu expectador tenha a sensação de estar lendo o filme ao invés de apenas o assistindo. Vários elementos como aquelas pequenas observações acima dos quadrinhos são inseridos com regularidade. Ao início e final de cada história, a “revista” começa a ser folheada para chegar onde deve ser “lida”. E uma imagem desenhada dos quadrinhos com balões ou não passa a se transformar aos poucos em sua recriação com os atores do filme e vice-versa. Iniciativas sutis como essa fazem extrema falta nas recentes adaptações de quadrinhos para o cinema. Elas primam tanto pelo exagero e estupidez que até parece que o espectador não tem a menor capacidade de saber que aquilo é uma produção do estilo. Haja paciência….

Sendo assim, Creepshow é muito mais do que um simples filme dos anos 80 com pequenas, ingênuas e nostálgicas histórias de terror. É uma experiência cinematográfica inovadora que não tem medo de usar a beleza de sua despretensão para conquistar o espectador, seja ele fã de terror ou de cinema mesmo.

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CAVALEIROS DE AÇO (Knightriders, 1981), George A. Romero

por Davi de Oliveira Pinheiro

É impossível não me identificar com o Billy (Ed Harris), protagonista de Cavaleiros de Aço. Ele é um homem que usa códigos de honra como maior critério de vida, no lugar da conquista social ou financeira. Billy não apenas tem o desejo de ser rei, tem o desejo de estar fora do século XX e do ainda mais desvirtuado século XXI. Billy é um homem fora do tempo.

O que me chama atenção, principalmente, é como um homem fora do tempo é deslocado, incômodo, um problema social. Por mais que tente ressuscitar e relembrar o que há de grandioso em si e nos outros, ele está em processo de defasagem e é necessário o esquecimento do mesmo, para que o mundo não tenha que parar e fazer julgamentos sobre seu processo de mediocrização.

David Cronenberg, em entrevista, no livro “Cronenberg on Cronenberg”, fala da impossibilidade de realizar um filme de época “realista”, pois nossos conceitos de vida são tão diferentes através dos séculos. É impossível realizar um filme genuinamente em outro tempo histórico sem alienar o público. As pessoas desejam o conforto do agora, a possibilidade de pertencer ao grupo, de não se aquietarem na solidão. Billy, talvez, seja o mais próximo que o cinema já viu da personalidade de outra época.

Billy é outro mundo, que não só desapareceu, mas talvez seja apenas um ideal. George A. Romero foi básico e encontrou o homem que precisava que fosse a personagem. Então, jogou Billy em meio a pessoas que querem a idéia de viver no passado, a superfície, sem precisar arcar com a conseqüência, com o mergulho que é necessário para fazer a fantasia histórica ser uma verdade. O homem fora do tempo, de Romero, é o mais profundo exemplo de sua visão quase infantil, pura, do ser humano, do que a humanidade é capaz numa escala mesmo ínfima. É o filme mais positivo sobre a raça humana que Romero fez e o seu mais próximo de uma consciência natural do homem.

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O DESPERTAR DOS MORTOS (Dawn of the Dead, 1978), George A. Romero

por Leopoldo Tauffenbach

Passados dez anos após a realização de A Noite dos Mortos-Vivos o diretor George Romero já acumulava uma experiência cinematográfica bastante significativa, marcada pela extrema competência ao lidar com o gênero do terror. Mas seu novo projeto não poderia se comparar aos anteriores e exigiria outro nível de complexidade técnica e criativa, além retomar o tema dos zumbis que tinha consagrado Romero. O Despertar dos Mortos daria sequência a A Noite dos Mortos-Vivos com uma proposta muito mais ambiciosa. Era simplesmente uma questão de saber se Romero seria bem sucedido nesta nova empreitada ou se iria se afogar no próprio poço que cavou.

Ainda que O Despertar dos Mortos parta da mesma premissa de A Noite dos Mortos-Vivos – onde mortos são reanimados por razões misteriosas e passam a atacar os vivos – as diferenças entre os dois filmes já começam no orçamento. Dos módicos cem mil dólares usados na produção do primeiro filme passamos a um valor cinco vezes maior para a produção do segundo. Romero também conta com a ajuda do cineasta italiano Dario Argento na produção, que fica responsável por ajudar na captação orçamentária e pela montagem e posterior distribuição para o mercado internacional.

Romero e sua esposa Christine Forrest aparecem como funcionários de uma emissora de TV em pânico.

A história começa em uma estação de TV em pânico, realizando uma transmissão de emergência sobre a invasão dos mortos-vivos que assola o planeta. O casal Stephen e Fran, funcionários da emissora, planejam fugir usando um helicóptero. Ao mesmo tempo dois soldados da SWAT entram em confronto com inúmeros zumbis em um conjunto habitacional. O destino – e o roteiro – acabam então por juntar os quatro que partem de helicóptero em busca de algum refúgio seguro. Como no primeiro filme, os personagens só dispõem de vagas informações a respeito de possíveis lugares onde possam manter-se a salvo dos cadáveres ambulantes. Entre o incerto e o duvidoso, mais uma vez o destino – e o roteiro – coloca os personagens em um shopping infestado de zumbis. Diante da possibilidade de se isolarem em uma fortaleza consumista abastecida com todos os confortos que o capitalismo pode oferecer, eles lentamente vão conquistando o local. Entre pelejas e conquistas estratégicas, os quatro sobreviventes vão construindo um pequeno paraíso em meio ao inferno na Terra.

Zumbis vão às compras: não seriam os mortos-vivos a base da sociedade capitalista?

Como em todos os filmes do diretor, os monstros são personagens secundários. Romero prioriza as relações em condições extremas, sempre dando margem para que os personagens possam aflorar o que há de mais nobre e monstruoso na natureza humana. Seja nesta vida ou na anterior (ou posterior, dependendo do ponto de vista). Não é à toa que o shopping surge infestado de cadáveres. Justifica-se que todos tenham ido para lá por carregarem lembranças de suas vidas pré-zumbi. Sarcasticamente Romero sugere uma reflexão sobre a vida esvaziada de sentido diante de uma filosofia consumista. Mesmo vivos, aquelas pessoas que invadem os shopping centers do mundo já não estariam meio mortas? Operam automaticamente, diante de comandos primitivos de “compre aqui”, “mais barato” e “não perca nossas promoções” sem questionar nada. Provavelmente Karl Marx choraria de emoção e pavor se estivesse vivo para assistir a este filme, além de redigir um ensaio infinitamente melhor do que este vos escreve.

Fran (Gaylen Ross) fica indecisa entre tantas opções de consumo. Na utopia criada pelos personagens a sobrevivência deve vir acompanhada de todos os confortos da vida moderna.

E não vamos nos esquecer dos vivos. Estes, por sua vez, tomam cada parte do shopping como crianças em uma loja de doces. Deixam-se maravilhar por tudo aquilo que podem tomar sem pagar. Se em um primeiro momento a sobrevivência é prioritária, assim que a situação parece controlada eles podem dar-se ao luxo de montar seu pequeno refúgio com tudo o que há de bom e de melhor em termos de mobiliário, design e culinária. Abastecidos pela sensação de segurança e fartura material, os personagens sentem-se confortáveis para planejarem e agirem com mais confiança e precisão. Mas logo fica claro que a ilusão de segurança nos moldes pequeno-burgueses não resolve a situação em longo prazo. Fran revela-se grávida e o mesmo o shopping mostra-se insuficiente para comportar essa situação. E é nesse momento que o shopping é invadido por uma gangue de saqueadores, fazendo ruir o castelo das ilusões e obrigando os personagens a se depararem com a cruel realidade que nunca deixou de existir. Mais uma vez é impossível não divagar a respeito das dinâmicas nas grandes metrópoles, desta vez pensando no papel fundamental do muro que poupa a visão das classes mais abastadas da dita “feiúra” daquelas criaturas menos favorecidas. Intencionalmente ou não, Romero obriga o espectador minimamente mais esclarecido a se deparar como fato de que todos nós já lidamos com mortos-vivos em nossas vidas. Trata-se apenas de saber quem afinal de contas são os zumbis: os outros ou nós mesmos.

Os vivos e os mortos: perigosos saqueadores invadem o shopping e lembram aos personagens que a realidade ainda pode ser dura.

Vale lembrar que O Despertar dos Mortos foi refilmado em 2004 pelo “visionário” Zack Snyder, em sua estréia como diretor. Longe de se comparar ao original, sem sutilezas e com foco evidentemente maior nas cenas de ação e gore, Snyder conseguiu realizar a façanha de gerar um filme divertido e que mesmo distante da maestria do original não chega a ofendê-lo. Mas que fique claro que mesmo assim a obra de Snyder está abaixo da refilmagem de A Noite dos Mortos-Vivos realizada em 1990 pelo competente Tom Savini.

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MARTIN (1977), George A. Romero

Por Leopoldo Tauffenbach

Quatro anos após seu último longa de horror, George Romero retorna com Martin, um dos melhores filmes de vampiros a serem produzidos no planeta desde os clássicos da finada Hammer. A história gira em torno de Martin, um jovem vampiro de 84 anos com aparência adolescente que resolve se mudar para a casa de parentes distantes a fim de começar uma vida nova e aparentemente normal entre reles mortais. Mas mesmo entre parentes, Martin não é bem visto, principalmente porque sua necessidade por sangue ainda deve ser saciada. Mesmo sem compartilhar da mesma maldição que acomete a família de Martin, seu primo é, contra sua própria vontade, obrigado a lhe dar suporte. Uma única condição é imposta: não importam quais sejam as circunstâncias, Martin não deve, jamais, atacar alguém da comunidade.

Martin com a primeira vítima do filme: necessidade e culpa atormentam o pobre vampiro adolescente.

A primeira cena do filme imediatamente me remeteu a Dexter, seriado de sucesso (e não sem motivo) da Showtime, mais pelo modo como apanham suas vítimas que pelas semelhanças psicológicas entre os dois personagens. Martin embarca em um trem e avista sua vítima. De maneira desajeitada, esconde-se em sua cabine e aplica uma injeção com sedativo. Depois de controlar a vítima até que ela ficasse inconsciente, Martin a despe e a si e corta-lhe os pulsos. Saciada sua sede, tenta eliminar todos os vestígios que possa ter deixado, inclusive tentando plantar pistas de que sua presa possa ter cometido suicídio. Como Dexter, Martin parece ter aprendido uma valiosa lição ao longo de sua existência: nunca se deixar ser apanhado.

Conforme o filme evolui, vemos Martin em sua penosa tentativa de se adaptar a uma vida “normal” perante os humanos. Ele vai trabalhar no pequeno mercado do primo. Entre o balcão e algumas entregas, conhece a solitária senhora Santini, uma mulher infeliz no casamento que acaba se interessando pelo estranho e tímido protagonista. Enquanto isso, Romero mostra, por meio de flashbacks, um pouco do passado de Martin. Vê-se um jovem aparentemente normal, apaixonado por uma garota, perseguido por padres e familiares desesperados. Também se vê que, mesmo tendo isso acontecido em um passado distante, a história mais uma vez se repete. O primo de Martin não se conforma com a existência dele e passa o filme todo tentando transformar a vida de Martin em um inferno na esperança de convertê-lo ou derrotá-lo. Sem o apoio do primo, Martin é obrigado a refugiar-se na atração que sente pela senhora Santini e na generosidade dada pela filha de Cuda (interpretada pela esposa de Romero, Christine Forrest).

Cuda, primo de Martin se protege da criatura que ele mais odeia no mundo, mas jurou ajudar por questões familiares.

Tecnicamente, o filme parece ser muito superior ao que seu orçamento permitiria. Isso graças ao excelente roteiro que despreza a necessidade de efeitos especiais mirabolantes, as boas interpretações e a mão segura de Romero na direção. John Amplas, como Martin, e Lincoln Maazel, como o primo Cuda, formam a dupla de ouro do filme, elevando o nível de tensão do espectador cada vez que ambos se encontram na tela (Curiosamente, o ator Lincoln Maazel morreu em 2009 aos 106 anos de idade. Seria ele o verdadeiro vampiro?). Mas não estamos dizendo que as interpretações aqui sejam dignas de menção nos anais do Actors Studio ou algo parecido. É verdade que há momentos que parecem bem amadoras. Mas isso só contribui ao dar um caráter “normal” aos personagens. Não há ninguém que passe a idéia de herói ou referencial moral. Mesmo o padre, interpretado pelo próprio Romero, aparece bebendo e enfrenta uma saia justa com o primo Cuda justamente por tentar omitir uma opinião mais… humana!

Martin se entrega à senhora Santini, uma das poucas pessoas capazes de fazê-lo se sentir "normal".

Em sua essência, Martin trata de conflitos entre gerações, crescimento, adaptação e o grande dilema da adolescência: devo ser eu mesmo – ainda que todos digam que isso não é o melhor – ou devo ser aquilo que os outros esperam que eu seja? O maior conflito de Martin nem é passar-se por uma pessoa normal aos olhos alheios, mas aceitar-se como alguém diferente. E Romero, pouco a pouco, o coloca em situações que fazem com que a sua evolução seja lenta, mas visível para o espectador. Em tempos de politicamente correto, o filme é um tapa na cara dos mais hipócritas.

O passado de Martin, contado como flashbacks em preto e branco: a história se repete enquanto o vampiro busca sua redenção. Quem seriam os verdadeiros monstros nessa história?

Mas o final ainda guarda algumas surpresas, e a redenção de Martin não será uma tarefa simples. Romero constrói sem querer um novo discurso sobre a intolerância e o preconceito, já trabalhados em seus filmes anteriores. Martin é um vampiro como jamais fora apresentado no cinema: uma criatura com menos sede sangue que de humanidade. Por tudo isso, ouso especular que talvez, por trás de todos os monstros – zumbis, psicopatas, bruxas e vampiros –, Romero goste mesmo é de falar do maior e mais temível monstro de todos: aquele que guardamos dentro de nós mesmos.

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O EXÉRCITO DO EXTERMÍNIO (The Crazies), George A. Romero

por Luiz Alexandre

Em uma pequena cidade do interior dos EUA um casal de crianças testemunham seu pai destruindo sua casa e encontram o corpo de sua mãe com a garganta cortada. O exército aparece com tudo nessa mesma cidade para conter uma doença que começa a afetar cidadãos da cidade devido a testes mau sucedidos de uma arma biológica que poluíram as águas da região. Pessoas entram em um insano estado de fúria e histeria e o exército é chamado para contê-las. Ninguém sabe se o mundo está por um triz, mas todos sabem que nada será como antes naquela região.

O Exército do Extermínio é possivelmente um ensaio sobre a paranóia americana pós-vietnã, sobre a Guerra Fria. É também uma obra que reflete o comportamento do homem quando este se encontra envolto ao caos completo. A maneira como o exército e os políticos, completamente despreparados para o problema que precisam resolver, problema esse causado única e exclusivamente pela eterna necessidade de serem os donos do mundo, mostram que quando a coisa realmente aperta eles não salvam ninguém. O cidadão comum, segundo Romero, não passa de um boi de piranha para o progresso. Mesmo os seus soldados não terão sua volta para a casa garantida. Jesus não tem dentes no país dos banguelas, já dizia o disco dos Titãs.

O mais interessante é que enquanto existe uma pessoa realmente tentando reverter o processo a favor dos moradores da cidade, existe toda uma estrutura que vai contra sua luta vã pela salvação. A ciência não progride porque precisa se sobrepor a toda uma irracionalidade que é maior do que ela. O homem comum, mesmo que dedicado, mesmo que lutando com todas as armas que possui, nada pode contra o sistema. Sua única vingança é saber que as contradições do mesmo são demais até pra ela mesma. Resta apenas aos donos de tudo decidirem que cabeça cortar de sua própria quimera. O problema é que a cabeça que cortam é a mesma acima de nossos pescoços. Como canta a canção ao fim da obra, que os céus nos ajudem. Lindo.

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A ESTAÇÃO DA BRUXA (Hungry Wives, 1972), George A. Romero

por Leandro Caraça

Joan Mitchell é uma dona-de-casa suburbana desiludida com sua atual situação, incapaz de criar um elo de comunicação com a filha, e frequentemente maltratada e abusada pelo marido. Sem falar dos pesadelos cada vez mais constantes com um homem misterioso invadindo sua casa que a estão deixando ainda pior. Os seus únicos momentos de relaxamento são as reuniões com as vizinhas de vida igualmente nada interessante. Pois é numa dessas sessões de fofocas acaba sabendo de uma moradora das redondezas que é praticamente de wicca (bruxaria). George Romero foge de qualquer clichê possível neste filme, apresentando um filme de bruxa quase que sem a presença de nenhuma bruxa. Igual ao que faria com O Exército do Extermínio (um filme de zumbi sem o sinal de um zumbi sequer) e Martin (um filme de vampiro sem nenhum vampiro verdadeiro). A nova forma de encarar o mundo que Joan vai aos poucos absorvendo, lhe trará a força necessária para recuperar a confiança que havia perdido em si mesma, incluindo nisso um caso com o amigo de sua filha (Raymond Laine de There’s Always Vanilla).

Longe de ser um filme de horror, Hungry Wives mostra o cuidado de Romero em trabalhar com diálogos e situações cotidianas perfeitamente verossímeis. A sua narrativa adulta até sugere um paralelo com autores do porte de Robert Altman e John Cassavetes. Por outro lado, o diretor não abre mão de criar alguns momentos aterrorizantes que são apresentados nos sonhos cada vez mais sinistros da protagonista. É uma pena que o próprio Romero considere esta daqui uma das obra menos querida de sua filmografia, só perdendo para There’s Always Vanilla. Com toda a humildade que lhe é sempre atribuída, ele acredita que o filme é deficiente tecnicamente. Confessa que teve alguns problemas de produção (uma constante em sua carreira) e acredita que seus primeiros filmes se valiam de uma montagem bem empregada para compensar qualquer eventual falha na sua narrativa. A verdade é que Hungry Wives pode até sofrer de um final meio abrupto mas nunca deixa de ser fascinante. Ainda mais levando em conta que a versão original tinha 130 minutos, e que depois ganhou dois novos cortes, um de 104 minutos e outro de 89 minutos que foi lançado comercialmente nos EUA. No Reino Unido o filme recebeu o sugestivo título de Jack’s Wife. Na década de 80, ao chegar nas videolocadoras foi rebatizado como Season of the Witch – para tentar capitalizar em cima da canção de Donovan que toca no filme). No Brasil chegou a sair em raríssimas cópias piratas legendadas com o nome de A Estação da Bruxa.

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THERE’S ALWAYS VANILLA (1971), George A. Romero

por Leandro Caraça

O dia seguinte ao sucesso de A Noite dos Mortos Vivos não foi exatamente o que George Romero imaginava. Passados três anos desde que os seus zumbis comedores de carne humana começaram a reclamar o mundo, ele ainda estava trabalhando na televisão, onde tinha a oportunidade de dirigir comerciais de molho de tomate e de picles em conserva. Uma carreira muito promissora para quem havia abalado as estruturas do cinema de horror. Romero só voltaria a assinar um novo longa em 1971, quando ele e sua companhia arrumaram um tempo entre uma peça publicitária e outra. O drama romântico There’s Always Vanilla (também conhecido como The Affair) seria dirigido por Rudolph J. Ricci, o responsável pelo roteiro. Quando este acabou perdendo o interesse no trabalho, sobrou para Romero assumir a bucha. Ele sempre declarou detestar o resultado final, que não à toa, se tornou o elemento mais obscuro de toda sua filmografia. Assistindo a There’s Always Vanilla, é fácil perceber que o coração de Romero não estava no lugar certo. Mas é errado achar que se trata de uma obra sem qualidades : Chris Bradley (Raymond Laine) é o jovem recém-chegado do Vietnam, que se recusa a fazer parte dos negócios da família, no ramo de alimentos para bebês. Mais velha, Lynn (Judith Steiner, a Judy de A Noite dos Mortos Vivos e que nunca mais atuaria de novo) é uma modelo que trabalha em comerciais para TV. Assim que se conhecem, o casal se apaixona. A maneira que o filme progride, ficam claras as diferenças entre os dois. Se Lynn encontra-se frustrada com a carreira nos comerciais (uma referência direta ao próprio Romero), por sua vez Chris mostra não ter grandes projetos na vida – entre os bicos, chegou até mesmo a ser cafetão. Quando Lynn fica grávida, ela percebe que o namorado não tem nenhuma condição de ser pai. É próximo do final que Romero se solta um pouco, ao narrar a visita de Lynn a uma clínica clandestina de aborto. Nessas cenas, There’s Always Vanilla chega a ganhar contornos de filme de horror. Com personagens mais próximos da realidade e interpretados por atores competentes, além de uma montagem ágil do próprio diretor, é um legítimo representante da ressaca da contracultura. Considerado perdido durante muito tempo, acabou sendo lançado – para desespero de Romero – junto de Season of the Witch no DVD importado da Anchor Bay.

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A NOITE DOS MORTOS VIVOS (Night of the Living Dead, 1968), George A. Romero

por Cesar Almeida

Se a história do cinema de Horror for dividida em duas eras, Horror Clássico e Horror Moderno, não há dúvidas quanto ao marco desta divisão. Em 1968, ano emblemático tanto culturalmente quanto socialmente, um jovem diretor de comerciais chamado George A. Romero capitaneou a produção independente de um pequeno filme que modificou o gênero Horror para sempre, além de promover uma revolução no modo de se fazer Cinema. Esta importante obra se chama A noite dos mortos vivos (Night of the living dead) e mostra uma assustadora visão do comportamento humano frente a uma catástrofe de proporções inimagináveis: a volta dos mortos ao mundo.

George A. Romero começou a dirigir comerciais para TV durante a faculdade e em pouco tempo fundava a produtora Image Ten ao lado dos amigos Russel Streiner e John A. Russo. Cansados da rotina dos comerciais, o trio teve a idéia de realizar um longa metragem de horror para tentar lucrar com o que eles chamaram de “sede pelo bizarro” da indústria cinematográfica. O grupo planejou uma história satírica de terror, que aos poucos foi tomando contornos mais sérios e apocalípticos. Com o roteiro finalizado, eles buscaram ajuda dos produtores Karl Hardman e Marilyn Eastman, com os quais começaram a levantar fundos para o projeto. O orçamento foi adquirido através da doação de dezenas de pequenos investidores, que ofereceram trezentos Dólares cada. Filmado ao redor de Pittsburg entre Junho e Dezembro de 1967, A noite dos mortos vivos contou com um elenco quase todo amador enquanto vários membros da equipe dividiam-se em diversas funções.

O roteiro pode parecer simples, porém há muito mais para se ver além do que aparece na tela. Um casal de irmãos, Johnny (Russel Streiner) e Barbra (Judith O’Dea), está visitando o cemitério onde seu pai está enterrado. Na hora de partir eles são atacados por um cadáver reanimado. Johnny é ferido gravemente na luta com a criatura e Barbra foge. Ela encontra abrigo em uma casa abandonada. Em seguida, Ben (Duane Jones) chega à mesma casa à procura de proteção. Após bloquear portas e janelas, eles encontram mais cinco pessoas escondidas no porão. Entre eles o paranóico e covarde Cooper (Karl Hardman), sua esposa Helen (Marilyn Eastman) e sua filha (Kyra Schon), que fora mordida pelos monstros. Com a casa cercada pelos mortos vivos canibais, eles testemunham o avanço da epidemia pelo país através da televisão. Ben e Cooper entram em atrito pela liderança do grupo e as tensões crescem ao ponto de colocar as vidas de todos em grave risco.

O tema “mortos vivos” não era novidade no fim dos anos 1960. Ele já freqüentava as telas do cinema desde os anos 1930, vide White Zombie (1933), com Bela Lugosi. O livro Eu sou a lenda (I am legend), escrito por Richard Matheson em 1957, modernizou bastante o assunto e influenciou muitos cineastas como Romero. A violência explícita com farta exibição de sangue e vísceras também era habitual na obra de cineastas como Herschell Gordon Lewis. Qual foi então a novidade apresentada por Romero? O ousado diretor injetou em seu trabalho uma farta dose de crítica social, algo sem precedentes neste gênero e até hoje pouco comum no cinema americano. A habilidade com que tratou de temas polêmicos como o racismo e o individualismo da sociedade garantiram à Romero a perenidade de sua obra. Em A noite dos mortos vivos a ameaça não tem origem, identidade, afeta a tudo e a todos. A sociedade é virada de cabeça para baixo e, atônita, torna-se uma ameaça a si mesma.

O elenco contém apenas dois atores profissionais: Duane Jones e Judith O’Dea. Um filme protagonizado por um negro e uma mulher era algo extremamente incomum no cinema americano da época. Suas atuações são naturais e cheias de força dramática. Alguns dos outros atores demonstram seu amadorismo, mas não chegam a comprometer o resultado final. Karl Hardman e Marilyn Eastman, casados na vida real, também tem ótimo desempenho em papéis marcantes.

Pedra fundamental do Horror Moderno, A noite dos mortos vivos teve um orçamento de $114 mil Dólares e rendeu internacionalmente uma bilheteria de cerca de $40 milhões. Por muito tempo ele foi o filme independente mais lucrativo já feito. Um erro grave cometido pela empresa encarregada da distribuição levou A noite dos mortos vivos a cair em domínio público. Portanto, a maior parte dos lucros obtidos não foi parar nas mãos de seus verdadeiros autores. Hoje, o mitológico trabalho de George A. Romero é campeão em versões para DVD além de ser o filme mais popular (com cerca de 450 mil downloads até Abril de 2008) no Archive.org, um site do governo americano que oferece downloads gratuitos de materiais em domínio público. Ao longo das décadas seguintes, Romero dirigiu quatro continuações de sua obra prima: Despertar dos mortos (Dawn of the dead – 1978), Dia dos mortos (Day of the dead – 1985), Terra dos mortos (Land of the dead – 2005) e Diário dos mortos (Diary of the dead – 2007), formando a série de Horror mais influente de todos os tempos. Os cinco capítulos desta lendária saga estão disponíveis em DVD e VHS no Brasil.

OBS: Texto originalmente escrito para o livro Cemitério Perdido dos filmes B, escrito pelo Cesar pela editora Multifoco, antes da realização de um sexto filme da saga dos zumbis de Romero, Survival of the Dead (2009).


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NOVEMBRO/2010: GEORGE A. ROMERO

FILMOGRAFIA

A NOITE DOS MORTOS VIVOS, aka Night of the Living Dead (1968)
THERE’S ALWAYS VANILLA (1971)
A ESTAÇÃO DA BRUXA, aka Hungry Wives (1972)
O EXÉRCITO DO EXTERMÍNIO, aka The Crazies (1973)
MARTIN (1977)
O DESPERTAR DOS MORTOS, aka Dawn of the Dead (1978)
CAVALEIROS DE AÇO, aka Knightriders (1981)
CREEPSHOW (1982)
DIA DOS MORTOS, aka Day of the Dead (1985)
COMANDO ASSASSINO, aka Monkey Shines (1988)
DOIS OLHOS SATÂNICOS (1990), episódio O Caso do Sr. Valdemar
A METADE NEGRA, aka The Dark Half (1993)
A MÁSCARA DO TERROR, aka Bruiser (2000)
TERRA DOS MORTOS, aka Land of the Dead (2005)
DIÁRIO DOS MORTOS, aka Diary of the Dead (2007)
A ILHA DOS MORTOS, aka Survival of the Dead (2009)

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