07/11/2009

Just Heroes (1989), John Woo

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por Ronald Perrone

Ainda que possua algumas esporádicas sequências eletrizantes de ação, Just Heroes é um gangster movie tratado de maneira muito mais séria que o habitual de John Woo naquele período. Não sei dizer se é este o motivo pelo qual o filme foi abandonado pela crítica, provavelmente não, mas pouco se fala sobre este trabalho do diretor (e a maior parte, textos negativos), infelizmente, porque temos aqui uma ótima oportunidade de observar Woo trabalhando seu lado dramático sem enfatizar tanto a ação.

A trama possui alguns pontos similares a de Eleição, de Johnnie To, com John Woo voltando a sua atenção para o drama de uma “família” de mafiosos da tríade quando o chefe da organização é assassinado em um atentado e se iniciam as discussões sobre quem deve assumir o cargo. Daí surgem os temas frequentes que Woo adora trabalhar, como amizade e confiança. No elenco, alguns velhos conhecidos da Shaw Bros. marcam presença: Chen Kuan-Tai, Danny Lee e Chiang Da-Wei são os protagonistas de um triangulo mafioso muito bem trabalhado pelo roteiro escrito à quatro mãos por Hau Chi-Keung e Ni Kuang. Outros nomes presentes são o de Stephen Chow, ainda em início de carreira e Ti Lung em uma pequena participação.

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Obviamente, vingar-se dos responsáveis pela emboscada que acabou matando o patriarca torna-se um objetivo em determinado momento, principalmente se envolve traição, e é quando Woo retorna ao seu espírito normal e deixa seu lado “mestre de ação” falar mais alto. A sequência final é de tirar o fôlego e não faz feio perante aos melhores tiroteios que Woo filmou em outros filmes mais aclamados. É nesta cena que o diretor faz uma auto referência com bastante humor ao colocar um personagem no meio da ação imitando o Mark de Chow Yun-Fat em A Better Tomorrow, escondendo pistolas dentro de vasos de plantas no meio do tiroteio.

Com produção de Tsui Hark, Just Heroes acaba apagado devido às obras primas que John Woo realizou ao longo da carreira, mas já demonstra um diretor totalmente maduro e que sabe muito bem o que faz.

3 cleef e meio

05/11/2009

Alvo Duplo 2 (A Better Tomorrow 2, 1987), John Woo

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por Bruno C. Martino

Contrariando uma regra implícita de vários filmes de sucesso chineses, Alvo Duplo 2 continua a contar a saga dos três personagens ao invés de só pegar o título e contar uma outra história. Ainda bem! Aqui, Ho (Ti Lung) está cumprindo pena na cadeia e é recrutado pela polícia para investigar um antigo patrão, Leung (Dean Shek) ao mesmo tempo em que seu irmão Kit (Leslie Cheung) se aproxima da filha de Leung para investigar o homem. Só que a única conclusão a que chegam é que Leung largou a vida de pilantragem e decidiu ser um homem e empresário honesto. O problema é que seus sócios não pensam assim, e após um atentado contra sua vida, Leung é acusado de assassinado e resolve fugir para Nova Iorque. Quando seu sócio Ko (Shan Kwan)- o verdadeiro pilantra do esquema – descobre seu paradeiro, manda matar a filha de Leung e envia mercenários para Nova Iorque pra dar cabo do sujeito. Leung acaba se safando de novo só que desiludido com a vida e ao ver seu amigo padre ser assassinado, entra em choque se transformando numa espécie de autista, que passa a ser cuidado por Ken (Chow Yun Fat). Depois de mais um atentado onde escapa, Leung milagrosamente sai do estado vegetativo que estava e pega em armas ao lado de Ken e Ho contra Ko.

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Escrito por John Woo e Tsui Hark, o segundo capítulo da série soa um pouco desleixado em relação ao anterior (repararam nesse meu resumo como o filme é basicamente um bando de capangas tentando pegar Leung em diferentes momentos?). O roteiro não sabe onde focar, se é no personagem de Shek ou no trio de amigos. Curioso é que o carisma de Chow Yun Fat na série foi tão grande que Hark e Woo conseguiram até arrumar um lugar pro ator na seqüência do filme (já que no primeiro seu personagem original havia morrido). Só que arrumaram uma desculpa das mais esdrúxulas, tipo de novela mexicana: Ken é o irmão gêmeo de Mark (o personagem interpretado por Chow Yun Fat no original)! Não que isso faça muita diferença, já que o que importa é ter Yun Fat distribuindo tiros durante o filme. Curiosamente Ken ainda serve como alívio cômico, diferente do amargurado e trágico Mark. Mas assim como o outro é cool até a medula, como quando usa o sobretudo furado de balas do irmão falecido.

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Alvo Duplo II sofreu diversas remontagens e foi alvo de diferenças criativas entre seus roteiristas, talvez daí se expliquem algumas seqüências desnecessárias ou que se estendem demais, o maior foco no personagem de Dean Shek e o trio principal praticamente apagado. Mas mesmo apagado, os outros atores ainda têm tempo de mostrar serviço como Ti Lung, sempre carismático, e Leslie Cheung aqui dividido entre o amor da esposa que teve um filho e o ofício de policial. A cena em que Kit batiza a filha por telefone, já vale para o personagem deixar sua marca na série. E Ken Tsang reprisa seu papel (o de dono da oficina mecânica) com a competência de sempre (deixem eu ser um pouco tiete: eu adoro esse ator!!)

Mas é no quesito ação que todos os problemas de roteiro, montagem e diferenças criativas são esquecidos. A seqüência de ação no hotel, onde Ken deve proteger Lung de mais uma leva de assassinos é emocionante, e a seqüência final na mansão de Ko é uma das mais antológicas que já vi, com direito a três personagens contra um exército de capangas, onde Chow Yun Fat joga granadas a torto e a direito e Ti Lung acaba com malfeitores a golpes de espada! Sem contar que o rol de vilões ainda conta com um fortão empunhando um machado medieval (!!!) e um pistoleiro que sempre anda de óculos escuros. Este rivaliza com o matador caolho de Fervura Máxima como um dos vilões mais legais de um filme de John Woo. As seqüências de ação são tão boas, que o coreógrafo Ching Siu Tung (de Chinese Ghost Story) foi indicado ao Hong Kong Film Awards.

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Dizem que Woo nunca gostou de fazer seqüências de seus filmes e só fez esse porque Dean Shek estava numa situação financeira não muito boa, e como ele foi co-fundador da Cinema City que produziu este e o primeiro Alvo Duplo (e acolheu Woo após sua saída da Golden Harvest), talvez o diretor achou que devesse prestar essa ajuda ao seu produtor e conhecido desde os tempos da Shaw Bros.

A série ainda tem uma parte 3, dessa vez capitaneada por Tsui Hark sendo esta um prelúdio do primeiro filme. E em 1994, o diretor Wong Jing daria um revival na série com Return to a Better Tomorrow (lançado aqui como A Fúria do Crime), uma lástima que além de não ter nenhum personagem dos originais ainda é estrelado por Ekin Cheng, um ator por quem nunca simpatizei. Estou dando 4 “Van Cleefs”, mais pelas cenas de ação do que pelo resto! Valem a pena!

4 cleef

04/11/2009

Alvo Duplo (A Better Tomorrow, 1986), John Woo

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por Ronald Perrone

Alvo Duplo é um dos filmes mais importantes da carreira de John Woo e demonstra que No Coração do Perigo não foi um acidente de percurso em termos de liberdade criativa. Em 1986, Woo se juntou com o produtor Tsui Hark e  os dois realizaram este clássico instantâneo. O filme ganhou a maior atenção internacional do que qualquer outro trabalho do diretor até aquele período, reinventou do cinema de ação de Hong Kong redefinindo o subgênero Heroic Bloodshed e serviu de trampolim para que o ator Chow Yun Fat se tornasse um astro.

O roteiro é inspirado no filme The Story of a Discharged Prisoner, de 1967, dirigido por Patrick Lung Kong, e conta uma estória repleta de cargas emotivas sobre dois integrantes do sindicato do crime de Hong Kong: Ho, vivido por Ti Lung, um dos grandes nomes do cinema de kung fu, e Mark (Chow Yun Fat) que trabalham juntos na divisão de falsificação de dinheiro da organização. Ainda há outro personagem importante na trama, Kit (Leslie Cheung), irmão caçula de Ho, que nem imagina o primogênito de seu pai trabalhando no crime organizado e acabou de se graduar na polícia.

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Após uma tragédia que afeta profundamente a vida desses três personagens, John Woo mapeia a narrativa com fortes doses de conflitos psicológicos, estruturados como um melodrama, um detalhe explorado que acabou se tornando característico do diretor em seus filmes seguintes, como Just Heroes e Bala na Cabeça, procurando trabalhar o sentimentalismo ao extremo, utilizando-se sempre dos mesmos mecanismos: amizade, confiança, perdão, redenção, fraternidade, que é onde Woo encontra base para extrair a força da sua dramaturgia.

A construção de personagens profundos e o elenco contribuem bastante no resultado, especialmente Chow Yun Fat e Ti Lung, que estão notáveis em seus papéis. Fat, inclusive, foi um dos mais beneficiados pela sua participação em Alvo Duplo. Saiu apontado como autêntico homem de ação dos filmes de HK, seus óculos escuros e o sobretudo ao estilo  Alain Delon em O Samurai, de Jean Pierre Melville, virou moda entre os jovens da época. Só faltou saírem queimando dinheiro para acender o cigarro, como na emblemática cena em que o personagem também o faz.

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Se Chow Yun Fat está impecável e esbanja carisma em cena, é Ti Lung quem, na verdade, carrega o filme nas costas como o protagonista, com seus conflitos pessoais densos e uma atuação digna de maior reconhecimento. E tudo isso engrandece o filme de John Woo, mas o que realmente chama a atenção mesmo são as aguardadas sequências de tiroteios. Woo ainda não havia atingido o seu paroxismo para tais cenas, como já aconteceria em The Killer e Fervura Máxima, mas são muito elegantes em Alvo Duplo, com boas coreografias, uso da câmera lenta e a consagração da imagem do homem com duas pistolas nas mãos distribuindo chumbo nos bandidos.

Alvo Duplo é obrigatório para conhecer as raízes da reputação de John Woo como mestre do cinema de ação. Certamente não é o melhor filme do diretor, que ao longo dos anos fez algumas obras primas do gênero Heroic Bloodshed, mas não deixa de ser indispensável e dá pra ter uma noção do que o sujeito é capaz de fazer.

4 cleef

31/10/2009

No Coração do Perigo (Heroes shed no Tears, 1986), John Woo

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por Otávio Moulin

No Coração do Perigo, de certa forma, é o primeiro filme verdadeiro de John Woo. Rodado na Tailândia em 1983, o longa libertou o cineasta de amarras estéticas e narrativas de seus trabalhos anteriores feitos sob encomenda para os grandes estúdios de Hong Kong, Shaw Bros. (em que seguia a linha de seu mentor, Chang Cheh, em fitas de artes marciais) e Golden Harvest (que priorizava comédias como dos irmãos Hui).

Woo conseguiu fundir todos os temas e elementos estilísticos que fariam sua fama em obras abraçadas internacionalmente como The Killer e Fervura Máxima. Há tiroteios rebuscados com grande uso de câmera lenta, forte relacionamento entre personagens masculinos e uma eterna busca por redenção através do derramamento do sangue. Também se já encontra a ousadia de utilizar atores esquecidos ou em papéis diferentes do que costumam desempenhar, como faria novamente depois com o ofuscado ex-herói da pancadaria Ti Lung em Alvo Duplo e, claro, o então colecionador de fracassos Chow Yun-Fat em múltiplas parceiras de sucesso.

Em No Coração do Perigo brilham dois grandes artistas de Hong Kong em papéis invertidos. De um lado está Eddie Ko, famoso por seus papéis de vilão em filmes de wuxia da Shaw Bros., que vira o mocinho e lidera um grupo de mercenários chineses no chamado Triângulo Dourado, uma região entre Mianmar, Tailândia e Vietnã que abriga várias rotas de narcotráfico. No outro está o nobre Lam Ching Ying, na pele de um seboso coronel vietnamita que caça o grupo de forma impiedosa para retribuir a perda de um olho em um confronto inicial.

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Aliás, este primeiro encontro dita o clima da narrativa e mostra um amadurecimento brutal de Woo em composição de cena. Como em um western dos bons, Ko e Lam travam, antes de mais nada, um duelo de presenças sabiamente valorizado pelo diretor e iniciam ali um combate arrebatador que não deixa nenhum personagem imaculado, especialmente o filho pequeno do mocinho que mora na região. Sim, pois o relacionamento de pais e filhos, com uma discussão sobre amadurecimento e descoberta do que é a honra, também tem espaço entre os tiroteios incessantes que recheiam o filme.

Mais cru e sujo do que seus trabalhos mais famosos, No Coração do Perigo foi uma fita B que serviu como esboço para futuros trabalhos de Woo, tanto que muitas seqüências foram recriadas em obras posteriores de maneira mais refinada, como o embate final que lembra o visto em Fervura Máxima. Assim, já não é uma fita que impressiona tanto diante de certas comparações, mas é essencial para entender a evolução do diretor.

Pena que muitos elementos inseridos pelo estúdio consigam poluir a narrativa do cineasta. Julgado grosseiro e violento pelos chefões da Golden Harvest em 1983, o filme ficou na geladeira por vários anos e só chegou aos cinemas asiáticos depois do sucesso de blockbusters hollywoodianos como Rambo II – A Missão ou Comando para Matar, quando pareceu mais adequado. Só que o filme ganhou trechos novos, sem aprovação de Woo, que inserem um personagem americano, alguma nudez e elementos cômicos que nunca se encaixam na base cuidadosamente planejada pelo diretor. São interferências que geram um ruído desnecessário, mas não conseguem tirar a importância deste embrião de uma nova era de “banho de sangue heróico” no cinema de Hong Kong.

3 cleef

31/10/2009

O Mendigo Bilionário (Run Tiger, Run, 1985), John Woo

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por Leandro Caraça

Última comédia dirigida por John Woo, pelo menos até o momento, O Mendigo Bilionário é a mais exagerada e frenética de todas as incursões do diretor no gênero. Ray Shit (sim, o nome é esse mesmo) e seu sobrinho Tommy de 4 anos vivem de pequenos golpes nas ruas. Perto dali, o pequeno Bin Bin mora numa rica mansão com o seu excêntrico avô (Tsui Hark, que mais tarde produziria os clássicos Alvo Duplo e The Killer). Rodeado por empregados e brinquedos de todos os tipos, o garoto sofre com a falta dos pais, mortos num acidente, mas isso começa a mudar com a chegada da babá Mary. Após a morte do avô, provocada pelo malvado sobrinho James, a fortuna fica com Bin Bin. Em caso de acidente fatal, ela irá para James. Preocupada com a integridade do menino, Mary o esconde do bandido. Este ordena seus capangas que achem o menino. Logo eles encontram Shit e Tommy, que possuí a mesma aparência de Bin Bin. Os dois são convidados para visitar a mansão sem saber nada sobre a herança e a existência do sósia do garoto. Quando as tentativas de James de dar cabo da dupla (e embolsar a grana, apresentando Tommy como sendo Bin Bin) falham, ele chama a Srta. Lábios Mortais, que é capaz de matar um homem com apenas um beijo. Livremente inspirado no conto O Príncipe e o Mendigo e com tiradas visuais que parecem ter saído de um filme de Buster Keanton ou de um desenho animado, O Mendigo Bilionário não dá um minuto sequer de descanso com sua avalanche de piadas. Destaque para o baixinho Robin Kwan como Shit, Frank Hsu no papel do Tio Frank e Yin Tze Pan como Mary – e quase duas décadas depois de O Espadachim Sem Braço, a atriz ainda mantinha a sua beleza intacta. Aqui termina uma etapa da carreira de John Woo, que no ano seguinte ressurgiria como um dos grandes mestres do cinema policial.

3 cleef e meio

29/10/2009

Resgate Alucinado ( Laughing Times, 1981), John Woo

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por Leandro Caraça

Contrato desfeito com a Golden Harvest, John Woo fez a sua estréia na Cinema City homenageando o maior comediante de todos os tempos. Resgate Alucinado mistura figuras marcantes da filmografia de Charlie Chaplin com elementos do cinema de Hong Kong. Um vagabundo trajado igual ao Carlitos se mete em confusões com a polícia, apaixona-se por uma cantora pobre, adota um trombadinha de rua, fica amigo de um bebum e no final, precisa enfrentar um chefão do crime e os seus capangas, trajados como se tivessem saído de algum filme de gangster francês. Dois dos fundadores da Cinema City marcam presença. Dean Shek interpreta o vagabundo, enquanto que Karl Maka faz a parte do vilão. Nem todas as piadas funcionam como deveriam, mas ninguém pode acusar John Woo de ter feito uma comédia sem graça. Shek copia todos os maneirismos de Chaplin de forma satisfatória e o humor físico, em especial nas lutas, alegra os fãs de Didi Mocó e sua trupe. Um pouco fora de lugar são as mensagens de cunho cristão que aparecem durante o filme, sendo que desta vez, John Woo não faz piada alguma com sua própria religião. Embora não tão importantes quanto suas obras do gênero policial, as comédias do diretor merecem ser mais conhecidas por pessoas livres de preconceitos.

3 cleef

22/10/2009

Atualização

Finalmente, Santa Sangre!

19/10/2009

A Farra do Demônio (To the Hell with the Devil, 1981), John Woo

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por Bruno Martino

Se você, como eu, estava acostumado nos anos 90 com o John Woo mestre do tiroteio e filmes de ação, com certeza se surpreenderia com essa investida do diretor no gênero fantástico, assim como me surpreendi na época em que comprei o VHS num sebo lá no fim dos anos 90 (a fita inclusive trazia o nome gigantesco do diretor na capa pra chamar atenção). Esse “terror-cômico-sobrenatural” é sobre um fracassado que vive de bicos e trambiques e ainda é metido a ser compositor, interpretado pelo hilário e injustiçado Ricky Hui. Curiosamente seu nome é Bruce Lee – “Mas eu não luto kung fu”, diz sempre que se apresenta. Quando se apaixona pela bela Peggy (Jade Hsu ) compõe uma canção que acha que será um estouro, até o dia em que um astro pop new wave chamado Rocky (Pak –Cheung Chan) a rouba e começa a fazer um sucesso tremendo. Decepcionado com a vida, acaba se tornando alvo de uma disputa entre Céu e Inferno quando um padre recém falecido (Paul Chun) sobe aos céus e recebe a missão divina de salvar a alma de Bruce, ao mesmo tempo em que um mal caráter “meio-fantasma e meio-humano” chamado Flit (Fung Shui Fan) recebe a missão de trazer uma alma fresca para Satanás no Inferno.

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A Farra do Demônio é uma espécie de versão pastelão da comédia americana O Diabo é Meu Sócio de 1967 dirigida por Stanley Donen e estrelada por Dudley Moore e Peter Cook, que foi refilmada em 2000 por Harold Ramis. Essa versão chinesa também mostra as desventuras do protagonista ao fazer desejos e como eles acabam se tornando mais uma enrascada do que uma salvação. Como mérito, é cheio de cenas estilo Três Patetas e derivados, além de flertar com o humor “politicamente incorreto” ao fazer graça de doentes mentais e da religião católica em si – “Não quero nada com a Bíblia, ela já matou muita gente”, diz Bruce em certo momento.

O clímax do filme é um show à parte: a mansão de Flit se torna um campo de batalha entre as forças do Bem e do Mal que se dá através de uma partida de videogame live action! Enquanto o personagem do padre passa a soltar raios dos olhos, vários clones de Flit atravessam a sala no melhor estilo “Space Invaders” do Atari com direito a musiquinha de videogame e contador de energia na tela! Além da batalha final, o filme é cheio de efeitos especiais simples e eficientes que com o tempo acabaram se tornando até charmosos. É lendária a história de quando técnicos da Industrial Light & Magic ficaram impressionados como Woo fez os raios que saem dos olhos dos personagem. Nada mais do que néon e espelhos que foram refletidos na lente das câmeras.

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Mas o grande trunfo está na caracterização, sempre a mais caricata possível. O Paraíso é repleto de anjos que ficam cantando, com direito a asinhas e auréolas, e Deus é um grande rosto com bigodes brancos que ao espirrar diz: “Lá vai mais um tufão nas Filipinas”. Já o Inferno é obviamente repleto de fogo, com um Satanás (o eterno vilão Chung Fat) sendo uma espécie de Nosferatu com capa de Drácula que ainda solta raio dos olhos e fala com voz de mulher! E advinhem qual a trilha sonora do Inferno? Nada mais do que a música da banda italiana Goblin para o filme Despertar dos Mortos! Isso mesmo, inserida na cara de pau! Além de tudo isso, Woo ainda arruma tempo para fazer referências a … E o Vento Levou e O Exorcista.

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Interessante também são as histórias dos bastidores. O filme surgiu da vontade de Woo rescindir seu contrato com a Golden Harvest para assinar com a Cinema City, então se aproveitando da trama de O Diabo é Meu Sócio e de Fausto, Woo decidiu tirar sarro da sua própria situação: de um cineasta preso a um contrato de 3 anos com a Golden Harvest. Segundo Woo em entrevistas, a cena em que o personagem de Hui grita: “Eu quero meu contrato de volta! Quero acabar com ele!” foi uma indireta para os chefões da Golden Harvest na época, que sacaram a piada e não ficaram muito contentes.

É uma boa pedida até pra quem não é muito acostumado com a comédia chinesa, pois a maioria das piadas são físicas, e poucas realmente não fazem sentido para nós. Ainda que o ritmo do filme fique prejudicado lá pelo meio (Woo às vezes se demora nas realidades surgidas pelos desejos de Bruce, esticando a piada mais do que deveria), vale a conferida. E mesmo não sendo uma comédia sobrenatural tão engraçada quanto as que surgiriam depois, serve pra confirmar como John Woo era criativo e talentoso seja no uso dos efeitos especiais, quanto nos movimentos de câmera.

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O filme foi lançado em VHS pela Penta Vídeo e passou uma eternidade no limbo aqui e lá fora, sendo remasterizado recentemente pela distribuidora chinesa JoySales para sua coleção de DVDs Legendary Collection, dessa vez em Widescreen que deve dar uma diferença danada na hora da batalha estilo videogame.

Ricky Hui voltaria a enfrentar o sobrenatural em Haunted Cop Shop e Mr. Vampire e Fung Shui Fan faria uma série de comédias de ação durante os anos 80 com uma trupe de comediantes que chamo carinhosamente de “rat pack chinês” (Que incluía John Shum que aparece neste, e Eric Tsang, que nessas comédias fazia uma espécie de Zacarias asiático). Juntos fizeram os filmes da série Lucky Stars dirigidos por Sammo Hung. Todos divertidíssimos.

3 cleef

Obs: novo texto adicionado - Follow the Star (1978), por Leandro Caraça.

16/10/2009

Jugular Blindada (Last Hurrah for Chivalry, 1979), John Woo

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por Heráclito Maia

Dos filmes de kung fu que John Woo fez nos primeiros anos de sua carreira, Jugular Blindada é aclamado como o  melhor deles. E é interessante notar que, em alguns aspectos, antecipa o que Woo faria uma década depois em O Matador (The Killer), uma de suas principais obras-primas.

Pelas primeiras imagens, podemos jurar que se trata apenas de mais um filme rotineiro de vingança. Mas logo começam a surgir novos temas, e conceitos como amizade, honra e cobiça, entre outros, começam a falar mais alto. A ambigüidade moral também se faz presente. Dos três personagens principais, nenhum deles é um exemplo de conduta. Lau Kong faz um tipo enigmático e aparentemente covarde; Wei Pai, um dos Venons do clássico Os Cinco Venenos do Kung Fu, dirigido por Chang Cheh, de tão impetuoso e rebelde torna-se estúpido; e por fim, o terceiro, e mais interessante, interpretado por Damian Lau Chung-Yan, é um espadachim alcoólatra e mercenário.

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O vilão (o grande Lee Hoi-Sang, mestre em Wing Chun na vida real e figura conhecidíssima do cinema popular de Hong Kong), mesmo sendo um monstro impiedoso e um lutador praticamente invencível, acaba sendo o responsável pelas únicas cenas cômicas do filme. Se bem que, na verdade, existem dois vilões, mas o segundo é uma surpresa, graças a uma reviravolta que ocorre na engenhosa trama…

As cenas de luta são abundantes e muito boas, cortesias do coreógrafo Fung Hak-On (que foi assistente da lenda Lau Kar Leung e que também dirigiu posteriormente alguns ótimos thrillers policiais). Ele faz uma participação importante confrontando-se com Wei Pai num combate de espadas de tirar o fôlego. Mas o que mais me chamou a atenção é o tom cada vez mais dramático e sangrento que as lutas vão tomando ao longo da projeção. Heranças do mestre Chang Cheh que o discípulo John Woo captou com perfeição. Outro grande destaque do filme fica por conta de Chin Yuet-Sang, no papel de um bizarro sujeito que luta dormindo!

Tanto pra quem curte cinema porrada, como pra quem tem interesse em se aprofundar no cinema de John Woo, Jugular Blindada é um filme indispensável!

4 cleef

11/10/2009

Follow the Star (1978), John Woo

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por Leandro Caraça

Ainda inédita no Brasil, esta comédia dirigida por John Woo é uma de suas melhores. Roy Chiao interpreta um mecânico de automóveis que além de preguiçoso e cachaceiro, também sabe lutar muito bem e gosta de inventar engenhocas para facilitar o trabalho em casa. Certo dia encontra a estrela adolescente Gayle (Rowena Cortes, cantora ídolo de Hong Kong nos anos 70) e depois de salvá-la de cinco sequestradores, acaba contratado como seu guarda-costas. Esses mesmos bandidos passarão o resto do filme tentando colocar as mãos na garota, pois de acordo com seu misterioso chefe, o falecido pai da garota – o próprio John Woo fazendo uma ponta – escondeu uma fortuna em algum lugar. Com bastante ação e piadas que parecem ter saído de um filme dos Trapalhões, Follow the Star pode ser considerado uma das melhores produções da fase inicial do diretor. O inepto grupo de malfeitores é um capítulo a parte : um especialista em se disfarçar de mulheres, um lutador que gosta de golpear com a cabeça, um hitman que sofre de catarata, um sujeito que possui uma mão mecânica e outro que gosta de atirar cartas de baralho (esse último feito por Fung Hak On, também um dos responsáveis pela coreografia de lutas e presença comum nos primeiros filmes de John Woo). Comédia e pancadaria correm soltas, com direito até uma visita a um cemitério mal-assombrado. Alguns símbolos da filmografia do cineasta aparecem aqui pela primeira vez, como uma perseguição de motos e o duelo final que acontece dentro de uma igreja. Follow the Star foi realizado um ano antes do excelente A Jugular Blindada e mostra um John Woo no começo de um processo de transformação, ainda tentando se diferenciar no mercado cinematográfico de Hong Kong.

3 cleef e meio