BLUE CHIPS (1994) William Friedkin

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por Daniel Vargas

Embora a sétima arte tenha andado de mãos dadas com o esporte desde sempre, não resta dúvidas que o sucesso (e Oscar) inesperado de Rocky em 1976 tenha sido uma espécie de divisor de águas para filmes esportivos cuja sua ascendência do final dos anos 70 até os 80-90 foi inegável. De Vale Tudo (Slap Shot, 1977), Big Wednesday (1978), Breaking Away (1979), Touro Indomável (1980) e O Campeão (The Champ, 1979), até o segundo Oscar em menos de 10 anos para um filme cuja a temática central era esporte – para Carruagens de Fogo em 81 – tivemos dos mais variados exemplos de filmes desportivos notáveis: A Chance (All the Right Moves, 1983), Karate Kid (1984), Um Homem Fora de Série (1984), Momentos Decisivos (Hoosiers, 1986), Fora da Jogada (Eight Men Out, 1988), Sorte no Amor (Bull Durham, 1988), Homens Brancos Não Sabem Enterrar (1992), Cobb (1994). Esses 3 últimos de um dos nomes mais prolíficos do gênero que obviamente entende sobre o mundo dos esportes por dentro, Ron Shelton, o roteirista de Blue Chips, que, a primeira vista, foi um dos filmes mais atípicos do Friedkin.

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Depois de 2 anos consecutivos vitoriosos, o treinador de basquete universitário Pete Bell (Nick Nolte) se vê em uma sinuca de bico depois de um ano desastroso, onde uma derrota a mais na campanha pode custar seu cargo, mostrando a volubilidade dessa carreira. Ele vai então atrás de novos talentos espalhados pelo vasto EUA, lhes prometendo uma bolsa de estudos integral na universidade em que treina, em Los Angeles. Em troca de defender a mesma no basquete, é claro. É impagável a maneira como o personagem do Nolte vai dizendo ser seguidor de uma religião diferente da outra conforme vai conhecendo as crenças e costumes das famílias de cada atleta almejado que conhece. Mas isso é até onde o treinador Pete vai em termos de malandragem e “privilégios”. Da maneira legal. Incorruptível, o treinador faz questão de salientar porquê não abre mão de jogar limpo: “Primeiro porque eu posso ser pego e perder meu emprego. Segundo porque talvez eu NÃO possa ser pego“, diz, enfático.

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Mas quando ele percebe o quão afundado em corrupção e propinas a sua profissão está, quando até um dos seus promissores atletas parecem estar mais a par disso que ele mesmo, “exigindo” uma quantia exorbitante pelo seu valor de maneira ilegal na cara dura, como se estivesse pedindo dinheiro para a merenda, ele percebe que talvez ele terá que pular sua tão adorada ética para que possa satisfazer seus empregados, usando dinheiro dos “amigos do programa” do associado do time, o inescrupuloso “Happy” (J.T. Walsh) por quem Pete mantem um desprezo notório, a fim de conseguir manter seus novos jogadores, obter melhores resultados e se manter empregado. E aí que o roteiro de Shelton se destaca tanto ao sair da mesmice dos filmes sobre esporte onde o interesse maior foca em quem vai terminar ganhando a competição. Aqui o embate ético é o mais importante. Aliado a diálogos realistas de esquemas táticos e cenas documentais, que às vezes nos fazem pensar que estamos vendo de fato bastidores de jogos (a presença de jogadores reais de basquete como Shaquille O’Neal como um dos novos talentos de Pete e cenas memoráveis de jogos de basquete ajudam demais a sensação de um filme que parece ter propriedade no que fala).

E quando finalmente os podres desse combinado fraudulento começam a sair pelo ventilador, nós vemos a mão do Friedkin que transforma um filme sobre esportes em um thriller psicológico sobre morais e ética. Pete vai descobrindo pouco a pouco o quão seu rabo já estava preso a esses esquemas ilícitos sem ele ao menos saber, o levando a questionar até mesmos suas conquistas passadas e os nomes dos seus jogadores em quem ele mais confiava. Apesar de separados, sua ex-mulher Jenny Bell (Mary McDonnell) parece ser sua aliada mais do que nunca, chegando a ser tutora de vários de seus atletas. Totalmente avessa as maracutaias da profissão, ela se decepciona depois que percebe que Pete se deixou levar em nome da vitória. Agora ele desacreditado pelas pessoas que ama e por si mesmo, precisa chegar a uma conclusão final onde o jogo principal será a reconquista de seu caráter. Onde ele em seu discurso final apoteótico parece mesmo decidido a resgatar. Mesmo que custe sua carreira profissional para sempre.

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Vale destacar sozinha a performance do Nolte, que é coisa de louco. Entregue ao papel de uma maneira assombrosa, ele parece ser seguidor da linha dura Muricy Ramalho da filosofia “aqui é trabalho, meu filho” em volume máximo. Muito se fala de Al Pacino em Any Given Sunday (1999) quando pegam referências de treinadores linha dura no cinema, que esbravejam, xingam, chutam e dão discursos espetaculares e motivadores, mas o trabalho de Nolte nesse quesito me parece superior. E um pouco mais sutil, apesar de igualmente feroz. Seu andar sempre curvado, endurecido, com os largos braços caídos, a confrontação direta com os árbitros, há milésimos de chegar as vias de fato. Em uma cena, ele pega a bola de basquete de um auxiliar e chuta para arquibancada, talvez até mesmo para que impeça de fazer o mesmo com um ser humano. Em outra cena, depois da derrota do seu time, ele entra no vestiário já bufando, jogando a roupa dos jogadores do vestiário no chão enquanto re-afirma o quão desgostoso ele está com eles. Sai do vestiário, apenas para voltar segundos depois e continuar o sermão, finalizando ao tacar um galão de água na parede, deixando todos no vestiário pasmos ao sair pela segunda vez, apenas para voltar uma terceira para uma discussão aparentemente mais “calma e intimista”, onde ele pega uma cadeira e desabafa sentado frente a seus jogadores o quanto o basquete o estava desgastando. A que ao final do terceiro discurso, a mesma cadeira acaba virando alvo da sua fúria também. Uma cena perto de parecer excessiva, mas que é fundamental para entendermos a paixão obsessiva do personagem central por seu trabalho. Um trabalho primoroso de Nolte que para mim equivale a uma das suas 5 melhores atuações. O que em termos do que Nolte já fez, não é pouco.

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KILLER JOE – MATADOR DE ALUGUEL (Killer Joe, 2011), de William Friedkin

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Killer Joe – Matador de Aluguel foi lançado no ano de 2011, mas só chegou ao Brasil no começo de 2013 e o mais interessante é que foi parar nas salas de cinema. Cinco anos se passaram desde o último longa-metragem de William Friedkin, intitulado Possuídos, de 2006. Neste intervalo, o diretor realizou três trabalhos, dois no ano de 2007, são eles: The Painter’s Voice, curta documentário em vídeo, e o episódio nove da oitava temporada de CSI: Investigação Criminal intitulado Cockroaches. Em 2009 voltaria a dirigir um episódio de CSI, desta vez para nona temporada, sendo o episódio dezoito que se chamou Máscara. Retornando a parceria com Tracy Letts, onde trabalharam no subestimado Possuídos, Friedkin adapta de forma magistral o que originalmente seria uma peça de teatro. Possuindo grande força narrativa Killer Joe é um suspense policial tenso, com início cativante e final desconcertante.

tumblr_n73lbh8jQn1qa7aslo1_500Na trama temos Chris Smith (Emile Hirsch), um verdadeiro perdedor que no desespero de arranjar dinheiro para pagar suas dívidas convence seu pai Ansel Smith (Thomas Haden Church) a contratar um assassino profissional para dar um fim em sua mãe e assim abocanhar o dinheiro do seguro. Só que para executar o trabalho o assassino Killer Joe Cooper (Matthew McConaughey) precisa receber o pagamento adiantando, como não possui um centavo sequer, acaba dando como garantia sua jovem irmã Dottie Smith (Juno Temple).

A partir desta premissa já vemos o que o dinheiro é capaz de fazer com o ser humano. Com o decorrer do filme, que mescla boas doses de humor negro e violência, as situações criadas para desenvolver a trama e as personagens, com destaque para Killer Joe Cooper, culminam em uma catarse impactante de violência psicológica e humilhação, com boas doses de sadismo e psicopatia. Tudo sendo mostrado de forma impressionante e, para muitos, indigestas. Além da excelente direção, temos ótimas atuações, com destaque para Matthew McConaughey que assusta quando entra em cena, mas não posso esquecer de falar da fotografia, esta que possui detalhes saturados em certos planos a destaques fortes em ambientes fechados. Em resumo, mais um excelente trabalho de William Friedkin que sempre nos deixa pensativos ao final de seus filmes.

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CAÇADO (The Hunted, 2003), de William Friedkin

tumblr_inline_n91weq5xMf1sk0n7opor Leandro Caraça

Em Caçado, de 2003, Aaron Hallam (Benicio Del Toro) é uma máquina de matar descontrolada, um militar super-treinado que surta durante uma operação na Guerra da Bósnia e desaparece. Semanas depois, na fronteira dos EUA com o Canadá ele mata dois homens que estavam caçando na floresta. Para capturar Aaron, o FBI pede ajuda a L.T. Bonham (Tommy Lee Jones), aposentado instrutor militar que ensinou a Aaron tudo o que ele sabe. O que se seguirá a partir de então, é um vigoroso jogo de caça e presa entre dois homens preparados para matar. Quantos cadáveres ficarão pelo caminho até Aaron ser capturado ou morto?

Após Regras do Jogo (2000), Friedkin volta a trabalhar com Tommy Lee Jones e conduz com precisão e sobriedade um dos mais puros filmes de ação do começo do milênio. Pode-se dizer, erroneamente, que Jones está repetindo o mesmo tipo de papel que se acostumou a fazer depois de O Fugitivo (1993) e que tudo não passa de uma cópia de Rambo – Programado Para Matar (1982). Ainda que tais comparações sejam pertinentes, Caçado tem uma identidade própria, coisa que Friedkin consegue imprimir desde o início.

huntedDel Toro é claramente uma ameaça para todos que se aproximam dele e fica claro que somente sua morte colocará um ponto final nisso. Jones por sua vez, é um homem que se ausentou da sociedade, vivendo isolado numa cabana nas florestas do Canadá. Só aceita a missão porque sabe o quão letal é Aaron. Precisa então matar o melhor aluno que já teve. Em certo momento perto do fim, é revelado que Bonham deixou de manter contato com Aaron, o que pode ter ajudado na descida à loucura deste.

Sem muito traquejo e com capacidades de rastreamento dignas de um animal, Jones é retratado como um cruzamento entre Charles Bronson e Wolverine. Seus embates com Del Toro são o ponto máximo de um filme que não perde tempo com amenidades. Não existe, por exemplo, a obrigatória trama amorosa entre Jones e a agente do FBI interpretada por Connie Nielsen. Sem firulas e repleto de ação, Caçado é o melhor filme de Friedkin desde Viver e Morrer em Los Angeles (1985).

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JADE (1995), William Friedkin

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por Bruno Martino

Jade é, basicamente, um cine privé com alto orçamento. Substitua Linda Fiorentino por Shannon Tweed e David Caruso por Andrew Stevens que teríamos a sessão erótica perfeita pros sábados de madrugada. Isso é ruim? Depende do seu ponto de vista. É decepcionante pelo fato de quem dirige é William Friedkin, talvez não seria se fosse um Jim Winorsky ou Fred Olen Ray. Mesmo assim não deixa de ser um bom filme, claro, aquém de outras obras do diretor.

David Caruso é Corelli, um detetive que se vê numa trama de assassinato onde estão envolvidos o governador (Richard Crenna), uma psicóloga que é um antigo amor do passado (Linda Fiorentino) e o atual marido dela e melhor amigo de Corelli, o advogado Matt (Chazz Palminteri). E aí que traições, chantagem, assassinatos e o pau comem solto (metafórica e biblicamente falando). Lembra tanto o grande sucesso Instinto Selvagem que a história chega a parecer uma reciclagem. Marque aí: Um assassinato sangrento, uma mulher sedutora sendo acusada, tentativas de assassinato ao detetive, etc. Só que no quesito putaria perde feio já que são poucas as cenas quentes do filme. Co-estrelam a bela Angie Everhart (o que dá ainda mais um ar de cine prive à coisa toda), Victor Wong em uma ponta, e o sempre competente Michael Biehn no clássico arquétipo do policial pé-no-saco. David Caruso manda bem como o policial gamado na mulher problema de Linda Fiorentino, chegando a desenvolver certas nuances interessantes do personagem, quem diria que ele acabaria como detetive inexpressivo de CSI:Miami? Aliás foi devido ao fracasso de Jade e de O Beijo da Morte que Caruso voltou pra TV dando um tempo na malfadada incursão no Cinema.

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Escrito por Joe Esterhas o mesmo de Instinto Selvagem, o que explica as várias semelhanças, o roteiro foi tão mudado por Friedkin que o roteirista pensou até em tirar o nome dos créditos. Apesar dos pesares, a história mesmo sendo frouxa consegue prender e o filme conta com vários clichês do cinema de Friedkin. Sim, temos uma boa perseguição de carros que mesmo não sendo tão clássica como a de Operação França ou Viver e Morrer em LA, não faz feio. E é impressionante como Friedkin consegue fazer suspense com uma perseguição de carros em baixa velocidade, quando os mesmos ficam impossibilitados de correr devido a uma parada de Ano Novo no bairro chinês. Vale ressaltar também uma das mais chocantes cenas de atropelamento já filmadas.

Vale a pena dar uma bizoiada em Jade, mesmo não sendo a última bolacha do pacote na filmografia de Friedkin mostra que o homem consegue tirar leite até de pedra.

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A ÁRVORE DA MALDIÇÃO (The Guardian, 1990), William Friedkin

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por Leandro Caraça

William Friedkin confessou ter realizado este filme de terror como um favor para o produtor Joe Wizan. A Árvore da Maldição não tem destaque dentro da rica filmografia do cineasta, e na época no lançamento, conseguiu pouca atenção. Às vezes parece que o diretor está parodiando a si mesmo, pois se em O Exorcista ele fez Linda Blair vomitar uma gosma verde, agora Friedkin mostra uma árvore maligna que esguicha litros e litros de sangue ao ser cortada.

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O drama do casal que, sem desconfiar, acaba contratando uma bruxa druida como babá do seu filho, nunca atinge os patamares dos grandes filmes de Friedkin. Os diálogos são rotineiros e o próprio roteiro parece que foi escrito a toque de caixa, o que vai gerar momentos indignos de alguém do calibre do diretor de Operação França. Se por um lado, a bruxa Camilla – interpretada pela inglesa Jenny Seagrove – se apresenta como uma ótima (e sensual) vilã, por outro temos um Miguel Ferrer desperdiçado como um coadjuvante qualquer. E o comediante Brad Hall, que chegou a fazer parte do programa Saturday Night Live na primeira metade dos anos 80, tem mais tempo em cena do que o recomendável.

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Ainda que Friedkin estivesse em sua fase mais complicada e o filme passe longe de ser uma produção de primeira linha, o diretor consegue manter as coisas nos eixos. Nas cenas de suspense e horror é quando ele se solta mais, dando vazão ao exagero que o filme pedia. Bem dirigidas e montadas, as sequências de maior violência tornam A Árvore da Maldição em um filme acima da média. A criatura título, uma árvore que se alimenta das almas de bebês e que também gosta de destroçar corpos de seres adultos, traz o encanto de uma época em que os monstros animatrônicos estavam em alta. Não deixa de ser um razoável exemplar do gênero, valendo mais pelos momentos em que William Friedkin oferece aquilo que o público mais quer ver. Litros e litros de sangue.

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SÍNDROME DO MAL (Rampage, 1987), William Friedkin

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por Carlos Thomaz Albornoz

Para discutir este filme, ou mais especificamente as duas versões dele em circulação, precisarei discutir seu final, ou melhor ainda, as mudanças feitas no final do filme entre as duas versões disponíveis dele, que o transformaram praticamente em dois filmes diferentes. Caso o prezado leitor não queira ser surpreendido com informações sobre este ‘pequeno detalhe’ do filme, sugiro que evite a leitura do texto… portanto, este texto vem com um belo dum aviso de ‘spoiler’ antes mesmo de seu começo.

Quando o conceito de ‘versão do diretor ‘ se popularizou, em algum momento dos anos oitenta, passamos a conviver com duas (ou mais, vide Blade Runner) versões diferentes do mesmo filme. Já na era do DVD isso se tornou uma espécie de ‘venda casada’, ou seja, era lançada uma versão cortada do filme nos cinemas, com restrições de censura e limite de tempo dos estúdios, e depois em vídeo era lançada uma versão mais próxima da visão do diretor, com alguns minutos a mais, isso quando as espertas produtoras não lançavam as duas versões com extras diferentes, forçando o pobre fã a comprar o mesmo filme duas vezes. Com tudo isso, normalmente se faz a crítica apenas de uma das versões, e o filme é tratado como sendo apenas um (mesmo que seja um O Senhor dos Anéis, cujas versões extendidas tenham mais de uma hora a mais que as versões ‘originais’). Isso não é possível com Rampage. Pior, não há nem o benefício de haverem distinções entre as duas versões que circulam. E, tecnicamente, as duas são ‘versões do diretor’, ambas refletem a visão do diretor, ou pelo menos refletiam no momento que ele as completou. Distorções do mercado de video…

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Tentando explicar o tamanho da bagunça: o filme estreou nos cinemas em 1987, em lançamento limitado nos cinemas americanos (em festivais e num circuito limitado), indo para vídeo (e laserdisc) logo depois (na Europa e no resto do mundo foi lançado normalmente). Acompanhava a perseguição a um serial killer que se banhava no sangue de suas vítimas e seu julgamento. Na época desta versão era apenas um ambíguo filme de tribunal sobre a necessidade da pena de morte e o sistema americano de justiça. O assassino era capturado, ameaçava ser solto pelos seus advogados e voltar a matar e logo após se suicidava na prisão, criando um ‘final feliz’.

Rampage era uma produção da DEG (Delaurentis Entertainment Group), que faliu mais ou menos na época de seu lançamento em vídeo, que foi feito às pressas, sem Rampage ter entrado em circuito. Quando o enrosco se resolveu e o filme voltou a circular (pela Miramax), havendo finalmente um lançamento cinematográfico em larga escala, em 1992, tratava-se de uma obra bem diferente da que havia sido exibida anteriormente. Por algum motivo nunca muito bem explicado (as entrevistas sobre o tema são inconclusivas) William Friedkin sentiu a necessidade de reeditar sua obra. Agora se tornava uma paulada a favor da pena de morte, e contra as imperfeições do sistema judicial americano. No final do filme, logo após o discurso sobre sair da prisão, não há mais o suicídio do personagem central, e sim uma carta mandada à família de um dos mortos, convidando-os a aparecer para uma visita, e um letreiro informando o espectador que o tal serial killer poderá sair da cadeia em seis meses, caso seja liberado pelos psiquiatras.

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Trata-se de um belo dum filme, independente de que versão seja assistida… mas o original é mais sutil, mais inteligente. Por mais que a mensagem da segunda versão seja válida, e já esteja, nas entrelinhas, presente no original, ela é dita de forma pouco discreta, quase aos gritos. Em alguns momentos parece que estamos vendo um panfletão, ao estilo Michael Moore, o roteiro fica horas batendo na mesma tecla.

Caso o caro leitor queira ver essa produção vai ter dificuldade para achá-la. Procurando na (loja virtual) Amazon, encontra-se apenas a velha versão em VHS à venda, provavelmente contemporânea do lançamento brasileiro (Síndrome do Mal, VTI Video, 1987, encontrável nos Mercado Livres da vida com relativa facilidade). Procurando nos sites especializados (como ebay) descobrimos que Rampage só foi lançado em DVD na improvável Polônia, há alguns anos, já estando fora de catálogo, pelo menos oficialmente. E cuidado com outros dois filmes, inspirados por um videogame homônimo, que confundem o interessado. Quem quiser achar uma cópia do filme provavelmente vai ter que achá-lo na selva dos torrents, provavelmente tendo que adivinhar qual versão está baixando, já que não houve nenhuma indicação no relançamento que se tratava de uma versão ‘alternativa’. Boa sorte.

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VIVER E MORRER EM LOS ANGELES (To Live and Die in L.A., 1985) William Friedkin

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“Buddy, you’re in the wrong place at the wrong time.”

Richard Chance (William Petersen) possui algumas habituais características do policial controverso cinematográfico: é daqueles que seguem suas próprias regras, destemidos e não tremem na hora encarar a bandidagem. Aparentemente, é o homem da lei perfeito para os amantes do gênero policial. No entanto, as semelhanças com um “Dirty” Harry Callahan ou Shaft param por aqui. Analisando as atitudes do sujeito ao longo de Viver e Morrer em Los Angeles, percebe-se com alguma sutileza que, no fim das contas, ele não passa de um agente incompetente, impulsivo, arrogante, agindo pelo instinto de vingança, que termina, perdoem meu francês, totalmente fodido!

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Não é a primeira vez que William Friedkin se arrisca dessa maneira. Chance não é o único personagem “Friedkiano” que tem suas limitações e imperfeições colocadas em evidência. Basta lembrar do Popeye Doyle de Gene Hackman e a cagada que faz no desfecho de Operação França. Ou a mudança de comportamento de Al Pacino ao se infiltrar no submundo homossexual em Cruising. Enfim, também não é a toa que estamos falando de um dos diretores mais ousados do cinema americano, um autêntico provocador. Talento o sujeito sempre teve de sobra, mas subverter deve ser uma de suas principais diversões nessa brincadeira de fazer cinema. E parece não dar a mínima para o que o grande público pensa.

Isso fica claro na maneira como arranja soluções questionáveis para os seus filmes: os vários finais abertos, pessimistas e reflexivos; sem contar as preferências por temas polêmicos e personagens ambíguos que nem sempre são bem vistos aos olhos do espectador comum. Deste modo, Viver e Morrer em Los Angeles segue a máxima shakespeariana na qual “concisão é a alma do espírito”, ou, em outras palavras, o filme é um dos grandes definidores do cinema de Friedkin.

“Guess what? Uncle Sam don’t give a shit about your expenses. You want bread, fuck a baker.”

Viver e Morrer em Los Angeles começa com o tal agente, Richard Chance, prestando serviço de segurança ao Presidente dos Estados Unidos em uma conferência em Los Angeles. Durante a ocasião, um homem-bomba islâmico tenta “encontrar” suas setenta e duas virgens lhe esperando no paraíso, levando o presidente americano junto. Não consegue, graças a Chance e seu parceiro. Os dois se sentam no terraço e pensam sobre o que acabou de acontecer. Então dizem algo como, “Vamos beber!” e logo inicia uma elegante montagem, com a música estilosa de Wang Chung , mostrando várias imagens que representam a Los Angeles do filme.

E o que é um clássico dos anos oitenta sem uma trilha sonora oitentista bem datada?!Chung fornece não somente a trilha sonora e a música tema, mas todos os sintetizadores dos efeitos sonoros que compõem o clima do filme. É claro que o fato das músicas serem tão datadas pode proporcionar um obstáculo para o espectador que se incomoda com esse tipo de detalhe. Como sou um amante da música pop brega e datada dos anos 80, acho que não poderiam ter escolhido um som melhor.

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Inspirado em Gerry Petievich, ex-agente secreto que transformou suas experiências em ficção, Chance, a princípio, é mostrado como o policial durão que se espera, pulando de bungee jump, comendo uma loura gostosa. Quando seu parceiro é morto a tiros, prestes a se aposentar, sua truculência de fachada parece ficar mais intensa. Não demora muito para começar a perder a cabeça, infringir leis e fazer o que for preciso para se vingar. No lugar comum dos filmes do gênero, o policial que age dessa maneira é sempre visto como um sujeito cool, o policial casca grossa que queremos ser quando crescer. No caso de Chance, Friedkin lhe foi muito cruel…

A cada passo adiante para resolver o caso, ficamos convencidos de que o protagonista é um idiota cujo distintivo lhe dá direito de se achar acima da lei, de quebrar todos os protocolos, de ser um prepotente chantagista com todo mundo pelas ruas de Los Angeles, apesar das boas intenções… Tenho a impressão de que o próprio Chance nem tenha consciência da espécie de indivíduo que ele se torna. E é exatamente esse tipo de ambiguidade que gera o tour de force que torna o personagem tão singular, tão especial, tão badass! E Petersen imprime tudo isso com uma naturalidade absurda!

Mas o que seria de Chance sem um vilão a sua altura? É aí que entra em cena um jovem Willem Dafoe, encarnando o artista que usa de seu talento para falsificar dinheiro. Além de ser um assassino sangue frio – responsável pela morte do parceiro do protagonista. Não me surpreende a carreira de Dafoe ter decolado após Viver e Morrer em Los Angeles, porque seu desempenho aqui é algo magnífico. Aquele olhar expressivo de psicopata nunca esteve tão assustador.

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No elenco ainda temos John Pakow, que faz o parceiro novo e certinho de Chance, mas que aos poucos começa a se transformar no protagonista; Dean Stockwell, que na época era o nome mais famoso da lista; John Turturro, Robert Downing Sr. e uma pontinha de Steve James.

“- Why are you chasing me?
- I don’t know, why you running?
- Cause you’re chasing me.”

Viver e Morrer em Los Angeles não é exatamente focado na ação. A sua essência segue a estrutura de um thriller policial e, obviamente, não poderiam faltar algumas sequências mais movimentadas e tensas, como tiroteios e perseguições. Mas Friedkin as intensifica com uma boa dose de violência e realismo. As mortes ganham um peso muito grande dessa maneira – como é o caso do assassinato do parceiro de Chance.

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Mas a grande sequência de ação do filme, a cereja do bolo de Viver e Morrer em Los Angeles, como acontece em Operação França, é, sem dúvida alguma, a longa perseguição de carros em alta velocidade no meio do tráfego, das áreas industriais, linhas de trem, e até na contramão de uma freeway! Um verdadeiro espetáculo! Friedkin se especializou nesse tipo de cena, nesse bailado automobilístico exagerado e belo. Chega a ser poético. E aqui a montagem possui uma baita energia acentuada pela carga dramática que a cena carrega. É a maior aula de cinema do professor Bill Friedkin aos aspirantes a cineastas de hoje que não fazem ideia do que seja uma montagem.

Em sua autobiografia, Friedkin diz que “a perseguição é a forma mais pura de cinema, algo impossível de ser feito em qualquer outro meio, seja na literatura, num palco ou numa pintura em tela. Uma perseguição tem que parecer espontânea e fora de controle, mas precisa ser meticulosamente coreografada“. Difícil não concordar.

“I’m getting too old for this shit.”

Ao escrever sobre Viver e Morrer em Los Angeles, entrei numa enrascada. A princípio, achei que seria um prazer tratar de um dos meus filmes favoritos de todos os tempos. Por outro lado, este mesmo motivo me deixa sempre descorfortável. Escrever sobre algo que tanto admiro é um trabalho árduo. Mas acho que saiu algo… E atualmente o número de admiradores de Viver e Morrer em Los Angeles vem aumentando cada vez mais. Mas ainda são poucas as vezes que Friedkin é lembrado por este trabalho. Sempre citam O Exorcista e Operação França. Mas é este aqui que me estimula, que me faz sentir necessidade revê-lo. É a minha droga. Não consigo passar muito tempo sem revisitar o universo criado por Friedkin, a Los Angeles desordenada, violenta e ensolarada, os personagens cínicos e complexos… mesmo tendo consciência dos destinos trágicos e chocantes que o roteiro cuidadosamente prepara. E a edição nacional do DVD, cheio de extras (com direito ao final alternativo ridículo), quebra um bom galho.

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UMA TACADA DA PESADA (Deal of the Century, 1983), William Friedkin

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por Ronald Perrone

Uma comédia sem graça nenhuma ou uma sátira de humor negro pouco compreendida? O próprio William Friedkin evitou falar de Uma Tacada da Pesada em sua autobiografia, lançada neste ano de 2013. Vai ver não lhe veio nada interessante para falar. Ou talvez fosse tão insignificante para o diretor que achou que não valeria a pena. O fato é que senti a mesma coisa em relação a obra: um filme desinteressante, insignificante. Trata-se de um dos trabalhos mais fracos do Friedkin e talvez seja por isso que eu, também, não tenha muito a dizer.

Mas, respondendo a pergunta do início, prefiro colocar a segunda opção. Uma Tacada da Pesada é uma sátira sobre o comércio de armamento no pós-Vietnã e, por fazer graça de um assunto sério e relevante, o humor é mais reflexivo do que apenas feito para gerar risadas. Neste caso, o título nacional e até mesmo a arte dos cartazes tentam passar uma imagem errada do que é visto na tela. O filme não é essa comédia de Sessão da Tarde, estilo Férias Frustradas, que aparenta ser. No entanto, o fato de Friedkin trabalhar um tipo de humor no qual não é preciso dar gargalhadas não retira a ideia de que é necessário, de alguma maneira, ser engraçado. E aqui não é. Por isso a pergunta do início do texto é pertinente, pois dizer que Uma Tacada da Pesada é uma comédia sem graça também é válido.

Friedkin, mestre supremo do cinema corpo, dos temas fortes e polêmicos, das perseguições de carro, parece simplesmente não saber o que fazer o material que tem aqui. Tem tudo nas mãos, mas Uma Tacada da Pesada acaba sendo um grande nada. Desperdiça o talento de Chevy Chase, Gregory Hines e Sigourney Weaver, que não podem fazer muito para tornar o filme ao menos divertido. São poucas as sequências promissoras, como a que Chase faz uma demonstração de uma arma para rebeldes em plena trocação de tiros com a polícia num país da América Central, ou a que Chase é assaltado e, por possuir um trabuco bem maior, acaba ele mesmo roubando a carteira do bandido. No entanto, são cenas que não tem muita importância para a trama. Ficam soltas, perdidas, enquanto a história, cujo tema central poderia render uma ótima análise,  acaba se tornando uma prova de tolerância para o saco do espectador. Ou será que é má compreendida?

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PARCEIROS DA NOITE (Cruising, 1980), William Friedkin

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por Daniel Vargas

É difícil falar de Parceiros da Noite sem fazer primeiro um parâmetro entre as carreiras de Pacino e Friedkin na época. Friedkin tinha ido do céu ao inferno com sua carreira nos anos 70 com uma velocidade monstruosa: depois de ter enlouquecido com suas obras-primas Operação França e Exorcista, caiu direto no fosso junto com o fiasco de público que foi o seu remake de Salário do Medo, Sorcerer, mostrando que Hollywood já era um lugar cruel e impiedoso até mesmo com seus maiores talentos e meninos de ouro da geração “Easy Riders-Raging Bulls“. Já Pacino ainda era o rei do pedaço com uma carreira semi-perfeita nos anos 70, que, excluindo Bobby Deerfeld, era sucesso estrondoso se não de público, de crítica, e em sua grande maioria, os dois. O homem – que junto com nomes como Robert De Niro, Jack Nicholson, Dustin Hoffman e Gene Hackman – fazia clássicos instantâneos e com menos de 40 anos de idade já parecia ter seu lugar assegurado na galeria dos grandes mitos do cinema.

Um sujeito que não precisava provar mais nada há ninguém, certo? Bem, exceto que aparentemente ele achou que sim. Há quem tenha acusado Al de ter fraquejado depois de ter conhecido seu primeiro e tardio fracasso com o filme do Pollack, que acabou fazendo-o recusar duas propostas de projetos ousados – sendo a primeira do clássico definitivo sobre a guerra do Vietnã do Coppola, Apocalypse Now, e o outro, um épico sobre a mesma guerra no papel do veterano real de combate Ron Kovic no projeto Nascido em 4 de Julho – para aceitar o seguro papel do advogado porta-de-cadeia no ótimo, mas talvez demasiadamente acadêmico, …Justiça Para Todos, de Norman Jewison, que acabou lhe rendendo uma (segura) indicação ao Oscar.

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Com Friedkin na merda, como se nunca tivesse existido e desacreditado, e Pacino querendo se provar com algum projeto ousado, os dois uniram forças e entraram de cabeça em um estranho projeto, que normalmente viraria material para um filme B de William Lustig ou mesmo De Palma, que tinha se interessado em dirigir antes do Friedkin colocar suas mãos nele: o submundo homo-erótico.

É estranho, mas Parceiros da Noite parece ser tudo que seus admiradores e detratores dizem ser. Uma visão do mundo homossexual homofóbica? Um thriller que compara levar no traseiro com uma sentença de morte? Uma metáfora em que todos que se deixam envolver por esse mundo, acabam “contaminados” para sempre por ele? (AIDS?) Em primeira mão, parece que Friedkin pegou o projeto para pagar contas, pois filmes exploitation na época eram populares e chamavam o público. Mas, conhecendo o Friedkin e seu temperamento, nada disso faz sentido. Não só por sua temática arriscada, mas como por seu acabamento.

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A verdade é que poucas vezes Friedkin foi tão ousado quanto nesse filme. Sua obsessão pelo lado obscuro do ser humano, o cheiro do asfalto das ruas imundas das grandes metrópoles, a violência seca e generalizada não são novidade em sua carreira. Nem mesmo o mundo gay, já relatado em Os Rapazes da Banda. O filme é inspirado em uma série de assassinatos homossexuais que aconteceram de fato em Nova York entre 1962 a 1979, e antes mesmo da sua estréia já gerava polêmica e censura dentro e fora das comunidades gays. Friedkin nunca quis parecer arrumar tanta confusão como quando decidiu fazer esse filme. Poucos exemplares mainstream foram tão longe quanto esse, seja em temática, seja em visual. É como se Friedkin estivesse dizendo: “Foda-se, Hollywood. Vocês não me querem porque sou melhor que vocês”. É o sujeito à beira do penhasco, fazendo piruetas.

A históra é o que? Al Pacino faz um policialzinho meia tigela chamado Steve Burns que recebe do seu superior (Paul Sorvino) a arriscada tarefa de se infiltrar no submundo gay à procura de um assassino em série que anda caçando amantes em inferninhos homossexuais – apenas para esquartejá-los depois e jogar seus restos no Hudson River. E suas vítimas parecem ser quase sempre o biotipo do próprio Burns. A promessa de uma promoção e de uma vida melhor o levam a aceitar a tarefa, que a princípio ele parece levar com a tranquilidade de qualquer outro serviço que ele já fez. Isso faz o público temer pela ingenuidade do personagem que parece não ter idéia da enrascada em que está se metendo (ou talvez faça?)

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Steve tem uma namorada (uma bem jovem Karen Allen, lembrando a Alice Braga), que parece, hora sim, hora não, viver com ele no mesmo apartamento. Durante sua missão secreta, porém, ele parece deixá-la totalmente no escuro e tenta vê-la o mínimo possível. Para sua própria segurança, ele diz. Enquanto isso, convive mais, em seu novo apartamento alugado em Greenwich Village, com o seu vizinho gay (Don Scardino) desenvolvendo um relacionamento de amizade ao mesmo tempo que vai descobrindo informações que poderão ajudar a desvendar o caso apenas jogando papo furado com seu novo amigo.

Mas são as cenas que Pacino precisa encarar os clubes-gays-hardcore os pontos altos do filme. As cenas eróticas nesses lugares são tão sensuais quanto os personagens do John Waters. Seria mesmo uma visão do inferno pertubada de um heterossexual ou realmente existem lugares assim? É o que o filme parece se questionar o tempo todo, ao chocar o público mostrando o todo poderoso Michael Corleone passando entre homens de colantes pretos com apetrechos sadomasoquistas, bundas peludas de fora e boquetes sendo praticados em bastões e cassetetes.

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A sensação é que Pacino nunca esteve tão em perigo, nem mesmo sentado na mesa do restaurante junto com Sollozzo e Mccluskey em O Poderoso Chefão, ou dentro do banco rodeado de policiais em Um Dia de Cão, ou enfrentando sozinho centenas de homens armados do Sosa em Scarface, ou sendo vítima de conspiração por todos seus colegas de distrito junto, em Serpico. Nada parece mais ameaçador quando um sujeito que, ao enxergá-lo parado no clube se aproxima e pergunta “se ele gosta de esportes aqúaticos”, e se enfurece quando ouve uma resposta negativa, o alertando a não usar “um tal lenço” pra fora do bolso se o negócio dele é apenas “olhar”. Aliás, a cena que Pacino pergunta o significado dos lenços para o balconista Powers Boothe é impagável. Mas parece mesmo que nada parece ser mais horripilante que ver um homem esfregando a mão no peito do Pacino ou o mesmo amarrado na cama, prestes a ser esfaqueado (ou enrabado, o filme parece não se decidir, o que parece ser pior)

Nada em Parceiros da Noite é comum ou entediante. Entre a edição dinâmica do Bud Smith, ou na trilha atmosférica do Jack Nitzsche, tem sempre alguma coisa acontecendo e se alterando. Seja o rumo do caso, a personalidade do Pacino (que vai ficando cada vez mais e mais ambígua) e até mesmo a identidade do assassino, cuja sensação é de que está sendo interpretado por atores diferentes a cada cena! É como se o Friedkin quisesse confundir ou nos dizer que QUEM é o assassino é o que menos importa. O que importa é como pode existir aqueles mundos paralelos tão grotescos e imorais?

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No entanto, o filme também parece mostrar que aqueles homens estão lá porque querem. Eles gostam do que fazem e para a maioria nem é um assunto delicado da vida deles. O personagem principal parece também não ser nem um pouco homofóbico, tanto por aceitar o caso, quanto por sua relação com seu amigo homossexual que parecem desenvolver um relacionamento amigável e até íntimo. O personagem não parece julgar, em qualquer momento do filme a natureza do caso em que está ou dos personagens que ele precisa cruzar, apenas se preocupa com sua segurança com o possível encontro com o assassino. Por isso mesmo é difícil saber se existe uma razão definitiva sobre quem o acusa de ser homofóbico ou não. Até que ponto é homofobia ou pura realidade documentada?

O que fica de fato é a ousadia, não só do Pacino, um astro já consagrado, se envolver em um projeto tão polêmico, que nas costas de alguém menos talentoso, iria destruir sua carreira, como do Friedkin – que realiza aqui, na minha opinião, sem dúvida nenhuma um dos seus melhores trabalhos (lado a lado a títulos como Operação França e Viver e Morrer em L.A) injustamente taxado de “maldito” e lamentavelmente fracassando novamente nas bilheterias. Mas, no fundo, era o único destino que ele poderia ter de fato.

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Afinal de contas, é um perfeito caso de filme que estuda “a procura da identidade” e ele mesmo não parece ter uma. Se vende como um thriller policial? Mas é só isso mesmo? Certamente não é um “quem matou?”. É um neo-noir psicológico? É um drama existencialista? O que Friedkin quer dizer com a última cena do Pacino se olhando para o espelho e por fim, olhando para a câmera-público? Será que nós sabemos quem somos de verdade para julgarmos os outros? Será que sabemos de fato o que somos capazes de fazer ou não? Quais são nossos limites morais? A homofobia está nos olhos dos outros? São perguntas que fazem o público se questionar e talvez até mesmo se irritar porque não obtém uma resposta fácil. Mas resposta fácil é tudo que Parceiros da Noite nunca prometeu em nenhum momento.

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PS: Interessante ver o sempre marcante Joe Spinell no começo do filme como o patrulheiro asqueroso, homossexual enrustido, que reclama para seu parceiro (Mike Starr) da sua mulher tê-lo deixado e levado sua filha junto para a Flórida. Na vida real, era exatamente o que tinha acontecido com ele semanas antes das filmagens. Seu personagem que extorque travestis em troca de favores sexuais parece um rascunho do seu talvez mais célebre personagem em O Maníaco, do já citado William Lustig. Outra coisa interessante em Parceiros é sua trilha sonora, que ficou bem caracterizada no filme. Músicas como “Lump” do Mutiny, “It’s So Easy” do Willy DeVille, “Shakedown” do Rough Trade são marca registrada do filme.

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UM GOLPE MUITO LOUCO (The Brink’s Job, 1978), William Friedkin

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por Ronald Perrone

Após o fracasso comercial de O Comboio do Medo, a reputação de Friedkin não estava tão abalada quanto se imagina. Pelo menos é o que ele conta em sua autobiografia. Algumas reuniões aconteceram na época com um produtor e um jovem roteirista que queriam ele para dirigir uma obra grandiosa, de temas relevantes, guerra do Vietnã, e que teria Al Pacino como protagonista. O tipo de material que Friedkin não estava interessado no momento e que antes de Apocalypse Now e O Franco Atirador não era certeza de que renderia público.

Acabou não rolando, o filme só foi acontecer uma década depois e quem  dirigiu foi o tal jovem roteirista, Oliver Stone, e o filme, Nascido em 4 de Julho. Friedkin não queria se arriscar em seu próximo projeto e acabou escolhendo Um Golpe Muito Louco (título nacional horrível de filme de Sessão da Tarde), que lhe foi oferecido por Dino De Laurentiis. Uma produção discreta, sem grandes pretensões, cuja história girava em torno do roubo de uma empresa de transporte de dinheiro que de fato acontecera nos anos 50. Na época o grande chefão do FBI J. Edgar Hoover chamou a ação dos ladrões de “o crime do século”, mas o filme não passa mesmo de uma leve comédia sem muita inspiração narrativa.

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Vale muito pelo elenco que conseguiram reunir por aqui: Peter Falk, Peter Boyle, Paul Sorvino, Gena Rowlands e um Warren Oates em estado de graça! Há uma cena em que este último realiza um monólogo de arrepiar. Dá a impressão de que os editores não conseguiram fazer o habitual plano e contraplano e deixaram lá a imagem do ator falando e falando… Desses momentos fascinantes que comprovam porque Oates foi um dos grandes.

Talvez o ponto alto de Um Golpe Muito Louco em termos de direção seja a tal sequência do roubo, que demonstra a habilidade de Friedkin em trabalhar os nervos do espectador com uma carga de tensão elevada ao limite. Um fato interessante é que a sequência foi toda filmada exatamente no local onde o verdadeiro roubo aconteceu trinta anos antes. Aliás, para não dizer que o filme é tão discreto assim, o trabalho de reconstrução de época é um primor. Mas não adiantou muito, Um Golpe Muito Louco foi o segundo fracasso comercial de Friedkin seguido. E é uma pena, pois apesar de não estar no nível de um Operação França ou O Comboio do Medo, não deixa de ser um filme simpático.

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