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48 HORAS – PARTE II (1990)

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Por Ronald Perrone

Oito anos depois, Walter Hill decidiu dirigir uma continuação de 48 HORAS. Contextualizando a situação de alguns indivíduos, que já era bem diferente da época do primeiro filme, em 1990 Eddie Murphy estava no topo, desfrutando de uma carreira sólida, especialmente como comediante em filmes de sucesso, como UM PRÍNCIPE EM NOVA YORK e UM TIRA DA PESADA. Nick Nolte, apesar de um percurso interessante, dividia grandes atuações com seu particular interesse em observar o fundo de garrafas de cachaça. Já o diretor Walter Hill vinha de um belíssimo filme, JOHNNY HANDSOME, mas até hoje um de seus trabalhos menos lembrados. Demonstra a habilidade do diretor como contador de história, mais focado no tour de force Mickey Rourke, e não precisou elaborar sequências de ação. Talvez seja por isso que Hill tenha resolvido chutar o balde nesse aqui.

48 HORAS – PARTE II possui certos exageros no tom, no humor, na ação, que não existem no mesmo grau em 48 HORAS (um exemplar mais sério e verossímil na medida do possível). Particularmente, sou bem mais o filme de 82. Não significa que o segundo seja ruim, como grande parte da crítica cantou na época do lançamento. Apenas destaco o fato dessa mudança de tonalidade. E é só na tonalidade mesmo, porque em relação à história e temas, é praticamente um xerox do primeiro filme.

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Reparem na falta de sutileza na sequência que Jack Cates (Nolte) aparece pela primeira vez neste aqui. Ele persegue um sujeito numa pista de corrida de moto, surge um tiroteio, uma bomba de gás pega fogo e em menos de 10 minutos de filme temos uma puta explosão! A maneira como Reggie (Murphy) entra de vez na história é igualmente exagerada, com o ônibus da prisão sendo atacado por uma gangue de motoqueiros assassinos e capotando dezenas de vezes…

Mas o importante é que as duas figuras estão de volta retomando a parceria. A trama se passa cinco anos depois dos acontecimentos do filme anterior e dessa vez a dupla retorna para tentar encontrar o misterioso traficante de drogas, que atende pelo nome de Iceman. Murphy repete o papel de Reggie Hammond bem mais à vontade, podendo fazer suas palhaçadas tranquilamente. A cena no bar onde ele saca uma arma e faz um monólogo sobre como está tendo um dia péssimo é das melhores performances em toda a carreira de Murphy.

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Já Nick Nolte, que é o grande destaque do primeiro filme, me pareceu um tanto no piloto automático por aqui, apenas repetindo de maneira mecânica e pouco inspirada o que já tinha feito oito anos atrás. Continua o mesmo badass de sempre, por isso dá pra relevar. E a química que mantém com Murphy também ajuda. Parecem até se divertir durante as filmagens…

O grande vilão de 48 HORAS – PARTE II é o irmão do personagem de James Remar (o criminoso do filme anterior), interpretado por Andrew Divoff, um mercenário contratado para matar Reggie. Aproveita também a oportunidade para vingar a morte de seu irmão, que levou chumbo grosso de Cates. Também lidera a tal gangue de motoqueiros que, captado pelas câmeras de Hill, faz lembrar mais um grupo de cowboys modernos. E de fato, a abertura é claramente inspirada num western, gênero que Walter Hill iria se debruçar nos anos 90 com dois filmes e meio (levando em conta que O ÚLTIMO MATADOR é meio gangster, meio faroeste). O resto do grupo é formado por David Anthony Marshall e Ted Markland. No elenco temos novamente a presença de Brion James, além de Kevin Tighe e Ed O’Ross.

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Essa segunda parte da série ainda se beneficia por mais algumas doses de ação muito bem filmadas, com destaque para o clímax final, uma confusão de tiros, socos e explosões. E só por essas sequências, a experiência de ver essa belezinha já vale a pena. O veredito é de que eu gosto bastante de 48 HORAS – PARTE II, para mim seria extremamente difícil rejeitá-lo, tendo novamente a reunião dessas duas figuras, Nolte e Murphy, em uma aventura policial inédita, mesmo fazendo as mesmas coisas vistas no filme anterior. No entanto, não nego o fato de que este capítulo poderia chegar mais longe se os realizadores tivessem feito uma variação mais ambiciosa, levado a trama para outros caminhos, ou até mesmo se aprofundado ainda mais na construção dos personagens, nas suas relações, enfim, não tornar 48 HORAS – PARTE II em um simples repeteco do primeiro filme. Essa sensação fica ainda mais forte se os dois exemplares forem assistidos em sequência.

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THE ASSIGNMENT (2017)

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por Ronald Perrone

Assisti ao THE ASSIGNMENT com a maior boa vontade do mundo, com a expectativa de um grande filme. Afinal, o diretor é o homenageado atual, Walter Hill, um dos caras mais “cabra-macho” do cinema de ação moderno. Que possui no currículo algumas das obras mais singulares e autorais do gênero dos últimos quarenta anos.

O segundo motivo que me causou boa impressão quando anunciaram o projeto foi a premissa “almodovariana”. THE ASSIGNMENT é sobre um assassino profissional aprisionado por desafetos (Sigourney Weaver, pra ser mais exato) lhe fazem uma cirurgia de mudança de sexo como vingança. Isso mesmo, o cara acorda mulher (Michelle Rodriguez). Agora, além de precisar tomar hormônios femininos e aceitar a nova identidade, o assassino em corpo de mulher declara guerra contra os responsáveis por sua forçada “mudança de time”. E isso é simplesmente genial!

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No entanto, a partir deste conceito absurdo e intrigante, THE ASSIGNMENT resulta num autêntico desastre. O roteiro, a montagem, a estrutura do filme, tudo não passa de um amontoado de firulas que só serve para encher linguiça. Idas e vindas no tempo, flashbacks intermináveis e chatíssimos com a personagem da Sigourney Weaver, que acaba tendo muito mais espaço que deveria, painéis que congelam a imagem e se transformam em desenhos que remetem aos quadrinhos, vídeos em primeira pessoa da protagonista “conversando com o espectador”… Demonstra uma tentativa frustrante de Hill em se adequar a uma linguagem contemporânea, e que lá pelas tantas chega a dar vergonha alheia do produto que um sujeito deste calibre realizou.

E é estranho, porque Hill fez recentemente ALVO DUPLO, com Sylvester Stallone. Embora não seja nenhuma obra-prima, é divertido e comprova que o sujeito estava perfeitamente adaptado aos “novos tempos”, após um hiato de uns dez anos desde seu filme anterior, O IMBATÍVEL, com Wesley Snipes e Ving Rhames.

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Quando THE ASSIGNMENT se preocupa em focar na situação de Rodriguez, em sua jornada de vingança, na sua busca em aceitar a nova identidade, por mais doloroso que seja, o filme ainda consegue criar algum interesse. Mas é justamente a participação de Rodriguez em alguns momentos da trama onde mora o pior de todos os equívocos do filme: É ridículo o fato da própria atriz fazer a sua versão masculina. A maquiagem é tosca e dá a impressão de que estarmos vendo simplesmente a Michelle Rodriguez com barba falsa na cara. Jamais um homem “de verdade”. Ainda mais um perigoso e badass assassino profissional. Há até uma cena em ele aparece nu de corpo inteiro que é um horror, um horror… O filme já perde totalmente sua força a partir daí.

E para quem esperava ao menos ver alguns tiroteios elaborados ou perseguições frenéticas, afinal estamos falando de um filme de Walter Hill, vai sair ainda mais desapontado. Não há nenhuma sequência de ação especial em THE ASSIGNMENT. A “ação” aqui resume-se a Michelle Rodriguez atirando em alguns capangas na surpresa, filmada de maneira preguiçosa, no piloto automático. É evidente que não vai ser essa bomba que vai tirar o meu respeito pelo Walter Hill. Mas já fico com o pé atrás em qualquer outro projeto que o sujeito se meta daqui pra frente, por mais ousado e interessante que possa parecer.

ALVO DUPLO (Bullet in the Head, 2012)

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por Ronald Perrone

ALVO DUPLO foi retorno de Walter Hill ao posto de diretor após um hiato de dez ano sem filmar longas para cinema. Acabou saindo bem próximo do que eu esperava. Se não consegue atingir a plenitude do potencial do diretor, ao menos é uma obra simples, violenta, objetiva e sem frescuras. É, ao mesmo tempo, um retorno aos velhos tempos dos filmes de ação casca-grossa que Hill tanto contribuiu, mas também um belo exemplar inserido no atual ciclo de filmes de ação feito no digital.

Além do retorno de Hill, outro grande atrativo de ALVO DUPLO é a presença de Sylvester Stallone, um dos grandes astros do gênero que dispensa apresentações, fazendo pela primeira vez uma parceria tardia com o diretor.

Sly interpreta Jimmy Bobo, um assassino profissional em busca de vingança e que de “bobo” não tem nada. Jimmy é um anti-herói subversivo para os dias atuais. Passa o filme inteiro nessa jornada pessoal esmurrando, explodindo e atirando na testa de bandido, mesmo os desarmados, na covardia, e sem qualquer remorso.  E nem passa pela cabeça do sujeito o chato clichê da crise de consciência por causa do seu tipo de trabalho e modo de vida. “Buah! preciso sair dessa vida de matança”, como dizem os pseudos action heroes desta geração politicamente correta.

E Stallone está ótimo por aqui. É sempre bom vê-lo à vontade, construindo um personagem carismático, engraçado e badass, para entrar na sua galeria de papéis marcantes, como Rocky, Rambo, Marion Cobretti e outros. O Barney Ross, de OS MERCENÁRIOS, por exemplo, que eu adoro, parece uma compilação de um monte de personalidades que o Stallone já interpretou, inclusive a dele própria. Jimmy Bobo é algo novo na carreira do Sly, que parece ter se divertido bastante ao encarnar um assassino sangue frio e sarcástico ao extremo. Sem contar que na sua idade atual entram alguns conflitos pelo fato de ser um dinossauro anacrônico diante do mundo moderno, da mesma maneira que Schwarzenegger como o xerife em THE LAST STAND, produção que lançada na mesma época…

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Como especialista em buddy cop movies, Hill achou que deveria dar um parceiro à Jimmy Bobo. À princípio, seria Aaron Eckhart, mas acabaram trocando ainda na pré-produção por Sung Kang, da série VELOZES E FURIOSOS. Eckhart tem personalidade e presença, talvez tirasse um pouco o foco de Stallone, enquanto Kang é apenas um bom acompanhamento. Fizeram uma boa escolha na substituição. Um contraponto interessante do protagonista, até pelo fato de Kang ser um policial que faz parceria com um assassino, apesar de não ser daqueles coadjuvantes cools, como Brandon Lee em MASSACRE NO BAIRRO JAPONÊS, ou Steve James em AMERICAN NINJA. O cara dá uns tiros e aplica umas artes marciais em dois ou três meliantes, além de descobrir umas coisas relevantes para o caso que investigam através de celular, algo que desnorteia um pouco o Jimmy, que não é muito ligado à tecnologia… Mas o resto de ALVO DUPLO é Stallone em ação! Apesar disso, a química entre os dois é boa e Kang não se torna nunca pedante. Algumas das melhores sequências de ALVO DUPLO são justamente aquelas em que os dois dialogam, trocam desaforos e piadinhas, lembrando os bons e velhos filmes do subgênero, como INFERNO VERMELHO e 48 HORAS.

No elenco ainda temos Christian Slater, num pequeno papel de advogado dos bandidos. É desses atores que em algum momento deixou a carreira desandar e foi parar em produções direct to video, como o Cuba Gooding Jr. e o Val Kilmer. Temos também Adewale Akinnuoye-Agbaje encarnando um vilão inescrupuloso e Jason Momoa, seu principal capanga responsável pelos serviços sujos.

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Pausa para falar do Momoa. Tomei certa antipatia pelo sujeito depois da refilmagem de CONAN, mas ele está perdoado por este papel em ALVO DUPLO (e também por GAME OF THRONES). Momoa faz aqui o típico vilão old school, que se fosse nos anos 80, seria interpretado por um Vernon Wells ou Brian Thompson. Um mercenário filho da puta que realiza seus serviços pelo prazer de matar e não pelo dinheiro que entra na conta. E ainda contracena com Stallone uma luta de machados que, putz, é de encher os olhos de qualquer fã de “cinema de macho”.

Para finalizar, apresentando Sara Shahi, uma belezinha tatuada que encarna a filha do Stallone.

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Sobre a direção do Hill, que substituiu o Wayne Kramer (desistiu do projeto por diferenças de opiniões com Stallone), é preciso apontar algumas coisas. Definitivamente dá para perceber o estilo do homem impresso no modo de filmar a arquitetura da cidade, as luzes, no excelente domínio na direção de atores, a maneira de trabalhar os elementos do gênero com a essência dos anos 80, etc… Mas de vez em quando parece que estamos diante de um direct to video mais classudo, mais elegante. Há até alguns efeitos moderninhos de pós produção que eu nunca pensei em ver num filme de um sujeito do calibre do Hill. Não chega a incomodar, mas poderia ser evitado.

Em termos de ação, o sujeito ainda manda muito bem. Só não dava para esperar algo tão old school, com o charme de um EXTREME PREJUDICE, INFERNO VERMELHO ou 48 HORAS. Em vários momentos Hill chacoalha a câmera, picota na edição, especialmente em cenas de luta, o que não quer dizer que seja mal feito, pelo contrário, é tudo muito bem orquestrado por alguém que conhece profundamente a gramática do cinema de ação e resolveu fazer um belo exemplar no conceito contemporâneo de ação. E mesmo adotando esses artifícios modernos, o diretor demonstra que é possível fazer ação de qualidade nos nossos dias.

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ALVO DUPLO dividiu bastante as opiniões na época do lançamento e não forma poucas as críticas negativas que recebeu, indicando, por exemplo, que o roteiro faz juz ao segundo nome do protagonista. Ok, o roteiro não é nenhum primor e possui alguns furos. Mas a quantidade de Stallone dando tiro na cabeça de bandidos compensou qualquer equívoco. Comparado ao vasto número de obras primas que o gênero concebeu nos anos 70 e 80, ALVO DUPLO não deixa de ser mesmo apenas um filme genérico, uma gota no oceano de truculência fílmica, que em alguns momentos remete ao cinema de ação daquele período. E dentro do panorama atual, é um frescor, objeto de rara honestidade, um ótimo filme de ação.

WILD BILL (1995)

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por Marcelo V.

Mais de 70 anos após ser retratado no cinema pela primeira vez, James Butler Hickok, uma das personagens lendárias do Velho Oeste americano, é o centro de WILD BILL, produção de Richard D. Zanuck escrita e dirigida por Walter Hill. Assim como o próprio Wild Bill, tido por alguns de seus contemporâneos como alguém que contava histórias exageradas sobre seus feitos, os realizadores deste projeto preferiram o imaginário à realidade. Em vez de pesquisa histórica, o roteiro é adaptado de duas obras de ficção: a peça “Fathers and Sons” (1978), de Thomas Babe, e o romance “Deadwood” (1986), de Peter Dexter.

Em entrevistas sobre o filme, Zanuck afirmou que estava interessado nos efeitos da celebridade no contexto do Velho Oeste, e Hill, nas consequências do encantamento de Bill por sua própria lenda. Do contraste dessas concepções com o caráter edipiano da peça (na qual o herói é morto por seu filho bastardo, homossexual que cometeu incesto com a mãe) e as descrições do ambiente fornecidas pelo romance (que incluíam os imigrantes chineses), nasce um filme também afetado pelo espírito de sua época, o de Hollywood sob o impacto do sucesso do jovem Quentin Tarantino.

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Assim, antes do terceiro ato provido pela peça, no qual a ação se concentra no saloon em que Bill passa suas últimas horas, o filme vai e volta no tempo, misturando flashbacks e flashforwards com cenas coloridas e em preto e branco _ de forma semelhante à que Oliver Stone empregou cerca de um ano antes em ASSASSINOS POR NATUREZA. O desprezo pelo naturalismo é reforçado pelos cenários, pela iluminação e por inverossimilhanças típicas, como revólveres que disparam muito mais balas que comportam e oponentes que morrem como moscas.

O protagonista (Jeff Bridges, 30 anos após seu pai Lloyd ter interpretado o mesmo personagem num episódio televisivo) é apresentado a princípio de forma mistificadora: como um homem querido por seus amigos; rápido no saque da arma e bom de pontaria (atira com ambas as mãos e acerta alvos olhando para um espelho); disposto a brigar sempre que provocado, mas de forma nobre (não atira em gente desarmada, amarra-se a uma cadeira quando desafiado por um paraplégico e chora quando um inocente perece por sua causa); com gosto pelo ópio, pelo uísque, pelo jogo de cartas e, de forma menos explorada, pelas mulheres; finalmente, como alguém que “abraçou seu destino de herói”.

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Ironicamente, é quando está desempenhando um papel como ator profissional, sob maquiagem pesada num espetáculo teatral de Buffalo Bill (ponta de Keith Carradine, que interpretaria Wild Bill sob a direção de Walter Hill no piloto da série televisiva DEADWOOD, da HBO), que o protagonista se mostra mais desconfortável, em especial pela iluminação, “capaz de cegar alguém”. Logo em seguida, ao receber diagnóstico de glaucoma, causado provavelmente por sexo com prostitutas, Bill diz ao oculista que foi de tanto olhar para o Sol.

Esse embate entre luz e trevas, verdade e mentira, é curiosamente destacado sempre que Bill tem a palavra. Negando mais uma vez o personagem histórico, aqui o protagonista chega a afetar uma irônica humildade, ao corrigir um relato exagerado de um amigo (“não matei 7, foram só 5”) e ao se dizer desinteressado da fama. Perto do final do filme, um coadjuvante descreve fielmente uma cena que vimos no início, mas Bill insiste em dizer que as coisas não aconteceram daquela forma.

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Entre omissões, como uma famosa luta corporal com um urso, que o deixou de cama por meses (ficou para Leonardo DiCaprio, num filme recente), e sua participação na Guerra Civil, durante a qual teria sido espião em território inimigo (talvez inspirando Buster Keaton em A GENERAL), e distrações, como a Calamity Jane de Ellen Barkin, reduzida a uma paixão rejeitada, e seu obcecado inimigo Jack McCall (David Arquette), este filme um tanto caótico é resumido pela narração de Charley (John Hurt), o melhor amigo do protagonista: a vida de Will Bill foi um teatro e o protagonista, um prisioneiro de seu papel.

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Cartaz notificando o funeral do verdadeiro “Wild Bill”

INFERNO VERMELHO (Red Heat, 1988)

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por Ronald Perrone

Não tem muito como errar com a boa e velha fórmula do “filme de parceiros policiais”. Ou como ficou mais conhecido no seu próprio idioma original, os buddy cop movies. Era pegar dois sujeitos de personalidades, classes, culturas opostas, ou seja lá o que for, e colocá-los juntos para resolver crimes enquanto batem boca e defendem visões divergentes… É claro que colocar a Whoopi Goldberg fazendo parceria com um dinossauro de látex não é lá uma boa ideia… O dinossauro merecia um parceiro melhor. Mas os exemplos positivos de buddy cop movies temos aos montes. É como pizza ou sexo, até quando é ruim é bom.

Um diretor que é sinônimo de buddy cop movies é Walter Hill, um dos responsáveis por definir as regras do sub-gênero ainda lá atrás no início de carreira, como roteirista, em HICKEY & BOGGS (72), dirigido pelo Robert Culp, ou no piloto DOG AND CAT (77), antes mesmo de realizar seu próprio exemplar nos anos 80, o clássico 48 HORAS. E tão familiar com o tema, Hill sempre encontra um jeitinho de dar uma boa variada na fórmula.

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Em INFERNO VERMELHO essa variação vem num trabalho de “choque cultural”. Tá certo que o resultado acaba sendo tão ingenuo e cartunesco quanto o de ROCKY 4, mas reflete a visão estereotipada coletiva da Rússia pelos americanos do período, além de funcionar bem como pano de fundo de um filme de ação policial que se propõe a ser uma sátira de diferenças de costumes. Mas o verdadeiro desafio de Hill não era tão simples, poderia colocar todo o projeto a perder, consistia em trocar as peças um pouco de lugar e convencer o público americano dos anos 80 a aceitar um soviético comunista como herói da história.

Uma grande sacada para resolver essa questão pode ter sido usada já na escolha do ator que faria esse herói, já que naquele período qualquer produção que Arnold Schwarzenegger se envolvesse seria quase automaticamente levada à aceitação pública. O cara era um astro, o “tough guy” do momento ao lado de Sylvester Stallone, e não seria o fato de encarnar um russo que mancharia sua imagem.

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Aliás, a gênese de INFERNO VERMELHO nasceu do desejo de Hill em dirigir Schwarzenegger, o que trazia ao mesmo tempo algumas questões que incomodavam o diretor, como o sotaque do austríaco, por exemplo, que não encaixava em nenhum personagem previamente pensado. Então, Hill veio com a ideia do sujeito ser soviético e a partir disso, com o ator em mente, é que ele, Harry Kleiner e Troy Kennedy-Martin escreveram o roteiro.

Schwarza se encaixou perfeitamente e Hill soube aproveitar a sua iconografia de modo fundamental. Basta reparar na entrada do ator em cena, na sequencia inicial na sauna russa, com a câmera passeando pelo corpo de Schwarza imponente como se estivesse estabelecendo um componente dramático-visual relacionado ao físico. Schwarza desempenha seus papéis com presença física em qualquer filme do período, na maneira como seu bíceps aparece na tela, como os músculos do pescoço se comportam no enquadramento, como as veias sobressaltam na pele somando valor estético, é o que torna INFERNO VERMELHO um filme tão físico.

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A trama de INFERNO VERMELHO a grande maioria dos fãs do gênero já conhece, mas vamos lá: Schwarza é o capitão Ivan Danko, um policial de Moscou altamente badass que vai parar em Chicago na cola de um perigoso criminoso russo (Ed O’Ross) que matou seu parceiro. Na América, após o estranhamento inicial, ele acaba ganhando a camaradagem, depois de muita resistência, de um controverso e espertinho policial de Chicago, vivido por James Belushi, que lhe ajuda a seguir os rastros do bandido. O que se desenrola a partir dessa premissa não é exatamente importante, serve apenas de base para algumas questões que interessam a Hill e, obviamente, ao público ávido por este tipo de produto, como a ação física, a sátira escrachada e o relacionamento entre as duas figuras que vamos acompanhar nessa aventura.

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À parte da investigação policial e das sequências de ação, uma das razões pela qual INFERNO VERMELHO funciona lindamente pra mim, e que eu já ressaltei, é que se assume logo de cara como uma sátira de “choque cultural” cheia de contornos cômicos que envolvem a jornada desse russo na América. É praticamente uma comédia de costumes e é difícil segurar o riso das situações que Danko, o policial russo comunista, passa na meca do capitalismo. A própria maneira como Hill trabalha a imagem para enfatizar certas coisas é muito forte aqui, como a forma que filma Moscou – clean, sóbria e contemplativa – se contrapondo a Chicago, o caos, a poluição sonora e visual, local sujo repleto de bandidos e putas. Danko liga a TV no quarto de hotel em que está instalado e rola um pornozão de boa. A reação dele é hilária: “Capitalistas“.

Em outras ocasiões já acho que o humor nem era intencional, mas não dá pra não rir com Danko, depois de encontrar um pacote de droga na perna de madeira de um sujeito, soltando um “cocainum!“. A química entre Schwarzenegger e Belushi também é um ponto forte nesse lado cômico do filme. Belushi nunca vai chegar aos pés de seu irmão, John Belushi, um ícone da comédia americana, mas até que ao seu modo conseguiu sair da sombra do irmão. Em INFERNO VERMELHO, o sujeito consegue pagar de badass ao mesmo tempo em que arranca boas risadas do público.

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Grande parte do diálogo entre Belushi e Schwarza consiste no primeiro soltando algo do tipo: “Do I look like a fucking cab to you?“, seguido por um “yes” monossilábico de Arnie… E basta para me deixar com um sorriso na cara. Já a sequência que os dois discutem sobre o fato de Danko ter um periquito de estimação é simplesmente de rachar o bico… Além de Schwarza e Belushi, o elenco merece atenção com vários nomes interessantes que surgem na tela. Ed O’Ross encarna com desenvoltura o papel do vilão russo, temos Peter Boyle como chefe de polícia, Lawrence Fishburne, Gina Gershon e uma impagável participação de Brion James.

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Outro principal motivo para qualquer fã de cinema de ação ter a obrigatoriedade de conferir INFERNO VERMELHO é justamente pelas sequências de ação. Hill foi um dos grandes nesse departamento, herdeiro direto de Sam Peckinpah, não economizava em virtuosismo ao filmar tiroteios e perseguições, mesmo que as sequências não sejam nada extravagantes. Seus tiroteios são crús, filmados com classe, mas que rendem uma boa dose de brutalidade. Os dez primeiros minutos de INFERNO VERMELHO são de arregaçar! Temos Schwarza trocando socos com russos bombados numa sauna, que prossegue num campo aberto coberto de neve e, logo em seguida, um tiroteio classudo num bar que culmina na morte do parceiro do protagonista.

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Outro destaque é o tiroteio na espelunca em que Danko está hospedado. A edição simples, o trabalho com o movimento dos corpos e espaços, a violência dos tiros – causa e efeito bem definidos, filmados com clareza – e até uma prostituta peladona enchendo um bandido de chumbo, proporcionam uma boa dose de truculência. A exceção da ausência de “espetáculo” na ação de Hill fica na sequência final, em que bandido e mocinho usam um ônibus cada um numa perseguição frenética em meio ao trânsito da cidade, dando um toque do exagero oitentista à obra, mas sem perder a elegância.

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INFERNO VERMELHO é daqueles filmes que eu posso rever e rever quantas vezes forem necessário e ainda vou estar longe de enjoar. Até a sua reflexão ingênua da dialética comunismo x capitalismo funciona bem numa trama que não tenta fazer nada de diferente em termos de estrutura dos buddy cop movies, mas tem a personalidade de seu diretor e entrega exatamente o que promete: ação de primeira qualidade, humor zoeira e ainda cria um dos personagens russos mais casca-grossa do cinema americano. Não é o melhor filme que Hill dirigiu, nem o melhor veículo que Arnold Schwarzengger estrelou, mas sem dúvida alguma é um dos produtos mais divertidos que ambos fizeram.

O LIMITE DA TRAIÇÃO (Extreme Prejudice, 1987)

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por Ronald Perrone

O western contemporâneo O LIMITE DA TRAIÇÃO é um daqueles típicos action movies brutos e exagerados que parece impossível pintar na seara do cinema de ação da atualidade, além de ser mais uma apaixonada declaração de amor ao cinema do mentor de Walter Hill, o gênial Sam Peckinpah.

Escrito pelo diretor de CONAN – O BÁRBARO, John Milius, a trama oferece o que há de melhor da mais pura truculência e testosterona em termos cinematográficos. Nick Nolte é um xerife durão do Texas, cujo melhor amigo da infância, vivido por Powers Boothe, escolheu o lado oposto da lei e se tornou o traficande de drogas número um da região, o que representa um conflito muito complexo quando ambos não abrem mão de suas intenções. Ao mesmo tempo, um grupo de mercenários formado por ex-militares “mortos” em combate, liderado por Michael Ironside, surge na região com um misterioso plano de, aparentemente, derrubar o império do tal chefão das drogas numa subtrama quase paralela.

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O personagem de Nolte é um dos policiais mais interessantes do cinema de ação oitentista, um sujeito com aquele tratamento humano característico de Walter Hill, ao mesmo tempo em que personifica o herói cinematográfico do velho oeste que não recua diante do perigo, não hesita em meter uma bala nos miolos de seu adversário, quem quer que seja…

Da mesma maneira, Boothe está excelente como vilão, completamente desagradável e vestindo sempre branco, contrastando com a poeira do deserto e fazendo alusão ao personagem de Warren Oates em TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA, de Sam Peckinpah. E para demonstrar o nível de insanidade maquiavélica do bandido (e do próprio Boothe), o sujeito surge em cena esmagando um escorpião vivo, de verdade, na mão! Vai ser macho assim na p@#$%&*!!!

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Michael Ironside, com aquele olhar demente e expressivo não fica muito atrás neste que é um de seus melhores papéis, cheio de ambiguidade. O elenco sensacional se completa com William Forsyth, Rip Torn, o fortão Tommy “Tiny” Lister, Clancy Brown e Maria Conchita Alonso (a peça central de um triângulo amoroso que bota mais lenha na fogueira na situação entre o xerife e o traficante).

Além deste all star cast formado por badasses de alto calibre, algo que merece grande destaque são as sequências de ação. É claro que se estamos falando de um filme de Walter Hill, as cenas de ação serão sempre pontos altos. Duas delas, então, merecem bastante atenção. A primeira, numa espécie de posto de gasolina abandonado no deserto, com Nolte distribuindo bala, utilizando uma caminhonete como escudo, enquanto um grupo de meliantes pratica tiro ao alvo em nosso protagonista. Filmado e editado com a elegância e precisão de quem realmente sabe filmar tiroteios. A outra é o gran finale, que estabelece uma fascinante ligação com o tiroteio derradeiro de MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA, uma frenética e violenta sequência, com direito à muito sangue espirrando em slow motion, que deixaria Peckinpah orgulhoso.

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O belo título, EXTREME PREJUDICE, foi retirado de uma linha do roteiro que, primeiramente, apareceria em APOCALYPSE NOW, de Francis Ford Coppola, também escrito por Milius. Como a frase não foi utilizada, o roteirista acabou colocando no script deste aqui e aproveitou para intitular esse filmaço. No Brasil, atende pelo título de O LIMITE DA TRAIÇÃO e até onde eu sei, ainda não foi lançado em DVD por aqui.

48 HORAS (48 Hrs., 1982)

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por Gabriel Lisboa

Acho que é esperado pelo próprio autor de Como a Geração Sexo, Drogas e Rock n’ Roll Salvou Hollywood, Peter Biskind, que o leitor termine seu livro sobre a Nova Hollywood e os grandes diretores do início dos anos 70 bem chateado. Afinal, nunca tanta liberdade, criatividade e qualidade iria se repetir na história do cinema depois que STAR WARS criou a febre dos blockbusters, merchandising e filmes de orçamentos gigantescos. O filme adulto morreu com o Coronel Kurtz. Mas é fácil ser pessimista. O difícil é se reinventar a partir de um novo cenário e muitos diretores sofreram com isso. Não foi o caso de Walter Hill. Ele forma junto com John Carpenter, Joe Dante e Brian De Palma, um grupo de diretores dos anos 80 que conseguiu unir um cinema popular, de gênero, com uma pegada autoral e criativa, passando por vários gêneros.

Mesmo não tão bem-sucedidos em alguns casos ou sem grandes prêmios no currículo, são os filmes desses caras que eu tenho mais vontade de rever num fim de semana, apresentar para meus amigos ou para namorada numa sexta à noite. Lynch deprime e Cronnenberg vira o estômago. Mas não tem quem não se espante com os primeiros 20 minutos de STREETS OF FIRE, achando que descobriu o melhor filme de synth-rockabilly-retrô-badass de todos os tempos (infelizmente isso passa…). Então acho mais que justo que Walter Hill seja redescoberto por uma geração que, como eu, não viveu os anos 80.

O filme que tenho a oportunidade de analisar estreando minha participação aqui no O Dia da Fúria é o buddy-cop movie 48 HORAS, com Nick Nolte e Eddie Murphy estreando no cinema. Ele já era um grande nome do stand-up, era membro do elenco do Saturday Night Live e faria parte de grandes comédias nos 80, principalmente aqueles dirigidos pelo John Landis. Ou seja, houve um tempo em que Eddie Murhpy não era só engraçado mas era o cara mais engraçado no planeta. O que Murphy trouxe dos palcos para a tela e que Richard Pryor, por exemplo, não conseguiu (o melhor papel que ele ganhou na vida foi no amargo BLUE COLLAR…) foi o perfeito equilíbrio entre caricatura e realismo presente na melodia das gírias, tiradas e palavrões disparados as centenas numa personificação do wise-guy dos guetos norte-americanos. É difícil para nós aqui no Brasil, sem a tradição de levar comediantes a sério, entender a importância de uma “escola” de comédia mas a maioria dos comediantes americanos de sucesso no cinema fizeram o mesmo caminho que Murphy, desenvolvendo por anos personagens e uma rotina sólida de material próprio, além da rapidez da improvisação e interação com a plateia.

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É evidente a intenção de Hill em usar esses atributos de Murphy como contraponto para o policial truculento vivido por Nolte, o problema é que em 48 HORAS não há uma punch-line desconstruindo cada ofensa que saí da boca dos dois. Walter Hill não perdoa. Por mais que seja inegável a importância dele para toda uma corrente de filmes de duplas destoantes, 48 HORAS não é um filme agradável. É agridoce, áspero. Eu sei que hoje vivemos nessa dicotomia da polícia do vocabulário e do escárnio preconceituoso, mas eu acho que é possível ver algum filme datado nesse aspecto, entender e se divertir com alguns absurdos, a menos que o filme deixe escapar muitas notas erradas (tentando traduzir o termo wrong notes). Eu consigo me divertir com o personagem de Nolte soltando impropérios dos mais absurdos porque ele está representando uma caricatura de machão, mas quando ele segura o pescoço de Murphy enquanto os dois saem da prisão, você sente um pouco essa nota desafinada, subindo demais o tom. Ou quando é Nolte que dá o último soco em Murphy depois que ele incita uma briga num beco sujo (Carpenter elevaria essa ideia à perfeição em THEY LIVE). Ou ainda quando Murphy fala a toda hora que precisa urgentemente f*der uma b*ceta, inclusive para uma moça que acabou de conhecer. Enfim, não é que eu seja muito sensível (vi recentemente THE BAD NEWS BEAR e amei ver crianças fumando) mas quem está familiarizado com MÁQUINA MORTÍFERA e TANGO & CASH pode estranhar.

Talvez por esse motivo o buddy-cop movie só estouraria mesmo com o filme de Richard Donner em 1987. Foram lançados as pencas no fim dos anos 80. Shane Black, o roteirista de MÁQUINA MORTÍFERA, ainda é o grande mago do estilo sendo que o próprio revisou a fórmula algumas com THE LAST BOYSCOUT, THE LONG KISS GOODNIGHT, KISS, KISS, BANG BANG e mais recentemente com THE NICE GUYS. Grande parte do sucesso de Black vem dos diálogos e da química entre os dois protagonistas, mesmo que a coerência dos filmes não seja lá grande coisa (Bruce Willis faz a dança da chuva na frente de centenas de pessoas que acabaram de presenciar um homem sendo fatiado pelas hélices de um helicóptero). Mas houve exemplares na década anterior, como BUSTING (1974) e FREEBIE AND BEAN (1974) com essa relação mais cômica e heterogênea entre uma dupla de policiais, sendo que o próprio Hill escreveu um dos precursores do estilo, HICKEY & BOGGS, de 1972, com Bill Cosby e Robert Culp. Um contraponto para os lobos solitários como DIRTY HARRY. Falando em Clint Eastwood (sem citar já do lado do crime a dupla THUNDERBOLT & LIGHTFOOT), talvez um dos grandes precursores do estilo seja POR UNS DÓLARES A MAIS (1965) com uma dupla excêntrica caçando bandidos, porém com o detalhe que essa relação já cairia mais para o tipo mestre-aprendiz.

A sinopse de 48 HORAS, que deveria estar analisando, pode ser resumida assim: O tira linha dura, Jack Cates (Nick Nolte ) se une ao trambiqueiro falastrão Reggie Hammond (Eddie Murphy) em liberdade condicional por 48 horas para que este lhe ajude a achar um fugitivo psicopata. Eu gosto dessa simplicidade da trama que dá espaço para que o foco fique na relação dos dois protagonistas e não se perca em reviravoltas mirabolantes. O tempo curto em que a história se desenrola também favorece a dinâmica e o imediatismo dos problemas que os dois têm de resolver. Eu acho que Hill até aperfeiçoou esses elementos em INFERNO VERMELHO para fazer do filme de Schwarzenegger e Belushi algo mais divertido, com mais ação e exageros, desta vez com uma dinâmica entre policiais com pais policiais. Há uma cena em 48 HORAS em que Murphy e Nolte sentam lado a lado e tem um momento de conexão. Mas é mais uma trégua. Hill explora esse laço entre dois homens em INFERNO VERMELHO com mais sentimentalismo com Schwarzenegger e Belushi sentados num café para preencher relatórios. Walter Hill aliás adora esses elementos. Relatórios, metrôs e armários de rodoviárias. E se tem algo que Hill faz como ninguém é deixar incrível o trivial.

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Há em 48 HORAS um plano sequência seguindo Nolte enquanto ele conversa com seus colegas dentro do departamento de polícia que deve ser a melhor representação da vida em uma delegacia de cidade grande da história do cinema. Tão trabalhosa quanto deve ter sido a confusão dentro da estação de metro lotada. O filme ainda tem três sequências musicais, algo que faz parte do repertório e é uma segunda paixão de Hill. Ver Nolte dirigindo em disparada ao som de The Boys Are Back in Town do The Busboys enquanto Murphy relaxa na pista de dança é um daqueles momentos mais fazem falta no cinema atual em que cada cena tem que levar o filme adiante. É claro que depois de tanto rock n’ roll 48 HORAS apele para algumas soluções pregui… digo, mais práticas no roteiro. Basta que os dois voltem ao apartamento da namorada de um dos bandidos para finalmente cravá-los de balas. O que importa é que o confronto final em ruelas cheias de vapor e neon é sensacional. E as vezes o mais improvável seja mesmo a melhor escolha. Sendo assim, acusar Hill de esteta ao fazer filmes de polícia e bandido, coloca-o junto de Alan Parker, Tony Scott, John Woo, Enzo G. Castellari e Seijun Suzuki. O que é um baita elogio.

PS: Os antagonistas e coadjuvantes são um prato cheio aos fãs de cinema de ação dos anos 80, como Sonny Ladham, Frank Mcrae e os comparsas de Hill, Brion James, David Patrick Kelly e James Remar.

SOUTHERN COMFORT (1981)

por Ronald Perrone

SOUTHERN COMFORT é sobre um grupo da Guarda Nacional americana que realiza uns treinamentos de localização e navegação pelos pântanos da Louisiana, tentando encontrar um local específico, exercitando a utilização de mapas, etc. A maioria deles está levando o trabalho bem à sério, muito preocupados com as putas que vão comer quando terminar o exercício. Quero dizer, até mesmo as armas que levam em punho estão carregadas com festim. Em quem vão atirar? Estão em solo americano, não existe inimigo nesse treinamento…

Os problemas começam quando se dão conta de que estão completamente perdidos. Onde deveria haver tal objetivo, só tem água e mais água… Decidem então pegar “emprestado” algumas canoas que encontram num acampamento aparentemente abandonado à beira do rio, com alguns animais esfolados no local e tal… Mas deixam um bilhete pra quem quer que fosse. Depois de alguns minutos navegando, o pelotão descobre que está sendo observado à distância por um grupo de cajuns*, os possíveis donos das canoas. Eles gritam para que leiam o bilhete, mas os caipiras não se mexem. Um dos soldados então, decide ser o engraçadinho da turma e começa a atirar na direção dos sujeitos com uma metralhadora cheia de festim. Rá! Muito engraçado mesmo.

* Os Cajuns são os decendentes dos Acadianos, expulsos do Canadá, que se instalaram na Louisiana. [/Wikipédia mode off]

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Só que os cajuns respondem ao fogo, e a munição deles é bem real, para azar dos pobres militares. A primeira bala já acerta a testa do lider do pelotão (Peter Coyote) e, bom, vocês já podem começar a imaginar o que teremos aqui.

Walter Hill é um dos canônes em orquestrar sequências de ação, colocou Charles Bronson pra brigar em gaiolas em seu primeiro filme, realizou uma das obras mais representativas dos anos 70 com THE WARRIORS, fez algumas das perseguições de carros mais impressionantes que eu já vi em THE DRIVER, imitou Sam Peckinpah num western, enfim é um dos grandes mestres do cinema de ação americano e… agora é o diretor de um dos melhores filmes de caipiras psicopatas que existe!

Na época, era clara a intenção de Hill em fazer referência à guerra do Vietnam, mas o filme se manteve atual e até há poucos anos era difícil ver SOUTHERN COMFORT sem pensar no Iraque e outros países do Oriente Médio. Mantém sua análise, só muda o local. Quero dizer, temos aqui um pelotão americano, alguns deles agindo como autênticos imbecis, numa região na qual não entendem porcaria nenhuma de seus habitantes, sua cultura, não falam nem sua língua. Chega sem permissão, se achando os fodões, mas descobre rapidinho que a coisa não é bem assim. O adversário conhece o território, monta armadilhas, sabe onde se esconder e como monitorá-los…

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É o simbolo perfeito para o fracasso inevitável nesse tipo de negócio que o governo americano insiste em fazer de vez em quando ao longo de sua história.  E não importa se estão apenas “pegando emprestado uma canoa”… Com toda essa substância, fica difícil não preferir SOUTHERN COMFORT em relação a outros filmes do gênero “caipiras assassinos“, como DELIVERANCE, de John Boorman, por exemplo, que é mais aclamado (e não tiro os méritos).

Mesmo suprimindo a análise política, sobra ainda um puta thriller de caçada humana (o final, na vila dos cajuns, é de ficar com o coração na boca, a contrução da tensão é absurda), o qual destaca-se desde o roteiro, escrito à seis mãos pelo próprio Walter Hill, Michael Kane e David Giler, a utilização dos cenários naturais dos pântanos da Louisiana, passando pela direção habitualmente magistral de Hill e, principalmente, o elenco com feras do calibre de Powers Boothe, Keith Carradine, Fred Ward, Peter Coyote e especialmente um Brion James tão assustador quanto os piores monstros e psicopatas dos slashers oitentistas.

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CAVALGADA DOS PROSCRITOS (The Long Riders, 1980)

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por Ronald Perrone

Walter Hill visita o faroeste pela primeira vez. Já o tinha feito antes, ao menos em essência, em THE DRIVER e THE WARRIORS, mas é em THE LONG RIDERS que toda a “imagem” do western entra em cena na filmografia do homem. O filme é bastante conhecido pelo elenco peculiar, no qual irmãos na vida real fazem papéis de irmãos na ficção. Ficção em partes, porque o filme é sobre pessoas que realmente existiram e de certo modo deixaram suas marcas na história americana.

Portanto, temos os irmãos Keach, James e Stacy, fazendo os famosos fora-da-lei, Jesse e Frank James, e o resto do bando segue com a mesma lógica: os Carradine (David, Keith e Robert) como os Youngers; os Quaid (Dennis e Randy) como os Millers, e até os irmãos Christopher Guest e Nicholas Guest aparecem como os Fords, cujo caçula, Robert Ford, ficou notoriamente conhecido por matar Jesse James com um tiro pelas costas, tema que já virou filme algumas vezes, como na estreia de Sam Fuller, EU MATEI JESSE JAMES (1949), e mais recentemente com o belo A MORTE DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD (2007).

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Mas não é essa a história que Hill quer contar em THE LONG RIDERS. O filme é estruturado em vários recortes da vida pessoal e criminal do famigerado bando, que causava o terror assaltando bancos de pequenas cidades, trens e assassinando a sangue frio qualquer agente da Pinkerton que estivesse em seus encalços. O foco é na aliança entre essas famílias, irmãos que lutaram por seu país e que durante o pós-Guerra Civil já não conseguiam se encaixar socialmente… Um tema que era até bem pertinente em 1980, quando os Estados Unidos ainda vivia a ressaca de uma guerra.

O jeito era roubar, era viver à margem em seus próprios mundos, apesar de muitos deles tentarem uma vida normal. Um dos momentos mais intimistas acontece justamente quando o grupo se reúne, com outros habitantes locais, para festejar o casamento de Jesse James. A sequência lembra um bocado o tratamento que um Michael Cimino dava às festas e celebrações, mas sem o mesmo cuidado nos detalhes. Sim, o filme possui certa sensibilidade, todos os personagens tem tempo de tela suficientes para não serem meros bonecos, mas Hill é um diretor mais físico e é por isso que certa delicadeza lhe falta, mas que acaba compensada pelo olhar poético em outros tópicos. É impossível, por exemplo, ficar sem falar da ação de THE LONG RIDERS.

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Principalmente pelo fato de tais sequências serem idênticas ao que o velho Sam Peckinpah fazia em suas obras a partir de MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA. Reprodução perfeita e, óbvio, consciente que serve, dentre tantas coisas, homenagear o grande Bloody Sam, que foi uma espécie de mentor para Hill. Um dos primeiros roteiros de Hill inclui, por acaso, OS IMPLACÁVEIS, um dos espetaculares filmes de ação de Peckinpah que já trazia um estilo definido de filmar tiroteios, perseguições, etc… Esse estilo consiste basicamente na estilização da ação, na maneira como as imagens interagem entre si numa decupagem entrecortada e com uso de slow motion, fazendo corpos em quedas e sangue espirrando elementos de alta carga dramática.

Hill o imita à perfeição em THE LONG RIDERS. A sequência do último golpe do bando, o desastroso assalto em Northfield, é um bom estudo de caso: a saraivada de balas, violentas feridas que se abrem em câmera lenta, uma fuga frenética à cavalos com imagens que beiram à poesia, como a dos cavalos atravessando a vidraça em slow motion. Talvez nem o próprio Peckinpah tivesse atingido um resultado tão forte. Vale lembrar que Hill não foi o primeiro a emular o estilo Peckinpah de filmar ação. CAÇADA SÁDICA (71), de Don Medford, e OS ÚLTIMOS MACHÕES (76), de Andrew V. McLaglen, estão aí pra isso. O caso mais interessantem no entanto, é do italiano Enzo G. Castellari, que seguia à risca a maneira como Peckinpah filmava tiroteios.

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O curioso é que em contraste das deflagradoras sequências de ação, em momento algum Hill procura engrandecer as lendas de seus personagens e os desmistifica pela representação de homens de família cheio de princípios morais, sem grandes feitos exagerados. O próprio mito de Jesse James é deixado lado e o sujeito é retratado como um ser caseiro e frágil… Diferente do que o diretor faria posteriormente em WILD BILL (95). Essa desmistificação deve ter muito a ver com o estado de espírito e o contexto da época, a tal ressaca do Vietnã, algo que Hill ainda daria prosseguimento em seu filme seguinte, o alegórico SOUTHERN CONFORT (81), que é assunto para um próximo post

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THE WARRIORS – OS SELVAGENS DA NOITE (1979)

por Ronald Perrone, a partir de um post escrito originalmente no blog Dementia 13 em abril de 2012.

Nem sempre foi tão fácil assistir a THE WARRIORS. Nunca chegou a ser uma raridade, ou nada disso, especialmente aqui no Brasil foi bastante reprisado na TV e o acesso a ele nunca gerou algum tipo de complicação. Mas na época do lançamento, o filme conseguiu fama de polêmico após confusões e quebra-quebra em alguns cinemas onde o era projetado. Em alguns países, como a Suécia, por exemplo, chegou a ser proibido. Mas, vejam bem, THE WARRIORS faz um retrato perfeito sobre a onda devastadora das gangues nos anos 70, baseado no livro de Sol Yurick, lançado ainda na década de 60, tem um cartaz fodão mostrando uma multidão de delinquentes com caras de poucos amigos, armados com bastões e dizeres insinuantes. Então imaginem vocês assistindo a projeção na época do lançamento, dividindo o local com uma horda de membros de gangues animados com um filme que fala sobre… eles!

Em THE WARRIORS, Walter Hill constrói sua fábula a partir de uma ideia bem simples: Os Warriors são uma gangue do sul de Manhattan que comparecem ao Bronx para participar de uma reunião com quase todas as gangues de Nova York cujo objetivo é enjambrar uma união entre as tribos e dominar a cidade. “You’re standing right now with nine delegates from 100 gangs. And there’s over a hundred more. That’s 20,000 hardcore members. Forty-thousand, counting affiliates, and twenty-thousand more, not organized, but ready to fight: 60,000 soldiers! Now, there ain’t but 20,000 police in the whole town. Can you dig it?” São as palavras de Cyrus, o líder da mais poderosa gangue da cidade e o cabeça da “rebelião”.

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No entanto, Cyrus é assassinado à tiros enquanto ainda fazia o seu discurso no palanque. A culpa cai, injustamente, sobre os pobres Warriors. O resto do filme é a odisseia do grupo de volta ao seu território, tentando cruzar uma Nova York sombria e cheia de contratempos, esgueirando-se pelos becos e metrôs, correndo pelas ruas driblando policiais e trocando sopapos com os mais diversos membros de gangues. E Hill não gasta muito tempo com discursos morais, mensagens políticas ou temas complexos. É claro que o filme é um reflexo do seu tempo, com todas as questões morais que esse retrato evoca, mas THE WARRIORS também se conforma por ser apenas uma aventurazinha superficial, o que é mais que suficiente para que um diretor do calibre de Walter Hill transforme isso aqui num pequeno clássico!

Não é, exatamente, um filme de ação. Na verdade, é até bem anticlimax… A sequência final, na praia, por exemplo, pode ser frustrante para o espectador mais urgente. O fato é que, apesar de Walter Hill ter um gosto especial por sequências de ação, ter se especializado nesse tipo de cena, ele não faz cinema para “brincar esmagar de esmagar bonequinhos”. A violência e a morte tem um peso nos filmes de Hill e a ação nunca é vulgar. Em THE WARRIORS isso fica ainda mais evidente, toda a narrativa possui uma carga de tensão muito forte que já compensa a ação, que acaba se concentrando no olhar dos personagens, nos seus atos, no mais simples diálogo… tudo se torna “ação” no contexto dramático construído em THE WARRIORS. É evidente que temos algumas belas sequências de pancadaria, não poderia faltar… A cena no banheiro é uma delas, além de ser uma prova da maestria de Walter Hill, uma aula de montagem e cinema físico.

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Também é curiosa a caracterização das mais variadas gangues. Cada uma possui seu estilo próprio, seu vestuário, sua essência. É tudo tão bem definido nesse universo que algumas tribos urbanas poderiam ganhar filmes próprios! Eu seria o primeiro da fila para conferir um exemplar estrelado pelos The Baseball Furies, por exemplo…

Obviamente, Na vida real seriam ridicularizados. Ser atormentado numa ruela escura à noite por umas figuras de carinha pintada? Certamente eu iria perder a carteira, mas não ia conseguir ficar sem tirar um sarro. Se bem que eu correria sério risco de levar uma paulada na nuca. Mas aqui é apenas um filme… Mesmo assim, é engraçado ver estampado uma seriedade absurda na cara dos persoangens enquanto vestem modelitos esquisitos.

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Os Warriors inicialmente seriam formado apenas por negros, mas os produtores não aceitaram. Daí colocaram algumas figuras, como Michael Beck e James Remar… Em termos visuais, até que os Warriors são bem discretos, o uniforme é apenas um colete básico. E vale comentar que na sequêcia da reunião logo no início, várias gangues reais estavam presentes, vestidos à carater com seus uniformes, o que gerou até uma certa tensão a mais nas filmagens.

Aliás, não vou nem entrar nos méritos das filmagens, que mereceria um post à parte. É notória a série de problemas que Hill e sua equipe tiveram para realizar THE WARRIORS. Mas é assim que nascem os clássicos, não? O filme deu início a uma série de exemplares sobre grupos de delinquentes, cheios de mensagens sociais e morai, mas também influenciou outras obras que se assumiram como boa diversão de aventura/ação, como os clássicos italianos GUERREIROS DO BRONX e FUGA DO BRONX, ambos de Enzo G. Castellari.

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