JAILBREAKERS(1994), William Friedkin

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por Ronald Perrone

Por volta de 1994, os produtores Lou Arkoff e Debra Hill resolveram investir numa série de telefilmes nos quais vários b-movies clássicos dos anos 50 e 60, especialmente da AIP (American International Pictures), uma das maiores empresas de filmes de baixo orçamento, seriam refilmados por diretores da atualidade. REBEL HIGHWAY era o título da série e nomes como John Milius, Joe Dante, John McNoughton e Robert Rodriguez faziam parte da relação que comandaria algumas dessas pequenas produções de curto orçamento e pouca duração (a projeção não chegava a 80 minutos).

William Friedkin ficou responsável por JAILBREAKERS, que apesar de inspirado em THE JAILBREAKERS (1960), de Alexander Grasshoff, não chega a ser uma refilmagem. A trama se passa numa pequena cidade americana nos anos 1950, quando Angel, uma cheerleader do ginásio, conhece Tony Falcon, o líder de uma gangue de motoqueiros. O romance esquenta ao ponto do rapaz cometer uma série de furtos noite adentro e a moça consentir com esse novo tipo de vida. O sujeito acaba preso, ela conhece outro rapaz mais “certinho”. Tony foge da cadeia e, mesmo prestes a ficar noiva, Angel decide fugir com seu verdadeiro amor para o México, onde mais uma série de crimes coloca em risco a relação dos pombinhos, ao mesmo tempo que em que a polícia aperta o cerco pra cima de Tony.

Apesar de não ser lá um filme muito expressivo na filmografia de Friedkin, JAILBREAKERS mantém a ideia básica do projeto em questão, que é ser apenas um exemplar divertido, revivendo o ciclo de filmes drive inn. No elenco, destacam-se Shannen Doherty, como a ninfetinha Angel, Antonio Sabato Jr, fazendo pose de motoqueiro badass como Tony Falcon, e um jovem Adrien Brody em início de carreira como membro da gangue de motoqueiros.

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12 HOMENS E UMA SENTENÇA (12 Angry Men, 1997), William Friedkin

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por Marcelo Miranda

Por que eu não estava fazendo filmes como aquele?“, questionava-se William Friedkin em meados dos anos 1990, ao rever 12 HOMENS E UMA SENTENÇA (12 Angry Men, 1957), estreia de Sidney Lumet na direção. Friedkin vinha de uma série de fracassos, o último deles o suspense policial JADE (1995). Numa autobiografia, o diretor chega a cogitar que talvez estivesse sofrendo da tão falada “maldição” que acometeu quase toda a equipe de O EXORCISTA (1973), maior sucesso de sua carreira. Eram os tempos do julgamento de O.J. Simpson e, intrigado pela repercussão do caso, Friedkin retornou ao clássico de Lumet sobre um júri responsável por decidir se um garoto de 18 anos deve ou não ser condenado à morte pela acusação de ter matado o pai a facadas. O cineasta decidiu que seria uma boa ideia atualizar o roteiro de Reginald Rose e criar uma nova versão da mesma história. Friedkin levou o projeto ao canal Showtime, que bancou a produção, orçada em apenas US$ 1,75 milhão.

Friedkin fez de seu 12 HOMENS E UMA SENTENÇA algo tão ou mais potente que a versão de Lumet. A experiência a seu favor contava muito, é claro. Enquanto Lumet, aos 33 anos, dirigia seu primeiro filme para cinema em 1957, Friedkin, ao pegar o mesmo projeto quatro décadas depois, já era um veterano de 62 anos e pelo menos 15 longas no currículo. Mesmo assim, o que se vê é de um frescor impressionante, como se o diretor colocasse à prova toda sua experiência sem clamá-la para si. Por mais que haja movimentos de câmera cuidadosamente modulados e imensa atenção ao ritmo e à montagem (o que dá ao filme uma fluidez como pouco se vê ainda hoje no cinema comercial), Friedkin se abre à plena generosidade de deixar elenco e texto brilharem talvez mais do que sua mão de cineasta (o que, claro, é uma ilusão, já que a harmonia dependia de seu comando, tanto nos oito dias de ensaio quando nos doze de filmagem).

O diretor se cercou de um time invejável de atores (“o melhor elenco com o qual eu tinha trabalhado até então”, escreve ele na autobiografia), que incluía um trio de nomes lendários (Jack Lemmon, George C. Scott e Armin Mueller-Stahl), alguns convocados reconhecidos da TV (James Gandolfini, Tony Danza) e um antigo parceiro (William Petersen, de VIVER E MORRER EM LA, feito em 1985), entre outros. O maior acréscimo em relação à adaptação de Lumet foi a atualização do roteiro de Rose (trabalho auxiliado pelo próprio, aliás) em questões relativas a choques raciais e étnicos nas discussões dos doze personagens. Aqui há quatro atores negros e um imigrante do Leste Europeu, e a presença deles é suficiente para instalar um novo tipo de tensão, mesmo quando não anunciada diretamente, porém presente em olhares, gestos ou expressões. Em determinados momentos, o choque explode em agressões verbais, mas o que se destaca, realmente, é o quanto a luta de forças existe desde o instante inicial em que todos adentram a sala.

O embate não é apenas sobre um garoto de 18 anos ser ou não culpado pelo assassinato do pai, mas a guerra íntima destes 12 homens em torno de crenças e moral numa América falida de valores. O espectador nunca chega a conhecer totalmente os personagens (nem sequer os nomes, exceto no final, quando dois deles se apresentam); as personalidades são delineadas ali, dentro da sala do júri, num espaço e tempo delimitados, nos quais cada pessoa colocará para fora o que lhe move naquela situação-limite. Deve-se imaginar que se tratam de pessoas num ponto muito específico de suas vidas. O filme mantém a característica original do texto de fazer com que aqueles homens existam, de fato, apenas dentro do filme, sem olhar para fora nem julgá-los para além do que efetivamente é mostrado e ouvido.

A câmera de Friedkin busca dar conta de enquadrar corpos e espaço enquanto toda a ação (intensa) acontece. Trabalho árduo dentro de uma sala pequena composta por mesa, cadeiras, janelas e um ar condicionado enguiçado (o calor é elemento essencial no filme). Alguns momentos são notáveis no manejo da narrativa e fazem com que o público se sinta “dentro” da sala mais do que na versão de Lumet.

Usemos de exemplo o momento em que o jurado 8 (Henry Fonda antes, Jack Lemmon agora) é o único a levantar a mão para votar em “inocente”. Em Lumet, há um plano único, aberto, enquadrando todos os homens na mesa, com Fonda visto de costas. O coordenador do júri pede aos que creem em “culpado” que ergam a mão, no que 11 o fazem. Em seguida, pede-se que os votantes em “inocente” se apresentem, e Fonda levanta o braço. Corta-se, então, para um contraplano de 180º, mostrando agora Fonda de frente, ao fundo do quadro.

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Plano “culpado”…

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… e contraplano “inocente”

Na versão de Friedkin, os mesmos fatos acontecem, porém o diretor opta por fazer tudo num plano só. A câmera, atrás de Jack Lemmon, começa a se movimentar em panorâmica lateral logo que os votantes levantam o braço para “culpado” e atravessa a mesa mostrando um a um, até se colocar atrás do coordenador do júri no exato instante em que Lemmon levanta a mão para votar sozinho em “inocente”. O giro também é de 180º, porém existe uma “caminhada” que faz todos aqueles personagens habitarem um mesmo espaço exíguo e, de alguma maneira, iguala-os dentro de um mesmo desafio (que será, afinal, o mote do filme).

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O impacto estético dessa movimentação de câmera é a chave para o tipo de objetividade e elegância “invisível” que Friedkin tenta capturar ao longo de todo o filme. Escolhas como essa pautam cada momento, fazendo do espectador uma espécie de 13º personagem dentro da sala.

12 HOMENS E UMA SENTENÇA fez razoável sucesso quando exibido na TV e virou campeão de reprises (qual assinante de Telecine nunca se deparou com alguma chamada do filme?). Não foi suficiente, porém, para resgatar a carreira de Friedkin de um limbo do qual ela parecia não querer sair. O trabalho lhe deu “respeito e autoconfiança”, segundo suas palavras, mas ainda não era o que ele buscava. Uma nova fase só se iniciaria a partir da relação de Friedkin com a ópera (ele dirigiu várias desde então).

Ao cinema, Friedkin voltou em 2000, no controverso REGRAS DO JOGO, novamente em torno de um julgamento – desta vez num tribunal militar e sem limitação de espaço. 12 HOMENS E UMA SENTENÇA permanece como um filme querido em sua carreira, ao qual sempre se pode retornar com segurança e convicção de se tomar contato com alguns dos momentos mais inspirados de um realizador de potência única.

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REGRAS DO JOGO (Rules of Engagement, 2000), William Friedkin

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por Ronald Perrone

William Friedkin nunca fugiu de uma boa polêmica nos projetos que dirigiu e não faltam exemplos em sua carreira de filmes que dividiram opiniões com temas incomuns, ideologias dúbias, personagens controversos, como CRUISING, RAMPAGE, VIVER E MORRER EM LA, OS RAPAZES DA BANDA, só para citar alguns. Mas se tem um filme em que o diretor realmente procurou “sarna para se coçar” foi REGRAS DO JOGO, um conto que levanta algumas questões morais tendo como base o militarismo americano e a ideia do que significa o uso da violência numa situação militar.

O filme começa na guerra do Vietnã, quando uma unidade americana, liderada pelo tenente Hays Hodgers (Tommy Lee Jones), fica encurralada por soldados inimigos. A situação só melhora quando o tenente Terry Childers (Samuel L. Jackson), em outro local, consegue capturar um comandante vietcong, forçando a retirada da tropa em cima de Hodgers e seus soldados, salvando-lhes a vida.

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Trinta anos mais tarde, Childers, agora coronel, comanda uma operação de resgate do embaixador americano no Yemen, interpretado por Ben Kingsley, durante um protesto nos arredores da embaixada. A coisa esquenta quando alguns soldados americanos são mortos por atiradores posicionados nos edifícios próximos à embaixada e Childers ordena que seu pelotão abra fogo contra a multidão nas ruas, supostamente composta por civis, incluindo mulheres e crianças, armadas com paus e pedras.

Mas a dúvida que REGRAS DO JOGO coloca na roda durante o seu desenrolar é se Childers realmente ordenou a execução de inocentes ou se a multidão possuía armas e atirou primeiro, colocando a vida dos americanos em risco. Sem deixar de analisar, também, todas as complicações que envolvem códigos éticos e morais decorrente dessa complexa tomada de decisão. Childers acaba acusado de assassinato, vai à corte marcial e pede para que seu velho amigo Hodgers, agora um advogado militar, lhe defenda no julgamento.

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O povo americano adora esse tipo de história, que de forma superficial eleva o espírito militarista do país, o que me lembra AMERICAN SNIPER, filme recente que vem tendo reações similares. Assim como o filme de Clint Eastwood, REGRAS DO JOGO foi muito bem nas bilheterias. A crítica é que não foi muito receptiva, especialmente na Europa, onde os filmes de Friedkin sempre tiveram uma aceitação melhor do que em seu país.

Na minha opinião, há realmente uma ideologia a ser questionada e pensada com cuidado, mas acho louvável que Friedkin confronte o espectador dessa maneira, forçando-o a refletir sobre questões que, embora sejam polêmicas, até hoje permanecem atuais sobre a política invasora dos Estados Unidos. Não vejo, no entanto, como uma crítica ao governo americano, muito menos um filme racista, como muitos comitês árabes acusaram na época, mas um olhar sobre uma situação que reflete muita coisa complexa a ser discutida.

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Além disso, é um filme muito forte cinematograficamente. É impossível não se impressionar com Samuel L. Jackson gritando “Waste the motherfuckers!!!” enquanto mulheres e crianças são executadas à sangue frio. De acordo com o próprio Friedkin, a sequência do tiroteio na embaixada americana no Yemen foi a mais difícil que realizou em toda sua carreira. O resultado é brutal, tenso, realmente espetacular. No mais, as investigações de Hodgers sobre o que realmente aconteceu ao se preparar para o julgamento, e que tomam conta de grande parte da narrativa, transformam REGRAS DO JOGO num thriller bem interessante também.

Jones e Jackson dão um espetáculo à parte. Friedkin conta que o máximo que precisava fazer ao dirigi-los era mostrar suas posições em cena, o resto era o talento dos caras em encarnar seus personagens. Além da dupla e do já citado Ben Kingsley, o restante do elenco é formado por bons nomes, do calibre de Guy Pearce, Anne Archer, Philip Baker Hall e Amidou, que trabalhou com Friedkin em SORCERER.

REGRAS DO JOGO consegue um grande feito equilibrando uma trama que possui boa carga de tensão, entretenimento, com uma dose generosa de elementos para a reflexão. E mesmo aquele espectador que não vai concordar muito com as conclusões que tirar ao final, é impossível ficar indiferente à força do cinema de Friedkin e sua ousadia em confrontar o público com temas controversos e subversivos.

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